“Teu ato mais sublime é colocar outro em sua frente” (William Blake, O Casamento entre o Céu e o Inferno)

 

Atiçamos o fogo que fez arder Notre-Dame. Fizemos uma roda enorme em torno daquela fogueira lamentável e choramos lágrimas dissimuladas ante o incêndio tenebroso que nós mesmos proporcionamos. E nosso choro de esteta burguês era a gasolina; irritava mais as chamas, ouriçava as labaredas e endoidecia o calor incontrolável. Nós fizemos arder Paris como Nabucodonosor fez crepitar o Templo de Jerusalém e de modo semelhante aos doidos que pegaram fogo na estátua de Atena ou no altar de Júpiter Capitolino.

Mas não seria mesmo o destino dessas mortalhas de pedra, desses fosseis teimosos na paisagem, servirem de lenha para o banquete dos ímpios que nos tornamos? Quem se negaria, afinal, a fazer um fogaréu dos altares druidas se a isso estivesse condicionado o cozimento duma boa porcada?

Que aticemos mais fogo, doravante! Que mais nada sobreviva senão as cinzas de tempos dourados que ora se acham em estado avançado de oxidação e cuja restauração demandaria uns segredos alquímicos que nos são totalmente vedados. Queimemos logo o Domo de Florença, a Sagrada Família de Barcelona e a Basílica de São Pedro. E utilizemos, para tanto, mais do fogo prometeico de que temos nos beneficiados. E rendamos loas a esse último deus a que nos apegamos.

Nós que atiçamos fogo em Paris, repito. Ou por acaso não somos nós, cristãos ocidentais, como que os carrascos que açoitaram o Cristo enquanto Notre-Dame, na sua paixão de Mãe, era consumida pelo fogo da dor de ver seu Filho-Deus dilacerado pelos espinhos pontiagudos fincados na carne, as chicotadas duras a cavar-lhe fundos sulcos no dorso, a Cruz pesadíssima a esmagar seus ossos no solo pedregoso e os escárnios do mundo que ali mesmo se redimia pelas santas chagas abertas no Seu Corpo?

Não é, pois, a cristandade europeia, de quem somos filhos, o povo que convive serenamente com milhões de nascituros sacrificados em dedicatória a um Moloch ainda menos nobre que o dos Cananeus, que aceita gostosamente o sacrilégio diário nas incontáveis missas mal rezadas por sacerdotes inimigos da fé, para quem o matrimônio é glamour, a confissão sessão psiquiátrica e a catequese mera doutrinação a atrapalhar o livre pensamento? Não somos nós os que permitem que nossos filhos sejam até drogados com potencial para suicidas, mas lhes vedamos, por tudo que é mais sagrado, a opção de servirem a Deus como padres ou freiras? Em que tudo isso difere dos flagelos romanos?

Sejamos francos, há quanto tempo a Catedral de Notre-Dame não era senão uma peça sofisticada de museu a enfeitar uma cidade que degolou todo seu clero e desfilou, orgulhosa, milhares de cabeças cristãs piolhentas fincadas em lanças ensanguentadas em procissão ao Templo da Razão?

Nós que atiçamos aquele fogo, insisto, pois somos isso, a revolução de 1789, a de 1917 e a de 1968 – coirmãs. Somos o Duchamps e seu vaso, o time is money ao pé da letra, a vanglória de uma celebridade volátil, a indústria pornográfica, o Hitler e o Stálin.

Admitamos, concidadão, somos o mundo do Nietzsche a berrar, a plenos pulmões, um grito alto de tenor que preenche toda a Terra, dizendo, em alemão, francês, italiano, espanhol, escandinavo, inglês e português: Deus está morto!

Vede como bradamos o mesmo grito que os malfeitores de Cristo no dia derradeiro? E vede como fazemos isso sob o olhar agoniante da Sua Mãe, Nossa Senhora – Notre-Dame! –, ardendo no fogo da sua contrição dolorosa?

Nós que atiçamos fogo em Paris, é silogístico.


 
 

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