Ainda não temos uma política conservadora (parte 2): democracia direta ou representativa

O tipo de democracia defendido por uma política conservadora não tem uma definição clara ou doutrinária e nem deve haver, já que isso é determinado pela circunstância e pela relação viva entre a classe política e a sociedade.

A democracia brasileira é definida pela Constituição de 88 como mista: meio direta e meio representativa. Ao longo das últimas décadas, a esquerda vinha tentando implementar um aparência de democracia direta, plebiscitária, uma aposta que visava saltar por cima das discussões legislativas dos representantes legítimos. Por isso, a direita defendia a democracia representativa, como garantia maior do sistema democrático. Havia motivos de sobra para isso.

Na Venezuela, foi um “plebiscitarismo” que manteve Hugo Chavez no poder, assim como Maduro, utilizando militantes que faziam as vezes de “povo” decisor. O Foro de São Paulo ajudou na articulação dessa manutenção através do próprio Lula, conforme ele mesmo assumiu.

A legitimidade popular da democracia conferiu a esses tiranetes um poder ilimitado. A esquerda usou muito do princípio democrático do poder popular direto para legitimar-se. Até Lula disse que preferia ser “julgado nas urnas”, sugerindo que as eleições, isto é, as regras do sistema democrático, são superiores até mesmo às leis penais.

A esquerda confiava na expressão popular devido seu trabalho de base, mantido por décadas. Além disso, o poder da esquerda nos meios de comunicação sempre possibilitou a definição prévia dos papeis e a condução da narrativa através da criação de uma opinião pública. Opinião Pública, segundo seus teóricos, não é o mesmo que opinião da maioria, mas um conceito criado pela teoria democrática, uma espécie de “opinião legítima” escolhida por uma elite como a opinião mais esclarecida.

Revolução de 2013: a direita aposta na democracia direta

Em 2013, uma revolta popular difusa e inicialmente organizada pela esquerda, mostrou a fragilidade em que já se encontrava o seu trabalho de base após mais de dez anos inserida nos gabinetes de Brasília. A esquerda havia esquecido a massa, que percebeu o engodo em que estava imersa. Mas essa percepção se deu inicialmente de forma difusa, sendo aos poucos conscientizada, levando primeiro ao Impeachment de Dilma, em 2015, até culminar na eleição de Jair Bolsonaro.

As pessoas começaram a se descobrir conservadoras e de direita, vendo-se presas a uma espiral do silêncio, que começou a ser quebrada com as redes sociais. De repente, essa parcela popular entendeu que podia, sim, dar a sua opinião, sem ser calada pelo politicamente correto imposto como critério de opinião legítima. Assim, os conservadores, excluídos há décadas da política, identificaram-se com a democracia direta. Mas isso só se deu devido os conselhos de Olavo de Carvalho, repercutidos aos milhares de seguidores, mas seguidos fielmente por incipientes formadores de opinião nas redes sociais. Uma política conservadora começava a parecer possível.

Enquanto uns pediam intervenção militar, Olavo de Carvalho aconselhava: melhor é intervenção popular.

Essa democracia direta, vista por Aristóteles como perigosa e tendente a uma tirania da maioria, ganhou uma circunstância inusitada que a permitiu encarnar um sopro de justiça: quando uma elite dominava todo o cenário e o pensamento político e cultural, mantendo domesticada a intelectualidade a seu favor, algumas janelas ao pensamento de vozes explicativas fizeram com que a estrutura da internet e as redes sociais ecoassem por corredores populares uma mensagem com capacidade de identificação imediata. Ou seja, a democracia direta passou a funcionar graças à liberdade possibilitada pela expansão da internet.

Este foi o efeito dos vídeos, áudios e textos de Olavo de Carvalho, cuja mensagem passou a ser repetida até por quem não o conhecia. Um exército de “libertados” da neurose esquerdizante fizeram a tradução de Olavo para a massa cada vez mais conectada, de aulas de filosofia para vídeos curtos, de textos aprofundados para imagens em memes. O esforço de Olavo em seu primeiro programa de rádio, o True Outspeak (2005) foi repetido por quem compreendeu o que era preciso para acordar um gigante adormecido na política.

A libertação foi tamanha, que pode-se dizer que um dos golpes de misericórdia na esquerda podem ter sido os grupos de família do WhatsApp, que repercutiam temas nunca antes tratados, dissipando o medo da rejeição e do isolamento social, condições que mantinham a espiral do silêncio.

Essa tomada de consciência fez a democracia direta representar, ao menos momentaneamente, a voz daqueles que estavam esmagados pelo sistema montado.

Agora sim: a nova e a velha política

Isso possibilitou a subida ao poder de uma classe política, potencialmente conservadora, mas também parcialmente política, já que é nova em um sistema já pronto, baseado num modus operandi de moralidade questionável, o chamado “toma lá dá cá”. A “articulação política” nesses termos, tornou-se um risco ao próprio conservadorismo visto como verdadeiro, puro e de grande responsabilidade com a moralidade dos seus atos.

Este desafio ainda está no ar, mas apesar de toda a aparente evolução que sofreu a mentalidade conservadora no Brasil, de 2013 a 2018, o fato é que quem define o que é ou não a política ainda é um pensamento bastante difuso, resumido naquela primeira consciência do “gigante” de 2013, da gritaria contra o sistema. O conservadorismo brasileiro, neste sentido, padece ainda de certo retardo, no que diz respeito à prática política.

Uma vez chegado ao poder, porém, o culto ou a defesa dessa democracia direta poderá converter-se em risco à própria defesa dos valores daquela parcela da sociedade que ganhou voz depois de décadas silenciada. A esquerda, acuada pela gritaria da maioria que ganhou voz, saberá a tempo usurpar os meios e apropriar-se das vozes populares, utilizando a mesma estrutura das redes para a derrubada desse conservadorismo.

Por isso, uma política conservadora não poderá manter-se sempre com o mesmo discurso “anti-político” da democracia direta, pois não dispõe ainda dos meios intelectuais para a redefinição do que seja a sociedade, os valores e a boa e verdadeira política. Esses conceitos são, ainda, de propriedade da própria esquerda, que julgará conservadores através deles.

Uma política conservadora não poderia, como se fez até agora, cultuar valores secundários (tais como democracia representativa ou direta, mercado ou Estado) como se fossem conceitos absolutos e universais, independentes da realidade viva e atuante no tempo e no espaço. Os conservadores tendem a reconstruir, a cada dia, a prática política com base naquilo que é imutável, no conhecimento da natureza humana, sua liberdade e limites.

Dizem que o povo brasileiro é conservador, mas defende suas ideias com uma linguagem progressista e materialmente de esquerda. A feliz coincidência dos conservadores serem se convertido em oprimidos e a esquerda em opressora, fez do discurso popular e direto um instrumento para o conservadorismo, coisa que servia antes à esquerda graças à sua instrumentalização do povo. É por isso que a esquerda continua utilizando o padrão de julgamento moral do tempo da ditadura, época em que uma direita estava acima da esquerda politicamente. A única retórica política que temos, por enquanto, é a do oprimido. E ela funcionará enquanto assim estivermos em algum aspecto.

Mas qual o aspecto em que estamos ainda oprimidos pela esquerda, mesmo estando no poder do Planalto? A resposta é uma só: na cultura, que define vocabulários e critérios de julgamento moral. Eis o motivo de ser esta a única guerra que existe. O resto, como tenho dito, é caçar borboletas no quintal do campo de batalha enquanto soldados dão seu sangue ao longe.

(continua…)


 
 

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