Ciência X jornalismo: uma batalha por uma fatia da realidade

Ciência X jornalismo: uma batalha por uma fatia da realidade

26/12/2017 0 Por Cristian Derosa
É comum que cientistas desdenhem a atividade dos meios de comunicação por “falsearem” suas pesquisas. Mas o contrário também acontece. A falta de conhecimento dos limites da mídia demonstra que dificilmente um ativista das ciências conhece os limites da própria ciência e imagina, de fato, que aquilo que ele chama e enaltece como ciência estuda a mais real e ampla das realidades. Da mesma forma, muitos leitores de jornais ainda se pautam, ingenuamente, pela credibilidade da mídia como se esta fosse um canal puro de informação. Entre eles estão muitos cientistas.
Durante a cobertura da epidemia do Zika Vírus e sua suposta (e ainda não provada) relação com casos de microcefalia, um médico declarou em uma entrevista que o aumento dos diagnósticos de malformações poderia estar relacionado “com a maior atenção dada ao tema”. Ou seja: médicos estariam dando diagnósticos baseados nas manchetes de jornal. Um tal “agendamento” de uma atividade na outra é muito comum e não deixa de causar perplexidade. Mas as duas atividades possuem semelhanças quando o assunto é escolher uma parte da realidade para estudá-la, emitir uma conclusão ou apresentar um relato.
A verdade é que, aquilo que as ciências (naturais ou sociais) e o jornalismo, chamam de realidade são coisas bastante diferentes entre si. Mais do que isso: o que consideram real é algo muito diverso do que seja a própria realidade. Sem pretensões de falarmos sobre a realidade inteira — pois isso exigiria um recorte e de recortes estamos cheios — vejamos como funciona essa palavra “realidade” para ambas as atividades.
Para as ciências, trata-se do que é observável, testável, e portanto repetível. É o universo empírico. Para a mídia, é o que acontece, o que é “fato jornalístico” ou passível de adequar-se aos canais ou linguagens de transmissão. Tanto as causas quanto as consequências e efeitos dos fenômenos, para serem considerados e ganharem alguma atenção, precisam também estar dentro desta faixa de realidade, o que significa dizer que tanto a mídia quanto as ciências naturais não possuem os meios para a compreensão dos seus próprios fenômenos, precisando sempre recorrerem a outra ciência ou a outra linguagem. Ao mesmo tempo, a combinação de diversos canais e linguagens se torna impossível dada a especificidade do recorte do seu objeto, que exige a abstração de tudo o que está fora.
Para que seja possível tal distinção (entre realidade inteira e o seu recorte) é preciso um processo muito conhecido pelos semiólogos: existe o signo (palavra ou símbolo), o significado e a coisa da qual se está falando. Quando alguém se refere a uma mesa, está utilizando a palavra (signo) para gerar na mente do ouvinte uma associação com o significado dela. Estes dois são puramente mentais, embora digam respeito à coisa real que é o objeto da mesa. Mas os objetos reais, isto é, a realidade, só pode ser acessada racionalmente por meio de um signo e um significado.
Esse processo permite que façamos abstrações compartimentando a realidade segundo critérios previamente escolhidos e, com base nestes recortes, se trabalhe neles sem a constante e caótica contingência encontrada no meio natural, na realidade ampla e total na qual estamos inseridos.
Um exemplo clássico é a tabela periódica dos elementos químicos. Obviamente, na natureza os elementos não estão dispostos daquela maneira ordenada que vemos na tabela. Mas tal esquematização é necessária para o estudo daqueles elementos que, separados em quadrados isolados, podem ser abstraídos do caos em que se encontram em estado bruto. Este processo artificial para fins de estudo ocorre também em nossa mente e pode servir, não só ao estudo, mas a interesses transformadores.
Quando falamos em ciência e jornalismo, portanto, estamos falando de realidades diferentes, construídas para funções específicas. As modificações nos seus conceitos significam mudanças em suas funções. A variação das descrições possíveis, portanto, no que diz respeito a atividades como ciência e jornalismo, atende a mudanças na ordem das suas funções e, consequentemente, em uma faixa limitada dos efeitos do seu uso. Evidentemente, quando o jornalismo se torna um meio de transformação apenas, ele não deixa de informar, assim como não deixa de transformar quando prevalece a função informativa. Da mesma forma, a função das ciências também foi convertida em transformadora, desde que Marx disse que a compreensão se dá pela transformação.
Isso é observável na experiência simples do convívio em uma universidade, nas quais a transformação social e o convencimento para a mudança cultural tem prevalência sobre qualquer objetivo de compreensão da realidade. Quando a realidade é objeto de mudança o seu recorte passa a ser instrumental e, portanto, refém de ativismos em uma batalha competitiva na qual cada facção quer transformar a realidade à imagem e semelhança de suas utopias.