conservador que dorme a onda leva no Brasil

Conservador que dorme a onda leva

A Democracia é um equilíbrio de poderes que, em termos físicos, poderia ser traduzida mais ou menos como a Terceira Lei de Newton: os poderes forçam e são forçados. As leis promulgadas pelo Legislativo servem de baliza para o Judiciário e Executivo; os atos deste recaem sobre os outros dois, e assim segue a balança democrática. Mas o que vemos hoje no Brasil é justamente o inverso desse equilíbrio, com os três poderes coexistindo numa completa desarmonia, ou melhor, em uma harmonia submetida não a si mesma, mas a um quarto e externo poder, superior à própria Democracia. Logo, Democracia não há.

Assim é que, nesse descompasso, para que houvesse a substituição do mecanismo defeituoso, precisaria haver ainda um quinto poder para que os outros 4 fossem interrompidos, uma vez que o mecanismo está corrompido por inteiro. Ocorre que essa força alternativa é praticamente inexistente no país, porque a única força organizada, ainda que cambaleante, é precisamente a que descalibrou a balança, a saber: o eixo PT-PMDB-PSDB.

Não há organizações conservadoras expressivas. Não há mídia conservadora de grande circulação. Não há partidos conservadores disputando eleições. Não há liderança conservadora organizada dentro dos muros das Igrejas. Não há nada que pudesse substituir o mecanismo defeituoso de imediato. As únicas forças potenciais talvez fossem a família Bolsonaro e a Casa Imperial, mas ambas estão atrasadas em uns bons anos porque não construíram bases políticas que as possibilitassem intervir, imediatamente, no conserto.

Ora, Dilma foi expelida da presidência e o cetro não foi passado ao povo. Temer caminha para a mesma cova e não há registro de que o trono vá receber as nádegas populares. Enquanto isso, a Lava Jato emporcalha um pouco mais a velha carcaça política. Que restará nesse cemitério republicano? A meu ver, duas ossadas: a de Ciro e Marina – e mais a do PSOL. Dar-se-á, portanto, o que se deu na Itália pós Mãos Limpas: de 945 cadeiras do Congresso, 324 foram ocupadas pela antiga esquerda, cuja união gravitou em cima de um esquerdismo repaginado. Das demais, quase todas ficaram com a frente formada por Berlusconi que, dadas as devidas velhacarias, despontara como alternativa para recalibrar a balança italiana.

A conclusão possível é que o Brasil não tem uma solução a curto prazo, porque a única saída seria o Exército bater à porta da Casa Imperial para devolver a nação: “Boa tarde, por obséquio, o Príncipe de Orleans e Bragança se encontra? Viemos restituir o que tomamos”. A chance é remota, evidentemente, então resta-nos apenas clamar pela Divina Providência enquanto tomamos vergonha na cara para fazer aquilo que deveríamos ter feito três décadas atrás: ressuscitar a alta cultura no país. Sim, Olavo tem razão.

Estudante do curso de medicina pela PUC-SP, pesquisador de temas relacionados a saúde, drogas, política e colaborador do site Estudos Nacionais.

José Dirceu, as leis e a opinião pública

A decisão do STF de revogar a prisão do ex-ministro José Dirceu levanta reflexões interessantes a respeito dos limites da lei na sua relação com a opinião pública. Alguns podem objetar da decisão superior alegando os crimes do político. No entanto, os seus defensores também podem acusar os indignados de estarem apenas repetindo ou seguindo um sentimento coletivo, um certo ódio da opinião pública desenvolvido pelo político e estrategista da esquerda continental, o que evidentemente não pode ser levado em conta no trabalho do STF. Este tipo de defesa foi feita, por exemplo, pelo jurista Ives Gandra da Silva Martins, na época da detenção de Zé Dirceu.

As decisões judiciais de fato devem ser independentes do sentimento da nação – ainda mais quando são determinados por lutas políticas – e devem ser a expressão máxima de justiça. No entanto, a ninguém soará como justa a afirmação de que os tribunais precisam estar atentos à opinião pública com o fim de contrariá-las em busca de uma decisão mais justa. Além disso, é evidente que a decisão do STF proporcionará o retorno à ativa de um dos mais perigosos políticos da história recente do Brasil. Logo após a decisão, José Dirceu já afirmou que fará o PT dar uma guinada à esquerda, isto é, retomar os planos do Foro de São Paulo, organização internacional fundada por Lula e Fidel Castro em 1990 e responsável pela subida ao poder de boa parcela de líderes de esquerda na América Latina.

Muitos movimentos e pautas que ensejaram decisões judiciais ou atos legislativos foram e são motivados por discussões que ocorrem no âmbito da opinião pública. E isso é perfeitamente previsível pelo próprio direito quando diz que a lei é reflexo do costume. Deve-se lembrar apenas que costume não é sinônimo de moda, embora o costume possa estar refletido na opinião pública e contar, inclusive, com o reforço de sentimentos morais da sociedade.

Uma reflexão interessante sobre este assunto está no livro A Espiral do Silêncio, que está sendo lançado pela Estudos Nacionais por meio de financiamento coletivo. Vejamos o que diz Elisabeth Noelle-Neumann sobre essa complexa relação entre opinião pública e as leis.

Um exemplo de como os juízes e a administração reagem de modo precipitado diante da pressão da opinião pública manifestada como concepções ou tendências sociais a respeito de determinadas atitudes, é a campanha contra fumar na presença de não fumantes. Por volta de 1975, porém, a campanha havia crescido tanto que algumas medidas administrativas já aconselhavam ou exigiam a proibição de fumar na presença de não fumantes. Um ano antes, 1974, o tribunal regional de Stuttgart, discordando de sentenças anteriores, concluiu que fumar no interior de um taxi era uma demonstração de falta de respeito com o taxista. A situação culminou com a afirmação do Tribunal Superior Administrativo de Berlim de que os fumantes eram “perturbadores do ponto de vista legal”. Joseph Kaiser, jurista de Friburgo, fez o seguinte comentário: “De repente, sem mais nem menos, o fumante foi relegado a uma categoria definida para efeitos policiais, ou seja, daqueles que se tornaram caso de polícia por representarem um perigo social bem definido. É submetido, portanto, às piores consequências legais. A única condição necessária para fundamentar essa afirmação seria uma prova de que fumantes constituem uma ameaça clara aos não fumantes. Mas isso é precisamente o que não possuímos” (Kaiser, 1975, 2236). Como esta resolução legal foi produzida, neste caso, sem basear-se no uso de provas empíricas, podemos considera-la um processo exclusivo de opinião pública. O comentarista emprega, acertadamente, uma expressão relacionada à moda quando diz que a proteção dos não fumantes está “em voga”.

O livro de Noelle-Neumann foi publicado originalmente em 1977. Os primeiros relatórios científicos que apontavam para os riscos do chamado “fumante passivo” foram publicados alguns anos após as decisões judiciais mencionadas. A pesquisa de A Espiral do Silêncio mostra que antes do surgimento de fundamentações científicas, aquilo que hoje conhecemos como luta antitabagista já se verificava como processo de opinião pública, o que nos faria acrescentar algumas perguntas à questão, como se incluiríamos ou não a ciência no campo das esferas sociais arbitrariamente definidas pela opinião pública, além do âmbito da lei, como ressalta a autora.

Assim, também a questão do aborto, outro tema analisado historicamente em A Espiral do Silêncio, avançou gradativamente no Brasil e no mundo, por meio da influência das pesquisas de opinião na visão que juristas e legisladores acabaram formando suas opiniões sobre o tema.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

A direita cresce a olhos vistos

Já não é possível negar. As redes sociais são de direita. A esquerda treme e tenta, por meio do aparato político, conter a maré e impor censura, mas ao que parece, as consciências não estão ao seu alcance.

Um relatório publicado no início de março pela ePoliticSchool (EPS), mostra que o número de interações (curtidas e compartilhamentos) em páginas de direita chegou a 14,7 milhões no período, mais que o dobro dos 7,1 milhões registrados em páginas de esquerda. A pesquisa, realizada em 150 páginas de influenciadores, mídia, políticos e partidos, apontou também que 60,5% dos fãs das páginas analisadas eram ligados a correntes de direita.

O relatório fornece uma importante fonte de observação da evolução dos debates no Brasil, principalmente em um momento de ferrenha luta política que se inicia nas redes e acaba despontando para o mundo real.

Apesar de toda a tentativa de caracterizar os opositores da esquerda como militaristas, autoritários, fascistas ou disseminadores de ódio, o número de pessoas que se identificam com rótulo da direita ou conservadores tem crescido no Brasil, principalmente entre os mais jovens.

A única maneira de negar isso é fechando os olhos, como a maior parte da mídia tem feito. No entanto, a matéria recente do Estadão não deixa dúvidas para aqueles que precisam do aval da grande imprensa para acreditar em alguma coisa.

A mudança no padrão de posições políticas no Brasil está sendo impulsionado pelas redes sociais, a partir dos protestos que crescem desde 2013, no país, e culminaram com o Impeachment, em 2016. Longe de ser um movimento exclusivamente virtual, essa nova direita questiona a hegemonia da esquerda construída ao longo das últimas décadas e que abrange a cultura, o meio intelectual e consequentemente a política. Essa direita identifica claramente a corrupção do sistema político à presença histórica de movimentos e políticos de esquerda.

Principalmente entre os mais jovens, cresce um interesse por conhecimento das causas do problema e das possíveis soluções. O fato mais relevante apontado pelas pesquisas nas redes sociais é justamente a perda da vergonha de se dizer de direita ou conservador, em um país onde o termo direitista sempre foi facilmente relacionado a fascista e até nazista, devido a hegemonia cultural da esquerda.

Movimentos que se dizem conservadores surgem inicialmente com o anti-petismo, evoluindo a posturas liberais e por fim conservadoras, motivadas por um outro movimento em direção a um retorno da espiritualidade cristã, em correntes mais conservadoras e tradicionais, que também defendem uma mudança na feição atual da Igreja Católica no Brasil, histórica apoiadora da esquerda e uma das instituições por trás da fundação do PT.

Leia o relatório completo da EpoliticSchool

OBS.: Evidentemente, utilizamos aqui os termos direita e esquerda de modo mais genérico e um ângulo de visibilidade de maior abrangência possível para fins de demonstrar uma evidente tendência.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

O fantasma militar-policial e os obstáculos à inteligência brasileira

NOTA: Talvez este artigo soe inoportuno. Em uma época dominada pela esquerda, pode parecer impróprio criticar um pensamento tipicamente de direita, mas é antevendo o uso das fragilidades da mentalidade brasileira pela esquerda que arremeto contra o chavão, inimigo numero um da inteligência de qualquer cor.

Que brasileiro nunca disse ou no mínimo ouviu repetirem que todo político é bandido e que bandido bom é bandido morto. Parece que desde Floriano Peixoto, que fuzilou centenas de opositores, estas frases estão impressas na alma do brasileiro. É possível que a partir da Proclamação da República o brasileiro tenha desenvolvido uma adoração pela força bruta institucional, especialmente quando se trata da do braço forte e mão amiga das FFAA, força policial ou estatal por meio dos santos tentáculos do Poder Judiciário. Embora isso possa estar adormecido por décadas de antimilitarismo e ideologias anti policiais expressas pela mídia esquerdista, essas ideias aparecem de modo permanente na cultura brasileira.

A ideologia policial é o pensamento mais característico no Brasil. Manifesta-se em frases feitas e chavões que têm em comum um certo purismo moral, não raro aplicado seletivamente. Estes pensamentos aparecem de modo caótico no senso comum espalhados pelo país, movidos por uma sensação geral de injustiça. É como uma força quase física que atua no território nacional empurrando cada consciência a ignorar toda reflexão e sucumbir à lógica aparentemente irresistível dos lugares comuns.

Toda incomodidade diante da tensão entre oposições que geram alguma complexidade parece ser aliviada pela repetição dos chavões policialescos, onde o anseio punitivo parece manter certa coesão das personalidades. A sensação de injustiça, impunidade, é remediada pela convicção e certeza do funcionamento das instituições nacionais.

A ideologia policialesca brasileira é estatista em sua base. Possui brutal confiança no aparato jurídico e da aplicação da lei como garantia de realização da utopia do progresso, do rumo certo ao desenvolvimento nacional, o que só se dará por meios essencialmente materiais, não sem o efeito catalizador da moralidade pública.

A corrupção, para o brasileiro, é o grande inimigo da nação. Um monstro que devora e impede o predestinado progresso.

Desde a campanha do “Petróleo é nosso”, passando pelo medo da cobiça estrangeira da Amazônia, até a novíssima faceta da redemocratização da Terceira República, culminando com a luta contra o monstro da inflação, a caça aos marajás, etc. A ascensão da esquerda só não foi e não será completa enquanto bater de frente com essa ideologia popular. E ai está o grande perigo. Uma esquerda policialesca e militarista poderá ser a nossa ruína.

O Brasil foge da sua própria imagem como o diabo da Cruz. Nega a realidade da sua herança portuguesa na cultura ao passo que a vive e revive nos piores detalhes da política. Raymundo Faoro, no clássico da sociologia brasileira Os donos do poder, faz um diagnóstico incrivelmente realista da estrutura mental do brasileiro ao remontar à origem do estado português, no qual a ligação entre os reis e a terra fazia da sociedade um imenso rebanho de súditos fiéis. O paternalismo estatal é herdeiro da fidelidade monárquica que, embora o período imperial tenha tentado dissolver em um parlamentarismo, acabou se potencializando ao longo da República da Espada, a Velha, a Nova, a Terceira…

Todo o paternalismo republicano brasileiro vem do direito divino dos reis, que nos foi legado tão fortemente, justo por nunca ter sido vencido ou mesmo combatido no campo das idéias (campo aliás sem nenhuma tradição no país). O resultado é uma espécie de superstição estatista, na qual o poder é tanto mais venerado quanto mais desconhecida a sua origem. Perdida nos labirintos da história mental do Brasil, o poder que esteve tradicionalmente ligado á propriedade é alienado para a posse total do país e o culto revertido aos donos do poder encastelados no trono da alma brasileira.

A grande fonte de confusão política no Brasil parece ser a dúvida silenciosa: afinal, a quem pertence o país por direito? Os populistas e os oligarcas tentaram substituir o velho direito dos reis expropriados. A neurótica vontade de inventar o futuro por meio da ideologia do progresso parece ter sido o fruto dessa culpa por termos exilado o passado e, com ele, o Brasil de si mesmo. O Brasil é um país que nega e foge de si, a começar pela alegria do carnaval que tenta esconder a nossa natural tristeza portuguesa. Enquanto a beleza da herança cultural é negada, a consequência política dela permanece neurotizadamente presente.

Mas a visão do estado e do bem comum tornou-se supersticiosa e puritana. O político tornou-se aos poucos o símbolo da ineficácia e da corrupção. Com ele, a política, o debate e a própria inteligência. Assim, independe qualquer esforço de conciliação, pois embora o pragmatismo tenha sido o nosso poder moderador de acordo com Paulo Mercadante, permanece a rude revolta em favor do rei absoluto no subsolo moral de nossa consciência. E nesta, um puritanismo moralizante e autoritário tem lugar de teologia política, um sentimento de justiça a qualquer custo.

Uma vertente deste pensamento que coloca o mal no objeto e não na mão que o maneja, é aquele que busca contrapor-se ao demonizar o homem. O erro é o mesmo da superstição que vê no errante o erro, no pecado o demônio, no gato o azar. E por fim, no político vê a corrupção em forma de gente. Ou ainda no bandido individual vê toda a criminalidade que deve ser extirpada. A execução é a resposta mais óbvia para este tipo de lógica.

É ai que encontra paralelos assustadores com a mentalidade revolucionária. Embora os comunistas tenham no mundo se travestido de pacifistas e militantes de direitos humanos, seu intuito é e sempre será sanguinário. Mas o direitista brasileiro pode acabar optando pela via do fascismo stalinista sem perceber, como resposta ao disfarce pacifista dos nacional-socialistas do PT.

Na dúvida, clama pelas Forças Armadas, intervenção militar. Para isso, clama em caixa alta, em gritos e palavras de ordem. Ordem e progresso. O policialesco brasileiro não ama a sociedade brasileira, mas tudo aquilo que historicamente tentou se passar por ela. É isso que vê nas cores verde e amarelo.

Foi esta bandeira verde e amarela que exilou o Imperador e instituiu o golpe da República a partir de uma ditadura militarista que executou inimigos e por pouco não decapitou o próprio Dom Pedro como na França, é o que gostaria de ter feito o jacobino Floriano Peixoto. Não foi a mesma bandeira cultuada antes, aquela cujo verde representa a casa dos Bragança e o amarelo, os Habsburgo. O estado brasileiro precisou exorcizar a sua origem para poder reconstruir uma sociedade à sua imagem e semelhança.

A pior e mais atual consequência desta ideologia é a aposta nas instituições e na insistência em colocar todas as soluções nas mãos do estado, cujo instrumento para efetivá-las só pode ser a reunião de mais poderes. O nacionalismo, dizia Lênin, embora inimigo do socialismo, reúne incrível “reserva de energia revolucionária”, que pode ser usada quando for necessário. Mesmo que o nacionalismo brasileiro no fundo não exista, essa caricatura de nacionalismo com cores militaristas e estatistas, sempre foi suficiente para a submissão da sociedade aos que usurparam o poder. Não podemos esperar outra coisa de um país que foi erguido em gabinete.

Se não gostamos de socialistas que defendem bandidos utilizando os direitos humanos, não vamos querer estar aí para vermos os socialistas militaristas e policialescos colocando políticos nos paredões mais sanguinários em nome da soberania nacional, do estado forte e da mão amiga.

Pesquisador independente e tradutor, escreve e coordena pesquisas para o site EstudosNacionais.com. Desenvolve projetos editoriais na editora Estudos Nacionais e Livraria Pius.

Princípios e problemas do conservadorismo no Brasil

Muitos enchem a boca pra falar em conservadorismo como se fosse uma instituição doutrinal sólida e de valores perfeitamente compreensíveis e aplicáveis. Isso não se aplicaria principalmente no Brasil, sendo mais comum e previsível a deturpação de virtudes em aparência de virtudes, conhecimento em aparência de conhecimento, etc. Sem a pretensão de apontar caminhos salvadores, no programa veiculado pela RADIO VOX no dia 25 de janeiro, falo sobre as potenciais dificuldades que o brasileiro encontra e encontrará para compreender o que é uma conduta politica conservadora.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Ciência e ideologia II: A meta aberta da ‘teoria de gênero’

Trans-symbols_810_500_s_c1Chamar a Ideologia de Gênero de teoria faz parte de uma daquelas estratégias discursivas que colocam uma militância política no patamar científico, aproveitando-se do fetichismo que a ciência goza desde o início da modernidade e que hoje vemos potencializado pela constante exposição midiática dos avanços tecnológicos.

Lembremos dos elementos ideológicos expostos na postagem anterior — situação, problema e solução — para compreendermos a estrutura dessa ideologia.

Para os defensores da Ideologia de gênero, todos são obrigados a aceitar a crença inicial da situação social proposta: a de que os homossexuais e outras formas de sexualidade não convencionais estão sendo massacrados em uma onda de violência motivada por valores vigentes que produzem discriminação e preconceito. Estas duas últimas palavras, que são parte do problema, não são conceituadas nem explicadas, deixando-as livres para o entendimento popular. Essa brecha de liberdade interpretativa é como uma jogada caótica, em que se aposta na multiplicidade de entendimentos para justificar juízos e reivindicações totalmente arbitrárias. Assim alega-se falsamente estar em defesa de liberdades individuais.

maxresdefaultJudith Butler (foto), principal divulgadora da ideologia de gênero, conceitua gênero como o seu comportamento. Isso mesmo. Ela utiliza Nietzschie, que dizia não haver o “ser” mas apenas o “fazer”. Imaginem se alguém vai se definir pelo que fez ou faz, independente de ter feito certo ou errado. Esta ideia parte de um princípio relativista liberal no qual a consciência individual, certa ou errada, é legítima e fatalmente todos os crimes podem ser incentivados. isso mostra como deixar um conceito inexplicado se tornar senso comum pode tornar a interpretação algo incontrolável.

Mas não é só este conceito que goza dessa indefinição proposital.

Fim dos direitos

O alegado objetivo político dessa ideologia, isto é, sua meta, seria o “avanço dos direitos”. Como sempre, não define o que é direito, que na verdade significa um dever do estado. O dever do estado, neste caso, seria assegurar a liberdade de auto-definição sexual, pessoal, íntima, de cada indivíduo de acordo com o que ele sente que é. Se o que ele é depende do que ele faz ou deseja fazer, significa que ele é prisioneiro dos seus erros ou acertos e, portanto, não há liberdade de consciência já que a consciência não é mais livre para ir contra o seu comportamento. Por isso, o efeito prático dessa ideologia é o fim da liberdade individual e, portanto, da possibilidade de igualdade ou garantia de direitos. Isso significa que o seu efeito prático é exatamente oposto ao objetivo alegado.

Globalismo

Engana-se quem acusa a Ideologia de Gênero de querer unicamente destruir a família por meio da moral sexual. Esta é uma simplificação grosseira que pode servir para caracterizar a militância mais burra que geralmente trabalha neste nível. A meta do globalismo por meio dessa ideologia é domesticar nossos conceitos para as construções políticas e sociais maleáveis, colocando o poder das definições mais elementares nas mãos dos globalistas, representados por comunidades científicas eleitas e influentes na mídia.

Com este poder, poderá redefinir não só o conceito de família mas o de ser humano, uma luta cara aos defensores do aborto, mas também a todos aqueles que propõem flexibilizar leis que protegem a vida humana. Mas esta é apenas uma das aplicações possíveis da conquista do poder nas definições de valores. Afinal, sabemos que a proteção ou sacralização da vida humana sempre foi um importante obstáculo para o avanço de todo tipo de controle social, assim como muitos outros valores morais que atrapalham este progresso técnico e científico que miseravelmente busca a satisfação de utopias globais anti-humanas.

Quando todos os valores forem transferidos para as mãos de legisladores, estes terão o poder de dirigir totalmente o curso da civilização humana na direção que bem entendem. Isso só é possível opondo-se à compreensão antiga de que há algo dado na natureza, isto é, que escapa do poder de alteração humana.

A natureza humana, assim, poderá ser redefinida por maioria de votos.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Notas: Ideologia de Gênero e revolução educacional

É consenso entre profissionais acadêmicos da educação a afirmação de que “a família está em crise”. Ao mesmo tempo, exibem-se de que a ciência pedagógica tem evoluído e tem o papel de ajudar no desenvolvimento da sociedade. Por que será que a família está em crise? Leia mais

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Arquétipos do cinismo nacional

O Cinismo, na Grécia, foi uma escola filosófica, embora anti-filosófica, que se inspirava entre outras coisas na vida dos cães como modelo a ser seguido. Os cínicos brasileiro se assemelham em muito nessas disposições, embora tenham suas especificidades que os diferencia da propensão a qualquer reflexão.

Rosenstock-Huessy, em A Origem da Linguagem, diz que uma revolução começa com um problema de linguagem. Quando gerações, facções ou classes, não se compreendem, não falam mais a mesma língua, irrompe a revolução. Levando isso à literalidade dos conflitos que vemos no Brasil, podemos dizer que toda guerra civil é precedida por mudanças culturais, cujo pior aspecto é o da dissolução cognitiva, precedida por uma vertiginosa precipitação ao abismo da imoralidade mais profunda.

Mas este tipo de percepção está longe daquela ideia muito difundida ultimamente de que todos estão errados e malucos, brigando entre si como animais irracionais. Quem faz este tipo de queixa está somente tentando abrandar a própria indiferença dando-a um ar de neutralidade superior. Falo da guerra pura e literal, que tem a confusão como arma, mas que se caracteriza pela proeminência do mal objetivo, manifestado por movimentos que buscam isso declaradamente em suas teorias. Dizer que “há exageros de todos os lados” é fingir que não vê o mal, é omitir-se e tornar-se com isso parte do problema. E existem muitas formas diversas de se passar por este tipo de “isentão” superior.

O isentão cínico diz que está por cima do bem e do mal por não aderir a nenhum lado do conflito. Com isso, colabora ativamente com o pior dos lados, aquele que visa confundir e induzir ao erro.

Faz tempo que o Brasil está em guerra. Mas a guerra cultural tem essa característica de dissipar os antagonismos através de uma espécie de deterioração gradativa da cognição. Quando bem coordenadas, mídia e sistema educacional, juntos, se transformam em verdadeira arma de guerra, tornando os indivíduos meros propagandistas disfarçados de cínicos ou apolíticos. No fundo, o apolítico pratica o servilismo mais animalesco, como verdadeiras bestas puxando carroças cheias de lixo ideológico para seus mestres intelectuais que os açoitam dia e noite, num círculo infernal que tenta arrastar o país rumo ao despenhadeiro da loucura.

Apolítico

Falo dos cínicos porque há bem pouco tempo, no Brasil, esta era a principal face do esquerdista, manifestado pelo petista. Mas hoje há o cínico que se diz apolítico. Para ele, nada é nada e o tudo não existe. No fundo, é a crença no pressuposto marxista de que todo mundo age por uma ideologia igual e simetricamente, burgueses e proletários. Não que o cínico se importe com a injustiça. Não. Longe dele! Isso seria converter-se num hipócrita, já que para ele não há justiça. Para o cínico, todo mundo está perdendo tempo em existir e só ele próprio é que tem a presença de espírito de rir-se da falta de sentido da existência dos outros sem perceber que ri da própria incapacidade de ver a realidade. Ele não percebe a realidade porque desistiu voluntariamente dela, achando que com isso estava sendo o mais esperto e astuto de todos. O menos hipócrita.

Mas este cinismo é só a ponta do iceberg, é apenas uma marionete do relativismo cultural e moral, consequência de décadas de apatia cognitiva. Todo mundo tem um amigo que nunca estudou assunto nenhum mas que, de repente, neste momento de acirramento político, surge das sombras de sua ignorância munido de opiniões prontas e com alvo certo. Alvos que repetem coincidentemente as opiniões mais repetidas e os chavões mais batidos saídos de formadores de opinião da mídia ou da boca de totens acadêmicos.

Anti-corrupção

Há os que se atiram a jargões anti-corrupção, como se o roubo dos cofres públicos fosse crime muito pior do que os que atentam à vida humana por meio da adesão a ideologias assassinas. Escandalizam-se e bradam em afetada indignação com o desvio de verbas, a má gestão de obras, a irresponsabilidade fiscal, etc. Refugiam-se nestes assunto menores com medo de admitir o mal maior existente nas esferas mais sérias. Preferem brincar de analistas e repetir o tom dos formadores da mídia, que o fazem por estratégia política e não por convicção. Gostam de saber que um vereador desviou sacos de cimento da ponte do valão do bairro, e não dão a mínima se o país é governado por um organismo internacional que quer aprovar o aborto e destruir as famílias. Ama os números e está preocupadíssimo com a taxa de juros, enquanto em seus filhos aprendem na escolas sobre a variedade infinita das taras sexuais humanas e as possibilidades de experimentá-las.

Liberal

É comum ainda que esta espécie de cinismo isento manifeste suas ideias de modo irônico, sarcástico e por vezes com uma crueldade de dar inveja a esquerdistas acadêmicos acostumados à mendacidade mais torpe. Pois buscam representar voluntariamente o arquétipo criado pela esquerda. Quem recebeu uma educação marxista só pode, na melhor das hipóteses, tornar-se um liberal desprovido de toda moral. É assim que se faz uma guerra. Os homens quando confrontados com a ignorância do que deviam saber, encurralados por um estilo de vida omisso, tornam-se recalcados formidáveis. O liberalóide ou libertário, por exemplo, cínico por excelência, coloca-se a uma distância segura de todos os códigos morais para então julgá-los com a moralidade de aluguel que venera como a mais santa e imaculada das intenções.

O liberal só quer defender o mundo utópico de sua mente, que só existe por analogias pobres porque carecem do elemento mais importante para qualquer reconstrução racional da realidade: o ser humano. Embora diga falar em nome da “ação humana”, fala de uma ação abstrata que representa uma parcela ínfima das possibilidades humanas e, com isso, imagina possível um mundo em que só isso exista. Afinal, toda vantagem que possa existir no funcionamento econômico humano decorre, não de princípios econômicos, mas dos valores morais com os quais as pessoas o aplicaram na realidade.

Casto

Quase sempre o isentão, como tem sido chamado, apresenta-se sob variados trajes. A personalidade acuada por sua própria omissão e covardia não escolhe rótulo e pode se ocultar até mesmo em castas prelazias católicas, adornadas pelo erudito distanciamento que oculta, no fundo, o amor e a veneração que cultivam pelo empreguismo mais utilitarista, as posições sociais que angariaram mediante um concurso de indicações de seus caríssimos nobres colegas. O culto a admirados e admiradores são sua base psicológica cujo ícone pode ser representado pelo mercado, a tradição, a moral, a caridade… Mas que no fundo representam o amor pelo próprio traseiro, cheio de favores pendurados e prometidos. Diferente do cínico apolítico, este arquétipo não sabe que é cínico. Faz da sua omissa culpa interior um disfarce de humilde servilismo. Histericamente, dizem entregar-se a práticas religiosas para não sobrar-lhes tempo de fazer algum bem que não seja a indicação, o favorecimento dos seus caríssimos para algum lugar estratégico, de onde não fará nada além de manter-se omisso e enriquecendo, com a imagem pública bem protegida dos riscos de difamação e consequente perda do amado emprego público.

Nenhum destes arquétipos é cristão ou mesmo humano no sentido pleno da palavra. Apenas no sentido de sua miséria mais típica e característica, aquele que precipitou no pecado que decorreu a Queda. Embora diferente de Adão, não titubeia diante da baixeza. São ratos que se amontoam nos corredores apertados do labirinto de sua histeria, da sua neurótica busca por conforto. Animais que não fazem mais do que fugir da dor e buscar o prazer no alívio de suas consciências.

O isentão e o cínico, irmãos gêmeos e por vezes fundidos e confundidos, preferem sempre a desculpa que alivia a consciência do que o confronto com a tensão que os deprime. São no fundo pobres deprimidos e deprimentes, que precisam torcer a moralidade para aderir a ela sem constrangimento.

Os problemas morais e psicológicos desta classe de pessoas, embora sejam para eles um drama insolúvel e digno de nossa comiseração, servem bem ao intuito de um dos lados, casualmente o pior.

Desde o engomadinho que sai da missa maldizendo o excesso de pobres nas ruas, até o desleixado liberal que se vangloria de não se sua indiferença, estes arquétipos só podem existir devido um clima psicológico que põe o país inteiro refém de expedientes de pensamento abstrato, cuja máxima virtude é a adesão a mundos utópicos (mesmo que a utopia seja um mundo livre de utopias). Ambos os tipos estão muito abaixo de classificações de caráter social, como o de David Riesman, que propõe distinções conforme eras populacionais. Embora se aproximem do “alterdirigido”, aquele que se orienta pela própria carência de atenção do outro, este arquétipo nacional do anti-politizado é como um “baixodirigido”, isto é, orientado por baixo, pelo que é inferior. É o viciado na própria opinião que, já anestesiado pelas próprias e alheias mentiras, repete-as roboticamente conforme o desejo de parecer inteligente.

Faltou falar dos policialescos que gostam dos jargões “bandido bom é bandido morto”, clamam por intervenção militar, pintam-se de verde e amarelo, cantam o hino e tapam os ouvidos para as notícias ruins. A disposição a não saber do que não gosta, porém, está em todos os arquétipos do cinismo nacional.

Pesquisador independente e tradutor, escreve e coordena pesquisas para o site EstudosNacionais.com. Desenvolve projetos editoriais na editora Estudos Nacionais e Livraria Pius.

Qual a real função de uma manifestação?

O alvo prioritário de qualquer ato público é, em todas as situações, a mídia. Isso porque é por meio dela que o governo ou líderes políticos irão tomar conhecimento das reivindicações.

Na década de 1920, Edward Bernays combinou com algumas debutantes que elas iriam juntas acender cigarros e fumar em um determinado local público. Ao mesmo tempo, despachou cartas aos jornais da cidade dizendo que haveria um protesto pelos direitos das mulheres. Evidentemente, as debutantes nada tinham a ver com isso. Mas os jornais correram para a praça pública e as cenas das jovens adolescentes fumando cigarros ganharam as capas da maioria dos jornais no dia seguinte. Bernays trabalhava para uma companhia de cigarros que pretendia aumentar as vendas, já que na época não era comum as mulheres fumarem.

Isso mostra como o papel da imprensa é até mais importante do que o do governo que vai fazer as mudanças reivindicadas. A imagem pública dos manifestantes é um fator essencial para a efetividade do conjunto da mensagem que deseja passar, tanto para o governo quanto para o restante da população. Afinal, aquelas pessoas que não foram protestar saberão tudo por meio dos jornais, TV, internet. E é por ali que formarão a sua opinião sobre as demandas dos atos públicos.

A função de uma manifestação, portanto, é mudar o entendimento do público sobre um ou mais tópicos públicos, forçando assim a classe política a tomar uma posição favorável a esse entendimento que o público terá. Isso só pode ser feito através do único canal que ambos utilizam para se informar: a mídia.

Isso quer dizer que todo o conteúdo gerado pelos manifestantes deve responder a pelo menos dois critérios básicos: à capacidade de compreensão dos jornalistas (levando em conta seu horizonte de consciência e percepção) e às normas editoriais, isto é, às condições profissionais dos veículos como tempo, legibilidade, disponibilidade, visibilidade, etc. Afinal, é necessário que os jornalistas além de compreenderem as mensagens, as possam publicar com efetividade e em tempo hábil.

O noticiário internacional também é alvo de manifestações, ainda mais quando vivemos em um continente dominado por uma facção continental de esquerda como o Foro de São Paulo. É necessário que outros países compreendam o que de fato está acontecendo em nosso país. Para isso, é importante observar de que modo eles vêem o Brasil e como alguns atos  podem reforçar ou contrariar a imagem que eles têm, vendo assim qual das duas opções é preferível para a causa em questão.

Se a imagem de um país constantemente em festa (como é costume) irá dispersar a seriedade do que está ocorrendo, é possível que se possa utilizar justamente este fator como elemento contraditório. Como, no país do carnaval, algo de repente tão sério acontece? Ou explorar a consequência moral do clima de festa, demonstrando que o país talvez esteja vivendo um inferno astral por conta disso e, com isso, chamar a atenção para o perigo dos governos que se utilizam do divertimento “pão e circo” para ludibriar suas populações. Isso é apenas um exemplo.

Mas a maior efetividade de um protesto está na mídia nacional, que vai formar no público a imagem do problema, da classe política e das soluções propostas, se houverem. A melhor manifestação, porém, não é aquela que oferece soluções claras, mas aquela que procura estabelecer a imagem mais realista possível do problema àquela parte da população que não tem o mesmo acesso às informações. Para isso, o canal da mídia deve ser estudado para evitar falsas impressões.

Mas para atacar verdadeiramente o problema, é necessário que os grupos envolvidos evitem dispersar em causas menores (ou infinitamente mais abrangentes, como a corrupção, etc), que por sua ingenuidade acabam passando ao público e à imprensa uma imagem tacanha e pouco efetiva. Se centenas de pessoas fossem às ruas para pedir o fim da calúnia e difamação, é provável que os jornais lhes dessem alguma atenção. Mas ficaria tão evidente a ingenuidade da demanda, que provavelmente as notícias sobre isso nem mesmo seriam lidas. Além do fato de que causas muito amplas podem ser aproveitadas por um maior número de causas cujos militantes estejam mais preparados para utilizá-las.

O mais importante nestes casos é saber reconhecer o quanto da mídia se tem sob controle, se pode de fato controlar a abordagem. É comum que se tenha uma visão um tanto otimista e até megalomaníaca em relação ao poder de influenciar a mídia. Isso acontece muito em movimentos políticos de direita.

É cada vez mais recomendável que estes movimentos tenham suas próprias agências de assessoria de imprensa improvisadas e que possam gerar conteúdo tão bons quanto os da mídia, de modo que ela se sinta tentada a utilizá-los para economizar tempo e trabalho. Ajudar a mídia a falar de você é o melhor caminho para que ela diga o que você quer que ela diga. Quem sabe até por algum senso de gratidão.

Outro caminho é gerar o medo na grande mídia. Pode ser essencial em determinada situações. Mas isso depende muito, como falamos, do nível de consciência que um movimento tem do seu poder de influenciar. A análise constante das notícias é uma arma importante para saber o que, de fato, os jornalistas sabem e a que espectro político eles pertencem. Isso ajuda a escolher os conteúdos, promover armadilhas e desmoralizar o trabalho da imprensa. Isso é bastante arriscado quando não se tem informação suficiente. É preciso saber muito mais do que a mídia e felizmente no Brasil isso não é tão difícil.

O trabalho mais importante na direção de ter um número eficiente de pessoas para qualquer manifestação é o esclarecimento. Ninguém deve ir a uma manifestação como idiota útil. Isso foi feito durante décadas pelos movimentos de esquerda e não pode nunca mais ser repetido. É preciso que as pessoas conheçam contra o que estão lutando e saibam dos perigos, pois só assim haverá um público realmente corajoso para enfrentar o que surgir pela frente.

Pesquisador independente e tradutor, escreve e coordena pesquisas para o site EstudosNacionais.com. Desenvolve projetos editoriais na editora Estudos Nacionais e Livraria Pius.

O fundo falso do politicamente correto

Em outubro de 2010, em Florianópolis, Santa Catarina, aconteceu o Seminário Internacional de Tecnologia para a Mudança Social[1], promovido por diversas organizações entre elas o ICom (Instituto Comunitário Grande Florianópolis), além de grandes empresas como o Grupo RBS, Fundação Social Itaú, Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, UN Volunteers (ONU), entre outras. Sob o slogan “Together is better”, o evento propunha-se a:

“construir uma presença digital relevante e aproveitar os meios tecnológicos disponíveis para propagar sua causa social. “As organizações da sociedade civil devem utilizar as tecnologias como um meio de mobilizar recursos, atrair e gerenciar voluntários e prestar contas para todos os seus públicos. A internet é hoje o meio mais rápido e efetivo de estabelecer relacionamentos e formar redes sociais”.[2]

A “causa social”, neste caso, é o grande um mote. A mensagem superficial do evento é um resultado da apropriação empresarial da proposta da mudança social e promoção de uma nova cidadania com ênfase na utilização da tecnologia para melhorar as relações sociais e, com isso, angariar mais negócios dinamizando a economia. Este é um perfeito exemplo de ação positiva de empresas, ongs e instituições públicas, unidas para uma causa aparentemente única e benéfica para todos. A mensagem principal da campanha, como sempre acontece, é não só inofensíva mas aparentemente de um elevado grau de boa intenção. É necessário que analizemos profundamente as relações por trás de toda essa benevolência apostolar.

O destaque do seminário é a presença de um palestrante internacional, o professor Emmet D. Carson, presidente e fundador da Sillicon Valley Community Foundation, considerado uma das principais lideranças do terceiro setor (ongs) nos Estados Unidos. Carson é responsável pela gestão de mais de 1500 fundos de investimento social de empreendedores da área de tecnologia e de empresas como eBay, Google e Sun Microsystems.

A Sillicon Valley Community tem publicado a lista das doações que faz em seu Relatório Anual. Eis um dado revelador, descoberto pelo jornalista americano Lee Penn[3]: no ano de 2000, consta a doação de cerca de US$1 milhão para uma organização chamada United Religions Initiate (URI). A Sillicon Valley Community não é a única organização empresarial que faz doações à URI. Descendo ainda mais os degraus do intrincado mundo oculto das finanças e ongs, encontramos enfim, o fundo falso que há no subterrâneo das relações institucionais vigentes, até nos depararmos com o sinistro significado por trás das belas palavras ditas nas palestras do Sr. Carson.

É possível que Emmett Carson nem desconfie, mas a organização que ele preside faz anualmente doações milionárias para uma organização com objetivos macabros e, como mostrarei a seguir, satãnicos.

A URI é uma organização que busca ter o status da ONU. Suas ideias vem se espalhando pelo mundo desde o século XIX, mas só na década de 1990 é que surgiu como entidade jurídica. Desde então a organização tem arrecadado todos os anos somas milionárias por meio de 72 organizações diretas e mais de 500 Círculos de Cooperação fixados em 167 países[1]. No livro False Dawn, ainda não publicado no Brasil, o jornalista Lee Penn desmembra toda a teia de relações envolvendo essa grande Ong.

Essa organização gigantesca tem entre seus objetivos públicos o relacionamento e a integração entre as várias religiões afim de criar uma “cultura de paz, justiça e igualdade para todos os seres vivos”. Entre as ações propostas pelo grupo para chegar a esse objetivo, Lee Penn lista as seguintes:

1. Limitar a evangelização cristã em nome da promoção interreligiosa da paz;

2. Marginalizar os cristãos conservadores como intolerantes e fundamentalistas;

3. Preparar o caminho para uma nova espiritualidade global que possa acomodar formas mais domésticas das atuais religiões e movimentos espirituais;

4. Promover uma nova “ética global” coletivista;

5. A idéia de que o principal objetivo da religião é a reforma social a serviço de Deus;

6. A idéia de que todas as religiões e movimentos espirituais são iguais, verdadeiros, e igualmente eficazes como caminho para a comunhão com Deus;

7. Controle populacional – especialmente no Terceiro Mundo;

8. Elevar a respeitabilidade de cultos como ocultismo, bruxaria, theosofia, e outras formas discriminadas de religião[2];

A URI foi fundada pelo Bispo episcopal da Califórnia William Swing em 1995 e suas idéias têm atraído um número gigantesco de grupos ativistas, dos mais diversos. Por mais diversos que sejam, entretanto, têm demonstrado uma impressionante capacidade de desarmar conflitos entre eles. Entre os tipos de grupos apoiadores da URI estão:

– Dalai Lama e religiosos apoiadores do regime chinês;

– Pró-gay e anti-gay seguidores da rev. Chinesa;

– Muçulmanos radicais e feninistas radicais;

– Fundações capitalistas e partidos comunistas;

– entidades de George Soros e George W. Bush.

Não é preciso dizer que grupos como estes dificilmente se entendem em suas zonas de influência. Mas a URI tem uma estranha capacidade para agregar acólitos dos mais díspares. Essa propensão à “diversidade para a unidade” demonstrada pela URI, é fruto de uma articulação e conciliação entre diferentes objetivos em comum. Trata-se de um grupo que vê a multiplicidade de religiões como um fator de exclusão e de divisão dos seres humanos. Para minimizar os efeitos nocivos da separação entre as pessoas, a URI milita em uma causa que, em última instância, promove uma religião internacional, uma fé única e universalista a ser imposta para todo o Planeta.

A forma mais fácil de fazer isso, segundo a maioria dos religiosos que pertencem a entidades ligadas a este grande grupo, seria mesclar os conhecimentos adquiridos pelas várias religiões de modo que se crie um “conhecimento único”, uma “multi-fé”, sem dogmas e de um certo modo planetária, que una os homens em uma cultura de paz independente de denominações religiosas. A URI não prega somente um sincretismo religioso tal como o Brasil conhece, nomeadamente, entre catolicismo e umbanda. Busca uma mudança muito mais profunda no entendimento do que seja religião. Mostraremos como, por diversos motivos, a URI trabalha para a extinção de todas as religiões atuais, mediante o esvaziamento do seu conteúdo simbólico, descaracterização de dogmas e desvinculação das almas aos seus lugares de origem, para enfim criar dentro do espírito humano uma necessidade vazia de fé, cuja mais nobre forma reside em uma crença relativista da universalidade e multiplicidade do cosmos.

A origem, porém, deste pensamento, está longe de ter motivações pacíficas e de união das religiões. Entre os principais teóricos orientadores e fundadores de grupos pertencentes a URI estão ocultistas e satanistas como Helena Blavatsky, Alice Bailey, Aleister Crowley, entre muitos outros. E seus continuadores têm relacionamentos tão promíscuos com sociedades secretas (ou meramente discretas) que aliam-se desde a poderosas organizações capitalistas a perigosos grupos revolucionários e comunistas; em todos os países do mundo, sua causa é compartilhada tanto entre partidos de direita quanto de esquerda. Um claro exemplo dessa multiplicidade unitária da URI e de seus tentáculos está na relação próxima que têm com acionistas majoritários das Organizações Ford e ex-dirigentes da KGB, políticos do partido republicano dos EUA e militantes socialistas na América Latina. Essa teia de relações, como veremos, é um emaranhado de convivências tenebrosas entre o pior do conhecimento que o homem já produziu e a tentativa de perpetuação dos maiores erros da humanidade.


[1] www.vivario.org/uri

[2] www.uri.org.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.