Clássico do estudo da opinião pública tem sua primeira edição brasileira

A Espiral do Silêncio, escrito em 1982 pela cientista política alemã, Elisabeth Noelle-Neumann, finalmente ganhou a sua primeira edição brasileira. Publicado pela editora Estudos Nacionais, em Florianópolis (SC), o livro, cujo subtítulo é Opinião pública: nosso tecido social, tornou-se um clássico a partir do estudo feito sobre as pesquisas eleitorais nas eleições gerais alemãs de 1976. Diante da discrepância entre o que diziam as pesquisas de opinião e o resultado final das eleições, a autora empenhou seu instituto a compreender o que havia acontecido. Sua hipótese inicial, chamada de hipótese da espiral do silêncio, era a da influência de outros fatores na tomada de posição política, como a percepção do clima de opinião e o medo do isolamento social.

Não foi a primeira vez que se buscou explicar as opiniões a partir de fatores psicológicos e sociais, mas a pesquisa de Neumann deve seu ineditismo à longa pesquisa que buscou confirmar os limites da sua hipótese, fazendo entrevistas com milhares de pessoas e aliando a isso uma incrível e abrangente revisão teórica sobre o tema da opinião pública, a recorrência histórica da expressão e os sentidos em que foi utilizada. O objetivo foi localizar, na história das teorias que se debruçaram sobre a opinião pública, qual delas melhor se prestava à realidade que estava sendo observada.

Importância e atualidade do tema

É conhecido o poder que têm as pesquisas de intenção de voto na influência do eleitorado, sugestionando-o para a opção que parece vencedora. Em alguns países, a pesquisa de intenções de voto é proibida após determinada data das eleições. Isso vem justamente da percepção do seu potencial uso para gerar uma falsa imagem da opinião pública, o que fatalmente influenciaria na direção de uma espécie de “aposta no vencedor”.

Mas além da pesquisa eleitoral, há uma série de crenças sociais, estigmas e preconceitos, tabus e comportamentos ditos normais, vigentes como normalidade, que produzem a ameaça virtual do isolamento social. Fugir desses estigmas faz parte da conduta de quem quer sobreviver em sociedade, já que o isolamento, para o homem moderno e democrático, representa uma espécie de “morte social”.

Em tempos de politicamente correto, vemos muitas condutas vistas como aceitáveis, enquanto que a crítica ou mera contestação de um comportamento pode pôr a baixo uma reputação.

Uma das observações interessantes feitas pela autora é a de que os jornalistas, já naquela época, alinhavam-se prioritariamente à esquerda, enquanto o público geral era mais conservador (apoiavam o partido da União Cristã Democrata). Isso foi confirmado com a análise subsequente das opiniões do público e confrontado com matérias jornalísticas que, em linhas gerais, priorizavam o ponto de vista socialdemocrata (Partido Socialdemocrata e Liberal).

Traduzido e apresentado pelo jornalista e pesquisador Cristian Derosa, autor de A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda, lançado pela mesma editora, A espiral do silêncio volta a iluminar um tema bastante inconveniente para o mundo democrático: as influências psicológicas e involuntárias na formação da opinião pública, algo ainda visto com certa ressalva por quem prefere acreditar na segurança do modelo democrático.

O livro conta ainda com o prefácio de Alexandre Costa, autor do livro Introdução à Nova Ordem Mundial.

A Espiral do Silêncio – Opinião Pública: nosso tecido social, de Elisabeth Noelle-Neumann, pode ser adquirido no site da Livraria Pius.

Notícias, artigos e estudos sobre a realidade brasileira e o contexto internacional. Selo editorial especializado em comunicação, sociologia e história recente do Brasil.

Silêncio em espiral: o efeito do desconhecimento geral sobre a natureza da opinião pública

“Espiral do Silêncio” se tornou, no Brasil, uma expressão geralmente mal entendida e imprecisa, usada como adjetivo para fenômenos dos mais variáveis e contraditórios, ao sabor de discussões pouco aprofundadas e pautadas pelo desconhecimento do seu significado original. Este é o efeito de dois principais fenômenos: a dificuldade do brasileiro em ler outros idiomas e a ausência de uma edição brasileira da obra original. Este último, felizmente, está sendo remediado.

Para compreender o que, de fato, significa a tese da espiral do silêncio, primeiramente é necessário saber que se trata de um fenômeno, em princípio, natural, que se intensifica com a formação da sociedade de massas e se fortalece quanto mais a integração social, e o consequente medo do isolamento, passam a influenciar na formação das opiniões individuais.

Quase 40 anos depois da sua publicação original, Die Schweigespirale (A espiral do silêncio), escrito pela cientista política Elisabeth Noelle-Neumann, ainda espanta pelo realismo e atualidade da sua análise. Como toda grande descoberta, a tese de Neumann surgiu a partir da surpresa. Um sobressalto diante das discrepâncias entre as pesquisas de intenção de voto, nas eleições, e os votos reais, uma mudança repentina no clima de opinião que tomou o país de assalto às vésperas das eleições alemãs de 1976. Para descobrir o que estaria por trás dessa guinada no último minuto, a autora começou a procurar outros fatores que poderiam influenciar na mudança de opinião dos indivíduos. A sua hipótese, chamada então de espiral do silêncio, era a de que, além do tema das opiniões, as pessoas mantinham sua atenção voltada também ao “clima de opinião” do entorno social. Mas teria, esse clima de opinião, um tamanho poder persuasivo ao ponto de determinar as opiniões finais e, por fim, o voto de um indivíduo? E por que este entorno era assim tão importante? A resposta de Neumann foi confirmada pelo conjunto dos seus estudos: o temor do isolamento social.

Neumann percebeu a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o conceito de opinião pública, empreendendo uma verdadeira jornada pela história do uso da expressão e suas variações de significado, passando por intelectuais que viam a opinião pública como uma força positiva, negativa, irrelevante ou importantíssima. Com isso, visava se aproximar da natureza verdadeira da opinião pública, como apêndice social, força motriz de pressão e reforço, constrangimento e medo, atuante para a determinação de comportamentos e opiniões. Um estudo como este só podia se tornar um clássico do estudo da opinião pública.

O uso desse conhecimento para a manipulação

O uso corrente da expressão “espiral do silêncio”, como sinônimo de manipulação, embora uma imprecisão grosseira, não deixa de conter algum fundamento, mas de forma indireta. Trata-se do seu desenvolvimento mais avançado, pressupondo obviamente a sua compreensão profunda e consequente uso estrutural e generalizado, algo que, em situações normais, seria difícil de se estabelecer. Acontece que, dado o desconhecimento geral desses fatores, somados à pouca tradição do estudo do tema, no caso do Brasil, sobre a natureza da opinião pública e os fatores formadores das opiniões e comportamentos, o estabelecimento de sistemas de manipulação baseados no controle da opinião pública ficam enormemente facilitados.

O Brasil tem pouca tradição de bons estudos na área da opinião pública, exceto algumas valiosas traduções de manuais de propaganda e relações públicas que enfatizam a natureza mais funcional da transmissão de opiniões e do modo como circulam as ideias entre as pessoas na sociedade de massa. Esses só encontraremos em sebos. O que vem sendo lançado, em profusão, são os manuais de transformação social, que mais valem como cartilhas que ensinam a fazer propaganda de ideias através da mobilização social, cultural etc. A verdade é que o Brasil se tornou um “país alvo” para aplicação de itens essenciais das agendas internacionais e isso explica a ausência de bibliografia aprofundada sobre a natureza real da opinião pública, restando apenas manuais elogiosos baseados na crença “funcional” do cidadão esclarecido e emancipado, politicamente “vacinado” contra as manipulações. Há um escasso interesse em difundir, no Brasil, o conhecimento da natureza mais profunda dos fenômenos sociais que não sejam baseado na figura do “cidadão esclarecido”, típico da ideologia democrática.

Por isso, o lançamento, no Brasil, de A espiral do silêncio, vem romper um silêncio de quase 40 anos, sob o qual se construiu um clima propício ao uso de toda sorte de técnicas de propaganda e manipulação, usando o medo do isolamento como combustível ao politicamente correto, além de um aparato midiático voltado à intimidação e constrangimento de qualquer resistência às forças atuantes. Felizmente, além do lançamento da obra, muitas outras mudanças tem ocorrido graças às redes sociais e a internet, por onde ainda podem circular informações essenciais para a verdadeira orientação política necessária a qualquer sociedade que almeje algum conhecimento sobre si mesma.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro "A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)" e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Apenas 10% dos jovens confiam na imprensa no Brasil

Entre os brasileiros de 16 e 24 anos, apenas 10% confiam muito na imprensa, 48% confiam pouco e 41% não confiam absolutamente. O Jornal Folha de São Paulo, divulgador da pesquisa, enfatizou a manutenção de 22% de credibilidade da imprensa entre a população geral. O descrédito entre os mais jovens, porém, demonstra um possível efeito nas eleições e na participação política, já que as redes sociais fizeram aumentar a participação dos jovens na política.

As Forças Armadas continuam sendo a instituição mais confiável do país, com 40%. Já a classe política, assim como a imprensa, caiu bastante em direção ao descrédito popular.

A maior queda de credibilidade foi da presidência da República que, em 2012, tinha 33% de credibilidade e hoje somente 3%. Assim como os partidos políticos, que viram sua credibilidade despencar: 2% da população confiam muito nos partidos, 28% confiam pouco e 68% não confiam nem um pouco nos partidos políticos.

A pesquisa, feita pelo Datafolha, ouviu 2.771 pessoas de 21 a 23 de junho. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos.

Credibilidade da mídia e “fake news”

A credibilidade da imprensa, no Brasil, acompanha uma queda que se verifica há décadas em todo o mundo, desde que o advento da internet balançou o modelo de negócio das grandes empresas jornalísticas, que tiveram que recorrer a outras fontes de financiamento. Antes da internet, a imprensa era financiada pela publicidade impressa, que vinha de grandes empresas e de governos. Desde o final da década de 90, porém, os grandes jornais, ancorados ao modelo impresso, precisaram recorrer ao chamado Terceiro Setor (ONGs), de onde passaram a receber influência também do conteúdo.

Como o Terceiro Setor é essencialmente transformador e não se preocupa em oferecer diferenciais informativos, os jornais foram gradativamente caindo no descrédito. A internet, que passou a se uma alternativa mais sincera à informação, começou a preocupar os jornais. Na esteira das denúncias de manipulação, alguns jornalistas viram a possibilidade de aproveitar o “gancho” do fake news, para descredibilizar a internet, o rival que roubou-lhes o financiamento e a credibilidade informativa.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro "A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)" e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
ministro fachin e relação com jbs PT e CUT

Nomeação de Fachin ao STF teve ajuda da JBS

Ministro Fachin, relator da Lava Jato no STF, admitiu ter pedido ajuda da JBS durante as articulações para sua nomeação para o cargo do Ministro do STF em 2015, segundo informações do jornalista Jorge Bastos Moreno (do jornal O GLOBO).

Segundo o portal Sul21, ao ser procurado para comentar a ligação com Saud, o gabinete de Edson Fachin, relator da Lava Jato, disse que ele não fala sobre casos que estão sob sua relatoria.

A ajuda teria sido solicitada por Fachin ao executivo da JBS Ricardo Saud, era para articulação  junto aos senadores, na prévia da sabatina.

Ricardo Saud é hoje réu na Lava-Jato e assinou delação premiada. Ele era responsável por operacionalizar pagamentos de propina no grupo J&F. Como vêm sendo apurado na Lava-Jato, Saud tem grande envolvimento junto ao mundo jurídico. Nas eleições de 2014, Saud articulou com 100 escritórios de advocacia notas falsas, visando arrecadar recursos para o então ministro do Tribunal de Contas União (TCU), Vital do Rêgo, que na época era candidato a governador da Paraíba pelo PMBD.

Ministro Fachin, nomeação e ligações políticas

Luiz Fachin foi nomeado pela então presidente Dilma em 2015. Havia sido indicado anos antes, pela CUT, para integrar a Comissão da Verdade do Paraná. Fachin foi nomeado logo após a aposentadoria de Joaquim Barbosa. Contou com forte apoio de Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo, ambos petistas do Paraná, estado onde Fachin fez carreira. Também ganhou apoio de Luiz Martinho (PT – ex prefeito São Bernardo do Campo).

Petistas tentaram nomeá-lo pela primeira vez em 2011, mas na época quem foi nomeado foi o Ministro Luis Roberto Barroso.  Fachin também gravou vídeo na época da campanha de 2014 mostrando apoio e pedindo votos a candidatura de Dilma à presidência.

Polêmicas envolvendo Fachin

O ministro criou uma página na internet para responder críticas que vinham circulando na internet desde que uma nota técnica do Senado apontou dupla atividade profissional, quando ocupou cargo de procurador do Estado no Paraná.

Foi descoberto mais tarde por sites de notícias, que o site criado em defesa de Fachin está registrado em nome de Renato Rojas da Cruz, da UNB, que trabalhou na publicadade da campanha presidencial de Dilma Roussef, quando foi chefe de criação de redes sociais. Em apuração pelo O Globo, Rejato Rojas informou que prestou serviço como freelancer para Fachin. O site FachinSim.com.br encontra-se atualmente fora do ar, mas é possível visualizá-lo pelo website Web.Archive.org. por esse link.

O objetivo do site FachinSim era fazer campanha pelo nome de Fachin frente a sabatina que sofreria no Senado, indicando que fossem enviados e-mails com a hashtag #FachinSim. Como dizia o site:

“A nomeação do professor Luiz Edson Fachin ao STF é um importante passo para uma sociedade mais justa. No dia 12 de maio, Fachin será sabatinado pelos senadores, que precisam aprovar a indicação de seu nome para que ele seja nomeado ministro. Portanto, precisamos fazer a nossa parte e dizer aos senadores que votem #FachinSim.”

Fachin e Barroso: nomeações com objetivos revolucionários?

Assim como o site FachinSim apresentava, a nomeação seria um passo importante para uma sociedade mais justa. O conceito de justiça social, como suscita sua ligação com CUT e PT, segue os padrões e compreensões sociais desses grupos.

Fachin e polêmica do apoio à poligamia

Fachin escreveu o prefácio do livro “Da Monogamia: A Superação como Princípio Estruturante do Direito da Família”. Livro de Marcos Alves da Silva. Como cita reportagem do UOL Notícias, seu prefácio foi interpretado por muitos como uma defesa do direito à poligamia, que é vetado pela Constituição. Em um vídeo posterior, Fachin se defende e diz que isso seria uma interpretação equivocada e que ele não defende a poligamia e não defende a desestruturação da família.

Fachin e polêmica de apoio ao MST

Enquanto procurador do Incra e membro da Associação Brasileira de Reforma Agrária, Fachin foi citado algumas vezes como simpatizante da organização dos sem terra. Em vídeo divulgado na internet o ministro se defendeu dizendo que não tem posições radicais e que respeita o direito de propriedade.

Barroso e polêmica de apoio ao aborto

Em 2016, os ministros Barroso, Fachin e Rosa Weber votaram a favor da revogação da prisão preventiva de funcionários de uma clínica de abortos clandestinos, alegando que não consideravam que era crime se praticada a interrupção da gravidez no primeiro trimestre, justificando a decisão com analogia à leis de outros países em que o aborto é permitido. A decisão repercutiu na Câmara dos Deputados, que reagiu criando uma comissão para legislar em sentido contrário ao decidido pelo tribunal. Também acirrou a discussão do ativismo jurídico do STF em prol da questão do aborto. A questão do aborto é rejeitada pela maioria dos deputados na Câmara. Critica-se ainda, que a Constituição Federal dá o poder de legislar ao legislativo.

Independente do que pensam os ministros sobre a questão do aborto essa posição de buscar sua descriminalização parece estar relacionada ao fato dos três ministros terem sido indicados pelo PT e fazer parte do estatuto do PT a obrigatoriedade de buscar a legalização do aborto. No 3º Congresso do PT,  em 2007, foi aprovada a resolução “Por um Brasil de mulheres e homens livres e iguais”, que inclui a “defesa da autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público”. Essa resolução obriga todo filiado a acatar e buscar esse objetivo. O Estatuto impõe inclusive punições em caso de não engajamento a causa. Em 2009, dois deputados petistas (Luiz Bassuma e Henrique Afonso) foram punidos pelo Diretório Nacional do PT. O motivo alegado é que eles “infringiram a ética-partidária ao ‘militarem’ contra resolução do 3º Congresso Nacional do PT a respeito da descriminalização do aborto”.

FRIBOI NO SETOR JUDICIÁRIO BRASILEIRO

O site Poder360 apresenta resumo das recorrentes ligações de Joesley e Wesley Batista com a justiça.

– Relação com juízes: conversa gravada com Michel Temer em 07/03/2017, Joesley alega ter 2 juízes sob controle para travar seus processos.
– Procuradores: no mesmo diálogo, Joesley alegou receber informações sigilosas de procuradores da República.
– Procurador-geral da república: O advogado do grupo JBS, Marcelo Miller era um dos braços direitos de Rodrigo Janot, procurador-geral da República.

 

Informações:

Fachin e suas ligações com PT e JBS – Yahoo notícias

Portal Sul21 – Caso da relação do ministro com a JBS

Jota.Info – Sócio do escritório citado em delação e reu por corrupção

2015: Dilma indica Luiz Edson Fachin como Ministro do STF

Site criado para apoiar Fachin foi desenvolvido por ex-publicitário das campanhas do PT

Fatos sobre Edson Fachin – Wikipedia

Fatos sobre Ministro Barroso e aborto – Wikipedia

Notícias, artigos e estudos sobre a realidade brasileira e o contexto internacional. Selo editorial especializado em comunicação, sociologia e história recente do Brasil.
conservador que dorme a onda leva no Brasil

Conservador que dorme a onda leva

A Democracia é um equilíbrio de poderes que, em termos físicos, poderia ser traduzida mais ou menos como a Terceira Lei de Newton: os poderes forçam e são forçados. As leis promulgadas pelo Legislativo servem de baliza para o Judiciário e Executivo; os atos deste recaem sobre os outros dois, e assim segue a balança democrática. Mas o que vemos hoje no Brasil é justamente o inverso desse equilíbrio, com os três poderes coexistindo numa completa desarmonia, ou melhor, em uma harmonia submetida não a si mesma, mas a um quarto e externo poder, superior à própria Democracia. Logo, Democracia não há.

Assim é que, nesse descompasso, para que houvesse a substituição do mecanismo defeituoso, precisaria haver ainda um quinto poder para que os outros 4 fossem interrompidos, uma vez que o mecanismo está corrompido por inteiro. Ocorre que essa força alternativa é praticamente inexistente no país, porque a única força organizada, ainda que cambaleante, é precisamente a que descalibrou a balança, a saber: o eixo PT-PMDB-PSDB.

Não há organizações conservadoras expressivas. Não há mídia conservadora de grande circulação. Não há partidos conservadores disputando eleições. Não há liderança conservadora organizada dentro dos muros das Igrejas. Não há nada que pudesse substituir o mecanismo defeituoso de imediato. As únicas forças potenciais talvez fossem a família Bolsonaro e a Casa Imperial, mas ambas estão atrasadas em uns bons anos porque não construíram bases políticas que as possibilitassem intervir, imediatamente, no conserto.

Ora, Dilma foi expelida da presidência e o cetro não foi passado ao povo. Temer caminha para a mesma cova e não há registro de que o trono vá receber as nádegas populares. Enquanto isso, a Lava Jato emporcalha um pouco mais a velha carcaça política. Que restará nesse cemitério republicano? A meu ver, duas ossadas: a de Ciro e Marina – e mais a do PSOL. Dar-se-á, portanto, o que se deu na Itália pós Mãos Limpas: de 945 cadeiras do Congresso, 324 foram ocupadas pela antiga esquerda, cuja união gravitou em cima de um esquerdismo repaginado. Das demais, quase todas ficaram com a frente formada por Berlusconi que, dadas as devidas velhacarias, despontara como alternativa para recalibrar a balança italiana.

A conclusão possível é que o Brasil não tem uma solução a curto prazo, porque a única saída seria o Exército bater à porta da Casa Imperial para devolver a nação: “Boa tarde, por obséquio, o Príncipe de Orleans e Bragança se encontra? Viemos restituir o que tomamos”. A chance é remota, evidentemente, então resta-nos apenas clamar pela Divina Providência enquanto tomamos vergonha na cara para fazer aquilo que deveríamos ter feito três décadas atrás: ressuscitar a alta cultura no país. Sim, Olavo tem razão.

Estudante do curso de medicina pela PUC-SP, pesquisador de temas relacionados a saúde, drogas, política e colaborador do site Estudos Nacionais.

José Dirceu, as leis e a opinião pública

A decisão do STF de revogar a prisão do ex-ministro José Dirceu levanta reflexões interessantes a respeito dos limites da lei na sua relação com a opinião pública. Alguns podem objetar da decisão superior alegando os crimes do político. No entanto, os seus defensores também podem acusar os indignados de estarem apenas repetindo ou seguindo um sentimento coletivo, um certo ódio da opinião pública desenvolvido pelo político e estrategista da esquerda continental, o que evidentemente não pode ser levado em conta no trabalho do STF. Este tipo de defesa foi feita, por exemplo, pelo jurista Ives Gandra da Silva Martins, na época da detenção de Zé Dirceu.

As decisões judiciais de fato devem ser independentes do sentimento da nação – ainda mais quando são determinados por lutas políticas – e devem ser a expressão máxima de justiça. No entanto, a ninguém soará como justa a afirmação de que os tribunais precisam estar atentos à opinião pública com o fim de contrariá-las em busca de uma decisão mais justa. Além disso, é evidente que a decisão do STF proporcionará o retorno à ativa de um dos mais perigosos políticos da história recente do Brasil. Logo após a decisão, José Dirceu já afirmou que fará o PT dar uma guinada à esquerda, isto é, retomar os planos do Foro de São Paulo, organização internacional fundada por Lula e Fidel Castro em 1990 e responsável pela subida ao poder de boa parcela de líderes de esquerda na América Latina.

Muitos movimentos e pautas que ensejaram decisões judiciais ou atos legislativos foram e são motivados por discussões que ocorrem no âmbito da opinião pública. E isso é perfeitamente previsível pelo próprio direito quando diz que a lei é reflexo do costume. Deve-se lembrar apenas que costume não é sinônimo de moda, embora o costume possa estar refletido na opinião pública e contar, inclusive, com o reforço de sentimentos morais da sociedade.

Uma reflexão interessante sobre este assunto está no livro A Espiral do Silêncio, que está sendo lançado pela Estudos Nacionais por meio de financiamento coletivo. Vejamos o que diz Elisabeth Noelle-Neumann sobre essa complexa relação entre opinião pública e as leis.

Um exemplo de como os juízes e a administração reagem de modo precipitado diante da pressão da opinião pública manifestada como concepções ou tendências sociais a respeito de determinadas atitudes, é a campanha contra fumar na presença de não fumantes. Por volta de 1975, porém, a campanha havia crescido tanto que algumas medidas administrativas já aconselhavam ou exigiam a proibição de fumar na presença de não fumantes. Um ano antes, 1974, o tribunal regional de Stuttgart, discordando de sentenças anteriores, concluiu que fumar no interior de um taxi era uma demonstração de falta de respeito com o taxista. A situação culminou com a afirmação do Tribunal Superior Administrativo de Berlim de que os fumantes eram “perturbadores do ponto de vista legal”. Joseph Kaiser, jurista de Friburgo, fez o seguinte comentário: “De repente, sem mais nem menos, o fumante foi relegado a uma categoria definida para efeitos policiais, ou seja, daqueles que se tornaram caso de polícia por representarem um perigo social bem definido. É submetido, portanto, às piores consequências legais. A única condição necessária para fundamentar essa afirmação seria uma prova de que fumantes constituem uma ameaça clara aos não fumantes. Mas isso é precisamente o que não possuímos” (Kaiser, 1975, 2236). Como esta resolução legal foi produzida, neste caso, sem basear-se no uso de provas empíricas, podemos considera-la um processo exclusivo de opinião pública. O comentarista emprega, acertadamente, uma expressão relacionada à moda quando diz que a proteção dos não fumantes está “em voga”.

O livro de Noelle-Neumann foi publicado originalmente em 1977. Os primeiros relatórios científicos que apontavam para os riscos do chamado “fumante passivo” foram publicados alguns anos após as decisões judiciais mencionadas. A pesquisa de A Espiral do Silêncio mostra que antes do surgimento de fundamentações científicas, aquilo que hoje conhecemos como luta antitabagista já se verificava como processo de opinião pública, o que nos faria acrescentar algumas perguntas à questão, como se incluiríamos ou não a ciência no campo das esferas sociais arbitrariamente definidas pela opinião pública, além do âmbito da lei, como ressalta a autora.

Assim, também a questão do aborto, outro tema analisado historicamente em A Espiral do Silêncio, avançou gradativamente no Brasil e no mundo, por meio da influência das pesquisas de opinião na visão que juristas e legisladores acabaram formando suas opiniões sobre o tema.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro "A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)" e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

A direita cresce a olhos vistos

Já não é possível negar. As redes sociais são de direita. A esquerda treme e tenta, por meio do aparato político, conter a maré e impor censura, mas ao que parece, as consciências não estão ao seu alcance.

Um relatório publicado no início de março pela ePoliticSchool (EPS), mostra que o número de interações (curtidas e compartilhamentos) em páginas de direita chegou a 14,7 milhões no período, mais que o dobro dos 7,1 milhões registrados em páginas de esquerda. A pesquisa, realizada em 150 páginas de influenciadores, mídia, políticos e partidos, apontou também que 60,5% dos fãs das páginas analisadas eram ligados a correntes de direita.

O relatório fornece uma importante fonte de observação da evolução dos debates no Brasil, principalmente em um momento de ferrenha luta política que se inicia nas redes e acaba despontando para o mundo real.

Apesar de toda a tentativa de caracterizar os opositores da esquerda como militaristas, autoritários, fascistas ou disseminadores de ódio, o número de pessoas que se identificam com rótulo da direita ou conservadores tem crescido no Brasil, principalmente entre os mais jovens.

A única maneira de negar isso é fechando os olhos, como a maior parte da mídia tem feito. No entanto, a matéria recente do Estadão não deixa dúvidas para aqueles que precisam do aval da grande imprensa para acreditar em alguma coisa.

A mudança no padrão de posições políticas no Brasil está sendo impulsionado pelas redes sociais, a partir dos protestos que crescem desde 2013, no país, e culminaram com o Impeachment, em 2016. Longe de ser um movimento exclusivamente virtual, essa nova direita questiona a hegemonia da esquerda construída ao longo das últimas décadas e que abrange a cultura, o meio intelectual e consequentemente a política. Essa direita identifica claramente a corrupção do sistema político à presença histórica de movimentos e políticos de esquerda.

Principalmente entre os mais jovens, cresce um interesse por conhecimento das causas do problema e das possíveis soluções. O fato mais relevante apontado pelas pesquisas nas redes sociais é justamente a perda da vergonha de se dizer de direita ou conservador, em um país onde o termo direitista sempre foi facilmente relacionado a fascista e até nazista, devido a hegemonia cultural da esquerda.

Movimentos que se dizem conservadores surgem inicialmente com o anti-petismo, evoluindo a posturas liberais e por fim conservadoras, motivadas por um outro movimento em direção a um retorno da espiritualidade cristã, em correntes mais conservadoras e tradicionais, que também defendem uma mudança na feição atual da Igreja Católica no Brasil, histórica apoiadora da esquerda e uma das instituições por trás da fundação do PT.

Leia o relatório completo da EpoliticSchool

OBS.: Evidentemente, utilizamos aqui os termos direita e esquerda de modo mais genérico e um ângulo de visibilidade de maior abrangência possível para fins de demonstrar uma evidente tendência.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro "A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)" e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

O fantasma militar-policial e os obstáculos à inteligência brasileira

NOTA: Talvez este artigo soe inoportuno. Em uma época dominada pela esquerda, pode parecer impróprio criticar um pensamento tipicamente de direita, mas é antevendo o uso das fragilidades da mentalidade brasileira pela esquerda que arremeto contra o chavão, inimigo numero um da inteligência de qualquer cor.

Que brasileiro nunca disse ou no mínimo ouviu repetirem que todo político é bandido e que bandido bom é bandido morto. Parece que desde Floriano Peixoto, que fuzilou centenas de opositores, estas frases estão impressas na alma do brasileiro. É possível que a partir da Proclamação da República o brasileiro tenha desenvolvido uma adoração pela força bruta institucional, especialmente quando se trata da do braço forte e mão amiga das FFAA, força policial ou estatal por meio dos santos tentáculos do Poder Judiciário. Embora isso possa estar adormecido por décadas de antimilitarismo e ideologias anti policiais expressas pela mídia esquerdista, essas ideias aparecem de modo permanente na cultura brasileira.

A ideologia policial é o pensamento mais característico no Brasil. Manifesta-se em frases feitas e chavões que têm em comum um certo purismo moral, não raro aplicado seletivamente. Estes pensamentos aparecem de modo caótico no senso comum espalhados pelo país, movidos por uma sensação geral de injustiça. É como uma força quase física que atua no território nacional empurrando cada consciência a ignorar toda reflexão e sucumbir à lógica aparentemente irresistível dos lugares comuns.

Toda incomodidade diante da tensão entre oposições que geram alguma complexidade parece ser aliviada pela repetição dos chavões policialescos, onde o anseio punitivo parece manter certa coesão das personalidades. A sensação de injustiça, impunidade, é remediada pela convicção e certeza do funcionamento das instituições nacionais.

A ideologia policialesca brasileira é estatista em sua base. Possui brutal confiança no aparato jurídico e da aplicação da lei como garantia de realização da utopia do progresso, do rumo certo ao desenvolvimento nacional, o que só se dará por meios essencialmente materiais, não sem o efeito catalizador da moralidade pública.

A corrupção, para o brasileiro, é o grande inimigo da nação. Um monstro que devora e impede o predestinado progresso.

Desde a campanha do “Petróleo é nosso”, passando pelo medo da cobiça estrangeira da Amazônia, até a novíssima faceta da redemocratização da Terceira República, culminando com a luta contra o monstro da inflação, a caça aos marajás, etc. A ascensão da esquerda só não foi e não será completa enquanto bater de frente com essa ideologia popular. E ai está o grande perigo. Uma esquerda policialesca e militarista poderá ser a nossa ruína.

O Brasil foge da sua própria imagem como o diabo da Cruz. Nega a realidade da sua herança portuguesa na cultura ao passo que a vive e revive nos piores detalhes da política. Raymundo Faoro, no clássico da sociologia brasileira Os donos do poder, faz um diagnóstico incrivelmente realista da estrutura mental do brasileiro ao remontar à origem do estado português, no qual a ligação entre os reis e a terra fazia da sociedade um imenso rebanho de súditos fiéis. O paternalismo estatal é herdeiro da fidelidade monárquica que, embora o período imperial tenha tentado dissolver em um parlamentarismo, acabou se potencializando ao longo da República da Espada, a Velha, a Nova, a Terceira…

Todo o paternalismo republicano brasileiro vem do direito divino dos reis, que nos foi legado tão fortemente, justo por nunca ter sido vencido ou mesmo combatido no campo das idéias (campo aliás sem nenhuma tradição no país). O resultado é uma espécie de superstição estatista, na qual o poder é tanto mais venerado quanto mais desconhecida a sua origem. Perdida nos labirintos da história mental do Brasil, o poder que esteve tradicionalmente ligado á propriedade é alienado para a posse total do país e o culto revertido aos donos do poder encastelados no trono da alma brasileira.

A grande fonte de confusão política no Brasil parece ser a dúvida silenciosa: afinal, a quem pertence o país por direito? Os populistas e os oligarcas tentaram substituir o velho direito dos reis expropriados. A neurótica vontade de inventar o futuro por meio da ideologia do progresso parece ter sido o fruto dessa culpa por termos exilado o passado e, com ele, o Brasil de si mesmo. O Brasil é um país que nega e foge de si, a começar pela alegria do carnaval que tenta esconder a nossa natural tristeza portuguesa. Enquanto a beleza da herança cultural é negada, a consequência política dela permanece neurotizadamente presente.

Mas a visão do estado e do bem comum tornou-se supersticiosa e puritana. O político tornou-se aos poucos o símbolo da ineficácia e da corrupção. Com ele, a política, o debate e a própria inteligência. Assim, independe qualquer esforço de conciliação, pois embora o pragmatismo tenha sido o nosso poder moderador de acordo com Paulo Mercadante, permanece a rude revolta em favor do rei absoluto no subsolo moral de nossa consciência. E nesta, um puritanismo moralizante e autoritário tem lugar de teologia política, um sentimento de justiça a qualquer custo.

Uma vertente deste pensamento que coloca o mal no objeto e não na mão que o maneja, é aquele que busca contrapor-se ao demonizar o homem. O erro é o mesmo da superstição que vê no errante o erro, no pecado o demônio, no gato o azar. E por fim, no político vê a corrupção em forma de gente. Ou ainda no bandido individual vê toda a criminalidade que deve ser extirpada. A execução é a resposta mais óbvia para este tipo de lógica.

É ai que encontra paralelos assustadores com a mentalidade revolucionária. Embora os comunistas tenham no mundo se travestido de pacifistas e militantes de direitos humanos, seu intuito é e sempre será sanguinário. Mas o direitista brasileiro pode acabar optando pela via do fascismo stalinista sem perceber, como resposta ao disfarce pacifista dos nacional-socialistas do PT.

Na dúvida, clama pelas Forças Armadas, intervenção militar. Para isso, clama em caixa alta, em gritos e palavras de ordem. Ordem e progresso. O policialesco brasileiro não ama a sociedade brasileira, mas tudo aquilo que historicamente tentou se passar por ela. É isso que vê nas cores verde e amarelo.

Foi esta bandeira verde e amarela que exilou o Imperador e instituiu o golpe da República a partir de uma ditadura militarista que executou inimigos e por pouco não decapitou o próprio Dom Pedro como na França, é o que gostaria de ter feito o jacobino Floriano Peixoto. Não foi a mesma bandeira cultuada antes, aquela cujo verde representa a casa dos Bragança e o amarelo, os Habsburgo. O estado brasileiro precisou exorcizar a sua origem para poder reconstruir uma sociedade à sua imagem e semelhança.

A pior e mais atual consequência desta ideologia é a aposta nas instituições e na insistência em colocar todas as soluções nas mãos do estado, cujo instrumento para efetivá-las só pode ser a reunião de mais poderes. O nacionalismo, dizia Lênin, embora inimigo do socialismo, reúne incrível “reserva de energia revolucionária”, que pode ser usada quando for necessário. Mesmo que o nacionalismo brasileiro no fundo não exista, essa caricatura de nacionalismo com cores militaristas e estatistas, sempre foi suficiente para a submissão da sociedade aos que usurparam o poder. Não podemos esperar outra coisa de um país que foi erguido em gabinete.

Se não gostamos de socialistas que defendem bandidos utilizando os direitos humanos, não vamos querer estar aí para vermos os socialistas militaristas e policialescos colocando políticos nos paredões mais sanguinários em nome da soberania nacional, do estado forte e da mão amiga.

Pesquisador independente e tradutor, escreve e coordena pesquisas para o site EstudosNacionais.com. Desenvolve projetos editoriais na editora Estudos Nacionais e Livraria Pius.

Princípios e problemas do conservadorismo no Brasil

Muitos enchem a boca pra falar em conservadorismo como se fosse uma instituição doutrinal sólida e de valores perfeitamente compreensíveis e aplicáveis. Isso não se aplicaria principalmente no Brasil, sendo mais comum e previsível a deturpação de virtudes em aparência de virtudes, conhecimento em aparência de conhecimento, etc. Sem a pretensão de apontar caminhos salvadores, no programa veiculado pela RADIO VOX no dia 25 de janeiro, falo sobre as potenciais dificuldades que o brasileiro encontra e encontrará para compreender o que é uma conduta politica conservadora.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro "A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)" e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Ciência e ideologia II: A meta aberta da ‘teoria de gênero’

Trans-symbols_810_500_s_c1Chamar a Ideologia de Gênero de teoria faz parte de uma daquelas estratégias discursivas que colocam uma militância política no patamar científico, aproveitando-se do fetichismo que a ciência goza desde o início da modernidade e que hoje vemos potencializado pela constante exposição midiática dos avanços tecnológicos.

Lembremos dos elementos ideológicos expostos na postagem anterior — situação, problema e solução — para compreendermos a estrutura dessa ideologia.

Para os defensores da Ideologia de gênero, todos são obrigados a aceitar a crença inicial da situação social proposta: a de que os homossexuais e outras formas de sexualidade não convencionais estão sendo massacrados em uma onda de violência motivada por valores vigentes que produzem discriminação e preconceito. Estas duas últimas palavras, que são parte do problema, não são conceituadas nem explicadas, deixando-as livres para o entendimento popular. Essa brecha de liberdade interpretativa é como uma jogada caótica, em que se aposta na multiplicidade de entendimentos para justificar juízos e reivindicações totalmente arbitrárias. Assim alega-se falsamente estar em defesa de liberdades individuais.

maxresdefaultJudith Butler (foto), principal divulgadora da ideologia de gênero, conceitua gênero como o seu comportamento. Isso mesmo. Ela utiliza Nietzschie, que dizia não haver o “ser” mas apenas o “fazer”. Imaginem se alguém vai se definir pelo que fez ou faz, independente de ter feito certo ou errado. Esta ideia parte de um princípio relativista liberal no qual a consciência individual, certa ou errada, é legítima e fatalmente todos os crimes podem ser incentivados. isso mostra como deixar um conceito inexplicado se tornar senso comum pode tornar a interpretação algo incontrolável.

Mas não é só este conceito que goza dessa indefinição proposital.

Fim dos direitos

O alegado objetivo político dessa ideologia, isto é, sua meta, seria o “avanço dos direitos”. Como sempre, não define o que é direito, que na verdade significa um dever do estado. O dever do estado, neste caso, seria assegurar a liberdade de auto-definição sexual, pessoal, íntima, de cada indivíduo de acordo com o que ele sente que é. Se o que ele é depende do que ele faz ou deseja fazer, significa que ele é prisioneiro dos seus erros ou acertos e, portanto, não há liberdade de consciência já que a consciência não é mais livre para ir contra o seu comportamento. Por isso, o efeito prático dessa ideologia é o fim da liberdade individual e, portanto, da possibilidade de igualdade ou garantia de direitos. Isso significa que o seu efeito prático é exatamente oposto ao objetivo alegado.

Globalismo

Engana-se quem acusa a Ideologia de Gênero de querer unicamente destruir a família por meio da moral sexual. Esta é uma simplificação grosseira que pode servir para caracterizar a militância mais burra que geralmente trabalha neste nível. A meta do globalismo por meio dessa ideologia é domesticar nossos conceitos para as construções políticas e sociais maleáveis, colocando o poder das definições mais elementares nas mãos dos globalistas, representados por comunidades científicas eleitas e influentes na mídia.

Com este poder, poderá redefinir não só o conceito de família mas o de ser humano, uma luta cara aos defensores do aborto, mas também a todos aqueles que propõem flexibilizar leis que protegem a vida humana. Mas esta é apenas uma das aplicações possíveis da conquista do poder nas definições de valores. Afinal, sabemos que a proteção ou sacralização da vida humana sempre foi um importante obstáculo para o avanço de todo tipo de controle social, assim como muitos outros valores morais que atrapalham este progresso técnico e científico que miseravelmente busca a satisfação de utopias globais anti-humanas.

Quando todos os valores forem transferidos para as mãos de legisladores, estes terão o poder de dirigir totalmente o curso da civilização humana na direção que bem entendem. Isso só é possível opondo-se à compreensão antiga de que há algo dado na natureza, isto é, que escapa do poder de alteração humana.

A natureza humana, assim, poderá ser redefinida por maioria de votos.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro "A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)" e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.