A Igreja brasileira e os antecedentes da utopia libertadora

A formação de um estado clerical anticlerical

A relação do clero católico brasileiro com o poder e a política remonta o período colonial, quando vigorava o sistema do “padroado”, intermediação do rei de Portugal na relação entre papa e Igreja. O órgão responsável era a Mesa da Consciência e Ordens, criada em 1532, pelo rei D. João III, para a resolução de temas que tocassem a consciência real. Tratava-se de um instrumento de centralização do poder do monarca sobre todas as questões do país, incluindo a organização da Igreja[1], desde a nomeação de bispos até a distribuição dos recursos arrecadados por meio do dízimo. A difusão do catolicismo aos seus súditos – colonos, índios e escravos – era garantida pelo rei. Em contra partida, o clero legitimava a coroa.

A submissão do clero a Lisboa implicava uma relativa autonomia em relação a Roma. Mas de acordo com o padre José Oscar Beozzo, em seu livro História da Igreja da América Latina[2], já existia mesmo no tempo colonial certo sentimento de nacionalidade no clero brasileiro. Nos seminários, exigia-se igualdade entre noviços brasileiros e portugueses nas eleições do prior o cargo era alternado entre brasileiros e portugueses. Esse nacionalismo só cresceu com a Independência.

A partir do ato de 1922, o clero brasileiro passou a ser controlado pelo Império, que proibia ordens religiosas de acatarem autoridade estrangeira, criando uma barreira entre o clero nacional e Roma. O clero dependia inteiramente do Ministério da Justiça, que decidia inclusive os livros que eram adotados nos seminários.

Logo no início do período imperial, o regente, padre Diogo Antônio Feijó quis criar uma Igreja nacional, totalmente independente de Roma, a partir da abolição da obrigatoriedade do celibato clerical por meio de projeto de lei na Assembleia Geral do Brasil. Seu intuito foi combatido e vencido, mas não antes de longa polêmica. Padres e bispos opinaram e alguns sugeriram que o tema fosse objeto de consulta popular.

Na verdade, a iniciativa da proposta não foi de Feijó, que apenas conversava com alguns bispos em separado, tentando trabalhar a ideia para, enfim, ser proposta. A iniciativa foi do deputado Ferreira França, em 1928, sendo apoiado pelos liberais e por dois grandes jornais da época, o Astréa e Autora Fluminense, pertencente a Evaristo da Veiga. Mas nos jornais, os opositores da proposta também foram muitos, entre eles o Visconde de Cairú, sob o pseudônimo O Velho Canonista. O voto mais famoso e que exerceu maior influência, porém, foi o de Feijó. Chamado de protestante e reformista, ele queria abolir um costume que, segundo ele, era muito bom espiritualmente, mas não era observado por uma enorme parcela do clero da época. O motivo da sua proposta, portanto, era adequar as normas da Igreja à realidade brasileira.

Em seu voto, recomendava à Assembleia que a aprovasse e “que se fizesse saber o Papa esta resolução da Assembleia, para que ele pondo as leis da Igreja em harmonia com as do Império, revogasse as que impõem penas ao clérigo que casa.[3]

Essa tentativa de Fejió, no entanto, estava bem amparada pelo acordo entre Brasil e Santa Sé, herança do regime do padroado. Além disso, a proposta incluía a proibição de frades e freiras estrangeiros no país, acusados de agentes do absolutismo. A luta de Feijó contra o absolutismo não reconhecia fronteiras: na política, contra os reis, na religião, contra o absolutismo do Papa. O antiabsolutismo era a moda política dos liberais do Império.

Feijó foi por duas vezes presidente da Comissão de Negócios Eclesiásticos e era responsável pela administração da Igreja nacional. Sua proposta, no entanto, não foi aprovada e deu-se por vencido.

A complicada relação entre estado e Igreja durante o Império

Segundo Helena Salem, organizadora do livro A Igreja dos oprimidos, a submissão do clero brasileiro inicialmente à coroa portuguesa e depois, ao Império, diferenciou a prática do catolicismo em terras brasileiras. Nossa forma de praticar a religião tinha peculiaridades inimagináveis em outros países, como a participação ativa de maçons nas irmandades e confrarias.

A presença marcante da maçonaria, que levou à adesão membros do clero católico, com o incremento das características próprias ao catolicismo português da época, diferindo mesmo de aspectos do catolicismo europeu, deu ao novo país uma religião muito característica e própria. De acordo com frei Boaventura de Kloppenburg, em seus estudos sobre a prática das religiões afro-brasileiras na história do Brasil, a influência do modo português de devoção deu a forma do catolicismo brasileiro, extremamente sincrético e aberto a diversidade de crenças. Conta-se que até o período da corte de D. João VI havia um curandeiro oficial, que fazia “trabalhos” para curar doenças e espantar males, atrair bons espíritos etc. O sincretismo brasileiro adaptava à prática católica uma infinidade de elementos. Um deles foi a maçonaria, arranjo político incomum para o catolicismo no mundo, mas que por aqui ganhava ares de normalidade.

A relação do clero com a maçonaria, na verdade, pertence à categoria de aliança com o poder, uma vez que a grande maioria dos políticos da época eram maçons. Não havia como a Igreja estar presente na sociedade rejeitando a maçonaria ou pregando contra ela, como acontecia em outros países, dada a relação conflituosa entre as duas instituições, diante do tradicional anticlericalismo da maçonaria. Essa relação, no entanto, custou caro à Igreja nos finais do período imperial, mas também já mostrava sinais de conflito em episódios como a Inconfidência Mineira, no final do século XVIII.

A partir de 1845, porém, essa submissão foi se tornando insustentável, motivando alguma resistência e protestos do clero contra o Império. Entre outras coisas, reivindicavam autonomia para a nomeação de párocos, que era submetida às autoridades locais. Com o Concílio Vaticano I, o governo autorizou uma delegação de bispos a permanecer um ano em Roma. De acordo com Salem, essa foi a oportunidade dos bispos brasileiros constatarem, pela primeira vez, a imensa diferença que havia entre o catolicismo brasileiro e europeu. Este foi o início do primeiro processo de romanização da Igreja do Brasil.

O retorno dos bispos coincidiu com a Questão Religiosa, conflito iniciado no Rio de Janeiro e provocado por bispos que proibiam a permanência de maçons no clero. A participação do clero na maçonaria começou na década de 1820, durante o primeiro reinado. Mas no final do século XIX, os ânimos republicanos e antimonárquicos estavam acirrados e crescia a adesão ao positivismo, enquanto a Igreja Católica perdia prestígio social. A maçonaria e os positivistas dominavam o partido republicano, que já mostrava sua insatisfação através dos jornais.

No auge do conflito, a hierarquia eclesiástica determinou punição de clérigos e de irmandades inteiras. Mas elas apelaram judicialmente à coroa para que a questão fosse resolvida pelo Conselho de Estado. O Conselho, composto por inúmeros maçons, ordenou a suspensão das punições, mas os bispos não obedeceram e foram presos como rebeldes. Dom Vital, de Olinda e Dom Macedo, de Belém, foram julgados e condenados a trabalhos forçados. A questão chegou até Roma e em 1875 foi dada a anistia dos bispos[4].

As últimas décadas do Império foram marcadas por intensa queda de braço entre estado e Igreja pelo poder sobre a própria Igreja, ironicamente a única instituição que combatia o avanço maçônico e republicano que viria a dar fim no Império, em 1889. A verdade é que a presença de maçons no governo já era bem maior que na Igreja.

Diante do conflito com o estado, a hierarquia católica se aproxima cada vez mais de Roma, enviando jovens para estudar na Itália, França e na Santa Sé. Dom Luiz, Dom Lacerda e Dom Macedo Costa estão entre os mais empenhados na ferrenha luta contra o poder estatal do Império sobre a Igreja.

O Papa Leão XIII demonstrou certa preocupação com a situação brasileira, publicando sucessivas cartas apostólicas com claras referências à situação do catolicismo nas américas. Isso pode ter pesado na decisão da Princesa Isabel, devota católica, para a assinatura da Lei Áurea, que abolia a escravidão. A verdade é que após a abolição o papa escreveu uma carta parabenizando a decisão.

Os republicanos, insatisfeitos, temiam a subida ao trono da “princesa carola”, como a chamavam. A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, separava definitivamente estado e Igreja. A constituição de 1891 reconhecia a liberdade de culto, mas dava validade apenas para casamentos civis, sendo permitido o divórcio. Além disso, secularizou a educação, proibindo o ensino religioso e o subsídio à educação religiosa. O sustento dos membros do clero, antes a cargo do governo, foi assegurado por apenas mais um ano[5]. Tudo isso representou um duro golpe a uma Igreja frequentemente apoiada e sustentada pelo poder real.

Isso fomentou ainda mais o processo de reaproximação da Igreja brasileira com Roma, que passou a trazer elementos do catolicismo mais tradicional. As conferências episcopais, de 1901 a 1915, retomam a linha do Vaticano I, reafirmando a autoridade papal como centro do catolicismo. Mas, de acordo com o padre Beozzo, certo nacionalismo sempre esteve presente no clero brasileiro, trazendo certa indisposição com Roma.

Manifestações da utopia libertadora

Em 1913, um padre de Itapira, São Paulo, fundou a Igreja Católica Apostólica Brasileira, após desligar-se da Igreja por supostamente ter sido perseguido devido suas posições. O site da ICAB informa que o seu fundador morreu envenenado. Como não era bispo, não chegou a ordenar padres e a iniciativa encerrou suas atividades religiosas. Cerca de 30 anos depois, porém, um bispo de Botucatu retomou a ideia, refundando a Igreja nacional.

Dom Carlos Duarte Costa foi bispo da Igreja Católica, estudou junto com o futuro papa Pio XII, quem visitou certa vez para criticar o celibato e o excessivo poder imperialista da Igreja. Suas críticas não foram bem recebidas. Segundo a história oficial dessa igreja cismática, disponível na Internet, “talvez, por inveja de seus conhecimentos e do seu acolhimento pelo povo de Deus”. Antes de cismar, porém, o bispo foi informado de que seria excomungado, o que preferiu fazer por si mesmo ao refundar a antiga igreja cismática. Diante da acusação de comunista, o site informa em sua defesa que jamais professou tal ideologia. O motivo da excomunhão teria sido porque Dom Carlos fez o prefácio do livro O poder soviético, de Helwett Jonhson, um conhecido padre inglês que enaltece os “progressos sociais” da União Soviética. A igreja cismática existe até hoje, impondo a necessidade de esclarecimentos pela Igreja Romana, dada a confusão que produz entre os fiéis devido a semelhança de seus ritos e devoções. A igreja tem padres casados e se diz “pelo povo e para o povo”, anti-imperialista e com a glória do Espírito Santo.

[1] Arquivo Nacional Torre do Tombo http://digitarq.arquivos.pt/details?id=4223364 Acesso em março de 2018.

[2] Ed. Vozes, 1980.

[3] “Demonstrasão da necesidade da abolisao [sic] do celibato clerical pela Assemblea Geral do Brazil: e da sua verdadeira e legitima competencia nesta matéria” / pelo Deputado, Diogo Antonio Feijo. Rio de Janeiro: na Typ. Imperial e Nacional, 1828. Documento original disponível em: http://docvirt.com. Acesso em março, 2018.

 

[4] Gohn, M. G. M. História dos movimentos e lutas sociais: a construção da cidadania dos brasileiros. Edições Loyola, 1995.

[5] Bruneau, T. C. Religião e politização no Brasil. São Paulo, Edições Loyola, 1979.

Sem diferença ideológica, PT e PSDB se dividiram pelo poder

“PT e PSDB nunca se juntaram por disputa de poder, não por disputa ideológica”, disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista à Folha de São Paulo, nesta quarta-feira (7/03), no Youtube do jornalista  Fernando Grostein Andrade.

“O PT tentou caracterizar o PSDB sempre como de direita. E não é verdade”, disse. “Agora abriu espaço para uma direita reacionária”. O ex-presidente afirmou, ainda, que gosta de Fernando Haddad (ex-prefeito de São Paulo pelo PT) e que ele é “uma pessoa correta”. Haddad é cotado como um dos candidatos que o Partido dos Trabalhadores pode lançar em substituição a Lula. Na entrevista à Folha, FHC se autointitulou “completamente liberal” no que chamou de “matéria de costumes”. “Acho que a diversidade tem que ser respeitada. O pessoal da direita reacionária não acha isso. E querem punir. Está errado! É perigoso”, opinou.

Não é novidade que FHC considera Lula “um grande líder”. Em 1993, Fernando Henrique apresentou Lula aos grandes investidores, pertencentes à elite econômica global, ocasião em que foi firmado o Diálogo Interamericano, pacto entre as esquerdas norte-americana/européia e a latino-americana para a cooperação no continente. A história foi descoberta e contada inicialmente por José Carlos Graça Wagner e registrada em detalhes no livro O eixo do mal latino-americano e a Nova Ordem Mundial, de Heitor de Paola, publicado em 2008.

O pacto entre elite econômica e o Foro de São Paulo

O Foro de São Paulo foi fundado em 1990, por Fidel Castro e Lula, como um comitê estratégico regional para fortalecer os partidos e organizações de esquerda, objetivando a chegada e manutenção do poder nos países do bloco continental. Já o bloco econômico é composto de diversas entidades globais, como por exemplo Clube Bilderberg, grupos como os Elders (do qual FHC faz parte, junto com Mandela, Kofi Anan e outros), além da elite das Nações Unidas, Unesco, Unicef e suas Ongs pelo mundo. As duas facções da esquerda mundial possuem diferenças, mas em 1993, reuniram-se para unir esforços pelos objetivos comuns.

Graça Wagner contou essa história em um e-mail aos congressistas brasileiros, em 2001:

[Em 1993] estavam presentes, nessa reunião, 112 organizações de esquerda de toda a AL [América Latina], além de observadores convidados de organizações de esquerda de outros continentes. Era o seu IV Encontro Internacional. A primeira, tinha sido quando da fundação em São Paulo, no Hotel Danúbio, nos inícios de 90, logo após a vitória de Collor sobre Lula, como estava previsto que deveria ser feito, se isso acontecesse, desde uma reunião em 8 de janeiro de 89, em Havana, também publicada no “Paraíso Perdido”, com a presença de Fidel, de Lula, Frei Beto, (atual assessor de Lula, residindo no Palácio do Planalto), de José Genoino, (atual presidente do PT), e do jornalista [Ricardo] Koscho, (atual assessor de imprensa do presidente Lula). A finalidade, nessa ocasião, era fixar as estratégias para as eleições nos países do continente, que iriam se realizar desde dos fins de 93, no México, até as eleições de inícios de 95, na Argentina, num total de 14. Estavam presentes, nesse IV Congresso, as organizações guerrilheiras e toda a cúpula do PC cubano, inclusive, logicamente, Castro, bem como toda a cúpula internacional do PT, com Lula à frente e, naturalmente, Frei Beto, que é o único que fala, praticamente de igual para igual, com Castro.

Após a vitória de Lula, em 2002, houve uma sucessão de vitórias dos partidos de esquerda em diversos países do continente, chegando ao domínio quase completo da esquerda latino-americana. Nada disso teria sido possível sem a ajuda do bloco financeiro da elite econômica progressista, comandada de dentro do Partido Democrata, nos EUA, que é submetido a grupos ainda mais internos de milionários e fundações filantrópicas que há décadas estão comprometidas com causas ligadas ao controle dos recursos mundiais (ecologia), da reprodução humana (controle populacional, aborto).

A esquerda latino-americana, por sua vez, tinha a função de apoiar as causas das elites milionárias que, em última análise, deseja submeter estados nacionais à autoridades supra-nacionais, como a ONU, Unesco, Unicef, entre outras. Este objetivo, embora em certa medida oposto ao do bloco econômico (já que as ditaduras latino-americanas visam certo fechamento econômico e político) auxilia a esquerda regional a ampliar a “integração” do continente em direção ao sonho da “pátria grande”, uma espécie de “União das Repúblicas Socialistas da América Latina” e realizar o objetivo declarado do Foro de São Paulo que era o de “restaurar no continente americano o que foi perdido no Leste Europeu”.

Informações: Folha de São Paulo e Boletim da liberdade

A Escola de Franfkurt: satanismo, feiúra e revolução

Por Murilo Resende Ferreira

A mídia e a Escola de Frankfurt

Um dos grandes paradoxos da civilização moderna é a coexistência de uma prosperidade material desconhecida junto à crescente feiúra e brutalidade social. As antigas formas de convivência social foram completamente devastadas e trocadas por diversões alucinadas onde uma música fabricada em laboratório hipnotiza e brutaliza os participantes. Nas ocasiões mais calmas, inexiste a antiga arte da conversa, da música e da poesia: só o que vemos são zumbis grudados em suas TVs e celulares. Muitos consideram que isso é uma evolução cultural natural, e até mesmo algo desejável e “progressista”. Mas em uma perspectiva histórica mais ampla, essa tirania da feiúra se mostra completamente injustificada. No final do século e no começo do século 20, a humanidade talvez tenha passado por um de seus maiores períodos criativos, com desenvolvimentos magníficos na música clássica, na literatura, na filosofia e em vários outros campos, e, pelo menos até a Segunda Guerra Mundial, esses desenvolvimentos tinham ampla reverberação na cultura popular. Como se deu uma queda tão rápida? Como chegamos ao mundo em que tudo é cultura, em que os estudantes universitários desejam proibir os grandes clássicos da literatura por não se encaixarem nos ditames do politicamente correto? O centro de onde irradiou essa verdadeira conspiração foi o Instituto de Pesquisa Social, popularmente conhecido como a Escola de Frankfurt.

Após a Revolução Comunista na Rússia em 1917, a crença geral do comunismo internacional era de que a revolução se espalharia como fogo por todo o mundo. Como isso não aconteceu, a Internacional Comunista deu início a uma série de iniciativas que buscavam compreender os motivos. Uma delas era liderada por Georg Lukács, um aristocrata húngaro, filho de um dos maiores banqueiros do Império Austro-Húngaro. Como comissário de cultura do breve regime comunista de Budapeste em 1919, ele descobrira um interessante fenômeno em relação à doutrinação ideológica. Um de seus projetos consistia na doutrinação marxista das crianças e adolescentes dos bairros mais pobres de Budapeste. Apesar da pesada carga de aulas e estudos, ele percebia que os jovens, ao saírem das salas de aula logo retomavam seus terços e sua devoção aos sacerdotes. Inspirado no pansexualismo de Sigmund Freud, ele optou por uma abordagem diferente: começaria com cursos de educação sexual. À medida que os cursos se espalharam, e incitaram alguns jovens a relações extraconjugais ou ao mero desafio das normas morais tradicionais, Lukács percebeu que os que entravam em conflito com suas igrejas e famílias logo estavam dispostos a aceitar qualquer tipo de doutrina que lhes fosse ensinada. Um dos motivos que levou à rápida queda do regime foi implantação por Lukács da educação sexual obrigatória, do acesso à contracepção, e do relaxamento da lei do divórcio, o que enfureceu a população devotamente católica da Húngria.

Lukács foi enviado para a Alemanha em 1922, onde liderou um encontro de sociólogos e intelectuais comunistas que viria a se tornar o Instituto de Pesquisa Social, a maior arma de guerra psicológica já desenvolvida pelo comunismo internacional. Para Lukács, o comunismo só invadiria o Ocidente com um movimento de características demoníacas, que fizesse prevalecer o sentimento de que fomos abandonados por Deus. A revolução só ocorreu na Rússia porque o país era há muito dominado por uma versão gnóstica do Cristianismo, como aparece nos escritos de Dostoievski. O que diferenciava o Ocidente da Rússia era principalmente a crença na sacralidade do indivíduo e sua capacidade de discernir a vontade divina através do uso progressivo da razão e da inteligência. A tarefa da Escola de Frankfurt consistiria então em destruir o legado judaico-cristão, por meio de uma abolição da cultura e a criação de novas formas culturais que levariam a uma alienação crescente da população e um novo barbarismo. Num período de três décadas, o Instituto de Pesquisa Social conseguiria o patrocínio das seguintes instituições para sua “causa”: universidades americanas e alemãs, a Fundação Rockfeller, a CBS(canal de TV americano), o Comitê Judeu-Americano, vários serviços de inteligência americanos, a Organização Internacional do Trabalho, etc..

Logo Stálin, enfurecido com o caráter cosmopolita do Instituto, cortou todo o financiamento soviético, uma atitude que expressa a relação de amor e ódio entre o nascente marxismo cultural e a ortodoxia do comunismo-leninismo. Uma outra grande figura do Instituto era Herbert Marcuse. Ele começou como um comunista, tornou-se um protegido de Heidegger no exato momento em que este se tornava um nazista; na América serviu à OSS, o embrião da CIA, e se tornou o analista chefe de política soviética durante o período de Joseph McCarthy; na década de 60 houve uma nova virada, e ele se tornou o guru mais importante da Nova Esquerda, e terminou seus dias fundando o Partido Verde na Alemanha Ocidental. Em tudo isso só há uma tentativa de responder à pergunta: quem poderá nos salvar da civilização ocidental?

O empreendimento de maior sucesso da escola de Frankfurt foi a influência maciça sobre o desenvolvimento da programação de rádio e TV da modernidade. Isso se deu a partir dos trabalhos de Theodor Adorno e Walter Benjamin. Em 1924, Adorno se mudou para Viena, para estudar com os compositores atonais Alban Berg e Arnold Schonberg, e se associou ao círculo ocultista ao redor do marxista renegado Karl Kraus. Ali ele entrou em contato com as idéias de Otto Gross, um discípulo extremista de Freud. Gross, um viciado em cocaína, tinha desenvolvido a teoria de que a saúde mental só seria atingida no Ocidente através de uma renascença do antigo culto de Astarte, que destruiria o monoteísmo e a família burguesa.

Um dos primeiros problemas em que se engajaram Adorno e Benjamin foi o da criação de uma base materialista sólida para a estética. O inimigo de ambos era Gottfried Leibniz, que era acima de tudo um antidualista, um inimigo da divisão gnóstica de corpo e mente, e que também afirmara a liberdade criativa humana. Para o marxismo, que tudo enxerga como fruto de uma teia de relações sociais, essa perspectiva é claramente um problema. Benjamin afirma então que a preponderância da mente racional é um erro, um triste legado de Sócrates. De fato, na origem de tudo está a capacidade de dar nomes às coisas, tomada aqui como uma espécie de imposição linguístico-social que nunca pode ter certeza de sua base objetiva. A tentativa de expressar a realidade é completamente distorcida pela natureza das relações de classe. Ao historicizar e relativizar dessa forma a busca da verdade, o conceito antiquado de bem e mal também pode ser esquecido. Foi por isso que Benjamin defendeu o que chamou de “Satanismo” dos simbolistas e surrealistas franceses, pois considerava que o cerne do Satanismo é o culto do mal como instrumento político, como instrumento de combate contra o diletantismo moralizante da burguesia. O objetivo de uma elite cultural na sociedade capitalista moderna deve ser a destruição da concepção da arte como imitação consciente do Deus criador; é preciso mostrar que a iluminação religiosa é, na verdade, uma iluminação profana, uma inspiração materialista e antropológica que pode ser iniciada pela maconha, pelo ópio e outras drogas. É preciso também criar novas formas culturais que aumentem a alienação da população, pois o povo precisa entender o quão alienante é viver sem o socialismo. Na música, por exemplo, ninguém deve acreditar que é possível compor hoje como Mozart e Beethoven; a composição deve ser atonal, diz Adorno, pois a atonalidade é doentia, e “o caráter doentio, dialeticamente, é ao mesmo tempo a cura…”. O objetivo da arte moderna deve ser a destruição do caráter elevador da arte, para que o homem, privado de sua ligação com o divino, só enxergue a revolta política como opção criativa. Trata-se de fomentar e organizar o pessimismo com instrumento político. Benjamin colaborou com Bertold Bretcht nesse sentido, e as peças teatrais que daí surgiram buscam desmoralizar e deixar a platéia gratuitamente irritadiça.

A análise feita por Adorno e Benjamin também é a base teórica de quase todas as tendências estéticas politicamente corretas que dominam as universidades. O pós-estruturalismo de Roland Barthes, Michael Foucault, e Jacques Derrida, a semiótica de Umberto Eco e o Desconstrucionismo de Paul de Man têm todos como fonte o trabalho de Benjamin. A novela Em Nome da Rosa, de Umberto Eco, é , por exemplo, nada mais que uma ode a Benjamin. Atualmente todos já têm a experiência de universitários alucinados que dizem que Monteiro de Lobato, Shakesperare e Platão são racistas, machistas e homofóbicos, e que isso é a única coisa que importa em suas obras. Mas a origem profunda dessa loucura é a tese de Benjamin-Adorno de que o que importa na obra artística é o contexto inconsciente das relações e tensões sociais. O abandono dos clássicos em prol de autores negros e feministas é bom porque a tradição é somente um conglomerado de falsos nomes, um logocentrismo que reflete a dependência que a burguesia tem de suas palavras. Se essas palavras de ordem universitárias parecem retardadas, é porque foram calculadas para serem. Adorno acreditava que as gerações vindouras seriam receptivas a esse tipo de propaganda porque seriam completamente retardadas pela reprodução mecânica da arte.

Antes do século 20, a distinção entre arte e entretenimento era muito maior. A experiência artística poderia ser divertida, mas era fundamentalmente ativa e não passiva. Era preciso fazer a escolha consciente de ir a um concerto, comprar um livro ou ir a uma exibição de arte. Não havia um acesso facilitado e até forçado às grandes formas culturais. A grande arte exigia um poder de concentração máximo e amplo conhecimento do assunto tratado. Naqueles tempos, a memorização da poesia e de peças de teatro e a reunião da família para um recital caseiro de piano eram a norma até no campo. As pessoas não aprendiam a “apreciar” a música, mas sim a executá-la. No entanto, as novas tecnologias contêm um potencial dialético de manipulação das massas na perspectiva marxista. O fato de que uma sinfonia de Beethoven pode ser infinitamente reproduzível leva a uma dessacralização da experiência e uma alienação crescente. Segundo Adorno, trata-se de um processo de desmitologização. Esta nova passividade diante do que antes exigia um esforço monstruoso poderia levar ao fracionamento da composição musical em partes “divertidas”, que poderiam ser então “fetichizadas” na memória do ouvinte, enquanto as partes difíceis seriam esquecidas.  O ouvinte atomístico e dissociado é infantilizado, só que seu primitivismo não é o dos primitivos, mas sim dos forçosamente retardados.

Esse retardo conceitual indicava que que a programação das rádios poderia determinar as preferências. Se você tocar Mozart e Caetano Veloso na mesma rádio, tudo acabará mesclado como “música de rádio” na cabeça do ouvinte. Idéias agressivas e novas também poderiam ser introduzidas através da homogeneização da indústria cultural, que seria assim explorada pelas forças “progressistas”.  Foram estas percepções que provavelmente justificaram o apoio maçiço que o Instituto recebeu do establishment americano depois de sua transferência para os Eua em 1934. Em 1937, a Fundação Rockfeller começou a financiar uma pesquisa sobre os efeitos sociais das novas formas de mídia de massas, particularmente o rádio, que ficou popularmente conhecida como o “Projeto do Rádio”. O diretor do projeto era Paul Lazersfeld, o filho adotivo do economista austro-marxista Rudolph Hilferding, e antigo colaborador do Instituto de Pesquisas Sociais. Dentre os colaboradores estavam Frank Staton, um P.H.D em psicologia industrial que viria a se tornar presidente da CBS no cume de sua influência e auxiliar influente de Lyndon Johnson; Herta Herzog, que se casaria com Lazersfelz e se tornaria a primeira diretora de pesquisa da Voz da América; e Hazel Gaudet, um dos principais diretores de pesquisas políticas dos Eua. Theodor Adorno era o chefe da seção musical. O objetivo era testar a tese de Adorno-Benjamin e mensurar o potencial da grande mídia para a lavagem cerebral.

O sucesso foi estrondoso. Uma das primeiras descobertas foi a do formato seriado de programação de novelas. Antes se acreditava que o sucesso desse formato se restringia a mulheres das classes baixas, que precisavam de um escapismo para suas vidas entediantes. Herta Herzog descobriu que não havia a menor correlação com o status socioeconômico e nem mesmo com o conteúdo. O fator determinante era a forma seriada; as pessoas se viciavam no formato, no desejo de saber o que irá acontecer na próxima semana. Descobriu-se que era possível até dobrar a audiência de uma peça de rádio dividindo-a em fragmentos. Não é nem preciso dizer como a indústria do entretenimento se apropriou desse insight. O próximo estudo do projeto foi uma investigação do terror causado pela transmissão que Orson Welles fez de A Guerra dos Mundos em 1938. A despeito de vários alertas sobre o caráter fictício da peça, aproximadamente 25% dos ouvintes acreditaram que era um relato real. Os pesquisadores descobriram que a maioria dos que entraram em pânico não acreditaram que marcianos estavam invadindo e sim os alemães. Os ouvintes já estavam condicionados pelas outras notícias e pela quebra do noticiário em pequenos boletins alarmistas. Welles usou essa técnica em seu programa, simulando que se tratava de uma série de boletins urgentes no meio de uma programação musical. A técnica de seriação das novelas, transplantada para o noticiário, funcionava perfeitamente.

Adorno e o Projeto do Rádio chegaram à conclusão de que a repetição do formato era a chave para a popularidade. O sucesso era determinado pela escolha e o formato da programação. Se um contexto familiar fosse mantido, qualquer conteúdo poderia se tornar aceitável. E nós, que padecemos com o funk e o sertanejo universitário, podemos atestar esse diagnóstico. A maior descoberta do projeto foi “Little Annnie” o apelido dado ao sistema de análise programas de Stanton-Lazersfelz. Os métodos anteriores de pesquisa de audiência eram bastante ineficazes e se limitavam a perguntar ao fim de um programa se a audiência estava satisfeita ou não e pedir uma opinião sobre o conteúdo. Isso não levava em conta a percepção atomizada do sujeito moderno, e exigia a análise racional de uma experiência irracional. O Projeto desenvolveu então um aparelho em que a pessoa podia registrar a intensidade do seu gosto e desgosto a cada momento de um programa. Ao comparar os gráficos, os pesquisadores puderam avaliar quais situações ou personagens provocavam um estado momentâneo de prazer. Essa descoberta transformou toda a indústria do entretenimento; os resultados das análises de programação e a audiência têm uma correlação que se aproxima de 85%. É por isso que hoje temos uma sensação de dejá vu em qualquer programa de TV. São os mesmos personagens e situações que se repetem indefinidamente, e somente o cenário se altera, pouco importando se é a Idade Média ou o espaço sideral. E a grande verdade é que o conteúdo estúpido e erótico da indústria do entretenimento não é uma necessidade natural, mas algo que foi planejado.

Esses esforços de manipulação da população geraram a pseudociência da pesquisa de opinião pública. Atualmente, tudo na mídia é direcionado por pesquisas de opinião, mesmo quando os jornalistas e senhores da mídia juram desejar estimular a liberdade de opinião e pensamento. A idéia da opinião pública como corte julgadora de tudo e todos é ademais absurda e irracional, pois nega a idéia da mente racional individual. A verdade é fruto do pensamento correto, e não do fato que 50,1% das pessoas concordam ou não com determinada asserção.

As técnicas de manipulação das pesquisas de opinião são inteiramente baseadas na psicanálise e se tornaram padrão em todo o mundo. Tudo gira ao redor do projeto de estudo da personalidade autoritária desenvolvido por Max Horkheimer, diretor do Instituto de Pesquisa Social pelos idos de 1942. Segundo Horkheimer, o objetivo era entender o preconceito com o objetivo de erradicá-lo. Nova traços de personalidade foram mensurados, incluindo o grau de convencionalismo, de agressão autoritária a pessoas que violam valores convencionais, de projetividade sobre os perigos do mundo e de preocupação com a sexualidade. A partir dessas mensurações foram construídas várias escalas: a escala E de etnocentrismo, a escala PEC de conservadorismo político e econômico, a escala A-S de antissemitismo e a escala F de fascismo. Surge um novo tipo ideal weberiano: a personalidade autoritária. Um observador mais benigno diria que a pesquisa provou que a população americana era conservadora, mas os mestres da Escola de Frankfurt viram nos resultados a prova de um fascismo irredutível e perigoso, oriundo da própria civilização cristã. A pesquisa foi popularizada por Hanna Arendt no seu famoso livro As Origens do Totalitarismo: todo mundo é um fascista em potencial.

Esse método de interpretação de pesquisas de opinião e personalidade é dominante até hoje nas ciências sociais e também em todos os grandes institutos de pesquisa, que surgiram motivados exatamente por essas novas descobertas e projetos.  É ele também que perpassa todo o marketing das campanhas políticas, e por isso o maior medo de um político moderno é o “extremismo”, ou o fascismo na linguagem frankfurtiana. E não para por aí: todo o desenvolvimento da propaganda e da televisão nas décadas de 50 e 60 foi iniciado por pessoas treinadas nas técnicas frankfurtianas de alienação em massa, incluindo os diretores das grandes redes de televisão. Essa popularidade da Escola de Frankfurt advém do fato incrível de que as teorias da escola foram oficialmente aceitas pelo governo americano durante a Segunda Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que este dizia combater a ameaça comunista. A OSS, o embrião da CIA, era basicamente composto de frankfurtianos, dentre eles: Carl Schorske, Franz Neumann, Herbert Marcuse, Paul Baran, Otto Kirchheimer, Leo Lowenthal, Sophie Marcuse, Siegfried Kracauer, Norman Brown, Barrington Moore Jr, Gregory Bateson e Arthur Schlesinger. Um dos primeiros projetos da OSS, liderado por Marcurse, foi o uso de técnicas de lavagem cerebral para desnazificação da Alemanha do pós-guerra. Horkheimer, que recebeu dupla nacionalidade, sendo naquele momento o único indivíduo que era ao mesmo tempo alemão e americano, foi enviado à Alemanha para reformar todo o sistema universitário, tendo como fruto toda uma geração de pensadores antiocidentais como Hans-Georg Gadamer e Jurgen Habermas. Nos Eua, a influência intelectual da Escola de Frankfurt se fez sentir no fato de que a sociologia se tornou o curso universitário mais procurado durante a década de 60 e nas revoltas estudantis que marcaram a época.

Um outro braço das operações frankfurtianas chegou até às experiências da CIA com drogas psicodélicas.  O LSD se tornou a droga de uso da própria agência e dos antigos membros do Instituto de Pesquisa Social. Foi Gregory Bateson, por exemplo, que levou o poeta Allen Ginsberg a participar de um experimento da Marinha com o LSD em Palo Alto, California. Esses alucinógenos tornam a vítima completamente antissocial e autocentrada, preocupada somente com objetos, que ganham uma aura monstruosa e ilusiva. As drogas produzem instantaneamente o estado de espírito desejado e propagado pela Escola de Frankfurt. Os famosos protestos de 1968 foram simplesmente frutos de décadas de atividade frankfurtiana e muitas drogas, não espantando que ao fim Herbert Marcuse tivesse emergido como o grande líder da revolta dos loucos. O visual de cabelos longos, a comida macrobiótica, a libertação sexual: tudo já tinha sido testado em comunidades ocultistas relacionadas com a Escola de Frankfurt, como a comuna de Ascona antes de 1920. O documento fundador da contracultura da década de 60 foi o Eros e Civilização de Marcuse, publicado em 1955 e financiado pela Fundação Rockfeller. Para Marcuse, o homem ocidental é unidimensional, e a única salvação é a libertação absoluta do erotismo em uma rebelião contra a racionalidade tecnológica. Foi ele que criou, na nova edição de 1966, o famoso slogan “faça amor, não faça guerra”. O objetivo era propagar a perversidade polimórfica e o pansexualismo como ideal civilizacional. Wilhem Reich, um membro mais marginal e louco da Escola de Frankfurt, chegou a dizer que o Nazismo fora causado pela monogamia. A educação primária foi dominada por um seguidor de Reich, A.S Neill, um ateísta militante e membro da Sociedade Teosófica, cujas teorias pregavam a rebelião aberta dos alunos contra os professores. Seu livro Summerhill atingiu a marca de 2 milhões de unidades vendidas em 1970 e se tornou leitura obrigatória de mais de 600 cursos universitários, influência que permanece até hoje. A libertação sexual da Escola de Frankfurt sempre foi um instrumento de controle político que visava transformar as pessoas em categorias objetivas através da despersonalização sexual. A partir daí, não somos mais indivíduos, mas negros, mulheres ou homossexuais. Tudo o que hoje chamamos de ideologia de gênero tem sua raiz em Marcuse, Fromm, Reich e outros agregados da Escola de Frankfurt.

Essa popularização da vida como um ritual pessimista e erótico é base do horror da vida moderna. Os herdeiros de Frankfurt dominam completamente as universidades e treinam os alunos em seus rituais de purgação politicamente corretos. A intolerância universitária é uma implementação da tolerância libertadora de Marcuse: toda a tolerância com a esquerda, nenhuma com a direita. Toda a arte foi erotizada e brutalizada até o ponto em que é impossível assistir um concerto de Mozart sem indicações de um contexto erótico. Crianças de 5 anos assistem em casa a filmes de terror com imagens que petrificariam os mais entusiasmados frequentadores do Coliseu romano. Fica claro que sem a destruição dessa verdadeira abominação da desolação, não será possível qualquer ressurgência da civilização ocidental em sua tradição judaico-cristã.

Fontes

Minnicino, Michael. The Franfkurt School and Political Correctness. Disponível em: https://www.schillerinstitute.org/fid_91-96/921_frankfurt.html

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Relativismo da dignidade humana e as tragédias da história

Após décadas de relativismo ensinado nas escolas ensinando que não existe verdade, o que o certo e o errado na vida fazem parte de diferentes narrativas, somado à uma falsa percepção de democracia, de um Brasil que há décadas se diz democrático mas não dá as condições estruturais mínimas para que a democracia exista efetivamente, Consultas Públicas Online, a princípio, parecem ter passado a ser mais um dos elementos de análise dos Senadores para tomar as decisões sobre os rumos da sociedade.

Mas até que ponto uma decisão deve ser pautada pela opinião pública?

Refiro-me a enquete sobre a PEC 29/2015 no site do Senado Federal, que os movimentos e páginas pró-aborto do Facebook invadiram para votar contra a PEC que visa proteger o nascituro desde a concepção.

Ainda que considerássemos que uma enquete online fosse instrumento válido de pesquisa para se saber, com aceitável segurança, a verdadeira opinião de toda nossa sociedade sobre um determinado tema, a opinião pública sobre determinados temas como a dignidade da vida humana não poderia servir como critério para que Senadores tomassem decisões que afetam a vida de milhares de vidas humanas.

Imagine Adolf Hitler nos tempos da Internet. Uma consulta pública no site oficial do governo alemão traria: Você é contra ou a favor a emenda que envia judeus para campos de concentração?

Os movimentos abolicionistas começaram a tentar acabar com os regimes de escravidão no século XVII. Antes disso, os Papas e Padres da Igreja Católica começaram lutar pela liberdade dos escravos no século XV. Em 1435 o Papa Eugénio IV foi enfático no pedido de libertação dos escravos na carta papal Sicut Dumum. Era preciso extirpar novamente esse mal que a Igreja havia eliminado já no início da Idade Média na Europa e que retornava na modernidade.

Dizia o Papa: “Nós ordenamos a todos os que tem fé, homens e mulheres, que em até 15 dias da publicação dessa carta, no lugar em que vivem, restaurem a liberdade dos escravos sejam eles homens ou mulheres..”.

Diversas outras bulas papais foram escritas, como a Com Sicut em 1591 por Gregório XIV, depois em 1639 de Papa Urbano VIII, depois na bula Immensa Pastorum em 1741, novamente em 1839 com Papa Gregório XVI e várias outras.

No entanto, a opinião pública e os interesses institucionais seculares eram contrários a libertação dos escravos. No Brasil, somente depois que o Papa Leão XIII pediu apoio pela carta In Plurimis, dirigida aos bispos do Brasil fazendo apelo ao Imperador Dom Pedro II e sua filha princesa Isabel, é que a se obteve a abolição da escravatura.

Sabemos pela história que em diversos momentos a opinião pública errou, opondo-se à verdade, à dignidade e aos direitos humanos. O nazismo e a escravidão são apenas dois exemplos de ideias que tinham do seu lado o apoio da população ou de importantes organizações e resultaram em grandes atrocidades.

Apesar das pesquisas feitas por institutos profissionais mostrarem que 87% da população brasileira é contra o aborto, esse não deve ser o critério de decisão.  A verdade sobre a dignidade da vida humana independe das opiniões. Sempre que se tentou relativizar opiniões sobre a dignidade da vida humana ocorreram tragédias sem precedentes. A vida, para todos os seres vivos de reprodução sexuada inicia na fertilização e condicionar a dignidade humana à outros argumentos sempre será imoral e desumano.

história da santa inquisição da igreja católica

Apontamentos sobre a Inquisição: a verdade e o mito

Solzhenitsyn já havia alertado que os grandes males do Ocidente são a precipitação e a superficialidade. “Indeed“, como diriam os britânicos. Das cátedras às mesas de bar, espécime em extinção é o sujeito que se declara inapto a opinar sobre aquilo que não sabe, pois lhe falta estudo crítico, profundo e demorado sobre o assunto. Mas é justamente nas discussões entre leitores vorazes de sinopses que se decidem os rumos da humanidade. Quem paga a conta, evidentemente, são os fatos e a história.

Por exemplo: a população europeia estimada entre os anos 1200 e 1500 d.C. é de mais ou menos 50 milhões de habitantes. Então como a Inquisição pode ter matado 10 milhões de pessoas se lá pelo ano 1300 só a Peste Negra dizimou quase metade da população, sem contar as guerras entre feudos e cidades e a crise agrícola?

O que posso dizer é que se a Igreja realmente tivesse algo para esconder, o Papa João Paulo II, em 98, não precisaria ter aberto os arquivos do Vaticano aos 30 maiores historiadores medievais, entre eles ateus, judeus e muçulmanos, cujas pesquisas resultaram em um trabalho de 783 páginas, chamado “L’Inquisione“.

Para se ter uma noção, no tribunal espanhol, o mais rígido da Inquisição, houve cerca de 45 mil julgamentos, sendo convertidos em pena de morte menos de 2% dos casos. E aqui vale um fato importante:

O Tribunal do Santo Ofício não tinha competência legal para decretar a pena de morte, a prisão perpétua e os castigos físicos. O máximo que podia fazer um inquisidor era submeter o herege à prisão temporária ou ao suplício com vara, que, inclusive, era amplamente utilizado nas escolas, nas casas e entre os próprios clérigos. As amputações, métodos primitivos de tortura, encarceramentos eternos, fogueiras, etc., ficavam a critério do Estado, que ainda utilizava a grande maioria dos institutos legais do Direito Romano, institutos como o crime de lesa-majestade, que previa penas duríssimas a quem não seguisse as determinações reais, dentre elas a religião professada pelo rei.

A Igreja Católica conviveu com dezenas de seitas heréticas durante sua história e em grande parte dela as combateu com a livre persuasão de ideias. Santo Agostinho, por exemplo, passou boa parte da vida pregando aberta e pacificamente aos hereges docetistas, arianistas, donatistas, cátaros, valdenses, etc.

Ocorre que, com o passar do tempo, as seitas foram se transformando em movimentos anárquicos, que roubavam muitos dos fundamentos cristãos para atrair as pessoas ao mesmo tempo em que minavam a ordem social. Os cátaros, por exemplo, pregavam que o casamento e a gravidez eram práticas materiais do demônio, além de disseminarem a “endura”, que consistia em uma espécie de “suicídio purificador”. Os valdenses, por outro lado, ateavam fogo em Igrejas e perseguiam fiéis. O próprio Jaqcues Le Goff, famoso historiador medieval ateu, confirma isso dizendo que “nos textos da Idade Média, o herege é freqüentemente indicado como um louco, a heresia é uma insânia“.

Portanto, as seitas combatidas com os tribunais eclesiásticos não eram formadas por pessoas que simplesmente professavam uma fé diferente.

A verdade, queira-se ou não, apesar de pontuais excessos certamente cometidos, é que a Inquisição foi uma resposta tardia contra as heresias, no sentido de preservar a única instituição que permaneceu de pé após a queda do Império Romano. As próprias pessoas começaram a formar grupos de extermínio para perseguir os hereges porque não se sentiam seguras. O Estado passou a recrudescer os castigos e penas. E a Igreja começou a ser cobrada pelos dois lados. Sua reação, por conseguinte, foi a criação de tribunais locais para julgar os anarquistas e, só mais tarde, em 1231, é que de fato foram oficializados os Tribunais do Santo Ofício, cujos objetivos eram controlar a vingança privada, que tomou conta da sociedade; além de promover não somente a defesa teórica mas física da própria igreja, que era a garantidora da ordem social da época junto ao Estado.

O próprio Concílio de Narbona, em 1243, estabelecia que “Os hereges, seus parceiros e seus fautores que se submeterem voluntariamente, mostrando arrependimento, dizendo sobre si e sobre terceiros a verdade inteira, obterão dispensa da prisão“. Ou seja: os tribunais não eram convocados para matar, torturar e penalizar os hereges, mas para deles arrancar o arrependimento pelos crimes contra a Igreja, contra o Estado e contra Deus, que eram perdoados de imediato caso confessados.

Sim, de fato a tortura foi acolhida pelos tribunais e, pessoalmente, acho isso execrável, embora esse erro deva ser julgado de modo imparcial. Nesse sentido, creio que o professor João Bernardino Gonzaga, famoso docente de Direito Penal da USP, tenha resumido bem a questão:

o Direito Canônico acolheu pois a tortura, mas algumas cautelas foram prescritas: ela não deveria pôr em perigo a vida e a integridade fisica do paciente; vedada era a efusão de sangue; um médico devia estar presente; somente podia ser aplicada uma vez, jamais reiterada; a confissão por meio dela obtida apenas valeria se depois livremente confirmada. Condições muito mais suaves, portanto, do que as vigorantes na Justiça secular“.

No mais, vale lembrar que enquanto a Igreja sofre ataques e difamações por um fato ocorrido há mais de 800 anos, outros são sumariamente omitidos, como o assassinato de mais de 30.000 camponeses anabatistas na Alemanha e de mais de mil mulheres escocesas entre 1555 a 1561, tudo levado a cabo pelos protestantes.

E o que dizer do Islamismo, seita imposta aos europeus por mais de 400 anos, que fechou o Mar Mediterrâneo, invadiu Jerusalém e fez mais de 17 milhões de escravos negros e outro 1 milhão de brancos? Ora, o Alcorão é explícito na divisão entre fiéis e infiéis, permitindo, inclusive, que os primeiros mintam para os segundos, considerados porcos e macacos. Mas a trapaça é não só permitida como obrigatória quando se trata de levar adiante a mensagem islâmica, em guerra ou não. E essa não é uma mera interpretação da fonte islâmica, como querem os sabichões; é apenas e tão somente a imoralidade intrínseca e entranhada no seio do Alcorão, como vocês mesmos podem ver em 3:28 e 16:106. Como bem lembrado pelo Prof. Bernardino, “a Igreja católica usou a força contra rebeldes que procuravam minar uma religião já solidamente estabelecida entre o povo, ao passo que o protestantismo [o islamismo e o anglicanismo] tanto fez, mas para obrigar as pessoas a abandonarem a antiga fé em que haviam sido formadas, em troca de outra, que lhes era compulsoriamente determinada“.

São tantos dados, tantas fontes, tantos cruzamentos de informações que se você não sabe o básico exposto nesse texto é sinal de que não está habilitado a falar sobre o assunto. Solzhenitsyn tinha razão: levante da mesa e vá para casa estudar.