A luz fraca e morna de um sol outonal incidia diagonalmente nos cabelos brancos e no rosto enrugado da velha septuagenária que descansava no sofá. Era o décimo quarto andar de um prédio antigo da Aclimação.

A sala era bastante grande. Cabia o conjunto de sofás em L, um rack de madeira maciça – sobre o qual achava-se uma TV moderna desligada –, uns vasos de plantas bem regadas, uns souvenires avulsos de viagens há muito feitas, um lustre bonito pendendo no teto, um tapete pequeno jazendo no chão – chão muito limpo.

De olhos semicerrados, como que cochilando, a velha, que havia largado de lado um crochê que não vingou, disse,
com voz baixa, trêmula, melancólica:

– Pois é, filha, você anda tão calada ultimamente. Eu sei que não tenho sido boa mãe, sabe, mas não precisa me tratar assim, poxa… Meu Deus, é tão ruim ser desprezada…

Disse isso com um doído engulho na garganta que lhe fez desafinar. Também se umedeceram suas pálpebras, porém, sem que chegasse a gotejar o choro.

Ainda com os olhos apertados e sem alterar a posição desleixada no sofá, a velha, controlando-se da comoção anterior, voltou a falar.

– Não merecia isso, sabe. Fiz tanto, tanto por você… Tanto amor nesses anos todos… Tanto trabalho que me deu, tantos dias ralando para cria-la sozinha, só você e eu… Hoje, só recebo esse desprezo…

Então, entreabriu os olhos pela primeira vez e, atirando um olhar cínico para o teto e deixando escapar um jeito sarcástico no resto do rosto, continuou:

– Ah, mas quando eu morrer… já, já vou morrer, filha… só aí você vai sentir minha falta, vai dar valor. E olhando para a interlocutora muda, com jeito de quem fará a última intervenção, perguntou, muito séria: – Não vai dizer nada mesmo?

Nisso, a gatinha branca e muito peluda que dormia a seus pés despertou, devagar. Equilibrou-se sobre as patinhas, deu um delicioso espreguiço de felina, bocejou, roçou a canela da velha, pulou em seu colo, deu lhe três lambidas secas e ásperas na face, saltou de volta para o chão e foi comer e beber do seu banquete – deixado no cantinho especial que a velha lhe reservou.

– Eu sabia que ia voltar a falar comigo, meu amor. Disse a velha de si para si, satisfeita, risonha.

E olhou, longamente, com olhar maternal, a gata comendo sua ração. Depois, ajeitou-se gostosamente no sofá, fechou a persiana, puxou sobre si uma mantinha rala e pegou de vez no sono.


 
 

6 thoughts on “A velha e a filha

  1. Grande Fabio…nos pegou nessa, achei mesmo que a filha estivesse ali. Um triste relato dos resultados da crise moral em que vivemos: a separação e a solidão que dela provém. Crise é separação, separação entre o novo e o velho, entre pais e filhos, entre a matéria e o espirito, entre valores e desejos, entre homens e mulheres, entre o presente e o passado, entre o moderno e o antigo, etc. Tudo para dividir, enfraquecer, destruir e conquistar a sociedade, deixando cada um consigo mesmo, com suas fraquezas e ilusões, como a senhora do texto, a mais criel e antiga artimanha da guerra. Mas como explicar a crise num mundo tão rico – nos últimos 200 anos a pobreza mundial diminui de 98 para algo em torno de 10% – e tão cheio de coisas? É que a crise não é material, nunca tivemos tanto. A crise é moral, de respeito e humildade, de valores, valores que tem ficado no esquecimento devido a uma gigantesca explosão de egos inflados, uma orgia de poder, um entrechoque sem fim de vontades desgovernadas, onde o outro é esquecido na luz difusa de um quarto sombrio.

  2. Atualmente, há desprezo dos filhos pelos seus pais. Contudo, num futuro não muito distante, esses mesmos filhos, que envelhecerão um dia, não terão prole, mas sim animais como prole.

  3. …um rack de madeira maciça – “sob” o qual achava-se uma TV moderna desligada. Desligada sim, pois só faria sentido ligá-la se estivesse “sobre” o rack, possibilitando assisti-la!

    1. Sinais dos tempos. O amigo lê o texto e, do todo, só consegue destacar o erro, por pequeno que seja. Ademais, acha o erro e sai correndo para fazer troça, tomado de gozo.

      Obrigado pela dica e pela leitura. Vou corrigir e da próxima vez capricho na revisão.

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