legalizacao da maconha artigo informações

Legalização da maconha: Leia este texto antes de opinar

Se você fumou maconha (ou queimou, cheirou, injetou), por favor, leia este texto.

Mas não pegue no volante, porque a erva está relacionada ao aumento do número de colisões fatais, com o dobro de chances de acontecerem. No Colorado, onde a droga é liberada, os acidentes aumentaram 100% de 2007 a 2012, segundo um estudo feito pelo diretor do Instituto de Política de Drogas e professor-assistente no Departamento de Psiquiatria da Universidade da Flórida. Também em Washington, mais do que dobraram os acidentes de trânsito fatais provocados por maconheiros depois que a droga foi legalizada, saltando de 8% em 2013 para 17% em 2014. Não obstante, o limite máximo de Tetra-hidrocarbinol (THC) estabelecido para se dirigir com segurança é extremamente arbitrário e mais difícil de ser mensurado do que o definido para o álcool. Pelo menos é o que afirmam o British Medical Journal e a AAA Foundation for Traffic Safety.

O que é Tetra-hidrocarbinol (THC)?

THC é o principal componente ativo da maconha que tem mecanismo semelhante ao de uma substância produzida no organismo, chamada Anandamida. Ambas ativam receptores canabinóides tipo 1 (CB1) no cérebro, gerando, entre outros processos, um aumento na liberação de dopamina em algumas regiões cerebrais. Contudo, ao contrário da Anandamida, o THC leva de 5 a 8 dias para ser expelido totalmente do sangue, sendo algumas vezes mais potente. O problema, então, é que níveis elevados de dopamina alteram a atividade cerebral, levando a alucinações, delírios, acessos de ira e pânico e à diminuição da percepção de tempo e espaço, alguns dos sintomas típicos da Esquizofrenia e do Transtorno Afetivo Bipolar.

Esquizofrênicos ouvem vozes que incitam o suicídio, ficam sem expressão afetiva, têm visões horripilantes. Pessoas com Transtorno Bipolar alternam entre períodos intensos de depressão e euforia. E a maconha aumenta exponencialmente o risco de se desenvolver ambos os transtornos na fase que vai da adolescência aos 35 anos, segundo estudo da American Medical Association, maior organização americana de médicos e de estudantes de medicina. O estudo chama-se Cannabis Use and Earlier Onset of Psychosis. E também há outro, da mesma associação, cujo título é Neuropsychological Permormance in a Long-term Cannabis Users.

O THC vicia?

Sim. Segundo alguns estudos, dentre eles o Adverse Health Effects o Marijuana Use, do New England Journal of Medicine, 9% das pessoas que experimentaram maconha apenas UMA VEZ tornaram-se dependentes, e de 25 a 50% das que fazem uso diário também.

E a maconha medicinal?

A maconha tem pelo menos 400 componentes químicos, embora a grande maioria deles ainda careça de explicação científica acerca de seus efeitos no organismo. Assim, as pesquisas sobre o tema concentram-se em apenas alguns destes compostos, como é o caso do THC, já tratado acima, e do Canabidiol, ou CBD. Alguns estudos sugerem que o CBD não desencadeia efeitos psicoativos e é válido para o tratamento de inúmeras doenças como a esclerose múltipla, dores neuropáticas, câncer, epilepsia e mal de Parkinson. O importante em relação ao assunto, portanto, é entender que a maconha tem diversos componentes, sendo alguns deles psicoativos e outros não. Os primeiros, como é o caso do THC, geram dependência e acarretam graves disfunções ao sistema neurológico. Os segundos, tal qual o CBD, vêm apresentando efeitos benéficos no tratamento de patologias. Logo, pagar um traficante em troca de maconha ou utilizar os componentes psicoativos da erva é completamente diferente de procurar um médico para que ele receite um medicamento isolado, não-psicoativo, que foi testado e aprovado por organizações médicas e agências de saúde no mundo inteiro.

A liberação das drogas acaba com o tráfico e com a violência?

É fácil supor que a descriminalização das drogas acabaria com a violência e com o tráfico, mas um traficante não está no ramo porque tem um apreço especial pelos entorpecentes. Traficante de verdade sequer fuma maconha. Ele planta, refina, distribui e comercializa porque isso rende lucros exorbitantes. Assim, um indivíduo que dedica sua vida a um crime hediondo – e a outros que precisa cometer para sobreviver – não deixaria de ser bandido porque recebeu autorização estatal para vender drogas. A escolha pelo tráfico é (i)moral antes de ser empreendedora e, por isso mesmo, nada garante que um traficante pediria aposentadoria da vida criminosa porque recebeu chancela do Estado.

No mais, a “droga legalizada” seria muito mais cara do que a “droga ilícita”, porque sobre ela incidiria todo o aparato legal de qualquer atividade econômica, aí incluídos direitos trabalhistas, processos, arrecadação tributária, etc. Então é óbvio que, para manter seus lucros, o traficante seguiria com sua atividade fora da burocracia que fatalmente seria criada com a legalização. Por outro lado, se o Estado monopolizasse para si o comércio, também nada faz supor que os traficantes iriam à falência, já que um bandido será sempre bandido e, portanto, escolherá outro ramo para investir na seleção quase infinita de crimes disponíveis no submundo.

Por isso é que a criminalidade também não diminuiria com a descriminalização. Pelo contrário. Aumentariam não só os crimes de outras modalidades cometidos pelos traficantes como aqueles derivados do vício das pessoas, tais quais agressões e furtos; sem contar a guerra entre os próprios traficantes, que seguiria intacta, como mostram os dados do Observatório Nacional Sobre Violência e Criminalidade do Ministério do Interior, do Uruguai: só no primeiro semestre, os assassinatos saltaram de 139, em 2013 (ano da liberação), para 154 em 2015, sendo 43% desse total oriundo do acerto de contas entre traficantes. No total para 2015, o país teve recorde histórico de homicídios, com 272 mortes

A liberação diminui o consumo?

Acreditar que a descriminalização levaria à redução do consumo é tão ingênuo e desonesto quanto supor que o número de estupros diminuiria se o estupro fosse liberado. É que esse argumento remete à (falsa) ideia de que a repressão leva os usuários a consumirem mais, muito embora a realidade venha exaustivamente demonstrando que a liberação das drogas ELEVA o consumo.

Por exemplo: em 2001, Portugal alterou a lei que criminalizava o uso de drogas, permitindo aos usuários portarem “a quantidade necessária para um consumo médio individual durante dez dias”, que seria algo próximo a 15g de cocaína ou 20g de maconha. Mas uma comparação entre os dados coletados no estudo Sinopse Estatística, do Serviço de Intervenção em Comportamentos de Vício e Dependências (SICAD) em 2001 e em 2014, demonstra o aumento substancial do consumo de drogas, especialmente de maconha e entre adultos de 24 a 35 anos, de 12,9% para 15,9%.

Também outra publicação, o Relatório Europeu Sobre Drogas, publicado pelo Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT), revela que o consumo de maconha entre estudantes de 15 a 16 anos subiu de 8% em 2001 para 16% em 2016. E ambos os estudos asseveram que o uso de drogas não só em Portugal, mas em toda a Europa, segue aumentando cada vez mais, inclusive com novos tipos de substâncias surgidas recentemente no mercado.

Mas nem só no Velho Continente o consumo de drogas têm aumentado após a legalização.

No Uruguai, que em 2013 flexibilizou as leis sobre o uso dando ao Estado o controle sobre a produção, consumo e distribuição de maconha, além de permitir o auto-cultivo, o consumo de maconha aumentou consideravelmente entre 2011 e 2015 nas três métricas utilizadas pela Junta Nacional de Drogas (JND), que publicou a VI Encuesta Nacional en Hogares sobre Consumo de Drogas. Entre pessoas de 15 a 65 anos, o consumo por toda a vida passou de 20 para 23%. Nos últimos 12 meses, de 8,3 para 9,3%. E nos últimos 30 dias, de 4,9 para 6,3%. Isso tudo sem contar com os dados do Instituto Técnico Forense, que recebe as drogas apreendidas pelas operações policias. Eles demonstram que a liberação da maconha aumentou o consumo de outras substâncias psicoativas, como o ecstazy e a cocaína, baseado na quantidade cada vez maior de apreensões dessas drogas. Em 2014, foram aprendidos apenas 40g de ecstazy. Um ano depois, 17kg. Por fim, também o Ministério da Saúde uruguaio, em parceria com a JND, apresentou novos dados sobre a apreensão de drogas sintéticas no país, demonstrando que houve um aumento de 7 vezes em relação aos anos anteriores.

A quem interessa a liberação?

Para onde quer que se olhe, a questão das drogas nada tem a ver com garantias individuais ou com saúde pública. Na década de 50, Mao Tse-Tung já proibia o ópio em território nacional sob a alegação de não contaminar o próprio povo, embora tenha entupido os países vizinhos com a droga, isto é, fez dela um armamento químico de guerra. Sessenta anos mais tarde, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA divulga que, em 2015, morreram 52 MIL pessoas por overdose de drogas no país, uma cifra aterrorizante se considerarmos que em regiões de guerra, como a Faixa de Gaza, morrem cerca de 35 mil pessoas ao ano. Nos EUA, portanto, as drogas já são armamentos de destruição em massa, assim como eram na China maoísta, embora com uma singela diferença: a droga chinesa enfraquecia e matava os inimigos; a droga americana enfraquece e mata o próprio povo.

O lobby pela liberação das drogas é e sempre foi uma tentativa de usar a população como cobaia para a engenharia social de intelectuais, burocratas e magnatas de esquerda, usando os entorpecentes como instrumentos de destruição e dominação física e psicológica. Tanto é assim que a própria Open Society Foundation, de George Soros, diz que a política de descriminalização das drogas em Portugal “é o segundo de uma série de relatórios do Programa Global de Políticas sobre Drogas” da fundação. E onde tem George Soros tem sacanagem.

Este é um artigo introdutório sobre o tema. Pretendo avançar na discussão tanto quanto seja possível.

Estudante do curso de medicina pela PUC-SP, pesquisador de temas relacionados a saúde, drogas, política e colaborador do site Estudos Nacionais.

José Dirceu, as leis e a opinião pública

A decisão do STF de revogar a prisão do ex-ministro José Dirceu levanta reflexões interessantes a respeito dos limites da lei na sua relação com a opinião pública. Alguns podem objetar da decisão superior alegando os crimes do político. No entanto, os seus defensores também podem acusar os indignados de estarem apenas repetindo ou seguindo um sentimento coletivo, um certo ódio da opinião pública desenvolvido pelo político e estrategista da esquerda continental, o que evidentemente não pode ser levado em conta no trabalho do STF. Este tipo de defesa foi feita, por exemplo, pelo jurista Ives Gandra da Silva Martins, na época da detenção de Zé Dirceu.

As decisões judiciais de fato devem ser independentes do sentimento da nação – ainda mais quando são determinados por lutas políticas – e devem ser a expressão máxima de justiça. No entanto, a ninguém soará como justa a afirmação de que os tribunais precisam estar atentos à opinião pública com o fim de contrariá-las em busca de uma decisão mais justa. Além disso, é evidente que a decisão do STF proporcionará o retorno à ativa de um dos mais perigosos políticos da história recente do Brasil. Logo após a decisão, José Dirceu já afirmou que fará o PT dar uma guinada à esquerda, isto é, retomar os planos do Foro de São Paulo, organização internacional fundada por Lula e Fidel Castro em 1990 e responsável pela subida ao poder de boa parcela de líderes de esquerda na América Latina.

Muitos movimentos e pautas que ensejaram decisões judiciais ou atos legislativos foram e são motivados por discussões que ocorrem no âmbito da opinião pública. E isso é perfeitamente previsível pelo próprio direito quando diz que a lei é reflexo do costume. Deve-se lembrar apenas que costume não é sinônimo de moda, embora o costume possa estar refletido na opinião pública e contar, inclusive, com o reforço de sentimentos morais da sociedade.

Uma reflexão interessante sobre este assunto está no livro A Espiral do Silêncio, que está sendo lançado pela Estudos Nacionais por meio de financiamento coletivo. Vejamos o que diz Elisabeth Noelle-Neumann sobre essa complexa relação entre opinião pública e as leis.

Um exemplo de como os juízes e a administração reagem de modo precipitado diante da pressão da opinião pública manifestada como concepções ou tendências sociais a respeito de determinadas atitudes, é a campanha contra fumar na presença de não fumantes. Por volta de 1975, porém, a campanha havia crescido tanto que algumas medidas administrativas já aconselhavam ou exigiam a proibição de fumar na presença de não fumantes. Um ano antes, 1974, o tribunal regional de Stuttgart, discordando de sentenças anteriores, concluiu que fumar no interior de um taxi era uma demonstração de falta de respeito com o taxista. A situação culminou com a afirmação do Tribunal Superior Administrativo de Berlim de que os fumantes eram “perturbadores do ponto de vista legal”. Joseph Kaiser, jurista de Friburgo, fez o seguinte comentário: “De repente, sem mais nem menos, o fumante foi relegado a uma categoria definida para efeitos policiais, ou seja, daqueles que se tornaram caso de polícia por representarem um perigo social bem definido. É submetido, portanto, às piores consequências legais. A única condição necessária para fundamentar essa afirmação seria uma prova de que fumantes constituem uma ameaça clara aos não fumantes. Mas isso é precisamente o que não possuímos” (Kaiser, 1975, 2236). Como esta resolução legal foi produzida, neste caso, sem basear-se no uso de provas empíricas, podemos considera-la um processo exclusivo de opinião pública. O comentarista emprega, acertadamente, uma expressão relacionada à moda quando diz que a proteção dos não fumantes está “em voga”.

O livro de Noelle-Neumann foi publicado originalmente em 1977. Os primeiros relatórios científicos que apontavam para os riscos do chamado “fumante passivo” foram publicados alguns anos após as decisões judiciais mencionadas. A pesquisa de A Espiral do Silêncio mostra que antes do surgimento de fundamentações científicas, aquilo que hoje conhecemos como luta antitabagista já se verificava como processo de opinião pública, o que nos faria acrescentar algumas perguntas à questão, como se incluiríamos ou não a ciência no campo das esferas sociais arbitrariamente definidas pela opinião pública, além do âmbito da lei, como ressalta a autora.

Assim, também a questão do aborto, outro tema analisado historicamente em A Espiral do Silêncio, avançou gradativamente no Brasil e no mundo, por meio da influência das pesquisas de opinião na visão que juristas e legisladores acabaram formando suas opiniões sobre o tema.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Fake News: o jogo Baleia Azul e a histeria coletiva

O suposto “jogo”ou desafio do suicídio, chamado de Baleia Azul ganhou as manchetes de toda a mídia online e offline brasileira nos últimos dias. Isso coincidiu com o sucesso da série 13 Reasons Why do Netflix, que aborda o tema do suicídio na adolescência. Supostas vítimas do jogo aparecem, mas as investigações policiais ainda são inconclusivas.

Surgiu em 2015, por meio de uma notícia falsa que foi publicada em um jornal russo e desmascarada em seguida. A história circulou nos meios de comunicação na Rússia, Cazaquistão e Quirguistão, chegando também a países como a Bulgária. Em fevereiro deste ano, o Centro para a Internet Segura de Sofia, na Bulgária, investigou e chegou à conclusão que era um reavivamento de uma farsa que circulou na Rússia em 2015. “Essa incrível história atrai sites de tablóides, que lucram com visitas, acrescentando mais e mais detalhes e histórias horríveis, que não são apoiados por fatos”, disse o Centro para a Internet Segura para o jornal Balkan Insight.

O assunto, com fotos e vídeos de pessoas mutiladas por causa do jogo, tem circulado por redes sociais, pelo whatsapp, mas não fornece informações claras. Algumas dessas fotos e vídeos já foram desmascaradas por sites especializados em desfazer boatos online. A epidemia de preocupação e histeria, principalmente entre quem tem filhos adolescentes, tem impulsionado a avalanche de mensagens.

Uma das mensagens distribuídas, dizia ser de um participante do jogo informando que cumpriria o desafio proposto, de distribuir balas envenenadas em uma escola. Ele disse o nome das escolas, em Minas Gerais, o que causou grande alvoroço entre pais e diretores da escola. Uma operação da Polícia foi montada, mas tudo não passou de uma ameaça falsa, pois nenhum caso foi relatado.

A temática do suicídio

Embora muitos casos de suicídio estejam sendo seriamente associados ao jogo, de acordo com as informações apuradas até o momento, fica claro que se trata de um exagero para gerar comoção popular. Mas por que motivo alguém disseminaria algo assim? As causas podem ser várias, mas o importante são os alvos mais evidentes.

A temática do suicídio no jornalismo demanda certa atenção quando pretendemos analisar a cobertura da imprensa sobre o assunto. Na prática jornalística, ainda hoje, é praticamente proibido noticiar suicídios. Trata-se de uma convenção profissional, uma espécie de acordo de cavalheiros. Além de ser uma prática obviamente reprovável por todos os vivos, ninguém duvidou jamais que noticiá-la poderia incentivar pessoas já predispostas. Além disso, outro motivo é a óbvia exposição da vida íntima do suicida que uma notícia traria. A outra consequência é a social: a notícia de uma epidemia de suicídios poderia desestabilizar a ordem social, provocando um verdadeiro apocalipse de desesperança e caos. Mas diante disso, será que as notícias diárias sobre a violência já não fazem isso? Segundo os sociólogos tradicionais, não. O suicídio seria a gota d´água. Mas isso está para mudar.

Novas discussões no âmbito do jornalismo prático questionam a renúncia de noticiar casos de suicídios baseando-se em crenças como a manifestada em um artigo da jornalista Carolina Grando, no Observatório da Imprensa:

Da mesma forma que o jornalismo dá conta de cobrir noticiosamente outros temas tabus que figuram entre as manchetes dos jornais diários, como pedofilia ou incesto, contribuindo para a denúncia de práticas ilegais e para informar acerca de outras realidades, as notícias sobre suicídios poderiam obter o mesmo êxito, alcançando senão a finalidade do jornalismo, que é gerenciar a arena simbólica e proporcionar um compartilhamento de informações e experiências, promovendo debate e maior compreensão sobre temas sociais.

Essa afirmação deixa de fora um fato importantíssimo: tanto pedofilia e incesto, quanto o uso de drogas (outro tabu rompido) vêm se tornando pauta de movimentos que reivindicam aceitação pública, exigindo descriminalizações e direitos sociais. Na Alemanha, o incesto já não é crime. A pedofilia da mesma forma, já conta com entidade com status consultivo na ONU, que defende a prática sob o nome de “direitos sexuais para crianças” e as drogas estão prontas para ter seu comércio legalizado, já que o seu uso já é descriminalizado.

A observação da autora do artigo do Observatório da Imprensa é bastante ingênua, fruto de profissionais que acreditam na auto-suficiência do jornalismo como força integradora da sociedade, esquecendo de quando ele responde bovinamente aos estímulos de movimento sociais e influências cujo dinheiro e credibilidade, há décadas, o jornalismo depende.

Toda nova disposição legal, no Ocidente, vem primeiro pela boca inconsequente e submissa dos jornais. A questão do suicídio já conta com discussões aprofundadas em muitos países, mas também no Brasil abordando razões ou personagens que apelam para histórias comoventes. Em matéria da Revista Fórum o “tabu do suicídio” é considerado um atentado contra a laicidade do estado.

O problema da depressão e suas causas

Os problemas alegados pelas notícias assustadoras sobre o jogo Baleia Azul parecem alertas importantes, como o cuidado dos pais com filhos adolescentes, crianças etc. O problema da depressão parece outra sub-pauta levantada, tendo como consequência o suicídio, discussões que servem de alarme social para catalizar reações de pânico diante do aparentemente inevitável e incontrolável. Muitas discussões parecem infrutíferas quando surgem nos meios mais populares, como papos de família, escolas e universidades ou no ambiente de trabalho. Em geral, a tendência é a obediência a um fluxo de pautas recebido gratuitamente, sem qualquer justificativa. A longa exposição a notícias de tragédias e males incontroláveis, porém, gera nas pessoas uma perda de esperança na liberdade humana, fazendo com que algumas pessoas já predispostas a isso, comecem a sugerir controles absolutos sobre as atitudes humanas.

A depressão cada vez mais é vista como doença de ordem puramente química, quanto mais notícias, impulsos e todo tipo de estímulos as pessoas recebem desde a infância. O mundo moderno, com a presença constante de tecnologias de altíssima velocidade, complexidade e incognoscibilidade, produz evidentemente uma ansiedade que pode ser mortal. Os motivos da depressão ninguém sabe ao certo. Mas é extremamente sintomático que os defensores mais ardorosos da “causa química” admitam ser portadores de algum grau do problema.

É evidente que todas as causas para a depressão estão presentes na nossa sociedade. Famílias desestruturadas, secularização crescente da educação e das famílias, cultura juvenil destruidora e desequilibrada. Mas afinal, onde estavam os preocupados com a adolescência de hoje na época de festivais como Woodstock?

Já faz algum tempo que portadores desse problema dizem, ao serem perguntados se estão bem, “estou quimicamente bem”. Isso nos leva a perguntar sobre a responsabilidade da indústria farmacêutica e de psiquiatras que têm respostas químicas para todos os problemas, o quanto de dinheiro estão levando ao transformar milhares de pessoas em escravos de medicamentos. E até que ponto esses medicamentos não terão também a sua efetividade política, moral e social sobre a democracia quando decidirmos sobre questões importantes. Será que ouviremos um sonoro “sou quimicamente a favor”?

 

 


Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
arquitetura classica e antiga

Arquitetura clássica nos faz mais felizes e tem maior valor no mercado

A beleza da arquitetura antiga traz sensações de felicidade e relaxamento como as áreas verdes e parques.

Uma grande quantidade de pesquisas têm indicado que a arquitetura tradicional ou antiga, anteriores ao século XIX, torna as pessoas mais felizes.  Um passeio pelas catedrais antigas e outros prédios dos séculos passados produz relaxamento e felicidade.

O estudo sugere que a beleza da arquitetura clássica pode ter diversos impactos positivos a saúde.  “Isso mostra que a importância da beleza dos ambientes em que vivemos pode ser maior do que se acredita”, diz um dos pesquisadores.

Clássico vale mais

Um estudo da Holanda mostrou que casas com arquitetura neo-tradicional são vendidos em média 15% acima das casas com arquitetura não tradicionais ou moderna. Quando as edificações possuem apenas alguns elementos de arquitetura neo-tradicional ou tradicional, são vendidas 5% acima das modernas.

Prédios na Inglaterra construídos antes da primeira guerra mundial tiveram uma valorização de 465% entre 1983 a 2013, enquanto as construções pós-guerra tiveram valorização de 255% no mesmo período.

Mesmo sem conhecimento desses estudos têm se visto que as pessoas dão grande valor a arquitetura clássica e antiga. Contudo, as novas construções têm seguido outras tendências preterindo a preferência de muitas pessoas.

Em face ao estudo publicado, muitos jornais como o Telegraph, o blog The Sector e outros, tem questionado: Por que não construir mais prédios com arquitetura clássica, antiga e medieval?

O psicólogo David Halpern fez uma pesquisa em 1987, verificando as preferências arquitetônicas de estudantes em geral. Isso mostrou que os estudantes de diferentes cursos universitários tem gostos semelhantes, mas os estudantes de arquitetura demonstraram ter preferências distintas da maioria dos demais estudantes. Curiosamente, os dados também indicam que quanto mais o estudante avança no curso de arquitetura, mais suas preferências arquitetônicas distanciam-se dos demais estudantes de outros cursos.

Estudo original: Quantifying the Impact of Scenic Environments on Health
Publicado em: Scientific Reports, Nature.com.
Data de publicação: 25/11/2015.

Pesquisador independente e tradutor, escreve e coordena pesquisas para o site EstudosNacionais.com. Desenvolve projetos editoriais na editora Estudos Nacionais e Livraria Pius.

Rockefeller morre, mas globalismo vive

A morte do milionário mais velho do mundo, David Rockefeller, aos 101 anos, nos faz reconhecer a durabilidade e insistência das utopias. Para a grande mídia, morre apenas um banqueiro bondoso e preocupado com o futuro do planeta. Na realidade, a filantropia que virou marca da família Rockefeller por meio da Fundação Rockefeller, representou o avanço das maiores agendas globais que dominam, hoje, os corações e mentes de todos os que se deixam levar pela maré das ideias aparentemente espontâneas que rodeia a mídia e o mundo da política. Muito mais do que bancos e fortunas, David herdou um plano de longo prazo para o mundo.

Além das questões ambientais, sobre as quais era especialmente sensível, a atual agenda internacional do aborto só pôde existir graças aos esforços daquela família, para quem a questão do controle populacional era de fatal importância.

Em 1952, juntamente com mais 26 especialistas em demografia, nos escritos de muitos dos quais já se encontrava claramente expresso que somente através da implantação do aborto seria possível controlar a explosão demográfica, John Rockefeller III fundou o Conselho Populacional, uma entidade pouco comentada pela mídia mas que, sediada em Nova York, desempenhou o papel de cérebro na formação da problemática do aborto a nível mundial. Através do Conselho Populacional John Rockefeller III elaborou um plano de longo prazo para estabelecer uma política global de controle populacional.

A herança do globalista David Rockefeller é, portanto, maior e de maior abrangência que o seu dinheiro, já que abarca todo o uso que fez dele ao longo de sua vida centenária.

Os sonhos de uma Nova Ordem Mundial fizeram da sua geração de milionários filantropos verdadeiros governantes do mundo. Assim como George Soros, faz com a mídia, os Rockefeller impulsionaram estudos nas áreas científicas com o intuito diabólico de extirpar o mal no mundo mediante a destruição da liberdade humana. Quase tudo que se produziu em ciências biológicas e do comportamento para induzir os seres humanos à adesão de ideologias por meio de estímulos, a chamada engenharia social, pode ser colocada na conta dos Rockefeller, muito mais do que o dinheiro que arrecadaram fazendo isso.

Quando o pai de Bill Rockefeller descobriu um poço de petróleo em seu terreno, no Texas, inicialmente achou que podia vender como remédio e enganou muita gente criando o Nujol, como cura para o câncer. Depois de uma enxurrada de diarréias, acrescentou ao rótulo a função “laxante”. E assim foi vendendo.

Bill foi um dos iniciadores da indústria farmacêutica ao criar um sistema de certificação de patentes baseado em pagamentos e créditos. As certificações aliadas aos governos e protegidas por eles tiveram início graças ao bom relacionamento da família Rockefeller com os presidentes norte-americanos. Isso deu origem à indústria farmacêutica e a seus sistemas de certificação utilizados para viciar a população em drogas cada vez mais recomendadas por médicos e pela mídia.

O sonho da Nova Ordem Mundial, porém, vive na Fundação Rockefeller, assim como na Open Society, de George Soros e nas utopias da ONU, a partir do sonho do controle populacional, dos recursos naturais (ambientalismo) e da mente humana por meio da Ideologia de Gênero. Estes pilares de planos globalistas, cuja efetividade já foi demonstrada, prometem viver muito mais do que 101 anos. Mesmo que não funcionem, já prometem deixar um rastro de destruição.

 

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

PL propõe criminalizar a difusão de notícias suspeitas

Projeto de Lei tornará crime o compartilhamento de notícias que sejam consideradas falsas ou “prejudicialmente incompleta” na internet. A proposta (PL 6812/17) será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania e, depois, pelo Plenário da Câmara. O projeto não traz informações sobre o método ou o critério usado para apurar a verdade de um texto compartilhado e tem sido visto como tentativa de impor censura nas redes sociais.

O projeto, de autoria do deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) justifica a medida:

A rápida disseminação de informações pela internet tem sido um campo fértil para a proliferação de notícias falsas ou incompletas. Atos desta natureza causam sérios prejuízos, muitas vezes irreparáveis, tanto para pessoas físicas ou jurídicas, as quais não têm garantido o direito de defesa sobre os fatos falsamente divulgados. A presente medida tipifica penalmente o ato de divulgar ou compartilhar notícia falsa na rede mundial de computadores, de modo a combater esta prática nefasta. Assim, contamos com o apoio dos nobres parlamentares à presente proposição.

O projeto de lei não especifica como serão julgadas as notícias ou qual o critério para a averiguação da verdade.

Quem são os alvos do projeto

A expressão Fake News começou a ser difundida a partir de declarações de Donald Trump durante a campanha presidencial dos EUA. O presidente eleito norte-americano a utiliza, no entanto, para se referir à CNN e outros canais que fizeram oposição declarada à sua candidatura.

A proposta do deputado, no entanto, já foi destaque do Fantástico e tem sido elogiada na mídia brasileira. A maior preocupação do projeto é com o fluxo imprevisível e incontrolável de informações que circula por blogs e pelas redes sociais e obrigando a grande mídia a noticiar.

Além de já existirem dispositivos constitucionais semelhantes que podiam ser evocados para a questão, o projeto do deputado não informa os critérios ou métodos para averiguação da verdade nos conteúdos analisados, dando a entender que será arbitrário e, portanto, já visto como tentativa de censura nas redes sociais.

Notícias, artigos e estudos sobre a realidade brasileira e o contexto internacional. Selo editorial especializado em comunicação, sociologia e história recente do Brasil.
foto do garoto bruce reimer que sofreu mudança de sexo e cometeu suicidio

caso Reimer: experiência de troca de sexo leva gêmeos ao suicídio

Pouco antes de se suicidar, Bruce Reimer decidiu tornar sua história pública para desencorajar que outras pessoas fizessem experiências de troca de sexo.

“Os gêmeos são Bruce e Brian Reimer e a infeliz circuncisão de Bruce aconteceu em 1965. Seus pais, Janet e Ron Reimer, viram o Dr. Money em um programa de  televisão, onde este “.. garantia que é possível que os bebês tenham um sexo neutro ao nascer, um sexo indefinido, que pode ser mudado no desenvolvimento de sua vida”, explicou Janet Reimer, mais tarde, a John Colapinto, autor do livro sobre essa experiência intitulado “Sexo Trocado: a história real do menino criado como menina” (edição brasileira).

Os pais entraram em contato com o Dr. Money, que aceitou o desafio de intervir cirurgicamente e educar Bruce como mulher, utilizando Brian (com a mesma herança genética) como um controle teoricamente perfeito da experiência.  Em 3 de julho de 1967, Bruce foi mutilado e simularam-lhe genitais femininos externos. A partir dessa data, Bruce foi chamado de Brenda. “Dr. Money mandou a família de volta para casa com instruções muito rigorosas. “Disse-nos que não falássemos do assunto, que não contássemos a verdade a ele e que, sobretudo, jamais deveria saber que não era menina”.

“As coisas foram mal desde o começo. Janet Reimer lembra o que aconteceu quando colocou em Brenda seu primeiro vestido, pouco antes de completar dois anos de idade. “Tentou arrancá-lo, rasgá-lo. Lembro que pensei: meu Deus, ele sabe que é um menino e não quer se vestir como menina!”.

O menino lembrou o drama do seguinte modo: “Foi uma espécie de lavagem cerebral…daria qualquer coisa para que um hipnotizador conseguisse apagar todas essas lembranças do meu passado. É uma tortura que não suporto. O que me fizeram no corpo não é tão grave como o que provocou em minha mente”.

Quando a adolescência de Brenda chegou, Dr. Money, que já tinha usufruído de suas experiências, se afastou da família Reimer. Em 1980, seu pai contou-lhe toda a verdade; depois de poucas semanas, Brenda optou por um longo processo cirúrgico – faloplastia – que, depois de cinco anos devolveu a ele a aparência masculina perdida, e adotou o pseudônimo David. Aos 23 anos, conheceu Jane, uma mãe solteira com três filhos, com a qual mais tarde se casou. No ano 2000, sua história tornou-se pública através do livro do Dr. John Colopinto, citado acima. Pouco depois de sua publicação, David e Jane se divorciaram. No ano de 2002, seu irmão gêmeo Brian Reimer se suicidou. David se sentiu responsável por sua morte e por isso visitava seu túmulo diariamente. Dois anos depois, o próprio David – ou Bruce – Reimer, também se suicidou, concluindo assim, definitivamente, a trágica experiência do Dr. Money. O gênero nunca teve nenhuma comprovação empírica.

[do livro Ideologia de Gênero, de Jorge Scala, páginas 33-34]

Notícias, artigos e estudos sobre a realidade brasileira e o contexto internacional. Selo editorial especializado em comunicação, sociologia e história recente do Brasil.

Como funciona a falácia da postura equilibrada

Existe um tipo recorrente de analfabetismo, um pouco mais sutil que o funcional, que põe verdade e mentira em uma posição relativa dentro de frases isoladas. Podemos chamar de “analfabetismo moral” (?). Existiriam, assim, “verdades” presentes dentro de um contexto de argumentação falaciosa e criminosa, como nos de abortistas, nazistas, comunistas, etc, todas aquelas cujo fim último é mal em si ou fruto de um desconhecimento profundo dos conceitos envolvidos. É preciso dizer de antemão que nessas argumentações não há propriamente verdades, mas fatos reais usados para fins que não condizem com a verdade.
 
Ou seja: Quando uma feminista diz uma verdade, é mentira.
 
Relatar um fato real não é exatamente “verdade”, mas apenas um relato. Para caracterizá-lo como verdade, no sentido pleno, seria preciso saber a intenção dele, ou o fim último, como diria Santo Tomás. Se uma feminista diz “é preciso proteger a mulher contra a violência”, porque pretende, com isso, justificar o aborto em casos de estupro, o que ela disse não foi uma verdade e sim uma mentira. Considerar isso verdade é o que motiva a abertura ao diálogo com termos totalmente falaciosos ao invés de denunciá-los prontamente.
 
O erro de classificarmos pequenos juízos isolados e fora de contexto como verdades, é o que faz com que pensemos ser possível “juntarmos” as verdades presentes em cada lado de um debate para formularmos, com isso, uma posição equilibrada. Ora, opta-se pelo equilíbrio por identificá-lo com o bem e, portanto, com a verdade. Mas o equilíbrio entre mentira e verdade privilegiará sempre a mentira, já que o arbítrio do conflito (o equilíbrio) já se baseia em falsear o critério de veracidade.
 
Qualquer arbítrio entre mentira e verdade pretenderia ser superior aos dois lados envolvidos e, portanto, superior à verdade. Então se trata de uma mentira.
 
A verdade depende do fim. E é esse erro que passa na cabeça de quem defende uma neutralidade pessoal em debates, uma prudência em tomar posição, que só se justificaria em questões complexas quando nos faltaria conhecimento e não quando se trata de questões morais muito claras, como o exemplo do aborto.
 
Cristãos de todos os tipos (embora principalmente católicos) andam entrando nessa postura supostamente equilibrada que propõe, nas entrelinhas, calar a verdade e dar poder à mentira. Basta que um debatedor lance um relato de um fato para paralisar o outro lado e fazê-lo se sentir errado e culpado.
OBS.: Obviamente, estamos falando do conceito de verdade plena, aquele que se identifica com o bem e a beleza, não no sentido moderno e estrito, baseado no conteúdo de afirmações e no critério da correspondência com fatos ou versões de fatos. Este último sentido é o que deu origem a afirmações tais como “não há verdade, mas somente afirmações verdadeiras”. Isso diminui e restringe o conceito de verdade àquele praticado pelos pré-socráticos ou, no máximo, àquele que mais tarde foi chamado de nominalismo, isto é, a ideia de que os conceitos foram criados a partir dos seus fenômenos e não o contrário. Para a filosofia clássica (na qual me baseio aqui), os fenômenos e espécies dos entes devem o que são aos princípios universais equivalentes. Por exemplo, afirmação verdadeira deve sua veracidade ao princípio universal da Verdade.
Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Como funciona a espiral do silêncio nas redes sociais

A Teoria da Espiral do Silêncio foi desenvolvida na Alemanha, por Elisabeth Noelle-Neumann, em uma análise prolongada dos resultados das pesquisas eleitorais. Os pesquisadores observaram, após vários testes que incluíram uma diversidade de métodos, que uma das principais causas para as pessoas darem suas opiniões publicamente, ou ficarem caladas sobre elas, é o nível de medo do isolamento social. Esse medo ficou comprovado em sucessivos testes de campo. Se uma opinião é vista como majoritária, os opinadores dela terão mais coragem em se manifestar. Por outro lado, os contrários a ela terão uma tendência a ficarem calados. O resultado é um clima de opinião determinado pela propaganda de que uma ou outra opinião é majoritária. Um dos fatores mais importantes, portanto, é a atenção dada pelas pessoas ao comportamento opinativo do entorno social. A teoria foi formulada na década de 1970.

Antes do advento da Internet, portanto, as pessoas se informavam por canais mais simples como ouvir conversas no ônibus, em grupos de amigos ou acompanhar o noticiário opinativo. Parecia não haver lugar seguro para o isolado socialmente, aquele que possui uma opinião não compartilhada pela maioria (ou suposta maioria). Por isso, muitas pessoas mesmo intrigadas com determinadas questões públicas, precisavam de um longo período de silêncio até compreender a opinião do entorno e escolher se exporiam sua opinião ou não. O fator determinante era o medo do isolamento. Com a Internet, isso mudou substancialmente.

Segundo Neumann, no cálculo do risco de isolamento social, o indivíduo opta por empregar algum esforço na observação do entorno opinativo para reduzir o risco de confronto quando for externar sua opinião.

O computador pessoal se tornou rapidamente uma extensão da mente humana. Foi possível pesquisar solitariamente informações sobre assuntos, de modo que a pessoa possa manter-se em silêncio até ter informações suficientes para uma opinião mais segura. Inclusive informações sobre as opiniões correntes e mais aceitas. Os filtros de busca, como o Google, tornaram mais facilitada a procura por companheiros de mesma opinião, o que reduziu a sensação de isolamento e, com isso, o seu medo natural do ostracismo. O meio virtual como um simulacro do meio social contribui para o alívio da solidão humana e isso influi consideravelmente na criação de afetos e solidariedades grupais importantes para o reforço de personalidades, muitas vezes fortes e conflitantes com a maioria, o que sem a rede ocasionava isolamentos sociais dolorosos ou, o que é mais comum, o silêncio sobre as próprias opiniões e o fingimento de uma adequação social.

A espiral nas redes sociais

No Facebook, o feed de cada pessoa constitui o clima de opinião a que a pessoa tem acesso e serve, portanto, de critério de análise do que se pode ou não dizer, sempre por meio do cálculo do risco de isolamento, mensuradas com certa eficiência pelas curtidas, compartilhamentos ou comentários. A possibilidade de bloquear quem pensa diferente pode significar uma resposta ao velho medo do isolamento, o que é dado com um isolamento voluntário (ou seria a satisfação inerente à sensação de estar isolando o outro?). Por outro lado, o bloqueio pode ser uma ferramenta eficiente para se sair do mecanismo da espiral do silêncio. Ou pensar que se está saindo ao criar (randomizar) o próprio entorno social. Assim, gera-se um ambiente propício à externalização das próprias ideias de modo que eles até mesmo as reforçam.

O ambiente social, seja nas redes ou na realidade física, é um importante fator para determinar o que é dito ou não. A geração de um ambiente confortável à circulação de determinadas ideias pode representar também uma prisão ou um entorno igualmente hostil a ideias diferentes, o que impediria a entrada de ideias novas de outras pessoas ou mesmo da própria pessoa dona do perfil “configurado” para aceitar suas ideias. Portanto, o bloqueio ou o que se chama “limpeza” do feed, pode representar uma faca de dois gumes. Nem todas as pessoas possuem força interior, hoje, para retirarem-se de seus ambientes sociais toda vez que o ambiente se torna hostil às suas ideias. Em algum momento, as pessoas desistem de desfazer amizades e bloquear inimigos e passam a concordar com o entorno. Isso pode ser muito bem compreendido quando entendemos a mudança do caráter social no último século.

O reforço psicológico do grupo de apoio das próprias opiniões pode, por isso, favorecer uma radicalização ou até mesmo uma estagnação de indiferença e, por fim, o isolamento voluntário. É a isso que se referem, em geral, as reportagens comuns sobre o “ódio nas redes”. O problema é que, apesar de possíveis problemas, as redes sociais forneceram, nos últimos anos, um importante incremento à informação. Mesmo considerando verdadeiras as acusações da grande mídia, de que as redes sociais se tornaram o lugar do ódio.

Nos últimos anos, no Brasil, o Facebook foi amplamente usado para a mobilização que culminou no Impeachment de Dilma Roussef, em 2015. Além disso, a Internet tem sido palco de numerosas análises e divulgação de fatos e informações sistematicamente sonegados da população, o que evidentemente causa preocupação àqueles engenheiros sociais (ou seus repetidores úteis) que creem no perigo destruidor das massas e que, sem o auxílio da elite de iluminados que mantenha a massa domesticada, o caos e a final destruição serão os únicos destinos da civilização.

O upgrade da espiral do silêncio

Em uma matéria recente da Revista Veja, uma suposta novidade produzida pelas redes parece estar assustando analistas de mídia. São os “haters” (odiadores), que parecem estar povoando as redes e disseminando preconceitos raciais, sexuais e produzindo uma cultura de “bullying virtual”. O que esses analistas não percebem (ou fingem não perceber) é que essa nova classe de pessoas sempre existiu, mas era constrangida por um clima de opinião que as ameaçava de isolamento. A espiral do silêncio não é algo dependente da mídia, mas que acontece no meio social de qualquer forma. A criação da palavra “haters”, assim como a própria matéria da Veja, representa, na verdade, a tentativa de upgrade da Espiral do Silêncio, ameaçando com o isolamento e a humilhação pública aqueles que ousem dizer aquilo que pensam.

Muito pior que qualquer difamação racial ou sexual, o que a Veja faz, ecoando as ideias dos meios universitários do Brasil e deste preocupado mundo, é nada mais que instituir a perseguição à livre opinião, o que no caso representa a perseguição da revelação da verdade. Opinião é uma palavra bastante dúbia nos dias de hoje. Ela tanto pode ser digna de um Prêmio Nobel da Paz como pode tornar alguém o alvo preferencial de acusações de ódio e de todo tipo de preconceito.

O que chamam de preconceito racial, social, sexual e bullying, assim como denunciam ataques sofridos por celebridades (como se celebridades fossem midiaticamente indefesas), é na verdade a opinião sincera, temida desde que se começou a estudar meios de controlar as massas. Intelectuais como Gustav LeBon, Walter Lippmann, H. G. Wells, entre outros, acreditavam que a massa era incontrolável e tinha o potencial de dizimar a democracia e toda forma de liberdade por meio da sua espontaneidade caótica. Eles baseavam-se em teorias contratualistas como a de Thomas Hobbes e Rousseau, para quem a sociedade civilizada se originava de um contrato social, sem o qual o caos imperaria. Assim, a espontaneidade para esses intelectuais e seus seguidores, sempre será um mal que deve ser contido mediante o que Karl Mannheim chamou de “técnicas sociais”.

Leszeck Kolakowski, no célebre livro O espírito revolucionário – Marxismo: utopia e anti-utopia, afirma vir desses intelectuais aquilo que ele chama de intolerância da indiferença. Uma tal suposta”ditadura da verdade”, que o autor considera um “círculo quadrado”, pode ser imposta por dois motivos:

1) afirmando que a falsidade e o erro não podem ser tolerados porque a sociedade estaria perfeitamente convencida da verdade;ou

2) acreditando que verdade e justiça não possuem objeto e que seria preferível impor um único ponto de vista a todos do que deixar que os seres humanos briguem por futilidades.

Esta última hipótese, comum entre os estudiosos das teorias funcionalistas das ciências humanas, gira em torno da crença de que todo o estudo da realidade tem, em última análise, uma função social. Essa função era vista como formadora, normativa e organizadora da sociedade. Qualquer organização é melhor que o caos, para eles.

A explicação precisa preexistir aos fatos

O poder da mídia está menos na difusão de fatos do que na interpretação deles. Explicar o que está acontecendo é, para os intelectuais por trás da mídia, muito mais importante do que apenas apresentar os fatos. O momento dos fatos é o momento em que a forma da mente das pessoas precisa estar adequada para recebê-los. Para isso, a mídia precisa oferecer constantes análises e explicações da realidade. Quando as redes sociais resultam em um movimento de repúdio às ideias difundidas por essa elite seguidora daquelas ideias, tudo fica incompreensível e a mídia precisa oferecer uma nova explicação. A desestruturação do sistema social é a explicação mais utilizada, pois ela leva a pensar em soluções de reintegração, o que na forma da mente das pessoas significa imposição de uma ordem qualquer para resolver o problema do caos.

Espiral sempre existirá

Vivemos o império da empatia. As amizades, o círculo social, ganharam um valor acima de todos os valores culturais que imperavam nos séculos anteriores, o que deu à socialização um valor quase absoluto. Portanto, embora a espiral do silêncio possa ser atenuada em determinadas épocas, ela pode também ser reforçada por uma mudança naquilo que a sociedade considera mais importante de acordo com verdadeiras ou supostas ameaças sociais. O isolamento social já foi a marca característica de santos e heróis em épocas nas quais era fácil compreender que a verdadeira salvação está no abandono de si mesmo, o que implica diretamente no abandono do entorno social e de todo o respeito humano. O heroísmo dos indivíduos do passado, mesmo os cidadãos comuns que abriam empresas e chefiavam suas famílias, vai ficando cada vez menos compreendido em um mundo para o qual a direção da vida deve ser dada pelo movimento social. Mesmo a luta interna dos indivíduos contra o entorno, algo universal no ser humano, pode ser feita através de uma conduta imitativa, na qual o apreço social inerente à aparência de independência motive reações e modos de vida inteiros aparentemente livres.

O mundo da tolerância abstrata é o mesmo que não tolera opiniões diversas do ideal de tolerância calibrado pelos meios de comunicação e repercutido nos meios sociais. Opiniões independentes quase sempre sofrem a pressão das acusações de rompimento com o ideal de “empatia” permitido. Por isso, mesmo nas redes sociais o crime mais comum entre as acusações é o da arrogância, normalmente confundido com opinião independente. É claro que em um mundo neuroticamente socializado, dizer coisas que não são reconhecidas imediatamente dentro do padrão de opiniões circulantes, identifica-se com o rompimento da lógica socializadora e, portanto, solidária e tolerante. Essa aparente disfunção dos valores sociais vigentes só pode ser interpretada como um excessivo centro em si mesmo, um individualismo exacerbado, quando na verdade é apenas uma verdade não reconhecida pela linguagem dos cânones midiáticos.

A espiral do silêncio está presente nitidamente inclusive em ambientes religiosos, nos quais a conduta padrão é a dos santos e mártires, mas nos quais ainda assim impera o medo e a ameaça constante do isolamento social. Essa situação permitiu uma nova interpretação dos próprios mandamentos cristãos, como o Primeiro Mandamento (amar a Deus sobre todas as coisas), que facilmente era entendido noutras épocas, mas que hoje se encontra totalmente submetido ao amor ao próximo, algo cada vez mais ambíguo quando a interpretação corrente facilmente confunde o próximo com todo o entorno social e as ideias que circulam graciosamente pelo ambiente advindas da mídia de massa.

O homem precisa do reforço do próximo e esta afirmação evidencia a sua imperfeição e limitação. O limite do homem certamente está na sociedade que o envolve, assim como o que o transcende só pode estar obviamente fora do ambiente físico e social, ainda que seja nele que a sua transcendência se manifeste.

[give_profile_editor]

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Onde está o autêntico tradicionalismo cultural?

Nossa degradação tem nome, sobrenome e endereço. É a ignorância. Ignorância sobre quem somos e quem devíamos ser. Porque a resposta a isso está na cultura. Mais profundamente, essa ignorância se tornou indiferença. Indiferença cultural é o que promovem aqueles que, por acreditarem-se donos dos rumos da humanidade, optam por esterilizar o ambiente para que ninguém mais saiba quem somos e para onde vamos. No Brasil, o problema pode ser visto de longe, não só na música como no modo de entender, seja entre os que se dizem esquerdistas seja entre os que se dizem conservadores, tradicionalistas.

A respeito da música muitos remeteriam ao Estado Novo, ou ao início do século XX e à campanha política que buscava uma nova identidade nacional negando ao brasileiro a sua verdadeira identidade portuguesa, mais fatalista, triste e dramática, para travesti-la da neurose carnavalesca, essa mentira de estética histriônica e simultaneamente depressiva (ou deprimente). Poderíamos também conceder aos modernistas de 22 o troféu da transformação em nome do abstratismo elitista. De fato, a partir daí o povo brasileiro já teria sido apartado de uma vez da cultura, tornando-a incompreensível aos olhos e ouvidos populares. Mas poderíamos inclusive nos concentrarmos nos primeiros gemidos da modernidade, quando a velha e conservadora exigência do uso dos tons celestiais pelos platônicos e neoplatônicos dos cruéis cristãos ia sendo aos poucos substituída pela também exigente matematização vivaldiana, filha do deslumbre da técnica. Essas exigências tonais são os antepassados dos estilos musicais, ritos que mais tarde serviram de runas iniciáticas da cultura pop. Mas a decadência musical que vivemos hoje é bem menos chique, bem menos erudita ou sofisticada. Ao menos aparentemente. Falemos de nossa mais recente precipitação. O que poderia soar aos sofisticados modernistas como um abismo vertiginoso, vista daqui de baixo nos parece uma tranquila planície. Afinal, eles nunca imaginariam. Assim, nós também não imaginamos a distância que estamos mesmo dos modernistas.

Depois de todo o percurso musical que a técnica ditou a partir da modernidade, os velhos tons celestiais conhecidos dos chineses antigos e clérigos medievais tornaram-se peças de museu. Mas isso nunca significará que a música tenha perdido o seu caráter espiritual. Aquilo que apenas não é percebido não deixa de ser eficiente. E embora tenhamos a tendência a achar que a cultura pop apenas destrói nossa espiritualidade, não podemos esquecer que algo sobrou de ordem mesmo que por meio de uma moldura caótica. O artista busca sempre uma linguagem que possa dizer ao homem do seu tempo. Por isso a tendência a fugir do tradicional, o que nos levou muitas vezes ao antitradicional, nem sempre significou o desejo de destruição que pareceu. Sempre será necessário, no entanto, um passo adiante para um virar de cabeça, que ao franzir das testas tradicionais compreendia de modo diverso a verdade universal que sempre esteve presente. Digo tudo isso pra lembrar que não podemos nos fechar ao que imaginariamente nos remete ao tradicional, o culturalmente tradicional, a caricatura que é produto da cultura e não da tradição, para ser mais específico. Afinal, quem nos garante que a arte tradicional não esteja sendo para nós apenas um passa tempo nostálgico que em nada toca os problemas reais do nosso tempo? O produto da tradição é sempre invisível e pode ser acessado em qualquer época, seja qual for a sua linguagem. A isso deveríamos chamar um autêntico tradicionalismo.

O advento do cinema pareceu nos mostrar perfeitamente como refletir o universal por meio de uma linguagem nova. Afinal, se as verdades universais se caracterizam por não dependerem do contexto ou da interpretação de uma época ou modo de ver, qualquer linguagem pode dar conta de abarcá-las. O problema não reside, portanto, na adaptação a novas linguagens, formas ou modos de ver, mas na distância que estamos da experiência humana real e, por isso, universal.

A série de TV americana Once Upon A Time criou um contexto diferente para abordar as verdades dos contos de fada. Personagens como Branca de Neve, Príncipe encantado, os sete anões e muitos outros, são surpreendidos por uma maldição lançada pela Rainha Má exilando-os fora do mundo dos contos de fada, ou seja, no nosso mundo. Desprovidos da memória de quem são, eles vivem vidas comuns em nosso mundo, mas repetem comportamentos dos personagens dos contos de fadas. Muitas verdades universais presentes nessas histórias infantis se tornam mais claras quando transpostas para o nosso mundo. A relação entre fantasia e realidade é bastante complexa e engana-se quem identifica o reino da fantasia como o da pura ficção, mentira ou da falsidade. O reino da fantasia é o ideal, o mundo dos princípios platônico ou, no cristianismo, o Paraíso. Assim, os personagens da série vivem no mundo pensando serem do mundo, mas aos poucos vão sendo informados de que não pertencem àquele mundo e sim ao mundo onde os heróis sempre têm finais felizes. A salvação prometida aos justos começa, aos poucos, a provocar a inveja da Rainha Má, responsável pela maldição que os fazia pensar que o seu reino não existia (uma queda do Paraíso). Adaptado a um mundo onde as mulheres detém cada vez maior liderança, o contexto traz tanto o demônio representado por uma mulher (a Rainha Má) como o Salvador, representado pela personagem Emma Swan, filha da Branca de Neve com o Príncipe Encantado, que foi exilada desde o nascimento neste mundo e portanto é a única capaz de quebrar a maldição que os mantinha na ignorância de quem eram e do mundo de onde vieram. O cisne (Swan) representa a beleza e a pureza imaculada. Mas o cisne também representa a dualidade pois pode ser branco ou negro, representando as trevas. As trevas são o grande vilão da série, combustível da magia usada pelos maus e pela Rainha Má, sempre como uma tentação. As trevas surgem associadas à inveja e ao ressentimento, como o do ódio da Rainha Má à inocência de Branca de Neve. Em dado momento, Rumplestistiskin, o bruxo lendário, mentor e algoz da Rainha, alerta sua majestade: “As trevas não são como um banquete que você se serve à vontade. Quando se trata dela, você é o banquete”. O Senhor das Trevas, como é conhecido no mundo da fantasia, se chama Sr. Gold em nosso mundo, fazendo referência ao poder econômico como meio de ação do mal e das tentações. “A magia sempre tem um preço”, diz Rumple sempre que sela um pacto. Ao longo dos episódios, porém, por estarem fora do seu mundo, os personagens se tornam mais complexos, mais humanos. Os bons ficam mais expostos a tentações, assim como os maus sentem-se muitas vezes inclinados a bons sentimentos, o que aumenta a revolta diante da fatalidade do destino dos que foram predestinados pela história a serem vilões. A revolta contra Deus e Sua verdade é apresentada como característica humana quase inevitável e em momento algum os personagens tomam decisões fáceis. Muitas decisões aparentemente boas podem carregar maldades profundas e desejos inconfessados. Mesmo a Branca de Neve pode ter o seu coração obscurecido por decisões que a aproxima daquelas tomadas por vilões. Este é o mundo que conhecemos visto pelo ângulo dos princípios universais, representados pelo mundo dos contos de fada. A série nos ensina que essas histórias tradicionais não têm nada de fantasia. Ao contrário, são de um realismo tão profundo que faz o realismo filosófico e materialista parecer história da carochinha.

No entanto, a maior parte do cinema feito hoje busca unir o realismo clássico a um ultra-realismo que mais serve para maquiar ou ocultar a profunda irrealidade que retrata. A ficção científica é prova disso. Apresenta relações humanas em grande realismo, situações cotidianas verossímeis, mas num universo absurdo e surreal. Mas dentro dessa neurose de verossimilhança, encontramos muitas vezes dramas humanos reais e discussões contemporâneas, se analisarmos as tramas simbolicamente. As histórias de super-heróis que povoam hoje o cinema procuram trazer dramas modernos ou pós-modernos de maneira simbólica, mas muitas vezes também preenchidos com conteúdos ideológicos atuantes na política cultural. Os filmes dos X-Men, por exemplo, que até os anos 1990, representava na ideia dos mutantes o drama da adolescência na sua dificuldade de aceitação social tensionada com sensações de superioridade e inferioridade, hoje declara assumidamente o caráter da agenda da Ideologia de Gênero, em que a liberdade da identidade humana busca na subjetividade do gênero (ou mutação genética) o vértice delimitador do poder humano sobre si mesmo ou a submissão ao padrão social. Os mutantes do cinema hoje representam o universo LGBT, quer percebamos ou não. Ainda assim, encerrar a trama neste aspecto pode ser o mesmo que falsificá-lo para transformar a cultura em campo de batalha política. É preciso ir além em busca da interpretação mais universal possível. A evidente divisão entre os mutantes que pretendem ajudar a humanidade e os que pretendem destruí-la parece ser também um claro desenho do aspecto político entre “direita e esquerda” como é visto hoje, isto é, entre as correntes liberal e social-democrata, na visão da esquerda norte-americana e na europeia. Afinal, a separação entre um discurso retórico de poder e controle (modernidade, liberalismo) e o dialético, da compreensão das complexidades (pós-modernidade, social-democracia), acaba ditando a quase totalidade dos conflitos do ocidente desde o século XIX e não é difícil interpretar assim o modo como é exposta a luta entre bem e mal neste mundo dominado pelo mal.

Ora, nem toda relação entre bem e mal precisa vir representada pela dicotomia herói contra vilão no mundo da fantasia. Super-homem e Batman, ambos heróis, representam essa dualidade muito claramente, embora em nossos dias possam coexistir uma variedade maior de interpretações. O Super-homem surgiu em 1932, como uma resposta à depressão pós-crise de 1929, quando pareceu necessário um forte símbolo que unisse a sociedade americana ao espírito do capitalismo, no qual o homem tudo pode. Não por acaso ele possui as cores da bandeira americana. Batman, por outro lado, representa um universo bem mais sombrio, embora não fosse tão evidente no princípio. Inicialmente como crônicas de investigação e combate ao crime, Batman pode ser considerado o símbolo do controle social. Motivado pela convicção de que a sociedade é imperfeita e doente, Batman simboliza o saneamento violento e forçado que impediria que a sociedade se autodestrua. Fica evidente a crença no contrato social de Hobbes, sem o qual o homem devoraria a si mesmo e a sociedade iria abaixo. Batman é o estado, a representação do contrato. Não por acaso, sua identidade secreta é o milionário e filantropo Bruce Wayne, referência às elites das grandes fundações internacionais. Também não é por acaso que absolutamente todos os inimigos de Batman são loucos e psicopatas, reforçando a visão da sociedade como essencialmente doente. A grande tensão entre este herói e seus inimigos aparece frequentemente na forma da insinuação de que o próprio Batman padece de problemas mentais. Provavelmente muito piores do que seus inimigos.

Outra referência importante no universo de Batman é o Asilo Arkham, onde é internada a maioria dos seus inimigos. Arkham Asylum é uma criação do escritor norte-americano H. P. Lovecraft, que embora tenha escrito somente contos de horror psicológico, criou uma vasta mitologia em torno de personagens e locais que se repetiam em suas histórias. Seus personagens costumeiramente terminavam internados no Arkham. A loucura é o ambiente comum dos contos de Lovecraft. Sua influência no cinema de horror do século XX é incontestável e a principal marca dos seus contos é a mistura entre sonho e realidade, na qual os personagens frequentemente eram guiados até os despenhadeiros da loucura por seus próprios medos. Os contos de Lovecraft podem ser usados como genealogia dos vilões de Batman e até mesmo do próprio Batman. Gotham City (um antigo apelido de Nova York) representa a sociedade americana, ocidental e, de modo mais abrangente, a sociedade humana refém do medo da violência, das aglomerações urbanas e de si mesma. A solução só pode ser o governo invisível, noturno, da repressão sistemática e oculta, que espreita os homens como um morcego, que além de cego como a justiça, alimenta-se do sangue (vida) humano. Batman é o símbolo da crença na sociedade má, a desesperança total no gênero humano.

De modo geral, a ideia dos super-heróis carrega um aspecto revolucionário intrínseco, embora possa conter em suas histórias dramas humanos e noções morais profundas sobre as tensões que envolvem a liberdade humana. Mascarados que fazem justiça fora do mundo das leis podem indicar tanto a subversão de um sistema que não concordamos, indicando a pura rebeldia anárquica, quanto pode servir para mostrar os perigos da identificação entre lei e justiça. Essas duas visões estão quase sempre presentes em todos os filmes e histórias de heróis.

Os super-heróis, portanto, parecem muito mais complexos e humanos se compararmos com a descrição literal dos heróis dos contos de fada. Mas a complexidade se iguala quando entendemos a profundidade que o realismo das histórias infantis pode trazer tratando-se dos dramas morais que são lá compactados. Ambos possuem uma grande capacidade de compactar significados, desde que sejam lidos ou assistidos de maneira atenta. Sabemos que com a evolução técnica do cinema, muitos conteúdos importantes ficam de lado e dá-se mais importância ao prazer figurativo e estético. Se nossa capacidade de perceber o conteúdo moral ou social compactado nas histórias está se perdendo, isso significa que as histórias recentes possuem um perigo muito maior para a juventude do que teriam os benefícios das histórias tradicionais.

Mas não podemos dizer que houve exatamente uma perda de sensibilidade para a percepção do conteúdo mais profundo das histórias recentes. O que aconteceu foi uma seletiva perda de percepção. Enquanto algumas coisas ficam despercebidas, outras, muito mais profundas, são apreendidas de modo subliminar por se tratarem de pressupostos ou crenças necessárias à formação de opiniões, quase sempre de cunho político ou filosófico. O conteúdo compactado do qual falamos, presente nas histórias do Batman, do Super-Homem etc, são normalmente percebidos de um modo pré-linguístico e, portanto, comportamental. O ambiente cultural e político atual se baseia na identificação democrática que dá ênfase à diversidade de opiniões. Isso pressupõe a existência de uma inevitável identificação grupal entre as pessoas. Grupal quer dizer, neste caso, cultural. Das categorias profissionais até os subgrupos periféricos e étnicos, há um universo de subjetividades passíveis de seleção e segmentação de conteúdo. Esse mosaico de possibilidades é rapidamente percebido pelo jovem sedento de identificação e atenção. As histórias atuais, por trazerem um componente estético bastante sedutor, oferecem-se como produtos aos desejos de um público que aprendeu a desejar do mesmo modo que forma opiniões. Desejar é o mesmo que opinar, participar, deliberar na sociedade. Pertencer a um grupo, não ético mas estético, acaba sendo sinônimo de democracia e, portanto, de crescimento pessoal. Adquirir maturidade, o que sempre foi um objetivo compartilhado por grande parte dos jovens a partir de determinada idade, passa a ter como símbolo, identificar-se com uma intersubjetividade, isto é, uma subjetividade compartilhada com um grupo de referência que lhe concederá o alvará da vida como ela deve ser.

 

[give_profile_editor]

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.