Ainda não temos uma política conservadora (parte 3): guerra cultural é a única que há

A cultura ainda é o único campo de batalha no qual a esquerda mantém alguma hegemonia. E com isso ela pode facilmente avançar para os outros campos. Isso é tão óbvio que só mesmo uma mentalidade estritamente (e estreitamente) liberal não percebe. Aliás, é dessa mentalidade liberal que vêm grande parte da agenda globalista, que pretende reduzir todos os aspectos da vida humana aos aspectos materiais, que inclui transformar toda a educação humana em profissionalizante, esvaziando a sociedade das tradições culturais que a possibilitam julgar o certo e o errado. Sobrará aos liberais do capital financeiro definir, por assembleias consensuais, o que é verdade, belo ou bom.

Interessa tanto à esquerda quanto aos globalistas a extinção dos debates culturais mais profundos da esfera pública, pois a ausência deles os garante a manutenção do seu poder sobre a linguagem e a imaginação cultural.

Portanto, enquanto a esquerda dominar o Brasil culturalmente, essa opressão esquerdista precisa ser denunciada precisamente aí e não desviada para o foco econômico ou político-partidário, o que apenas serve à própria hegemonia instalada e a reforça. É por isso que a grande mídia desdenha o que chama de “cruzada moral” de Bolsonaro, para manter as divergências culturais e morais no silêncio da efetividade do sistema montado pela esquerda e mantido pelos liberais.

A esquerda e os globalistas liberais comemoram quando um político alinhado à direita se inscreve em causas como anti-corrupção, transparência dos gastos públicos, redução do Estado e até mesmo a Reforma da Previdência. Isso afasta o campo de batalha para local seguro, mantendo protegido de qualquer dano o coração da hegemonia cultural que é a agenda comportamental comandada de cima e de fora dos países. É assim que grande parte do Partido Republicano, nos EUA, já pertence ao que se chama “neocon”, isto é, conservadores que não representam qualquer ameaça à hegemonia cultural que, em última análise, define, não o conteúdo do que realmente importa, mas os critérios de veracidade e de justiça que tradicionalmente fundaram a própria política. Com isso, viciam a política e mexem as peças do xadrez mental enquanto os jogadores pensam vencer no tabuleiro.

Além disso, o foco na cultura ou nas pautas comportamentais possui uma série de vantagens que podem ser exploradas por políticos.

O conservadorismo moral religioso tem muito mais poder comunicativo e mobilizador, já que levanta ânimos e trás à tona debates de questões que estão no âmago de todas as pessoas e por isso representam temas perenes e universais. Foi esse moral-conservadorismo, trazido por Olavo de Carvalho e Bolsonaro, que elevou liberais que estavam apenas ganhando dinheiro com a esquerda aos gabinetes do poder. Eles viram a oportunidade de lucrar com as “novidades ideológicas”. Sob esse aspecto, é conveniente para a esquerda que a única direita com permissão de debater publicamente seja a liberal econômica e a política, que está no poder e pode ser facilmente associada aos velhos inimigos da esquerda, o capital, a burguesia etc. Se a esquerda conseguir criar uma imagem de embate político entre liberalismo e social-democracia, isto é, um embate meramente econômico, logrará repetir o ambiente político daqueles começos dos anos 1990, quando a aliança estratégica entre liberais e social-democratas (PSDB e PFL) prepararam a vinda triunfante do PT sob a bandeira da união contra os poderosos consagrados no poder.

Quando falamos em guerra cultural, porém, não se trata de “política cultural” ou ações de âmbito governamental meramente. Trata-se de uma visão de todo que abrange valores bem maiores e uma visão de Estado muito além da sua diminuição. Afinal, diminuir o Estado deveria servir para dar mais poder para a sociedade e sua expressão mais profunda, aquela ancorada na sua identidade histórica e tradicional.

Uma agenda conservadora política necessita de uma ideologia política?

Política pressupõe vigências fixas, formas consagradas de transformação dos meios concretos de ação em ações concretas. Temos, no momento, apenas poucas pessoas com algum talento e ideias soltas no ar, ainda demasiadamente cruas em formas de valores familiares, religiosos e restritos ao âmbito pessoal. O que temos de valores morais é o que sobrou de outras épocas. Isso é pouco, mas é alguma coisa.

Grandes personalidades sempre originaram grandes escolas políticas e é dessas personalidades que virão os novos tempos. Olavo de Carvalho, Jair Bolsonaro, dois ingredientes que têm formado tanto um imaginário político quanto uma forma de fazer, unem o Brasil do homem comum à necessária intelectualidade para a formação de uma “ideologia conservadora”. No entanto, é preciso muito cuidado com os vícios das ideologias.

O Brasil destes tempos precisa de bem mais que mais uma ideologia. É preciso um retorno ao essencial, uma postura que é no fundo anti-ideológica, profundamente cristã e naturalmente conservadora. E não poderá ser, portanto, cristã e conservadora sem ser, como digo, profundamente e naturalmente. A ideologia, segundo o chanceler Ernesto Araújo, é um sistema de ideias fechado à realidade. Já as ideias, diz ele, é a seiva da vida, o antar natural da mente humana rumo à verdade das coisas e o profundo conhecimento de si mesmo em busca da transcendência. Nada disso é utopia, nada disso pressupõe um sistema de governo, uma política partidária ou uma “política pública”, uma estrutura de governo ou regras claras ou teorias acabadas. Isso porque a busca do destino nacional ou da transcendência pessoal não são teorias, embora muitas teorias versem sobre essa realidade concreta e presente. A base de todo conservadorismo é sobrenatural.

Mais do que uma política conservadora, é preciso uma política natural. Porque a política é naturalmente conservadora.

Uma política natural

Um conservadorismo brasileiro precisaria entender como um eterno conflito a luta interna contra o que Paulo Mercadante definiu como mentalidade conservadora brasileira: a política da conciliação. Essa tendência natural do brasileiro precisa ser confrontada com a frase de Olavo de Carvalho que diz: “moderação na defesa da verdade é serviço prestado à mentira”. Tudo isso, porém, sem cair em um rigorismo superficial e moralista que apenas repete anseios calvinistas de tendência puritana aplicada à política. Uma solução para este dilema pode estar na própria definição do que é a política de maneira mais natural e fundamental.

Podemos definir política como a criação e manutenção de instituições humanas artificiais com a função de limitação e disciplinação das ações dos homens no poder. Isso porque o homem é passível de desconfiança sempre, apesar de optar invariavelmente pela confiança no âmbito individual. Diferente da Europa e EUA, o Brasil é uma sociedade baseada na desconfiança. Fórmulas acabadas de política conservadora, extraídas de realidades profundamente diferentes tenderão ao fracasso ou ao artificialismo.

Em sentido geral, o conservador é desconfiado e pessimista em relação à política e à humanidade, mas confiável e confiante no âmbito pessoal e específico das relações. Digamos que o conservador seria o homem esperançoso, porém prudente.

Tal como a própria complexidade do real, o conservadorismo não pode ser agarrado como um punhado de ideias tangíveis, mas sentido e vivido. Poderíamos dizer que não existe, portanto, uma política conservadora, porque a política em si é conservadora diante dos valores éticos e morais que fundam a sociedade humana. Esses valores são a suspeita diante de novidades políticas, mas a confiança e a boa fé no âmbito pessoal e individual. Toda política progressista, quando confia cegamente no homem e nos seus sonhos mais utópicos será, ela mesma, uma antipolítica.

Anti-revolução

Toda a guera que importa, portanto, é cultural porque precisa resgatar os fundamentos mais profundos da política, que são os fins universais do homem. Mas, ao contrário do que tende nossa mente, não cabe à política promover o bem, mas evitar o mal. O bem é sempre visto de maneira limitada pelo homem, que o confundirá invariavelmente com bens menores ou particulares, em um processo de relativização que é mais ou menos natural. Os sistemas que propuseram um bem maior e mais abrangente à sociedade sempre levaram à tirania do bem individual do tirano ou de seu clube de iluminados, que acreditam-se detentores do conhecimento sobre o bem.

Tudo isso porque o conservador acredita que toda a bondade humanamente possível provém de um Bem Supremo, donde provém toda a liberdade humana capaz de fazer o bem em escala individual. Esse Bem supremo não é genérico, nem é um princípio abstrato criado pelo homem para comunicar sobre a generalidade dos bens menores. Ele é também um Ser, mas mais do que isso, esse Bem é O Ser. O Absoluto, a quem prestaremos conta dos frutos daquilo que produzimos de posse da liberdade que Ele nos dá. O conservador, por isso, não pode ser nominalista e esta é a discussão filosófica base que distingue, no fim, os revolucionários dos conservadores.

Essa dualidade, muito mais profunda do que as discussões populares sobre “direita e esquerda”, visa explicitar muito mais eficientemente a dinâmica das visões políticas, nas quais, para os r a realidade é a expressão do ideal e, para outros, o ideal é a expressão do real.

 


 
 

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