Cura para o fake news: como funciona a guerra da informação

Manchetes da última semana chegaram a contradizer objetivamente a realidade, dando exemplo de uma manipulação intencional e ideológica contra a atividade profissional dos psicólogos e, principalmente, às custas do sofrimento de seus pacientes. O que o jornalismo tem a ver com isso?

A grande mídia brasileira foi responsável, nessa semana, por mais um episódio do grande ‘case de fake news‘: a chamada”cura gay”. A expressão surgiu há alguns anos para caracterizar o projeto de lei que possibilitava o tratamento psicológico de homossexuais que desejassem deixar de sê-lo, o que vinha sendo proibido por órgãos como o Conselho Federal de Psicologia, sob acusação de preconceito. O assunto morreu por algum tempo, enquanto o projeto permanece parado. Voltou a partir de uma ação popular impetrada contra o CFP, e da liminar de um juiz permitindo o tratamento de homossexuais que tivessem interesse.

Mas na última semana, as manchetes chegaram, em diversos casos, a contradizer objetivamente o que de fato ocorreu, mostrando claramente, como que em um exemplo didático, como é feita a guerra da informação por meio do fake news.

O tratamento dado pela mídia acaba sendo um preconceito com as pessoas homossexuais que se encontram em estado de sofrimento com a sua condição. Em nome de uma agenda de “orgulho gay”, a imprensa age de modo irresponsável promovendo mais sofrimento a essas pessoas e negando-lhes o direito de serem tratadas como gostariam.

A alegação central, manifestada em muitos títulos e manchetes da mídia, acusa a decisão de considerar o homossexualismo uma doença que precisa ser curada. Esquecem que quem falou em “cura” foram eles, justamente na tentativa de acusar quem quer que falasse no assunto de preconceituoso. Uma manobra que revela o modo de ação das milícias ideológicas espalhadas pelas redações.

Vejamos os títulos das matérias de cada grande jornal, lembrando que o título é um excelente termômetro do viés midiático, uma vez  que ele permite discernir o tom e a ideia central que o veículo quer imprimir na mente do público.

O tempo – Justiça Federal permite tratar homossexualidade como doença
Veja – Justiça permite tratar homossexualidade como doença
G1 – Justiça gera polêmica: permite tratar homossexualidade como doença
Folha – Justiça concede liminar que permite tratar homossexualidade como doença
F5 – Famosos se manifestam contra a decisão de tratar homossexualidade como doença
Estadão – Juiz libera cura gay por psicólogos

O uso do termo “cura gay” também foi encontrado em diversos veículos, tentando passar a ideia de que a decisão judicial seria preconceituosa e discriminatória:

Época(Globo) – Cura gay: “Reorientar gays é como embranquecer negros contra o preconceito”, diz psicólogo
Correio Braziliense – Ex-alunos de juiz que permitiu cura gay criticam posicionamento do docente

Mas o que diz a decisão do juiz?

O juiz teve o cuidado de declarar em sua decisão que: “a homossexualidade constitui variação natural da sexualidade humana, não podendo ser, portanto, considerada como condição patológica” (grifo nosso).  Portanto, a decisão judicial que motivou o fenômeno midiático, começa mostrando claramente que NÃO cabe falar em “cura gay” ou “homossexualidade enquanto doença”.

A ação foi movida para atender o anseio de pessoas que são homossexuais ou estão confusas e desejam ter auxílio psicológico. Contudo, devido a uma resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP), os psicólogos estavam impedidos de auxiliar esse pacientes.

Por isso, a decisão judicial foi enfática e pontual ao deliberar que não se pode “privar o psicólogo de estudar ou atender àqueles que, voluntariamente, venham em busca de orientação acerca de sua sexualidade, sem qualquer forma de censura, preconceito ou discriminação”. Ou seja, a decisão visa dar um direito aos homossexuais que desejam ter esse tipo de tratamento.

Apesar disso, a esmagadora maioria das manchetes, no início dessa semana, dizia o contrário. Como é o caso da matéria da Exame, no dia 18, redigita como: Justiça do DF permite tratar homossexualidade como doença

 

Artilharia de Fake news perde terreno e dá o braço a torcer

Após gerar grande polêmica na internet, muitas pessoas foram até a decisão judicial e perceberam que a mídia estava forçando a barra. Até mesmo gays, ex-gays e transexuais se manifestaram na internet mostrando que as manchetes estavam completamente fora de contexto. Assim, alguns dias depois do estouro das manchetes, começaram a surgir matérias em grande sites de notícia amenizando o tom e contando com alguma objetividade.

Exame (21/09): Juiz diz que decisão não trata homossexualidade como doença
UOL (21/09): Juiz que autorizou “cura gay” diz que decisão teve interpretação “equivocada”
Diário de Pernambuco: ‘Cura gay’: Juiz afirma que em ‘nenhum momento’ considerou homossexualidade como doença

Fake News e guerra informativa

O funcionamento da mentira, no jornalismo, conta com uma excelente estrutura de justificativas. Os jornais se sentem muito à vontade para afirmar que reportaram “a primeira impressão” e, com isso, repercutir a parte mais sensacionalista, isto é, mais apelativa de um fato. Depois, feito o estrago, trata de aprofundar a questão, dando ares de objetividade e análise crítica. Obviamente, o efeito disso é que, na segunda fase, o público já perdeu o interesse pelo assunto, ficando apenas a sensação inicial, do escândalo da primeira impressão. Esse processo formata, na opinião pública, uma imagem do fato e dos envolvidos, um estereótipo, como diria Lippmann, que em futuras referências ao tema, voltará com toda a força, motivado pela necessidade de simplificação dos personagens e fatos.

Daqui há seis meses, quando por algum motivo os jornais voltarem ao assunto, os leitores recorrerão à imagem mais simplificada da questão, motivados a encaixá-la em um novo episódio da narrativa dada, e não à expressão mais complexa e objetiva do final da cobertura, que seria mais difícil articular. A simplificação, como vemos, é a chave da manipulação e gera uma adequação do leitor à mensagem simplificada e estereotipada, o que facilita todo o processo.

É fácil, portanto, justificar tudo isso como sendo parte da atividade jornalística, o que de fato é verdade. Isso porque os jornalistas internalizaram a técnica e o processo e conseguem usá-lo para os fins da sua agenda ideológica e gostos particulares.

As agendas internacionais se tornaram pauta jornalística garantida desde o final dos anos 1990, quando a atividade jornalística precisou do aporte financeiro do chamado Terceiro Setor, vendo-se refém não mais de venda de produtos dos seus anunciantes, mas da venda das ideias da rede global de ONGs pelo mundo. É o que chamam globalização da comunicação.

 

Colaborou: Marlon Derosa

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Clássico do estudo da opinião pública tem sua primeira edição brasileira

A Espiral do Silêncio, escrito em 1982 pela cientista política alemã, Elisabeth Noelle-Neumann, finalmente ganhou a sua primeira edição brasileira. Publicado pela editora Estudos Nacionais, em Florianópolis (SC), o livro, cujo subtítulo é Opinião pública: nosso tecido social, tornou-se um clássico a partir do estudo feito sobre as pesquisas eleitorais nas eleições gerais alemãs de 1976. Diante da discrepância entre o que diziam as pesquisas de opinião e o resultado final das eleições, a autora empenhou seu instituto a compreender o que havia acontecido. Sua hipótese inicial, chamada de hipótese da espiral do silêncio, era a da influência de outros fatores na tomada de posição política, como a percepção do clima de opinião e o medo do isolamento social.

Não foi a primeira vez que se buscou explicar as opiniões a partir de fatores psicológicos e sociais, mas a pesquisa de Neumann deve seu ineditismo à longa pesquisa que buscou confirmar os limites da sua hipótese, fazendo entrevistas com milhares de pessoas e aliando a isso uma incrível e abrangente revisão teórica sobre o tema da opinião pública, a recorrência histórica da expressão e os sentidos em que foi utilizada. O objetivo foi localizar, na história das teorias que se debruçaram sobre a opinião pública, qual delas melhor se prestava à realidade que estava sendo observada.

Importância e atualidade do tema

É conhecido o poder que têm as pesquisas de intenção de voto na influência do eleitorado, sugestionando-o para a opção que parece vencedora. Em alguns países, a pesquisa de intenções de voto é proibida após determinada data das eleições. Isso vem justamente da percepção do seu potencial uso para gerar uma falsa imagem da opinião pública, o que fatalmente influenciaria na direção de uma espécie de “aposta no vencedor”.

Mas além da pesquisa eleitoral, há uma série de crenças sociais, estigmas e preconceitos, tabus e comportamentos ditos normais, vigentes como normalidade, que produzem a ameaça virtual do isolamento social. Fugir desses estigmas faz parte da conduta de quem quer sobreviver em sociedade, já que o isolamento, para o homem moderno e democrático, representa uma espécie de “morte social”.

Em tempos de politicamente correto, vemos muitas condutas vistas como aceitáveis, enquanto que a crítica ou mera contestação de um comportamento pode pôr a baixo uma reputação.

Uma das observações interessantes feitas pela autora é a de que os jornalistas, já naquela época, alinhavam-se prioritariamente à esquerda, enquanto o público geral era mais conservador (apoiavam o partido da União Cristã Democrata). Isso foi confirmado com a análise subsequente das opiniões do público e confrontado com matérias jornalísticas que, em linhas gerais, priorizavam o ponto de vista socialdemocrata (Partido Socialdemocrata e Liberal).

Traduzido e apresentado pelo jornalista e pesquisador Cristian Derosa, autor de A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda, lançado pela mesma editora, A espiral do silêncio volta a iluminar um tema bastante inconveniente para o mundo democrático: as influências psicológicas e involuntárias na formação da opinião pública, algo ainda visto com certa ressalva por quem prefere acreditar na segurança do modelo democrático.

O livro conta ainda com o prefácio de Alexandre Costa, autor do livro Introdução à Nova Ordem Mundial.

A Espiral do Silêncio – Opinião Pública: nosso tecido social, de Elisabeth Noelle-Neumann, pode ser adquirido no site da Livraria Pius.

Notícias, artigos e estudos sobre a realidade brasileira e o contexto internacional. Selo editorial especializado em comunicação, sociologia e história recente do Brasil.

Por que existem campanhas como setembro amarelo, outubro rosa, novembro azul

Agora, elegeu-se o mês de setembro como mês da prevenção ao suicídio. Todos os anos existe o Outubro Rosa, Novembro Azul, entre outros. Mas o que faz com que se faça tanta publicidade com campanhas de prevenção a doenças como estas? O cidadão comum tem a impressão de que há uma onda global de benevolência e filantropia, com o fim de ajudar e proteger as pessoas. Na verdade, trata-se de campanhas de agendamento de pensamento, um tipo de engenharia social que nos diz o que pensar em determinados períodos. É claro que, nesses meses, pensamos sobre outros assuntos. Mas nossa mente estará preparada para encarar aqueles temas elencados como os mais relevantes frente a qualquer outro. Mas quem está por trás disso?

Isso aconteceu devido a mudança no padrão da função dos meios de comunicação ditos informativos. O jornalismo deixou de ser informativo para enfatizar a transformação social (conforme apontei no livro A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda). Com o advento da internet, o bolo publicitário das empresas jornalísticas teve que ser dividido. Empresas menores puderam padronizar seus ganhos somente pela internet. Mas as maiores ficaram mais tempo ancoradas no modelo de negócio ligado ao jornal impresso e, durante a década de 1990, tiveram que buscar novas fontes de financiamento. A primeira opção era um setor que vinha crescendo, o Terceiro Setor: as ONGs (Organizações Não-Governamentais). As ONGs são conhecidas por militar por causas diversas. Há uma ONG para cada causa. Mas esse setor enriqueceu com a doação de milionários como Bill Gates, Fundação Ford, Rockefeller e, mais recentemente, Mark Zuckerberg. Esses são os nomes que estão, de fato, por traz daquilo que você encara como prioridade de pensamento quando se baseia no critério midiático, seja impresso e tradicional ou de internet, em nossos dias.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
lançamento de a espiral do silêncio de elizabeth noelle-neumann

Em fase final, edição histórica de A espiral do silêncio será finalizada em agosto

O lançamento oficial da primeira edição de A Espiral do Silêncio, no Brasil, previsto para o mês de agosto, ocorrerá sem grandes atrasos. Os livros serão encaminhados aos compradores entre a última semana de agosto e início de setembro.

Apesar de não ter sido plenamente atingida a meta do financiamento coletivo (50%), o lançamento está confirmadíssimo, e agradecemos, desde já, a todos os colaboradores por tornar possível esse lançamento histórico.

Aos que ainda não colaboraram, ainda há tempo. A campanha ficará aberta até o dia 20 de agosto. Para quem quiser ter seu nome nos agradecimentos, a colaboração fica disponível somente até 12 de agosto, quando será finalizada a editoração do impresso.

Saiba mais sobre a importância do livro A espiral do silêncio para o estudo da sociedade brasileira

Notícias, artigos e estudos sobre a realidade brasileira e o contexto internacional. Selo editorial especializado em comunicação, sociologia e história recente do Brasil.

Silêncio em espiral: o efeito do desconhecimento geral sobre a natureza da opinião pública

“Espiral do Silêncio” se tornou, no Brasil, uma expressão geralmente mal entendida e imprecisa, usada como adjetivo para fenômenos dos mais variáveis e contraditórios, ao sabor de discussões pouco aprofundadas e pautadas pelo desconhecimento do seu significado original. Este é o efeito de dois principais fenômenos: a dificuldade do brasileiro em ler outros idiomas e a ausência de uma edição brasileira da obra original. Este último, felizmente, está sendo remediado.

Para compreender o que, de fato, significa a tese da espiral do silêncio, primeiramente é necessário saber que se trata de um fenômeno, em princípio, natural, que se intensifica com a formação da sociedade de massas e se fortalece quanto mais a integração social, e o consequente medo do isolamento, passam a influenciar na formação das opiniões individuais.

Quase 40 anos depois da sua publicação original, Die Schweigespirale (A espiral do silêncio), escrito pela cientista política Elisabeth Noelle-Neumann, ainda espanta pelo realismo e atualidade da sua análise. Como toda grande descoberta, a tese de Neumann surgiu a partir da surpresa. Um sobressalto diante das discrepâncias entre as pesquisas de intenção de voto, nas eleições, e os votos reais, uma mudança repentina no clima de opinião que tomou o país de assalto às vésperas das eleições alemãs de 1976. Para descobrir o que estaria por trás dessa guinada no último minuto, a autora começou a procurar outros fatores que poderiam influenciar na mudança de opinião dos indivíduos. A sua hipótese, chamada então de espiral do silêncio, era a de que, além do tema das opiniões, as pessoas mantinham sua atenção voltada também ao “clima de opinião” do entorno social. Mas teria, esse clima de opinião, um tamanho poder persuasivo ao ponto de determinar as opiniões finais e, por fim, o voto de um indivíduo? E por que este entorno era assim tão importante? A resposta de Neumann foi confirmada pelo conjunto dos seus estudos: o temor do isolamento social.

Neumann percebeu a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o conceito de opinião pública, empreendendo uma verdadeira jornada pela história do uso da expressão e suas variações de significado, passando por intelectuais que viam a opinião pública como uma força positiva, negativa, irrelevante ou importantíssima. Com isso, visava se aproximar da natureza verdadeira da opinião pública, como apêndice social, força motriz de pressão e reforço, constrangimento e medo, atuante para a determinação de comportamentos e opiniões. Um estudo como este só podia se tornar um clássico do estudo da opinião pública.

O uso desse conhecimento para a manipulação

O uso corrente da expressão “espiral do silêncio”, como sinônimo de manipulação, embora uma imprecisão grosseira, não deixa de conter algum fundamento, mas de forma indireta. Trata-se do seu desenvolvimento mais avançado, pressupondo obviamente a sua compreensão profunda e consequente uso estrutural e generalizado, algo que, em situações normais, seria difícil de se estabelecer. Acontece que, dado o desconhecimento geral desses fatores, somados à pouca tradição do estudo do tema, no caso do Brasil, sobre a natureza da opinião pública e os fatores formadores das opiniões e comportamentos, o estabelecimento de sistemas de manipulação baseados no controle da opinião pública ficam enormemente facilitados.

O Brasil tem pouca tradição de bons estudos na área da opinião pública, exceto algumas valiosas traduções de manuais de propaganda e relações públicas que enfatizam a natureza mais funcional da transmissão de opiniões e do modo como circulam as ideias entre as pessoas na sociedade de massa. Esses só encontraremos em sebos. O que vem sendo lançado, em profusão, são os manuais de transformação social, que mais valem como cartilhas que ensinam a fazer propaganda de ideias através da mobilização social, cultural etc. A verdade é que o Brasil se tornou um “país alvo” para aplicação de itens essenciais das agendas internacionais e isso explica a ausência de bibliografia aprofundada sobre a natureza real da opinião pública, restando apenas manuais elogiosos baseados na crença “funcional” do cidadão esclarecido e emancipado, politicamente “vacinado” contra as manipulações. Há um escasso interesse em difundir, no Brasil, o conhecimento da natureza mais profunda dos fenômenos sociais que não sejam baseado na figura do “cidadão esclarecido”, típico da ideologia democrática.

Por isso, o lançamento, no Brasil, de A espiral do silêncio, vem romper um silêncio de quase 40 anos, sob o qual se construiu um clima propício ao uso de toda sorte de técnicas de propaganda e manipulação, usando o medo do isolamento como combustível ao politicamente correto, além de um aparato midiático voltado à intimidação e constrangimento de qualquer resistência às forças atuantes. Felizmente, além do lançamento da obra, muitas outras mudanças tem ocorrido graças às redes sociais e a internet, por onde ainda podem circular informações essenciais para a verdadeira orientação política necessária a qualquer sociedade que almeje algum conhecimento sobre si mesma.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
medida provisoria administradora de cartão

Nova lei possibilita descontos para compras em dinheiro

A partir desta terça-feira (27/06/2017), o comércio está autorizado, em todo o Brasil, por força de lei, a conceder descontos se o pagamento for em dinheiro.

Trata-se de uma medida para dar mais liberdade ao mercado. Antes dessa medida, comerciantes não podiam dar descontos em suas vendas para pagamento em dinheiro se o estabelecimento tivesse contrato ativo com alguma administradora de cartão de crédito. Isso porque os contratos de prestação de serviço das administradoras incluíam cláusulas que exigiam a não distinção dos preços de acordo com a forma de pagamento. Ou seja, embora o comerciante pagasse 2 a 3% de taxa para fazer vendas por cartão, ele não poderia vender os produtos por um preço menor quando a forma de pagamento era dinheiro em espécie.

A MP 764/2016 torna nula cláusula de contrato que proíba ou restrinja essa diferenciação.

O Senado já discutiu o tema em 2013, quando aprovou o Projeto de Decreto Legislativo (PDS) 31/2013, autorizando a diferenciação de preços. Na época, órgãos de defesa do consumidor, como o Procon, manifestaram-se contra o projeto. A alegação é de que os consumidores que utilizam o cartão de crédito ou débito teriam um ônus duplo, pois, além de arcarem com despesas administrativas da operadora do cartão, ainda teriam que pagar mais pelo produto devido à forma de pagamento utilizada na compra.

Efeitos para os comerciantes

Segundo empresários, a medida favorece especialmente o pequeno comerciante e os negócios que tem baixas margens de lucro. Ao invés de deixar 2 a 3% para a administradora do cartão de crédito, o empresário pode agora oferecer um desconto de 2% ao cliente para facilitar a venda, por exemplo.

Empresários que tem deficiência de capital de giro também comemoram, pois muitas vezes tinham que dar descontos para pagamento à vista, mas na hora de receber, o cliente exigia pagar pelo mesmo preço, no cartão. Com isso, além de ter a taxa descontada, demoravam para receber o dinheiro na conta da empresa, tendo que apelar para linhas de créditos de antecipação ou capital de giro, pagando mais juros aos bancos. Do valor total da venda que já tinha desconto de pagamento à vista, era descontado a taxa do cartão e ainda pagavam juros ao banco para antecipar o recebimento do valor da venda.

Antes da lei, o empresário que fosse pego ofertando descontos para pagamento em espécie estava sob risco de ter seu contrato com a administradora de cartão de crédito cancelado.

Efeitos gerais no mercado

A MP faz parte do pacote de medidas microeconômicas anunciadas no último dia 15 para aumentar a produtividade do país.  Apesar de proibida em lei, a prática já era adotada por muitos comerciantes, que ofereciam descontos para quem pagasse com dinheiro, em especial postos de gasolina fora das grandes redes.

A proposta não obriga a diferenciação de preços, somente oferece essa possibilidade ao comércio.  Acredita-se que o estímulo ao pagamento à vista e em dinheiro pode criar uma situação de concorrência que leve as administradoras de cartão a baixar as taxas cobradas dos estabelecimentos comerciais.

Outras consequências que se espera com a medida é a baixa dos preços em alguns mercados, bem como o aumento da circulação de moeda. Com mais pessoas negociando em dinheiro, a questão da segurança também volta a ser uma preocupação.

 

Informações: Senado Federal

Pesquisador independente e tradutor, escreve e coordena pesquisas para o site EstudosNacionais.com. Desenvolve projetos editoriais na editora Estudos Nacionais e Livraria Pius.

Apenas 10% dos jovens confiam na imprensa no Brasil

Entre os brasileiros de 16 e 24 anos, apenas 10% confiam muito na imprensa, 48% confiam pouco e 41% não confiam absolutamente. O Jornal Folha de São Paulo, divulgador da pesquisa, enfatizou a manutenção de 22% de credibilidade da imprensa entre a população geral. O descrédito entre os mais jovens, porém, demonstra um possível efeito nas eleições e na participação política, já que as redes sociais fizeram aumentar a participação dos jovens na política.

As Forças Armadas continuam sendo a instituição mais confiável do país, com 40%. Já a classe política, assim como a imprensa, caiu bastante em direção ao descrédito popular.

A maior queda de credibilidade foi da presidência da República que, em 2012, tinha 33% de credibilidade e hoje somente 3%. Assim como os partidos políticos, que viram sua credibilidade despencar: 2% da população confiam muito nos partidos, 28% confiam pouco e 68% não confiam nem um pouco nos partidos políticos.

A pesquisa, feita pelo Datafolha, ouviu 2.771 pessoas de 21 a 23 de junho. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos.

Credibilidade da mídia e “fake news”

A credibilidade da imprensa, no Brasil, acompanha uma queda que se verifica há décadas em todo o mundo, desde que o advento da internet balançou o modelo de negócio das grandes empresas jornalísticas, que tiveram que recorrer a outras fontes de financiamento. Antes da internet, a imprensa era financiada pela publicidade impressa, que vinha de grandes empresas e de governos. Desde o final da década de 90, porém, os grandes jornais, ancorados ao modelo impresso, precisaram recorrer ao chamado Terceiro Setor (ONGs), de onde passaram a receber influência também do conteúdo.

Como o Terceiro Setor é essencialmente transformador e não se preocupa em oferecer diferenciais informativos, os jornais foram gradativamente caindo no descrédito. A internet, que passou a se uma alternativa mais sincera à informação, começou a preocupar os jornais. Na esteira das denúncias de manipulação, alguns jornalistas viram a possibilidade de aproveitar o “gancho” do fake news, para descredibilizar a internet, o rival que roubou-lhes o financiamento e a credibilidade informativa.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

“Pastoral da Diversidade”, em MG, retrata confusão vivida na Igreja Católica

A criação da Pastoral da Diversidade, em Belo Horizonte (MG) é uma das ações que retratam bem a confusão moral vivida pela Igreja Católica. Sucumbindo à pressão do mundo da mídia, religiosos e leigos engajados justificam uma revolução nos valores cristãos por meio de palavras do Papa Francisco.

Depois da 5ª Assembleia do Povo de Deus, que refletiu a realidade concreta das famílias e afirmou a perspectiva de acolhida das suas diversas configurações, o padre Marcus propôs a criação da pastoral, que foi de imediato abraçada pelo reitor do santuário, padre Aureo Nogueira de Freitas. É ele quem afirma: “É hoje uma das mais vivas”.

Os organizadores, entre os quais se inclui o padre Marcus Aurélio Mareano, coordenam as reuniões com debates sobre a família e acolhimento, rezam e possuem até uma missa para organizar e cuidar da liturgia, no terceiro domingo de cada mês. Suas palavras de acolhimento resumem-se a contrariar o ensinamento cristão que condena a prática homossexual. Embora a Igreja sempre tenha acolhido homossexuais a se converterem, obviamente abandonando suas práticas, a nova doutrina pastoral incentivada por iniciativas como essa não pede para que o homossexual deixa de fazer o que faz. Trata-se de um acolhimento contra o preconceito, o que na concepção desses católicos, está em perfeita concordância com o que pede o Papa Francisco quando diz: “Se uma pessoa é gay, busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”.

O entendimento oficial da Igreja sobre a família, para estes católicos, já faz parte do passado:

O grupo funciona como qualquer outra pastoral de igreja, como a da Família, dos Casais ou dos Jovens. Eles se encontram a cada 15 dias na paróquia, debatem temas relativos a família e acolhimento, rezam e têm inclusive uma missa para organizar, no terceiro domingo de cada mês. Tudo é acompanhado pelo padre Marcus Aurélio Mareano e pela irmã Maria do Socorro, designados como assessores da pastoral.

A posição da Igreja e a confusão dos fiéis

Mesmo com um entendimento muito claro a respeito do assunto, por parte da doutrina da Igreja, os fiéis se encontram, em geral, confusos sobre como proceder, imperando uma verdadeira diversidade de modos e regras de conduta. O entendimento oficial da Igreja, hoje, vê os homossexuais como pessoas necessitadas de ajuda espiritual e pastoral, mas a orientação é para a vida de castidade e o abandono da vida de pecado. No Código de Direito Canônico, a Igreja considera o homossexualismo como um transtorno psíquico e passível de auxílio da própria Igreja. No entanto, o Conselho Federal de Psicologia, entende que orientar para o abandono da vida homossexual faz parte de uma cultura de preconceito e proíbe o tratamento, mesmo nos casos em que a própria pessoa deseja abandonar o homossexualismo. Esta é a postura dos movimentos inseridos em iniciativas como a da Pastoral da Diversidade e outros como o Diversidade Católica que utilizam-se do nome de católicos para implementar mudanças dentro da Igreja, alterando assim a prática pastoral com fins no entendimento da doutrina.

Os católicos, em geral, se veem perdidos em meio à confusão doutrinal, sem saber o que aceitar ou repudiar, ou até que ponto a Igreja aceita os pecadores e repele suas práticas. Segundo a doutrina, um homossexual é apenas um pecador, não sendo impedido de frequentar missas, mas é privado da comunhão por causa da sua vida de pecado, uma situação objetiva. No entanto, um “casal” homossexual que se apresenta publicamente como tal, embora não possa ser impedido de frequentar missas, pode representar o próprio pecado e o desejo de torná-lo norma por meio do constrangimento dos fiéis. Com o tema do homossexualismo (assim como a realidade do pecado em geral) ausente das homilias, reina a confusão generalizada, onde cada fiel possui um sistema próprio de regras de conduta, para as quais só pode recorrer aos conselhos da mídia e telenovelas sobre o modo correto de se viver.

No livro Adeus Homens de Deus, de Michael Rose, é contada a história do lobby gay dentro dos muros da Igreja Católica, nos EUA, realidade que se espalhou pelo mundo e nem mesmo conta mais com desejo de ser ocultada. Iniciada com o trabalho de padres e bispos responsáveis pela seleção de vocacionados, que por décadas preferem os jovens com tendências homossexuais para serem ordenados, o clero foi infiltrado por um movimento global que reflete a tendência do mundo. Iniciada com a Revolução Sexual, nos anos 1960, o movimento gay internacional inclui, hoje, militantes pelo direito à prática da pedofilia e se inserem em todas as esferas sociais, incluindo as igrejas cristãs.

 

 

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Institutos de pesquisa eleitoral na mira da justiça

Fraudes envolvendo institutos de pesquisa e políticos demonstram uma tamanha promiscuidade com a política que não há como excluir a sua influência premeditada na opinião pública. Afinal, foi para isso que as pesquisas de opinião foram criadas.

Recentemente, em depoimento de delação premiada, o ex-executivo da JBS, Ricardo Saud afirmou que sua empresa repassou propina ao senador Renan Calheiros por intermédio do instituto de pesquisa Ibope, durante as eleições de 2014. De acordo com o delator, a JBS também ajudou o PT comprar o apoio de partidos naquelas eleições, entre eles o PMDB, que ameaçava fazer aliança com Aécio Neves em Minas Gerais. A negociação com o Ibope, a princípio, apenas consistia em notas frias para repasse de propina.

“O Ibope fazia pesquisa para ele [Renan] e eles pagavam com essas propinas. O Ibope recebia propina. Nunca fez serviço para o grupo [JBS]”, afirmou o delator. O Ibope é o principal órgão de pesquisa responsável por resultados eleitorais e de popularidade de políticos. Ainda esta semana divulgou o último índice de popularidade de Temer, que não passaria de 5%, além de apontar Lula como favorito para 2018. A relação do instituto com a JBS, cuja delação incluiu a gravação de Temer que provocou o estopim da crise atual, provocou suspeita sobre suas pesquisas. Mas o Ibope não é o único instituto a se tornar suspeito.

Ainda este ano, a Polícia Federal indiciou Marcos Coimbra, proprietário do instituto de pesquisa Vox Populi na Operação Acônimo, por suspeita de simular um contrato em operação de caixa dois para a campanha de Fernando Pimentel (PT). O Vox Populi costuma fazer pesquisas para partidos e movimentos de esquerda. Recentemente, apontou que 68% da população acreditava que a Operação Lava-Jato está sendo injusta e errando ao acusar Lula. O marqueteiro João Santana, em delação, afirmou que a campanha eleitoral do PT pagou diversos institutos de pesquisa com o dinheiro de empresas como a Andrade Gutierrez.

Portanto, a participação dessas empresas para o financiamento em caixa dois de campanhas, juntamente com o pagamento de institutos de pesquisa com este mesmo dinheiro não declarado, põe em dúvida todas as pesquisas eleitorais.

Os institutos de pesquisa disseram, em sua defesa, que de fato fizeram pesquisas a pedido da JBS para os produtos da empresa, o que justificaria o montante pago por meio deles. Ainda não explica.

Afinal, os institutos de pesquisa estão historicamente ligados à influência da opinião pública. O seu sucesso, no entanto, se deve muito mais ao desconhecimento público a respeito da sua verdadeira função.

Pesquisas de opinião foram criadas para influenciar a opinião pública

As primeiras pesquisas científicas no sentido de avaliar o clima de opinião da sociedade foram orientadas a partir dos estudos de Paul Lazarsfeld, no instituto Mass Comunication Research, financiado pela fundação Rockefeller. Na época, até mesmo Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, fez parte do instituto de pesquisa. Mas desistiu depois de perceber que o objetivo estava mais alinhado a produzir influência na opinião pública do que conhecê-la. Diversos avanços foram feitos na área da pesquisa social sobre o percurso da opinião nas massas, de modo que o grupo de Lazarsfeld passou a ser chamado e consultado por campanhas eleitorais do mundo todo (conheça essa história em A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda).

Nos anos seguintes, muitos outros avanços foram feitos. Não há mais como dizer que políticos e marqueteiros, assim como organismos internacionais de mediawacht, não conheçam esses estudos ou não saibam do seu principal efeito.

Pelo menos desde o início da década de 1980, cientistas políticos, jornalistas e políticos profissionais conhecem muito bem o efeito e as potencialidades de uso das pesquisas de opinião para o seu proveito. Isso porque data dessa época a primeira publicação da pequisa que virou livro A Espiral do Silêncio, no qual se relaciona e comprova a causalidade intrínseca entre a percepção da opinião geral e a formação do juízo individual.

Na chamada Teoria da Espiral do Silêncio, a cientista política Elisabeth Noelle-Neumann percebeu a incrível coincidência entre o desejo ou não dos indivíduos falarem suas opiniões em público com a sua percepção da hegemonia de determinada opinião. Quando se percebe a opinião majoritária diferente da individual, opta-se pelo silêncio, gerando uma verdadeira espiral onde as opiniões individuais seguem a percepção do clima de opinião. A publicação de pesquisas de opinião, portanto, agem diretamente na determinação da fala pública ou do silêncio.

Em alguns países, as pesquisas eleitorais são proibidas em épocas próximas do pleito, já que sabidamente influenciam a opinião pública, incentivando-a a optar pelo candidato ou corrente que pareça mais apoiado socialmente.

Talvez tenha sido bastante providencial que o livro A espiral do silêncio não tenha sido publicado em língua portuguesa até agora.

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Freira pró-aborto dá palestra na Arquidiocese de Fortaleza

Ivone Gebara, a freira pro-aborto que se autodenomina ecofeminista, será a principal atração de evento que ocorrerá no Centro Pastoral da Arquidiocese de Fortaleza nos dias 10 e 11 de junho, em que irá palestrar no Seminário “O Conservadorismo cresce assustadoramente. O que fazer?”. O encontro terá o tema centrado no feminismo e nos direitos ao aborto, diante da ação de movimentos pró-vida no Brasil e no mundo. A realização é do Centro de Estudos Bíblicos do Ceará – CEBI e a inscrição individual custa R$20,00 (Vinte Reais).

Ivone Gebara é favorável à despenalização e legalização do aborto no Brasil. A freira foi proibida pelo Vaticano de ensinar em entidades católicas, cumpriu uma sanção de reeducação teológica durante alguns anos Bélgica, o que lhe rendeu mais um doutorado. A religiosa passou a dedicar-se à produção intelectual tendo escrito mais de 30 livros.

Teóloga feminista promove aborto dentro da Igreja

Teologia feminista já faz parte da estrutura da Igreja

A partir de 1994 passou a ser tratada como ecofeminista a partir do ensaio “Trindade: palavra sobre coisas velhas e novas. Uma perspectiva ecofeminista”. O site Usininos  em uma entrevista com a freira doutora descreve o objetivo da palestrante que virá à Arquidiocese de Fortaleza: ” [Ivone Gebara]De dentro da Igreja procura mudá-la. Dedica-se, fundamentalmente a partir de uma teologia feminista, desconstruir o direito natural, patriarcal e machista que a hierarquia católica pretende impor”.

Confira trechos da entrevista

Com quais argumentos defende a despenalização do aborto numa estrutura como a da Igreja Católica, que condena tão duramente essa prática, inclusive, quando se trata de uma gravidez produto de um estupro ou quando a vida da mulher corre risco?

Nem em caso de fetos anencéfalos a Igreja o permite. É algo espantoso. Existe uma forma de fazer teologia metafísica que naturaliza a maternidade, que a torna dependente de um ser supra-histórico. Eu faço a desconstrução desse tipo de pensamento. Em minha militância pela causa das mulheres, não somente do aborto, trabalho na teologia feminista. E eles não aceitam. Eu também sofri um segundo processo por meu pensamento. Tive que responder três páginas de perguntas: se acredito na Trindade, se acredito que o Papa é infalível, coisas desse tipo.

O que faço é a desconstrução do discurso religioso justificador da superioridade masculina. Justificador, também, da concepção de que existe uma supra-história que nos conduz. Desconstruo o que é a natureza. Inclusive, um bispo justifica que se deve levar adiante uma gravidez de um feto anencéfalo porque Deus quer assim, o que é de um primitivismo até chocante. Uma pessoa mais simples não diz um absurdo como esse. Meu trabalho é desconstruir isso e também a Bíblia como a palavra de Deus. Eu digo: não é a palavra, é uma palavra humana, onde se coloca uma pessoa pela qual lhe é atribuído, dependendo dos textos, uma característica. Algumas vezes Deus é vingador, às vezes é bom, às vezes manda matar profetas.

Procuro entrar pela linha do humanismo, onde a dor do outro me toca, provoca-me. Deus é mais um verbo. Quero “deusar”, quero sentir sua dor e quero que sinta minha dor. Não há uma lei do alto que diga “não faça abortos” ou “não mates”. O fato é que de muitas maneiras nos matamos, inclusive, afirmando que não mate. A vida social é uma vida de vida e morte. Meu principal trabalho é a desconstrução do pensamento, da filosofia, da teologia que mantém estas posições contra as escolhas das mulheres, contra os corpos femininos, contra as dores femininas. E isto incomoda muito, porque eles dizem que, segundo Santo Tomás, a alma masculina vem primeira, para novamente demonstrar a superioridade masculina, ou sustentam que a partir do início da união do óvulo e o espermatozoide, a alma está criada por Deus. E agora adotam a ciência do DNA para justificar suas posições.

Tem pensado em sair da Igreja?

Não. Por coerência com certo feminismo e com o cristianismo. Porque sair significa também desvincular-se das mulheres, as que mais sofrem, todas são crentes. Acredito que as feministas não têm trabalhado suficientemente as cadeias religiosas dos meios populares, que são cadeias que consolam e oprimem ao mesmo tempo. Não se pode ser feminista ignorando a pertença religiosa das mulheres; se elas não são católicas, são da Assembleia de Deus ou da Igreja Universal, ou do candomblé ou do espiritismo. E em cada um destes lugares há uma dominação dos corpos femininos. A religião é um componente importantíssimo na construção da cultura latino-americana, a tal ponto que aqui, na Argentina, a ligação entre Igreja Estado é muito forte. No Brasil, oficialmente, temos a separação, mas na cultura não. A presidenta Dilma tem sido tão pressionada, na cultura, que já não diz mais sua posição a favor da despenalização do aborto. Retratou-se. É necessário mudar a Igreja a partir de dentro.

Em seus textos, Ivone faz questionamentos teológicos a respeito da imagem de Deus, da função das mulheres na Igreja, dos conteúdos dogmáticos ou de temas como o casamento gay e a descriminalização e legalização do aborto, além de críticas à estrutura patriarcal da Igreja. “É muito difícil de você mudar em 30, 40 anos de militância na teologia feminista”, reflete.

Informações: Portal Umbrais

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.