Conflito de interesse ideológico na ciência

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Editais devem exigir que trabalhos sobre temas controversos incluam pesquisadores de distintos vieses ideológicos

Muito se tem debatido nas últimas semanas sobre ideologia na formação do governo Jair Bolsonaro. A discussão é legítima e necessária na política, ainda mais neste momento de transição após anos de gestão do PT. Há um campo, porém, em que a ideologia não deve prevalecer: a ciência.

A criação e o lançamento em 2019 do “Journal of Controversial Ideas”, revista científica destinada a assuntos “polêmicos”, trazem a público um relevante dilema: a perigosa influência do viés ideológico na pesquisa científica. Quando se imaginam conflitos de interesse na ciência, tende-se a pensar em aspectos econômicos, como financiamentos ou vínculos a interessados. Mas as visões pessoais podem influenciar um autor e se refletir em pesquisas, sejam sobre agrotóxicos, mudança climática, violência e até aborto.

Segundo coluna recente de Demétrio Magnoli no GLOBO, pesquisadores que subscreveram abaixo-assinados contra o presidente eleito temem ter verbas cortadas no novo governo. Não deveriam se preocupar se os estudos respeitam o método e o rigor científicos. Porém, cada vez mais observamos, em diferentes áreas, trabalhos que meramente propagam a visão de uma corrente ideológica, travestidos de pesquisas científicas, sem que as preferências pessoais dos autores sejam explicitadas – como é obrigatório no caso de relações econômicas. Para minimizar esse viés, os artigos do “Journal of Controversial Ideas” serão revisados por cientistas de distintas matizes.

Só o “afrouxamento” no rigor da análise pela visão ideológica favorável de revisores e editores explica que uma revista científica publique estudo sem provas dos achados, como se tornou corriqueiro. É quase impossível emplacar um trabalho científico contrário ao olhar dos editores. Como ginecologista-obstetra professor da UFRJ, vejo como a discussão ideológica contamina estudos sobre aborto e via de parto (normal/cesariana). Fui o único obstetra contrário à descriminalização do aborto ouvido na audiência pública no STF na ADPF 442, apesar de a maioria dos obstetras ser contrária ao aborto.

Da mesma maneira, os estudos publicados em revistas científicas brasileiras que pautam a discussão geral sobre o aborto e parto com métodos descartáveis custam milhões ao contribuinte, com resultados “científicos” imprestáveis, que só servem apenas para “ratificar” teorias previamente formuladas. Artigos sobre via de parto concluem que a “culpa” pela taxa de cesarianas é dos obstetras, vilanizando-nos e ignorando variáveis fundamentais, como a precariedade da saúde pública. Números inventados inundaram reportagens, como supostas 11 mil mortes maternas anuais “por aborto” – dados oficiais do SUS mostram 70 mortes (0,0063%) por todos os abortos! Uma revista de circulação nacional estampou artigo de professor que fala em 1,1 milhão de abortos clandestinos anuais – o Datasus demonstra que são de 100 a 200 mil abortos de qualquer tipo (legal, ilegal e natural).

ONGs feministas influenciam mais o tema que as sociedades médicas. Projeto de lei do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) sobre parto humanizado se fundamenta no discurso de uma ONG. Em artigo no GLOBO, apresentei dados oficiais que provam que a mortalidade materna galopante no Rio de Janeiro está relacionada à falta de obstetras e até a diminuição de cesarianas.

A influência deletéria da ideologia na ciência foi desvelada de maneira incontroversa quando pesquisadores ingleses submeteram dois estudos fictícios absurdos sobre temas de gênero a revistas científicas – um sugeria autopenetração anal para “aumentar valores feministas”; outro relacionava comportamento animal à tolerância a estupros. Inventados, ambos foram publicados por revistas científicas, após aceite de editores de viés progressista.

É necessário um amplo debate sobre conflito de interesses ideológico na publicação científica. É responsabilidade compartilhada de autores, revisores, editores e leitores, além de responsáveis por editais e por liberar verbas. Proponho que as pesquisas sejam categorizadas por possibilidade de conflito ideológico. Se for o caso, o autor deve declarar sua posição sobre o tema e se está engajado ou recebe recursos de instituição de defesa destas causas. Além de avaliar criteriosamente a metodologia, os editores/revisores devem representar ideologias distintas para evitar o aceite de artigos sem mérito e a rejeição de bons estudos com o “pecado” de divergirem da visão dos editores. Editais devem exigir que trabalhos sobre temas controversos incluam pesquisadores de distintos vieses ideológicos, para evitar que os mesmos grupos recebam financiamento, para enriquecer o debate e estimular novas visões científicas, de fato. Os estudos tampouco deveriam ser publicados por periódicos da instituição dos pesquisadores.

Por mais sério que seja o processo de submissão, o risco de conflito sempre existirá. Devemos buscar meios de reduzir esse risco, em nome da Ciência de qualidade.


Dr. Raphael Câmara Medeiros Parente,  Ph.D., professor da UFRJ e conselheiro do Cremerj.
Texto publicado originalmente na coluna Opinião do O Globo, direitos do autor.

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