Os cortes na inexpressiva ciência brasileira

Muita produção e pouca relevância tem sido a marca de um sistema acadêmico que há décadas não cumpre o que promete.

O corte do financiamento no Programa Ciência Sem Fronteiras motivou uma já esperada choradeira do meio acadêmico nacional, umbilicalmente dependentes das verbas públicas para a sua produção científica, entre outras coisas. As críticas mais previsíveis começam com o tradicional refrão “fora Temer”. Acontece que os cortes no financiamento acadêmico no Brasil começaram em 2015, durante o governo Dilma, justamente com base na percepção trazida pelos já históricos e costumeiros resultados de estudos sobre a relevância nanica da nossa produção científica.

Já em 2013, a Folha de S. Paulo trazia os lamentáveis resultados que mostravam queda vertiginosa da qualidade do trabalho científico brasileiro apesar do crescimento das suas publicações e de todo o investimento governamental. Isso significa que nem mesmo a tradicional pratica esquerdista de agradar o meio acadêmico para mantê-los sob sua influência suportou o tamanho da picaretagem.

Se a onda do “produtivismo” tem transformado até cursos de administração em verdadeiras nulidades nacionais, imagine a irrelevância dos cursos de história e filosofia. Thomaz Wood Jr., professor de Administração da FGV, chama a atenção, em artigo crítico, para o foco na produção e busca suas origens e influência internacional:

A baixa relevância para a prática tem sido objeto de reflexão de um corpo crescente de pesquisadores. O foco em pesquisa, fomentado originalmente pela Fundação Ford, parece ter criado uma torre de marfim, um sistema autoreferenciado, sustentado por eventos, revistas, sistemas de incentivo e modos de carreira que isolam os pesquisadores da prática.

A verdade é que os últimos governos reduziram as universidade a centrais sindicais, escritórios de movimentos de subversão cultural e educacional a serviço de agendas internacionais das quais esses governos almejam receber recompensas. Um verdadeiro império ideológico que criou condições de sobrevivência até mesmo independentes da ideologia, porque até a filiação ideológica, no Brasil, perde para o oportunismo diante de tamanhas tentações.

Citando o famoso relatório da Nature, o físico e professor da Unicamp, Rogério Cezar de Cerqueira Leite, lembra que “a [revista científica] Nature nos acusa, em primeiro lugar, de produzir mais lixo do que conhecimento em ciência. Nas revistas mais severas quanto à qualidade de ciência, selecionadas como de excelência pelo periódico, cientistas brasileiros preenchem apenas 1% das publicações”. O artigo do professor, publicado na Folha e em vários outros sites, foi recebido com indignação por seus colegas acadêmicos. Mas não é possível esconder a verdade.

“O que a Nature generosamente omite são as publicações em revistas não indexadas, que contêm número significativo de publicações brasileiras, um verdadeiro lixo acadêmico”, escreve Leite.

Versão acadêmica do problema

Parte da resposta ou justificativa para a relevância anã da produção brasileira está nos “níveis de exclusão social do Brasil”. Ou seja, estão chamando o povo brasileiro que paga seus salários de ignorante e afirmando que, por isso, não sabe valorizar a sua relevância. Terão que aplicar o mesmo raciocínio às maiores universidades do mundo, que concordam com a inutilidade da produção acadêmica tupiniquim.

Até mesmo a auto-análise acadêmica demonstra indigência cognitiva para explicar o motivo de seus erros e da falta de interesse mundial sobre a produção dos nossos “cientistas”.

Um ensaio publicado pelo Fórum da Reflexão Universitária, da Unicamp, tenta analisar os motivos por trás de “a ciência e a mentalidade científica ainda não estarem incorporadas de modo pleno na sociedade”. O artigo leva o título de: Desafios da pesquisa no Brasil: uma contribuição ao debate. Segue um trecho:

Quando a universidade distribui recursos internamente, estimula áreas de pesquisa, monta laboratórios ou contrata, ela se envolve inevitavelmente com julgamentos de qualidade e relevância. Hoje, assiste-se a uma alteração na política nacional de financiamento, cujo critério dominante parece deixar de ser a qualidade e passa a ser a relevância. Entretanto, como o julgamento da qualidade, o julgamento da relevância está sujeito a erros terríveis, talvez ainda maiores. É de fundamental importância que o conjunto das ações e programas de apoio seja balanceado, não inviabilizando os programas de fomento tradicionais, que não são condicionados a critérios de relevância direta e imediata ¾ perigo embutido no novo modelo.

Na primeira frase já podemos acrescentar um lapso imperdoável no raciocínio do autor (es): De fato, quando a universidade os recursos ela se envolve inevitavelmente com julgamentos de qualidade, mas também, inevitavelmente, com outra questão que o artigo prefere deixar debaixo do tapete: a solidariedade grupal, motivada pela necessidade de apoio dos pares, o que sem dúvida é mais eficiente para angariar recursos do que “qualidade e relevância”. Isso já denunciava Pierre Bordieu em seu Homo Academicus. Mas obviamente preferem aprisionar a crítica de Bordieu dentro dos muros da universidade, quando muito.

Em segundo lugar, é curioso separar os conceitos de qualidade e relevância. De fato, há essa distinção. Mas a separação só acontece mesmo dentro da universidade brasileira, onde uma publicação pode ser julgada boa, porém, inútil. Afinal, nem mesmo todos os elogios dos seus amigos professores terão o poder de tornar uma pesquisa internacionalmente relevante. Isso porque a maior parte da nossa produção acadêmica destina-se somente a treinar o aluno para, em um futuro hipotético (e pouco provável) trabalhar em pesquisas sérias e relevantes para o mundo.

Os relatórios globais, é claro, não levam em conta as milhares de fraudes acadêmicas por meio de citações falsas, plágios, trabalhos roubados, feitos por encomenda etc. Sem contar os problemas metodológicos que incluem questões morais. É comum professores de metodologia instruírem os alunos a direcionar a pesquisa para confirmar as premissas iniciais no momento da investigação, por meio da criação de categorias de análise, um tipo de desonestidade mais sofisticada e que acontece no mundo todo. Mas no Brasil há o incremento invencível da “hermenêutica da brasilidade (ou jeitinho brasileiro). Também não estão sendo consideradas as fraudes do Programa Ciência Sem Fronteiras, que além de servir de êxodo de bons estudantes, também tem sido ao longo dos anos motivo de preocupação devido o aumento de processos por não conclusão dos estudos. Muito mais benefício traria um programa que trouxesse professores do exterior para contribuir com o sistema universitário.

Evidentemente, dentro de toda a diversidade e permissividade dos trabalhos acadêmicos, é possível encontrar honrosas exceções. No entanto, as melhores iniciativas são aquelas que lançam luz à cegueira científica de um meio social que busca maliciosamente se confundir com um método para atrair para si uma autoridade que não possui. Afinal, uma coisa é o método científico e seus princípios, outra bem diferente é o meio social em que ele é praticado, cujos sistemas internos de interesse e satisfação muitas vezes deixam de lado qualquer princípio científico ou até mesmo moral.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Professora é perseguida por não aderir a paralisação

A professora Audrey Pires, da rede estadual de Minas Gerais tem sofrido ameaças após a repercussão da sua decisão de não participar da paralisação contra a proposta da reforma da Previdência no início do mês de março deste ano.

A polêmica começou quando Audrey concedeu uma entrevista à Radio Itatiaia (MG), ocasião em que o radialista tomou partido da professora. Isso teria causado ainda mais indignação na categoria que aderiu à paralisação. O Sindicato dos servidores obteve direito de resposta na rádio.

No dia 21 de março, a professora postou em seu twitter:

“Estou sofrendo forte retaliação devido à entrevista que dei ao jornalista Carlos Viana, na rádio Itatiaia. Não esperava que fosse diferente”.

Audrey alega que as ameaças, em geral, se baseavam em coisas que ela não disse. Muitas alegavam que ela teria chamado professores de vagabundos, entre outras coisas que, segundo ela, não foram ditas em momento algum.

No dia seguinte à entrevista, o telefone da escola não parou.

“Eu cheguei a atender uma ligação em que a pessoa dizia que eu era vagabunda, desgraçada…”, conta Audrey.

Mas, segundo ela, muitas pessoas também se manifestaram a seu favor, como pais e até professores. Ela afirma ainda que, muitos outros professores eram contra a paralisação, “mas preferiram seguir a maioria”, conta.

Veja a entrevista completa feita pelo Terça Livre:

 

Notícias, artigos e estudos sobre a realidade brasileira e o contexto internacional. Selo editorial especializado em comunicação, sociologia e história recente do Brasil.

Estudo relaciona hiperatividade e deficit de atenção a escolaridade precoce

Um estudo encontra fortes evidências de que o atraso em colocar crianças no jardim de infância pode ser extremamente benéfico para a sua saúde mental, além de prevenir transtornos como déficit de atenção, hiperatividade, entre outros. O estudo recomenda ainda que crianças possam passar mais tempo em casa. Isso é o que mostra o mais recente estudo da Universidade de Stanford, nos EUA.

De acordo com o professor Thomas Dee, co-autor da pesquisa, atrasar em um ano, em relação à idade recomendada, pode aumentar significativamente a capacidade de concentração e de auto controle nos anos seguintes, o que pode garantir melhor desenvolvimento escolar da criança.

“Nós observamos que o atraso de um ano no envio das crianças para o jardim de infância reduziu 73% os casos de hiperatividade e deficit de atenção em crianças até 11 anos de idade”, diz o professor.

O início da vida escolar tem sido cada vez mais cedo no Brasil e em muitos países do mundo, em obediência a recomendações governamentais. Relatórios da UNESCO recomendam aos governos que implementem ações neste sentido para conter o analfabetismo e a evasão escolar. O estudo da Stanford, no entanto, demonstra que essas medidas podem não ser tão eficazes quando o assunto é saúde mental das crianças.

Transtornos comuns preocupam os pais

stanford estudo sobre deficit de atenção e hiperatividade crianças na escolaA hiperatividade e o deficit de atenção reduzem o autocontrole nas crianças, podendo ocasionar menor capacidade de aprendizagem. Estudo da Stanford mostra que as crianças que têm menores níveis de deficit de atenção ou de hiperatividade tiram melhores notas na escola.

Em países como a Alemanha, crianças iniciam o jardim de infância mais tarde e os dados coletados lá mostraram que as elas não ficam atrasadas por causa disso. Pelo contrário, demonstram melhor desempenho escolar nos anos seguintes.

Nos Estados Unidos, as crianças costumavam iniciar no jardim aos 5 anos de idade. Atualmente, 20% das crianças inicia o jardim aos seis anos. Essas crianças tem demonstrado, na média, melhores desempenhos e maior autoconfiança, reforçando dados da pesquisa.

Foco nos benefícios para a criança

O estudo não fornece provas definitivas sobre a relação entre a idade de início e o desempenho posterior, mas indica grande tendência. A pesquisa de Stanford focou nos possíveis benefícios para a saúde mental das crianças.

A pesquisa foi feita com bases de dados governamentais de crianças de 7 a 11 anos para delimitar a pesquisa. A partir desses dados iniciais, aprofundaram a pesquisa junto a 52.241 pais de crianças na faixa de 7 anos de idade; depois, junto a 35.902, foram pesquisados quando os filhos alcançaram 11 anos de idade, nos quais foi observado o seu desempenho em sala de aula.

“Esse estudo traz um conforto para esses pais”, diz o pesquisador. “E para os que ainda estão por tomar essa decisão, o estudo fornece importantes informações a serem consideradas”.

O pesquisador destaca contudo, essas decisões envolvem diversos outros fatores e esse estudo se concentra em uma única área.

Mais tempo em casa

O estudo indicou ainda que prolongar o tempo que as crianças ficam em casa antes de enviar para a escola também traz benefícios. Acredita-se que esses resultados podem servir de subsídio para um exame mais amplo sobre metodologias do jardim de infância e seus aspectos pedagógicos. Os dados podem apontar na direção de uma dinâmica mais voltada a brincadeiras do que a um ensino mais estruturado nos primeiros anos da infância.

Standford.edu, Quartz

Pesquisador independente e tradutor, escreve e coordena pesquisas para o site EstudosNacionais.com. Desenvolve projetos editoriais na editora Estudos Nacionais e Livraria Pius.