Fábrica de indolentes e caprichosos

            Uma escola não identificada teria recentemente enviado um recado para os pais ou responsáveis de seus alunos junto com o boletim de notas. A tal mensagem enviada foi exposta na internet e, como se diz na linguagem cibernética, “viralizou”!

Em pouco espaço de tempo o singelo bilhete já contava com quase doze mil e quinhentas curtidas e manifestações de apoio.

Transcreve-se o texto:

“As fichas de avaliação dos seus filhos estão aí e eu sei que estão ansiosos por saber se eles se saíram bem. Mas, por favor, lembrem-se que entre os estudantes desta sala há um artista que não precisa entender nem de matemática. Há um empreendedor que não se importa nem um pouco com história ou literatura. Há um músico cujas notas de matemática não importam. Há um atleta, cuja condição corporal é mais importante que a matéria de Estudo do Meio.

Se seu filho(a) tiver obtido as melhores notas, isso será incrível! Mas se ele ou ela não tiver conseguido, por favor, não tirem deles a confiança e dignidade! A vida está feita de coisas muito maiores. Não importa a pontuação. Ame-os e não os julgue.

Façam isso e vejam os seus filhos conquistarem o mundo. Uma prova ou uma nota baixa não tirará deles o seu talento. E, por favor, não pensem que os doutores e engenheiros são as únicas pessoas felizes no mundo”. [1]

            É realmente uma obviedade o fato de que as pessoas não precisam ser vitoriosas ou alcançar os máximos resultados em absolutamente tudo o que fazem na vida e que existem diferentes talentos e vocações. Também é notório que ninguém deve receber um tratamento desumano e rude dos pais ou responsáveis ao ponto de destruir sua autoconfiança e dignidade.  Não há que discutir essas afirmações. Entretanto, como já dito, não passam de platitudes, verdades notórias em meio a um ovo de serpente destrutivo que compõe o tão louvado texto.

Não é minimamente admissível que se oriente pais e responsáveis à leniência e condescendência diante de filhos cuja atividade é exclusivamente a de estudar para sua própria formação. Ora, se não fazem esforços consideráveis nessa única tarefa que lhes cabe nessa fase de suas vidas e isso é encarado com naturalidade e afagos, ao invés da chamada à responsabilidade, o que se está construindo é uma geração de fracos, incapazes, impotentes diante de dificuldades, birrentos, mimados, sem resistência à frustração ou sequer percepção de que estão errados, de que fracassaram. É claro que se pode compreender dificuldades, mas jamais concordar com a simples desistência caprichosa. Há um obstáculo e este deve ser superado. Alguns o superarão com mais facilidade, outros com mais esforço, talvez seja necessária alguma ajuda ou apoio externo. Mas, derrotados e inúteis serão aqueles que ficarem prostrados diante do obstáculo, recebendo afagos de alguém, sejam pais, responsáveis ou supostos pedagogos. E mais, e pior, serão calhordas todos aqueles que tentarem não superar os obstáculos, mas contorná-los por meios indignos, novamente recebendo a condescendência de quem os devia chamar à responsabilidade.

Encontra-se na “orientação” (ou seria “desorientação”) pedagógica contida no nefasto recado o caldo de cultura onde se cultiva uma “inocência” doentia, marcada por um “individualismo” consistente em pretender fugir das “consequências de seus atos”, mas sem perder o benefício de gozar da liberdade, obliterando seus “inconvenientes” e direcionando as pessoas a dois caminhos deletérios, “o infantilismo e a vitimização”. [2]

É desse estofo mole e fétido que se está pretendendo preencher as almas e mentes das novas gerações. E o maior exemplo de uma frase que parece tão “linda”, tão “fofa” (sic), como se diz hoje, é aquela contida no nefasto bilhete: “Ame-os e não os julgue” (sic). Eis a receita perfeita para a criação de vagabundos, mimados, incapazes e rebeldes sem causa ou com causas histéricas.

Como diz Dalrymple, nos deparamos com os “Podres de Mimados”, porque as orientações de uma chamada “pedagogia” condescendente ignoram as coisas mais básicas que devem ser conhecidas por professores, pais e responsáveis:

“Todo bom professor sempre soube que educar era mais do que enfiar um certo número de fatos indesejados na cabeça de uma criança; mas todo bom professor também sabe que há coisas que toda criança deve aprender, e algumas delas uma criança jamais descobriria sozinha, seja por incapacidade ou por falta de inclinação”. [3]

            Tudo isso é extremamente lamentável, como sofrível é também o conteúdo do próprio bilhete politicamente correto escrito por alguma pessoa considerada como “maravilhosa”. O conteúdo não é equivocado somente sob o ponto de vista ético – prático. É também prenhe de inculturas, de afirmações insustentáveis, como já se disse, mescladas com verdades notórias para passarem despercebidas. Afinal, as melhores e mais eficazes mentiras são aquelas que andam bem próximas, senão misturadas à verdade.

O recado enviado aos pais ou responsáveis, mediante um olhar minimante atencioso, é autofágico, porque demonstra como uma formação pervertida e marcada possivelmente pela indolência pode levar alguém a escrever os maiores absurdos com ares de profunda sabedoria.

Apenas a título de exemplo:

Em dado momento se afirma que um “empreendedor” não precisa se importar com “história ou literatura”. Em primeiro lugar, o empreendedorismo pode se manifestar de variadas formas, no campo público ou privado, por exemplo. No campo público, é absolutamente indispensável que todo aquele que pense ou pretenda atuar tenha conhecimento da história em seus vários aspectos (social, econômico, político etc.), acaso não se contente em ser algum títere ou um personagem histriônico, se não um grande fracassado. Na seara privada, o homem inculto na área do empreendimento é deveras limitado. Será que o “pedagogo” que escreveu o bilhete pretende reduzir o empreendimento dos alunos a, talvez, no máximo, um boteco pé sujo? Porque, caso contrário, como se portará um ignaro absoluto de fatos históricos, sociais, econômicos, artísticos etc., em reuniões com pessoas sofisticadas? Como as encantará, como as atrairá para suas ideias, demonstrando ser apenas um indivíduo rude, desprovido de cultura? Quanto à literatura, nem é necessária grande argumentação. Quem não lê ou não lê conteúdos de boa qualidade, atrofia sua capacidade mental em todas as áreas, reduz drasticamente seu horizonte informativo e formativo. Torna-se um cego em vários aspectos de sensibilidade úteis em muitas atividades, inclusive no empreendedorismo, seja ele público ou privado. Não tem capacidade sequer de boa expressão verbal ou escrita e de interpretação textual. Então poderá ler até mesmo livros de empreendedorismo ou voltados para a área em que atue e não os compreenderá ou os compreenderá erroneamente. A mira se faz sempre mais acima para atingir um alvo um pouco mais baixo. Se a mira é feita já para baixo, o tiro pode pegar no pé do atirador. Mas, parece que o “pedagogo”, que bem reflete o clima da atualidade, se contenta e até louva a mediocridade ou mesmo algo abaixo, muito abaixo da mediocridade.

Apenas mais um exemplo:

Também há no texto a afirmação de que um músico não precisa se importar em nada com a matemática! De que músico estaria o nosso “pedagogo” falando? Um batuqueiro de bar, cuja inspiração mais sublime seria o álcool da cachaça? Porque não há nada mais próximo, senão imbricado ou mesclado de forma constitutiva do que música e matemática. É impossível ser um verdadeiro e grandioso músico com aversão absoluta à matemática.

Para ter uma ideia da grandiosidade do absurdo e da incultura da afirmação contida no texto neste ponto, há que lembrar que, desde a Grécia Antiga, Pitágoras, que foi um dos primeiros grandes pensadores a se dedicar à música, era também um geômetra e matemático. Seu discípulo, Arquitas, definiu a música como uma “das quatro ciências matemáticas por excelência”, compondo o que foi chamado, ainda na Idade Média, de “Quadrivium”, ou seja, “aritmética, geometria, astronomia e música”.  Uma das escalas musicais conhecidas é chamada de “Escala Pitagórica”, fundamentada em “razões de números inteiros”.  Outra é a “Escala Temperada”, muito utilizada na música ocidental, a qual se funda no “conceito de progressão geométrica”. [4]

Leibniz, por seu turno, certa feita afirmou que: “A música é um exercício de aritmética secreta e aquele que a ela se consagra ignora que manipula números”. [5]

É exemplo de Du Sautoy a manifestação do compositor barroco francês Jean Phlippe (1722), nos seguintes termos:

“apesar de toda a experiência que eu possa haver adquirido pela música, por estar associado a ela por tanto tempo, devo confessar que foi somente com a ajuda da matemática que minhas ideias se tornaram claras”. [6]

O redator do malfadado bilhete demonstra não somente um despreparo medonho para se manifestar sobre, ao que parece, qualquer tema, mas tem a pretensão de que seus discípulos sigam sua desastrada senda.

Não ouve o idealizador do infeliz recado aos pais e responsáveis o eco longínquo do “Relatório de Yale de 1828”, onde se lê:

“Os hábitos de pensamento devem ser formados por dedicação prolongada, contínua e minuciosa. As jazidas da ciência precisam ser escavadas até muito abaixo da superfície para que comecem a revelar seus tesouros. Se, em muitas das artes mecânicas, o desempenho habilidoso das operações manuais requer um aprendizado de anos, com atenção diligente, tanto mais o treinamento das capacidades da mente exige um esforço vigoroso, constante e sistemático. (…).

Não se deve deixar que um edifício suntuoso repouse sobre uma única coluna”. [7]

Não obstante, o “recadinho” infame fez sucesso, como se fora um exemplo de bom senso e iluminação, vez que a mediocridade e a condição abaixo dela grassam de forma espantosa na atualidade, tornando cada vez mais correta e indiscutível a assertiva de Silveira, feita na Apresentação de sua obra magistral: “ser humano é ter potência para ser enganado e idolatrar o engano”. [8]


REFERÊNCIAS

BRUCKNER, Pascal. A Tentação da Inocência. Trad. Ana Maria Scherer. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

DALRYMPLE, Theodore [Anthony Daniels]. Podres de Mimados. Trad. Pedro Sette – Câmara. São Paulo: É Realizações, 2015.

DU SAUTOY, Marcus. A música dos números primos: a história de um problema não resolvido na matemática. Trad. Diego Alfaro.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

ESCOLA manda recado para responsáveis junto ao boletim e mensagem viraliza.   Disponível em Twiter. Quantica_e_espiritualidade. @alquimista.quantico. , acesso em 27.04.2019.

MASSIN, Jean, MASSIN, Brigitte. História da Música Ocidental. Trad. Maria Teresa Resende da Costa, Carlos Sussekind e Angela Ramalho Viana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.

PEREIRA, Marcos do Carmo. Matemática e Música – De Pitágoras aos dias de hoje. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Unirio, 2013.

SILVEIRA, Sidney. Cosmogonia da Desordem. Rio de Janeiro: Sidney Silveira, 2018.

TRESSINO, Chirley Inês Fraporti. Os Desafios da Escola Pública Paranaense na Perspectiva do Professor. Volume II. Guarapuava: Secretaria de Educação do Estado do Paraná, 2014.

YALE, Universidade de. A Educação Superior e o resgate intelectual. O Relatório de Yale de 1828. Trad. Giovanna Louise. Campinas: Vide Editorial, 2016.

[1] ESCOLA manda recado para responsáveis junto ao boletim e mensagem viraliza.   Disponível em Twiter. Quantica_e_espiritualidade. @alquimista.quantico. , acesso em 27.04.2019.

[2] BRUCKNER, Pascal. A Tentação da Inocência. Trad. Ana Maria Scherer. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 16.

[3] DALRYMPLE, Theodore [Anthony Daniels]. Podres de Mimados. Trad. Pedro Sette – Câmara. São Paulo: É Realizações, 2015, p. 30.

[4] PEREIRA, Marcos do Carmo. Matemática e Música – De Pitágoras aos dias de hoje. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Unirio, 2013, p. 6. Para maiores aprofundamentos sobre a música: MASSIN, Jean, MASSIN, Brigitte. História da Música Ocidental. Trad. Maria Teresa Resende da Costa, Carlos Sussekind e Angela Ramalho Viana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, “passim”.

[5] Apud, TRESSINO, Chirley Inês Fraporti. Os Desafios da Escola Pública Paranaense na Perspectiva do Professor. Volume II. Guarapuava: Secretaria de Educação do Estado do Paraná, 2014, p. 3.

[6] DU SAUTOY, Marcus. A música dos números primos: a história de um problema não resolvido na matemática. Trad. Diego Alfaro.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p. 71.

[7] YALE, Universidade de. A Educação Superior e o resgate intelectual. O Relatório de Yale de 1828. Trad. Giovanna Louise. Campinas: Vide Editorial, 2016, p. 37.

[8] SILVEIRA, Sidney. Cosmogonia da Desordem. Rio de Janeiro: Sidney Silveira, 2018, p. 14.


 
 

2 thoughts on “Fábrica de indolentes e caprichosos

  1. O melhor texto que vi nesse site até agora. Parabéns! Deve ser porque o autor tem estudo e não se deixa doutrinar por pseudo-filósofos.

    Entretanto, o pensamento simplório do “recado” tem um quê de verdade.

    Nosso sistema de ensino atual não é voltado para a formação do aluno, mas uma máquina de fazer provas voltada ao adestramento para o vestibular e concursos. Enquanto aprendemos “Números Complexos” e Binômio de Newton, deixamos de aprender Princípios de Economia e Matemática Financeira.

    Claro que o “recado” é simplista e errôneo, mas nosso sistema educacional também não ajuda muito.

    ; D

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