O unicórnio carnavalesco

Por Victor Bruno

Falemos agora de coisas sérias, como a presença de unicórnios no Carnaval. Sim, unicórnios. No meio do grude dos foliões, da cerveja quente e da folia generalizada, lá se viam, às pampas, vários representantes da nossa juventude ostentando em meio ao glitter, chifrinhos rosas e lilases, balançando freneticamente ao som de não-sei-qual pancadão que vem do trio-elétrico.

Surpreendente, pensei. Será que à hora tardia, pouco antes do Carnaval, os foliões se juntaram na calada da noite para ler A Tempestade e, como Sebastian, dizem todos agora “Now I will believe/That there are unicorns”?

* * *

O unicórnio, tradicionalmente, é uma criatura simbólica do cristianismo que, segundo a tradição, só pode ser vista por mulheres puras — e também apenas delas podem ele se aproximar. A um só tempo ele representa a docilidade e a força — e também uma espécie de poder essencialmente feminino, já que apenas a elas, se puras, pode o unicórnio se entregar. Mais especificamente, o unicórnio se deita docilmente no colo feminino. Uma visão extremamente romântica.

A estranheza de ver essa figura no Carnaval só não é maior que a total falta de conhecimento de quem usa a fantasia. Claro está que o unicórnio carnavalesco nos chega por vias a-cristãs. Neste tempo em que as pessoas fogem da Cruz como verdadeiros diabos, a figura do unicórnio nos chega via narrativa neo-pagã, como uma forma alternativa — de acordo com uma moça em entrevista à Globo News — “exploração espiritual”. Se me é permitido dizer qualquer coisa, opino que essa observação é bastante intrigante. Primeiro: se o unicórnio é um símbolo tão antigo quanto o cristianismo, de alternativo ele não tem nada. Segundo: numa era dita “secularizada”, é bastante curioso que as pessoas procurem “formas alternativas” de espiritualidade.

Só que a crença de que esses tempos nossos são secularizados é uma colossal falácia. A virada do século XIX para o XX trouxe à sua esteira uma infinidade de sociedades secretas, cultos cientificistas, seitas pseudo-cristãs e velhas heresias revividas. São muitas as opções de “formas alternativas” de “espiritualidade” — isso não é novidade. E todas essas “formas alternativas” têm algo em comum: uma enorme fragilidade espiritual e intelectual.

Retornemos ao unicórnio. De que forma ele poderia ser uma “expressão alternativa” de espiritualidade se ele não apenas é um símbolo essencialmente cristão como é um símbolo do próprio Cristo? Qualquer dicionário ou enciclopédia especializada no assunto o testemunha.

Se os propositores dessas “novas formas de espiritualidade” não sabem desse fato e a platéia cristã horrorizada não faz nada para reaver seus próprios símbolos, então não há outra coisa senão enfiar a viola no saco: as opções espirituais dos nossos tempos são fragilíssimas. A Igreja abriu mão dos seus símbolos, da sua liturgia e da sua força; foi e está corroída por dentro e não perde a chance de negar tudo aquilo que ela é enquanto não deixa de ser ela mesma. Já as outras opções são ou invasões bárbaras de religiões inerentemente violentas ou são pseudo-religiões neo-pagãs falsamente esotéricas, sem nenhum fundo ortodoxo, que se aproveitam de alguma insuficiência espiritual coletiva do seu contexto histórico e do grupo social onde surge para atacar a coletividade.

Talvez isso explique o aparecimento do unicórnio carnavalesco, que nos chega através da wicca e seitas neo-pagãs similares que se aproveitam da imaturidade inerente aos jovens da nossa sociedade para inocular o seu feitiço. Qualquer um que se interesse, aliás, por estudar um pouquinho sobre a wicca notará que há algo ali que cala fundo na angústia adolescente, aquela angústia romântica e profundamente falsa que vê o mundo como um lugar altamente hostil e frio — e que por isso mesmo faz com que o jovem pense que todas as possibilidades acabam ali mesmo na adolescência e que o resto da sua vida será uma amarga e melancólica jornada até o cemitério.

Se as coisas são assim, então é natural que a vida do jovem se transforme numa paródia pervertida da espiritualidade, e a perversão do simbolismo do unicórnio não é nada além do que um dado entre vários de uma geração que, estando totalmente desinformada do verdadeiro significado da palavra espiritualidade, encontrará em “espiritualidades alternativas” um bálsamo que ratifique seus vícios e suas falsas impressões. É natural, também, que sem saber o que é ser amado e temeroso do porvir, ele transforme cada uma das várias “primeiras vezes” (porque a juventude é um período de primeiras vezes) em acontecimentos que tenham algum tipo de ressonância profunda que, mesmo falsa, emplaque um tipo de signo do infinito — que lhe dê uma esperança transitória de imortalidade. Entre a imagem de um catolicismo capenga, que nada lhe diz, e de uma pseudo-seita que ele desconhece como sendo falsa, mas que parece unir todos os vícios que ele tanto ama sob a fachada de um ocultismo milenar, ele prefere a segunda — aquela que não parece censurar seu desejo de excessos enquanto lhe promete algum tipo de consolo interior. Não é à toa, portanto, o sexo seja chamado de “o grande ritual” e seja descrito como uma prática que “agrada aos deuses”. Se o sexo é isso — um frenesi que agrada entidades desconhecidas — e não um momento de união espiritual sob a égide de um sacramento (o casamento), então é lógico que não há limites para a extensão desse “grande ritual”, que a mistura de inocência e desejo sacramentada por uma falsa religião termine trazer o símbolo do próprio Cristo para o Carnaval — a festa da carne — e que, num país desvairado como o Brasil a maluquice neo-pagã atinja proporções e conseqüências nefastas que ninguém desconfia.

A sabedoria segundo Tomás de Aquino

Robert M. Woods*

Frequentemente, durante uma discussão em sala de aula, ou até num discurso na igreja, o tema sabedoria costuma ser abordado. Geralmente, a definição é apresentada como uma prática ou como um ensinamento aplicado. Mas eu, particularmente, gostaria que a definição de sabedoria de Tomás de Aquino predominasse no dia-a-dia da civilização ocidental. Na verdade, as Artes Liberais teriam surtido um efeito muito melhor ao longo dos tempos, caso a definição tomista tivesse sido a única a ser ensinada e vivida.

Para Tomás e a maioria dos filósofos que precederam o mundo moderno, a filosofia era essencialmente o “amor à sabedoria”. Participar da prática filosófica consistia numa busca fiel pela sabedoria, onde quer que fosse encontrada. O entendimento primário da verdade era afirmar o que algo era realmente, ao invés de dizer aquilo que não era. Em um sentido mais amplo, a sabedoria significava uma profunda compreensão da verdade das coisas. A filosofia não era um olhar relativo, nem uma manipulação ideológica, mas uma busca diligente para entender o bem, o verdadeiro e o belo.

Tomás afirma na Suma Contra os Gentios I, 2:

“Entre os estudos humanos, o da sabedoria é o mais perfeito, o mais sublime, o mais útil e o mais alegre.

O mais perfeito, porque enquanto o homem entrega-se ao estudo da sabedoria já vai participando, de algum modo, da verdadeira beatitude. Por isso, diz o sábio: Feliz o homem que permanece na sabedoria (Eclo 14, 22).

O mais sublime, porque por ele o homem aproxima-se o mais possível da semelhança de Deus, o qual fez todas as coisas sabiamente (Sl 103, 24). E porque a semelhança é causa do amor, o estudo da sabedoria nos une de modo precípuo a Deus, pela amizade. Por esta razão se diz no livro da Sabedoria: A sabedoria é um tesouro infinito para os homens que, ao usarem dele, fazem-se participantes da amizade de Deus (Sb 7,14).

O mais útil, porque pela própria sabedoria chega-se ao reino da imortalidade, conforme se lê no mesmo livro: O desejo da sabedoria conduz ao reino eterno (Sb 6,21).

O mais alegre, finalmente, porque está também escrito neste livro: A sua companhia não é amarga, nem enfadonha é sua convivência, mas alegre e cheia de gáudio (Sb 8,16).”

 

Também vale a pena notar que, entre os maiores filósofos da tradição intelectual ocidental, não houve ninguém mais comprometido com a oração do que Tomás. Como grande exemplo, ele não apenas buscou a sabedoria como parte de seus esforços brilhantes e intelectuais, mas também rezou diariamente por sabedoria.

revista estudos nacionais

Isso pode surpreender a sociedade pós-iluminismo, saber que, antes do iluminismo, a sabedoria estava intimamente ligada ao divino. Para aqueles filósofos, raciocinar, refletir, imaginar, conjecturar, era parte do que significava agir fielmente em conformidade com a imagem de Deus. Sobre as quatro causas expostas por Aristóteles e aderidas por Tomás, a sabedoria era entendida como a compreensão da causa final (fim último). Infelizmente, quase tudo foi perdido na ciência e na filosofia de hoje.

É possível que uma das razões pela qual a Filosofia seja ridicularizada por tantos, hoje, como irrelevante e desatualizada, seja por ela ter perdido a direção há algumas centenas de anos e não ter encontrado o caminho de volta. Se filosofia ainda significasse a combinação entre o teórico e o prático, entre a reflexão e a ação moral adequada, pode-se imaginar que haveria muitos mais que a amariam e viveriam com sabedoria.

 

 

Tradução: Raul Effting

[*] Robert é Colaborador Sênior do site Imaginative Conservative. Ele é o diretor da Covenant School, em Dallas, Texas, e leciona no programa de pós-graduação da Universidade de Faulkner. Seus trabalhos são publicados em inúmeros periódicos e ele escreve regularmente em seu site Musings of a Christian Humanist.


Fonte: The Imaginative Conservative

Bestas rudes do novo conservadorismo

Por Victor Bruno

Qual besta rude, vinda enfim sua hora,
Arrasta-se a Belém para nascer?
— W. B. Yeats, “A Segunda Vinda”

 Intelectualidade no Sol e na sombra

É difícil se falar de um conservadorismo no Brasil. Não só pelos motivos que conhecemos bem (preconceito catedrático, censura ideológica, dominância política de esquerda etc.), mas também por motivos mais delicados e sutis que merecem destaque e estudo; aqui não posso dar senão uma breve pincelada.

As idéias têm a vantagem de poder se desenvolver na escuridão e aridez, como provam as experiências de vida de figuras como Viktor Frankl, o psicólogo judeu prisioneiro em Auschwitz, e Alexander Soljenítsin, o dissidente do comunismo que transformou seu cárcere nos gulags em obra-prima da literatura. Também não podemos esquecer que o mais influente pensador de esquerda do século passado, Antonio Gramsci, compôs o grosso do seu pensamento dentro da cadeia de Mussolini.

Portanto, a idéia de direita — e a idéia conservadora —, não importando o cerceamento ideológico que reina aqui no império tupinambá, também pode aqui criar corpo. O muito comentado, pouco lido e ainda menos entendido Sir Roger Scruton, por ter uma relação muito especial com os países da antiga Cortina de Ferro, nos conta no primeiro capítulo de How to Be a Conservative (lançado no Brasil com o título Como Ser um Conservador, pela Record) a história de intelectuais em países dominados pelo regime comunista que, em meio ao horror vermelho, se reuniam em porões e pequenos apartamentos para dar prosseguimento às suas atividades intelectuais. Intelectuais como Béla Hamvas (foto), que, expulsos da universidade, tiveram que ir trabalhar como mão-de-obra sem qualificação em usinas de energia ou na lavoura. Esses pensadores, diz Scruton, estavam perfeitamente conscientes de que havia um problema muito maior do que o caos político vigente, havia algo ainda mais doloroso e traumático — um trauma de consciência. Esse, assim acreditavam, podia ser atenuado (mas não excluído) se houvesse uma chama de sentido acesa quando os regimes de esquerda fossem derrubados. E assim foi feito. O trabalho de consciência prosseguiu mesmo sob a sobra comunista. A Hungria e a República Tcheca, países visitados por Scruton, fizeram exatamente isso e se deram muito bem. Se hoje não nos referimos a essas duas nações como grandes potências econômicas, tampouco ouvimos falar deles como epicentros de crises políticas ou culturais. Budapeste e Praga, ao contrário do que diz o prefeito londrino Sadiq Khan, são duas metrópoles que não têm o flagelo do terrorismo açoitando suas costas.

Conservadorismo é mais que anti-esquerdismo

A idéia do conservadorismo transcende o momento político presente. Russell Kirk e Titus Burckhardt, para citar dois exemplos, já avisavam que o debate político do dia era uma parcela muito reduzida da abrangência magnânima que a idéia conservadora carrega. Se não há essa noção de transcendência, o potencial conservador se transforma em mero reacionarismo atávico e babão — e reacionarismo, ao contrário do conservadorismo, não tem nem um sentido abrangente de trabalho de oposição e muito menos um aparato de ordem transcendente em seu arcabouço. As posições que o reacionarismo toma — apesar de poderem ser manifestações de conservadorismo — são muitas vezes as mais fugazes possíveis e levam aos paradoxos mais curiosos.

O Brasil tem um grande movimento de fundo conservador (vocalizado em geral pelos mais jovens, como aponta Francisco Escorsim em seu recente texto na Gazeta do Povo) que por várias razões se enrijece e esfarela em mero reacionarismo. Sabemos que, baseado nas pesquisas sobre desarmamento, aborto, na popularidade do findo governo do moribundo (mas ainda influente) Partido dos Trabalhadores e em praticamente todas as idéias defendidas pelos partidos e agentes políticos de esquerda, o Brasil tem uma população que, em sentido genérico, pode se considerar como “conservadora” (e, no fundo, qual não é?). Mas não há uma organização a esse espírito. A população de impulso conservador fica à mercê da impressão mais fugaz, à mercê de hipnotizadores carismáticos com tendências messiânicas. O senso comum — destacado do conhecimento que só a cultura pode oferecer — nada pode contra um vampiro político propulsado pela força da mídia.

E aí está a chave do enigma. Como o Prof. Olavo de Carvalho insiste há décadas, a memória cultural brasileira foi raptada e não sobrou ninguém para servir nem mesmo de baú ambulante no deserto da ideologia. Para citar Escorsim de novo, o povo brasileiro está divorciado da sua cultura e do diálogo com os seus antepassados. Isso perverte toda a possibilidade de um conservadorismo que transcenda o momento político, já que não é possível que se aprofunde a visão fugaz que o momento fugidio nos apresenta.

Um exemplo: num cenário conservador, veria-se o tratamento que a direita auto-intitulada dispensa a Jair Bolsonaro com reticência, pelo menos. Reticência porque ver Bolsonaro como o messias político que precisamos é retornar à década de 2000, quando o país olhava Lula e seu crescimento econômico como a nossa tábua de salvação. Reticência porque messianismo político é o primeiro pecado que os desesperados cometem e é o asfalto da histeria política. E reticência porque já era tempo de saber que não basta colocar uma pessoa “de direita” na presidência de um país para sanar o delicado problema da dominação ideológica num país. Na verdade, não basta nem mesmo para sanar aqueles mais profundos, como corrupção e desmantelamento da máquina estatal. Quem não sabe disso é dorminhoco ou é cínico.

Essa é uma breve imagem do nosso conservadorismo. Nos falta o senso histórico e nos falta o senso cultural. O drama do conservadorismo brasileiro não se concentra na falta de jornais e publicações conservadoras, ou na falta de um partido que carregue esse nome e essa bandeira. O que realmente nos falta é o preenchimento da imaginação, que é a própria essência do esforço conservador.

É preciso que se preencha o “guarda-roupa da nossa imaginação moral”, para usar o famoso termo de Sir Edmund Burke, com as coisas que valham a pena ser preservadas, e esse é, acredito, um esforço sagrado. Para que se componha o guarda-roupa da imaginação moral é preciso que tenhamos um mundo inteiro nas nossas cabeças, e isso significa que precisamos saber profundamente sobre a maior das obras de Deus: a própria Criação. E é exatamente por isso que o conservador preza tanto pela manutenção das coisas: que pecado imenso é se esforçar para compreender a majestade da obra divina, somente para deixar que alguém que acredita saber mais do que Deus a destrua?

Só que nós, homens, temos um handicap. Nós não podemos, como Deus, conhecer as coisas em sua totalidade, tanto as coisas do futuro como as do passado. O homem só conhece as coisas que já foram feitas. Ou seja, temos que viver o passado através das crônicas e dos relatos do que se passou naquele momento quando aquelas ações eram executadas. Temos que abrir uma porta perceptiva para que se realize uma conexão fundamental com o melhor da nossa história — tendo a certeza de que esse trabalho não é para ser finalizado agora.

Logo se vê, portanto, que a tarefa conservadora é infinitamente complicada. O conservadorismo não foi inventado por um “Grande Simplificador”, um teórico que inventa um sistema de crenças no qual todo o funcionamento ideal do mundo está contido; o conservadorismo não foi inventado por ninguém. Talvez por isso seja tão difícil anunciar uma idéia conservadora para as massas: o pensamento conservador não oferece soluções e nem tem um plano; ele se desenrola no tempo, puxando o que há de bom no passado, tomando os grandes feitos como exemplo e preservando a liberdade para as gerações futuras. Antes de ver o mundo horizontalmente, o conservadorismo vê o mundo verticalmente, de cima a baixo, desde o topo do Logos até as profundezas do anticristo. No campo de imaginação conservador há só o drama da humanidade.

Uma esperança

É justamente a ausência desse espírito de meditação e imaginação que mencionei que nos impede de construir uma mentalidade — ou mesmo uma intelectualidade — conservadora no Brasil. (Claro está que mesmo que tivéssemos o espírito meditativo e a imaginação moral, ainda não estaríamos garantidos de que teríamos um conservadorismo poderoso. Não há receituário para as coisas da vida.)

Não é minha intenção criar uma prescrição médica para o lançamento de um conservadorismo verdadeiro no Brasil — de um conservadorismo que seja mais do que um batido tupinambá de antipetismo, idéias liberais austríacas e de conservadorismo anglo-saxão. Minha intenção é somente apontar algumas impressões de um movimento que ainda está em estado latente em nosso país e que precisa superar o simples e recalcitrante antipetismo de última hora (por mais que esse tipo de ação política tenha se tornado extremamente lucrativo desde 2013).

Mas no fim das contas, há uma esperança. Talvez esse desejo imediatista que há no coração do brasileiro de hoje o leve a fazer esse trabalho de investigação da realidade; talvez, chegando a fazer essa investigação, se perceba que existe um senso moral em cada um de nós que transforma a vida humana numa sinfonia de desejos, ações, esperanças e sonhos. Que o destino do homem é servir ao próximo, perdoar e estabelecer um amanhã que não seja ideal, mas livre, e que dessa liberdade germine o melhor possível dentro das nossas capacidades e dentro do mundo que nossos pais deixaram.

Conservadorismo é mais que usar gravata e andar de barba feita: conservadorismo é um compromisso do indivíduo com a ordem transcendente da Criação. É a manutenção do contrato entre os vivos, os mortos e os que vão nascer. O conservadorismo é a própria preservação do sentido da Criação. Falta que entendamos isso e o caminho é terrivelmente longo. Ele não começa hoje: vem do ontem e vai para no fim dos tempos. Portanto, como somos parte — todos nós — do drama da humanidade, algumas coisas nunca mudam e preservam sua atualidade para sempre.

O que é pós-verdade?

Por Victor Bruno*

No final de 2016, seguindo seu costume, os Dicionários Oxford elegeram a palavra que mais descrevia aquele ano. 2016, se lembramos, foi um ano traumático — pelo menos no que tange as sensibilidades políticas e culturais de uma parcela significativa das elites mundiais. Para a venerável entidade lexicográfica, “pós-verdade” era a palavra que mais representava o ano do Brexit e, mais preponderantemente, a eleição do presidente americano Donald Trump.

Uma série de eventos seguiram-se à esteira da emergência disso que se chama “pós-verdade”. Para os inimigos políticos do presidente do Partido Republicano, a frase de Kellyane Conway, uma das suas assessoras, na qual ela dizia que oferecia “fatos alternativos” à narrativa que dizia que a presença de público na posse de Trump empalidecia ante aos números da posse de Barack Obama, foi um prato cheio. Isso foi no início de 2017. Em abril, um grupo de estudantes do Pomona College, na Califórnia, pediu a retirada do conceito de verdade do currículo acadêmico, alegando que o conceito nada mais é do que um “construto euro-ocidental profundamente enraizado no Iluminismo”. Logo, racista e colonialista.

Se nós estivéssemos em outra situação, talvez eu estaria aqui criticando o sistema de educação superior que, afogado no mar de pós-modernismo do século XX e em suas ramificações que entram segundo milênio a dentro, esquece de ensinar o básico da filosofia e o básico da história da filosofia. (Se “verdade” é um conceito iluminista, então Parmenides tinha o dom da profecia, ao falar do “âmago inabalável da Verdade bem redonda” e Cristo roubou para si algo que verdadeiramente pertenceria à Europa do século XVII.) Porém, não estamos em outra situação. À primeira vista, a noção de que a verdade é um conceito inexistente pode parecer perfeitamente absurda, mas quando olhamos mais demoradamente perceberemos que existe todo um sistema de rapto imaginativo e cognitivo que faz com que a unidade da existência — ou seja, a verdade — fique escondida por trás de uma névoa de confusão e paixões. No atual estado de coisas, essa névoa e essas paixões recebem o nome de “subjetividade” e, por ocuparem no atual termômetro cognitivo o posto da verdade (ou por antes de vermos a verdade olharmos essa névoa de confusão), a tal subjetividade é endeusada, e nada pode ocupar seu espaço.

É nesse contexto que entra o conceito de pós-verdade. A definição que o Oxford faz do conceito é altamente significativa (o que me deixa aliviado: se nas ciências humanas a Universidade de Oxford nada produz, parece que na lexicografia eles ainda são bons). Para eles, pós-verdade é um adjetivo que “denota circunstâncias em que fatos objetivos são menos influentes no talhar da opinião pública do que apelos à emoção ou a crenças pessoais.” Nesse paradigma, pós-verdade é o perfeito contrário da verdade. O prefixo “pós” indica algo que supera naturalmente o seu predecessor (no caso, a verdade). Mas o que se batizou de pós-verdade não é isso: é um conceito sintético produzido em laboratório que surge como algo que rivaliza com a realidade sensível da verdade. Verdade, tomada em si, não é “um construto”, como defendem o povo do Pomona College, mas uma realidade; um destino real ao qual muitas estradas já foram construídas na tentativa de se chegar lá. As estradas podem ser construtos; a verdade, o ápeiron, certamente não é.

Desse modo, podemos sublinhar as diferenças entre verdade e pós-verdade em tinta ainda mais carregada. Verdade é um todo, uma bola de existência ao redor da qual construímos as tentativas de apreendê-la. Pós-verdade, sendo sua paródia satânica, é uma situação que formamos à luz das nossas preferências e paixões para que a situação real se pareça mais com a medida da nossa existência (portanto servindo àquele desejo gnosticista de construir o mundo à nossa imagem e semelhança para que nele possamos liderar). Acontece que os nossos desejos e as nossas paixões não existem no mundo real, mas no campo da imaginação; são objetos imaginativos que, privados de hilomorfose (de encarnação, por assim dizer), só podem vir a ser quando falados. Nesse caso, a realidade das suas existências tem outra forma: são instrumentos de retórica.

Aqui a coisa fica mais explícita. Se a pós-verdade é algo que se constrói ao redor de ferramentas retóricas, então ela nada é além de mero discurso, de poder verbal, ou, como diria Paulo Francis, bafo de boca. Se usarmos uma velha formulação dos estudos de comunicação a realidade da pós-verdade se dá num processo em dois tempos, num circuito Emissor -> Receptor. Quer dizer, a pós-verdade é um elemento discursivo cuja construção se dá em duas etapas: primeiro ela se constrói no imaginário do Emissor e uma vez que o Emissor se convence que os seus desejos são a medida do mundo, ele os externaliza em discurso retórico para o Receptor. Mas, lembremos: se fatos objetivos não são importantes no paradigma da pós-verdade, a única coisa que o Emissor tem para convencer o Receptor é a fé na encarnação verbal das suas paixões. Essa fé é aquela fé que Eric Voegelin chamou de “esperança metastática”.

O que temos aqui, por fim, é o império do discurso retórico, do irracionalismo e da manipulação. O Prof. Olavo de Carvalho havia definido o discurso retórico como aquele que “[v]isa, essencialmente, a persuadir alguém a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa. . . .  A influência do discurso retórico é menos profunda, porém mais evidente e imediata, mais traduzível em ações exteriores” (grifos meus). Ou seja, é um discurso imperativo, que mira ações práticas — ações de transformação.

Dessa maneira, voltamos à praxis revolucionária, aquela que visa a transformação antes da compreensão. É o primado da 11.ª Tese contra Feuerbach. Mas uma coisa é certa: para todo aquele que se deixa seduzir pela sua própria névoa de desejo existe um líder maior que controla esse desejo.

 

[*] Victor Bruno é escritor e aluno do Curso Online de Filosofia
de Olavo de Carvalho
. Contribui ocasionalmente com textos
sobre política, filosofia e arte para publicações
como a VoegelinView, a Desistfilm e o
MUBI Notebook.

Resgatando o verdadeiro significado de “cultura”

Por Daniel J. Mahoney

Referências à “cultura” são onipresentes no discurso contemporâneo, embora a palavra tenha perdido quase todo o seu sentido. A palavra que costumava referir-se ao culto exigente da inteligência e da alma humana é, hoje, sinônimo de quase qualquer prática social (baixa ou degradante). Fala-se livremente sobre a cultura do rock, a cultura das drogas e coisas até piores. Raros são aqueles que reconhecem que o respeito salutar pelo pluralismo cultural, pela genuína diversidade humana, não exige relativismo ou abdicação de julgamento moral. Como chegamos a uma situação tão perturbadora?

Para começar, como o filósofo político Leo Strauss sugeriu há muitos anos, a cultura deixou de ser um “absoluto” e, em vez disso, identificou-se com o relativismo indiscriminado. Todos nos tornamos “antropólogos” vulgares, fascinados pela diversidade como um fim em si mesmo – junto do relativismo que muitas vezes a acompanha. Strauss resume provocativamente o ponto de vista dominante: “Todo ser humano fora dos manicômios é um ser humano de cultura, pois ele participa de uma cultura”. Sou, então, levado a perguntar: o que aconteceu com a relação entre o superior e o inferior? O que aconteceu com a capacidade civilizada de discriminar entre melhores e piores modos de vida?

A urbanidade, a civilidade, a mentalidade e a generosidade associadas à genuína cultura deram lugar a uma visão de que toda prática humana é digna do nosso respeito. A cultura é banalizada. Comer um burrito ou usar um sombreiro sem ser mexicano, ou praticar ioga sem ser indiano, pode ser tornar uma fonte de controvérsia para quem pensa sobre a cultura de forma redutiva e relativista. (E, como sabemos, a polícia do politicamente correto está em todos os lugares dos nossos campus universitários). O respeito pela especificidade da cultura exige supostamente uma política de identidade, onde as pessoas se aproximem de maneira mais estreita, espinhosa e sem graça. Qualquer noção de humanidade comum é rapidamente apagada e as práticas baixas de qualquer grupo se tornam sacrossantas e são tidas como grandes críticas sociais (dignas de imitação e admiração).

Respeito Genuíno

O que toda essa postura ideológica tem a ver com o respeito pela genuína cultura humana?

Não precisamos rejeitar o respeito pela dignidade e pelos penosos caminhos trilhados pelas altas culturas do mundo para reconhecer que o melhor pensamento e arte pertencem ao homem enquanto homem. Platão, Homero, Shakespeare, Dante, Goethe, Mozart, Beethoven, pertencem a todas as almas pensativas e discernidas, e não apenas às do Ocidente (o mesmo certamente pode ser dito, em princípio, sobre o melhor pensamento e arte do Oriente). Esses clássicos enriquecem o espírito humano e não são redutíveis às culturas que moldaram inegavelmente a sua formação e as suas aspirações. As culturas e civilizações elevadas se enriquecem enquanto enriquecem o espírito humano.

revista estudos nacionaisOs clássicos da literatura mundial, por exemplo, incrementam a literatura nacional sem, de modo algum, homogeneizar o pensamento e a experiência humana. Pense no auge da literatura russa: Dostoiévski, Tolstoi, Pasternak e Solzhenitsyn são expressões inegáveis da alma russa e dão uma expressão abrasadora à condição tanto humana quanto russa. Mas quem poderia dizer que os Irmãos Karamazov, a Guerra e Paz, o Doutor Zhivago e o Arquipélago Gulag (todos livros russos) só podem falar com os russos? Como Solzhenitsyn argumentou em seu discurso durante o Nobel, a arte literária de ordem elevada tem a capacidade de, se for o caso, transmitir a experiência de um povo e de uma nação para outro, superando a miopia que é coexistente com a condição humana. Dostoiévski luta contra a tentação do niilismo moral; Tolstoi, retrata o nevoeiro da guerra e as vicissitudes da história; Pasternak, relata o destino de homens dignos em uma grande nação, onde sua cultura foi mutilada por revolucionários fanáticos; Solzhenitsyn narra a alma do homem, agarrando a vida querida, sob a tirania ideológica e o reinado desumano da mentira.

Esses livros devem ser lidos por todos os seres humanos cultos e reflexivos. São aquisições preciosas para o Oriente e o Ocidente, para todos aqueles que enfrentam a condição humana, bem como as sombras que acompanham a modernidade. Precisamos refletir sobre a interação entre o universal e o particular, que define a nossa humanidade, em vez de tentarmos ser “cidadãos do mundo” ou praticantes de uma política de identidade que exige que todos os “grupos raciais, de gênero ou sexuais… tenham a sua própria cultura e não se permitam diluir por pessoas de fora”, como o jornalista britânico Brendan O’Neil colocou bem. A última compreensão da cultura – um conjunto de práticas, por mais banais que sejam, são valorizadas apenas por pertencerem a determinado grupo – perdeu toda a conexão com as aspirações espirituais e culturais elevadas. Se a cultura significa alguma coisa, deveria ser o cultivo autoconsciente de “o melhor que foi pensado e dito” dentro da nossa tradição, bem como de outras civilizações e culturas avançadas. A alta cultura é incompatível com o relativismo indiscriminado. Em vez disso, a alta cultura depende do reconhecimento de que nem todas as práticas sociais são intrinsecamente admiráveis. Nem todo ser humano (ou mesmo grupo social) é suficientemente culto. Esse reconhecimento, tão perturbador para o politicamente correto, certamente é o começo da sabedoria.

 

Redefinindo a Cultura

T.S. Eliot fornece algumas reflexões úteis nas páginas finais de seu clássico trabalho de 1948, Notas Sobre a Definição de Cultura. Ele nos lembra que a cultura digna de nome é impensável sem religião, e, no Ocidente, sem a religião cristã. O cristianismo ajudou a criar um cultura comum na Europa, uma vez que todos os europeus (ou os ocidentais, de forma mais ampla) foram profundamente moldados pelos “elementos culturais comuns que o cristianismo trouxe com ele”. Nesta ampla cultura, mesmo os incrédulos eram cristãos. Eliot observa de forma impressionante que “apenas uma cultura cristã poderia ter produzido” incrédulos como Voltaire ou Nietzche. Eles lutaram contra o cristianismo com uma intensidade espiritual e intelectual e a seriedade moral derivada do próprio cristianismo.

Recordando-nos dos altos fundamentos espirituais da cultura autêntica, Eliot comenta que é improvável que a Europa “possa sobreviver ao completo desaparecimento da fé cristã”. Isso é o que os seculares e multiculturais radicais de hoje não percebem. Sem fidelidade às nossas melhores tradições, sem deferência à lei moral ou a uma ordem de coisas acima da vontade humana, a cultura inevitavelmente degenera na anarquia, o inimigo da verdadeira cultura. Uma sociedade que coloca os direitos acima dos deveres, as preferências subjetivas acima da preocupação com o bem comum e que coloca o “alto materialismo da vida cotidiana” sobre o discernimento espiritual, dificilmente se sustentará ou dará origem a uma cultura digna de nome. Eliot, pelo menos, nos aponta para o fato de que a cultura, no sentido elevado e nobre do termo, não tem nada a ver com o relativismo vulgar ou com um desprezo ‘elegante’ pela religião. O grande crítico cultural britânico do século XIX, Matthew Arnold, pensou que a cultura poderia de alguma forma sobreviver ao declínio da fé religiosa. Todavia, Eliot teve dúvidas bem fundamentadas sobre a durabilidade dessa fé na cultura como um substituto da fé em Deus. Cultura e religião (e política decente, posso acrescentar) ficam ou caem juntos.

Eliot também aponta que “a confusão da cultura e da política” podea levar a duas direções problemáticas. Uma cultura que é “intolerante a toda cultura, exceto a sua própria”, pode tornar-se monstruosamente tirânica como a Alemanha de Hitler entre 1933 e 1945. O respeito pelo pluralismo cultural evita os extremos duplos do relativismo cultural e um imperialismo cultural assassino do tipo nazista. O outro erro é pensar que o respeito pela humanidade comum exige “um estado mundial” marcado por uma cultura única e uniforma. Ao mesmo tempo, é preciso respeitar o que é verdadeiramente universal para preservar o intelecto humano. Mais uma vez, somos chamados a refletir seriamente sobre – e fazer justiça – as dimensões “universal” e “particular” de nossa natureza humana comum. Este é um ato de equilíbrio que exige grande prudência intelectual e moral.

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Conservando a Verdadeira Cultura

Por sua parte, os críticos febris da “apropriação cultural” estão preocupados com a cultura em suas dimensões mais triviais. Eles pensam pouco na vida intelectual e no bem-estar da alma. Eles promovem uma política de caráter grosseiro e irritante. Não são dignos de consideração séria.

Thomas Sowell nos lembra em Conquests and Culture (1998) que a escravidão era uma verdadeira “instituição mundial”, enraizada em todas as culturas e continentes por milhares de anos. Foi a religião cristã a primeira a reconhecer a humanidade do escravo (ver a Epístola de Paulo para Filemom). E foi o poder naval britânico que pôs fim ao tráfico de escravos e, eventualmente, à escravidão em todo o mundo. Certamente, a lei moral e a dignidade espiritual do homem devem ser preferíveis a uma cultura bárbara, mesmo que enraizada desde antigamente. Há limites para a diversidade cultura, assim como há limites para o esforço de homogeneizar a experiência política e cultura da humanidade, negar a variedade preciosa de nações, cultura, povos e formas políticas. Como sempre, o desafio é conseguir o equilíbrio certo. Sendo a virtude da prudência, novamente, a coisa mais importante.

Precisamos de uma clareza muito maior sobre o significado desta palavra às vezes escorregadia e amorfa. Seria prudente deixar de usar o termo cultura de forma a prejudicar o respeito pelo culto autêntico da alma e do intelecto humano. A palavra deve tornar-se algo de “absoluto” novamente, não o brinquedo de diversos relativistas morais e culturais.


Autor: Daniel J. Mahoney

Mahoney é professor de política na Assumption College. Ele recebeu seu título de bachareal em ciência política na College of Holy Cross e realizou seu mestrado e doutorado na Catholic University of America. Em 1999, o professor Mahoney recebeu o prestigiado prêmio Prix Raymond Aron. Ele é editor da Perspectives on Political Science e da revista Society. Especialista renomado na filosofia política francesa, suas obras incluem Aleksandr Solzhenitsyn: The Ascent from Ideology, muito aclamado pela crítica.

Traduzido por Raul Effting

 

O passo dialético da Globo

Recentemente, uma grande parcela do povo brasileiro se manifestou contra a Rede Globo depois de a emissora ter fornecido amostras evidentes de sua adesão a crenças como Ideologia de Gênero e aborto, temas amplamente rejeitados pela população, embora apoiados pela classe artística e midiática. Ao declarar sua postura mais claramente e sem medo de desagradar a população, a Globo dá um passo adiante na estratégia psicológica da conformação das opiniões em um quadro dialético. Não se trata mais de apelar para a espiral do silêncio. O jogo da dialética é especialidade de marxistas culturais. E ele funciona.

Devido à nossa educação baseada em crenças burguesas do positivismo liberal e frequentemente mecanicista, temos dificuldade em compreender a luta cultural no aspecto dialético. É preciso que estejam claros alguns conceitos que os marxistas estudam há décadas.

A opinião

A opinião individual é a célula da democracia. Com base nela, formam-se posturas individuais que vão se manifestar analogamente em grupos de interesse e, por sua vez, exercer pressão sobre toda a sociedade. Depois, o conjunto da sociedade vai se manifestar e, então, a sua autoridade é máxima e disso depende a crença no equilíbrio utópico da democracia. Com toda a autoridade política depositada na sociedade, resta aos ativistas influenciar a sua base cultural para que qualquer luta política que se restrinja ao campo político já comece perdida. Para conquistar a base é preciso movimentar os cidadãos individuais por uma série de instrumentos persuasivos que agem na esfera psicológica mais profunda e não meramente política.

Existem dois tipos básicos de persuasão reflexiva na democracia. O primeiro deles é o apelo quantitativo, a autoridade da maioria, o clássico efeito da espiral do silêncio, baseado na alegação de que uma ideia ou proposta é aceita por uma maioria sábia. Pode ser chamado também de efeito democrático, no qual a força persuasiva utilizada é a numérica, mas associando a esse número o caráter de evolução, melhoria ou progresso. A principal força desse tipo de persuasão está na ameaça implícita de isolamento social. Quem não está com todos está sozinho e não deve ser levado em conta. Evidentemente, uma das condições para isso funcionar é a crença compartilhada da autoridade da maioria. Toda a análise de Elisabeth Noelle-Neumann é sobre a influência deste expediente na formação da opinião pública.

Mas há o segundo tipo, o qualitativo ou disruptivo, em que o apelo funciona inversamente ao primeiro. Ao invés de evocar a autoridade da maioria, apela para a credibilidade de grupos de iluminados, intelectuais, acadêmicos, pessoas que estudaram o assunto etc. “Toda unanimidade é burra”, repetem. Assim como no primeiro tipo, para que a ameaça de isolamento funcione, é preciso que o alvo atenda a pelo menos uma condição: precisa ter em alta conta o grupo que fala, do qual quer emprestada a credibilidade ao estar associado a eles. As comunidades profissionais se valem muito deste tipo de argumento de autoridade quando o assunto é comum à sua competência, mesmo que de fato não tenham conhecimento suficiente para formar uma opinião a respeito.

O passo do jogo dialético

Durante décadas, as duas estratégias foram mantidas conjuntamente no tratamento da tensão existente entre elite cultural progressista e povo conservador: ora apelava-se ao número, fraudando enquetes de opinião e estereotipando posturas populares como exóticas e fora de moda, ora denunciando o conservadorismo reinante no império do patriarcado presente nas famílias, consideradas arcaicas e agarradas a antigas crenças religiosas (cujo bode expiatório sempre foi a Igreja Católica, mas mais recentemente passou-se a atacar também evangélicos devido o seu crescimento numérico).

Longos anos de estratégia dedicados a colocar as forças progressistas definitivamente encasteladas nas universidades, redações de jornais, agências de propaganda e em Brasília, já é possível avançar e declarar guerra, iniciada já com décadas de vantagem cultural. O povo, praticamente sem representação, não tem como fazer frente a um aparato midiático totalmente alheio às suas crenças e pressupostos. A comunicação entre os dois lados se tornou impossível e o passo seguinte é a admissão da dualidade, o jogo da dialética. Agora, todo cidadão precisa fazer uma escolha: se está do lado da elite iluminada, artística, criativa, intelectualizada e sábia ou com o povo burro, ignorante, violento, conservador e problemático.

O passo do jogo dialético, porém, como reza a boa estratégia marxista, pode retroceder a qualquer momento, bastando que o seu progresso se veja ameaçado. Em um ir e vir infinito, próprio da mentalidade revolucionária, eles  afirmam não saber exatamente para onde vão, mas sabem que querem a transformação total da sociedade. Essa transformação que é uma outra forma de dizer destruição.

 

A Escola de Franfkurt: satanismo, feiúra e revolução

Por Murilo Resende Ferreira

A mídia e a Escola de Frankfurt

Um dos grandes paradoxos da civilização moderna é a coexistência de uma prosperidade material desconhecida junto à crescente feiúra e brutalidade social. As antigas formas de convivência social foram completamente devastadas e trocadas por diversões alucinadas onde uma música fabricada em laboratório hipnotiza e brutaliza os participantes. Nas ocasiões mais calmas, inexiste a antiga arte da conversa, da música e da poesia: só o que vemos são zumbis grudados em suas TVs e celulares. Muitos consideram que isso é uma evolução cultural natural, e até mesmo algo desejável e “progressista”. Mas em uma perspectiva histórica mais ampla, essa tirania da feiúra se mostra completamente injustificada. No final do século e no começo do século 20, a humanidade talvez tenha passado por um de seus maiores períodos criativos, com desenvolvimentos magníficos na música clássica, na literatura, na filosofia e em vários outros campos, e, pelo menos até a Segunda Guerra Mundial, esses desenvolvimentos tinham ampla reverberação na cultura popular. Como se deu uma queda tão rápida? Como chegamos ao mundo em que tudo é cultura, em que os estudantes universitários desejam proibir os grandes clássicos da literatura por não se encaixarem nos ditames do politicamente correto? O centro de onde irradiou essa verdadeira conspiração foi o Instituto de Pesquisa Social, popularmente conhecido como a Escola de Frankfurt.

Após a Revolução Comunista na Rússia em 1917, a crença geral do comunismo internacional era de que a revolução se espalharia como fogo por todo o mundo. Como isso não aconteceu, a Internacional Comunista deu início a uma série de iniciativas que buscavam compreender os motivos. Uma delas era liderada por Georg Lukács, um aristocrata húngaro, filho de um dos maiores banqueiros do Império Austro-Húngaro. Como comissário de cultura do breve regime comunista de Budapeste em 1919, ele descobrira um interessante fenômeno em relação à doutrinação ideológica. Um de seus projetos consistia na doutrinação marxista das crianças e adolescentes dos bairros mais pobres de Budapeste. Apesar da pesada carga de aulas e estudos, ele percebia que os jovens, ao saírem das salas de aula logo retomavam seus terços e sua devoção aos sacerdotes. Inspirado no pansexualismo de Sigmund Freud, ele optou por uma abordagem diferente: começaria com cursos de educação sexual. À medida que os cursos se espalharam, e incitaram alguns jovens a relações extraconjugais ou ao mero desafio das normas morais tradicionais, Lukács percebeu que os que entravam em conflito com suas igrejas e famílias logo estavam dispostos a aceitar qualquer tipo de doutrina que lhes fosse ensinada. Um dos motivos que levou à rápida queda do regime foi implantação por Lukács da educação sexual obrigatória, do acesso à contracepção, e do relaxamento da lei do divórcio, o que enfureceu a população devotamente católica da Húngria.

Lukács foi enviado para a Alemanha em 1922, onde liderou um encontro de sociólogos e intelectuais comunistas que viria a se tornar o Instituto de Pesquisa Social, a maior arma de guerra psicológica já desenvolvida pelo comunismo internacional. Para Lukács, o comunismo só invadiria o Ocidente com um movimento de características demoníacas, que fizesse prevalecer o sentimento de que fomos abandonados por Deus. A revolução só ocorreu na Rússia porque o país era há muito dominado por uma versão gnóstica do Cristianismo, como aparece nos escritos de Dostoievski. O que diferenciava o Ocidente da Rússia era principalmente a crença na sacralidade do indivíduo e sua capacidade de discernir a vontade divina através do uso progressivo da razão e da inteligência. A tarefa da Escola de Frankfurt consistiria então em destruir o legado judaico-cristão, por meio de uma abolição da cultura e a criação de novas formas culturais que levariam a uma alienação crescente da população e um novo barbarismo. Num período de três décadas, o Instituto de Pesquisa Social conseguiria o patrocínio das seguintes instituições para sua “causa”: universidades americanas e alemãs, a Fundação Rockfeller, a CBS(canal de TV americano), o Comitê Judeu-Americano, vários serviços de inteligência americanos, a Organização Internacional do Trabalho, etc..

Logo Stálin, enfurecido com o caráter cosmopolita do Instituto, cortou todo o financiamento soviético, uma atitude que expressa a relação de amor e ódio entre o nascente marxismo cultural e a ortodoxia do comunismo-leninismo. Uma outra grande figura do Instituto era Herbert Marcuse. Ele começou como um comunista, tornou-se um protegido de Heidegger no exato momento em que este se tornava um nazista; na América serviu à OSS, o embrião da CIA, e se tornou o analista chefe de política soviética durante o período de Joseph McCarthy; na década de 60 houve uma nova virada, e ele se tornou o guru mais importante da Nova Esquerda, e terminou seus dias fundando o Partido Verde na Alemanha Ocidental. Em tudo isso só há uma tentativa de responder à pergunta: quem poderá nos salvar da civilização ocidental?

O empreendimento de maior sucesso da escola de Frankfurt foi a influência maciça sobre o desenvolvimento da programação de rádio e TV da modernidade. Isso se deu a partir dos trabalhos de Theodor Adorno e Walter Benjamin. Em 1924, Adorno se mudou para Viena, para estudar com os compositores atonais Alban Berg e Arnold Schonberg, e se associou ao círculo ocultista ao redor do marxista renegado Karl Kraus. Ali ele entrou em contato com as idéias de Otto Gross, um discípulo extremista de Freud. Gross, um viciado em cocaína, tinha desenvolvido a teoria de que a saúde mental só seria atingida no Ocidente através de uma renascença do antigo culto de Astarte, que destruiria o monoteísmo e a família burguesa.

Um dos primeiros problemas em que se engajaram Adorno e Benjamin foi o da criação de uma base materialista sólida para a estética. O inimigo de ambos era Gottfried Leibniz, que era acima de tudo um antidualista, um inimigo da divisão gnóstica de corpo e mente, e que também afirmara a liberdade criativa humana. Para o marxismo, que tudo enxerga como fruto de uma teia de relações sociais, essa perspectiva é claramente um problema. Benjamin afirma então que a preponderância da mente racional é um erro, um triste legado de Sócrates. De fato, na origem de tudo está a capacidade de dar nomes às coisas, tomada aqui como uma espécie de imposição linguístico-social que nunca pode ter certeza de sua base objetiva. A tentativa de expressar a realidade é completamente distorcida pela natureza das relações de classe. Ao historicizar e relativizar dessa forma a busca da verdade, o conceito antiquado de bem e mal também pode ser esquecido. Foi por isso que Benjamin defendeu o que chamou de “Satanismo” dos simbolistas e surrealistas franceses, pois considerava que o cerne do Satanismo é o culto do mal como instrumento político, como instrumento de combate contra o diletantismo moralizante da burguesia. O objetivo de uma elite cultural na sociedade capitalista moderna deve ser a destruição da concepção da arte como imitação consciente do Deus criador; é preciso mostrar que a iluminação religiosa é, na verdade, uma iluminação profana, uma inspiração materialista e antropológica que pode ser iniciada pela maconha, pelo ópio e outras drogas. É preciso também criar novas formas culturais que aumentem a alienação da população, pois o povo precisa entender o quão alienante é viver sem o socialismo. Na música, por exemplo, ninguém deve acreditar que é possível compor hoje como Mozart e Beethoven; a composição deve ser atonal, diz Adorno, pois a atonalidade é doentia, e “o caráter doentio, dialeticamente, é ao mesmo tempo a cura…”. O objetivo da arte moderna deve ser a destruição do caráter elevador da arte, para que o homem, privado de sua ligação com o divino, só enxergue a revolta política como opção criativa. Trata-se de fomentar e organizar o pessimismo com instrumento político. Benjamin colaborou com Bertold Bretcht nesse sentido, e as peças teatrais que daí surgiram buscam desmoralizar e deixar a platéia gratuitamente irritadiça.

A análise feita por Adorno e Benjamin também é a base teórica de quase todas as tendências estéticas politicamente corretas que dominam as universidades. O pós-estruturalismo de Roland Barthes, Michael Foucault, e Jacques Derrida, a semiótica de Umberto Eco e o Desconstrucionismo de Paul de Man têm todos como fonte o trabalho de Benjamin. A novela Em Nome da Rosa, de Umberto Eco, é , por exemplo, nada mais que uma ode a Benjamin. Atualmente todos já têm a experiência de universitários alucinados que dizem que Monteiro de Lobato, Shakesperare e Platão são racistas, machistas e homofóbicos, e que isso é a única coisa que importa em suas obras. Mas a origem profunda dessa loucura é a tese de Benjamin-Adorno de que o que importa na obra artística é o contexto inconsciente das relações e tensões sociais. O abandono dos clássicos em prol de autores negros e feministas é bom porque a tradição é somente um conglomerado de falsos nomes, um logocentrismo que reflete a dependência que a burguesia tem de suas palavras. Se essas palavras de ordem universitárias parecem retardadas, é porque foram calculadas para serem. Adorno acreditava que as gerações vindouras seriam receptivas a esse tipo de propaganda porque seriam completamente retardadas pela reprodução mecânica da arte.

Antes do século 20, a distinção entre arte e entretenimento era muito maior. A experiência artística poderia ser divertida, mas era fundamentalmente ativa e não passiva. Era preciso fazer a escolha consciente de ir a um concerto, comprar um livro ou ir a uma exibição de arte. Não havia um acesso facilitado e até forçado às grandes formas culturais. A grande arte exigia um poder de concentração máximo e amplo conhecimento do assunto tratado. Naqueles tempos, a memorização da poesia e de peças de teatro e a reunião da família para um recital caseiro de piano eram a norma até no campo. As pessoas não aprendiam a “apreciar” a música, mas sim a executá-la. No entanto, as novas tecnologias contêm um potencial dialético de manipulação das massas na perspectiva marxista. O fato de que uma sinfonia de Beethoven pode ser infinitamente reproduzível leva a uma dessacralização da experiência e uma alienação crescente. Segundo Adorno, trata-se de um processo de desmitologização. Esta nova passividade diante do que antes exigia um esforço monstruoso poderia levar ao fracionamento da composição musical em partes “divertidas”, que poderiam ser então “fetichizadas” na memória do ouvinte, enquanto as partes difíceis seriam esquecidas.  O ouvinte atomístico e dissociado é infantilizado, só que seu primitivismo não é o dos primitivos, mas sim dos forçosamente retardados.

Esse retardo conceitual indicava que que a programação das rádios poderia determinar as preferências. Se você tocar Mozart e Caetano Veloso na mesma rádio, tudo acabará mesclado como “música de rádio” na cabeça do ouvinte. Idéias agressivas e novas também poderiam ser introduzidas através da homogeneização da indústria cultural, que seria assim explorada pelas forças “progressistas”.  Foram estas percepções que provavelmente justificaram o apoio maçiço que o Instituto recebeu do establishment americano depois de sua transferência para os Eua em 1934. Em 1937, a Fundação Rockfeller começou a financiar uma pesquisa sobre os efeitos sociais das novas formas de mídia de massas, particularmente o rádio, que ficou popularmente conhecida como o “Projeto do Rádio”. O diretor do projeto era Paul Lazersfeld, o filho adotivo do economista austro-marxista Rudolph Hilferding, e antigo colaborador do Instituto de Pesquisas Sociais. Dentre os colaboradores estavam Frank Staton, um P.H.D em psicologia industrial que viria a se tornar presidente da CBS no cume de sua influência e auxiliar influente de Lyndon Johnson; Herta Herzog, que se casaria com Lazersfelz e se tornaria a primeira diretora de pesquisa da Voz da América; e Hazel Gaudet, um dos principais diretores de pesquisas políticas dos Eua. Theodor Adorno era o chefe da seção musical. O objetivo era testar a tese de Adorno-Benjamin e mensurar o potencial da grande mídia para a lavagem cerebral.

O sucesso foi estrondoso. Uma das primeiras descobertas foi a do formato seriado de programação de novelas. Antes se acreditava que o sucesso desse formato se restringia a mulheres das classes baixas, que precisavam de um escapismo para suas vidas entediantes. Herta Herzog descobriu que não havia a menor correlação com o status socioeconômico e nem mesmo com o conteúdo. O fator determinante era a forma seriada; as pessoas se viciavam no formato, no desejo de saber o que irá acontecer na próxima semana. Descobriu-se que era possível até dobrar a audiência de uma peça de rádio dividindo-a em fragmentos. Não é nem preciso dizer como a indústria do entretenimento se apropriou desse insight. O próximo estudo do projeto foi uma investigação do terror causado pela transmissão que Orson Welles fez de A Guerra dos Mundos em 1938. A despeito de vários alertas sobre o caráter fictício da peça, aproximadamente 25% dos ouvintes acreditaram que era um relato real. Os pesquisadores descobriram que a maioria dos que entraram em pânico não acreditaram que marcianos estavam invadindo e sim os alemães. Os ouvintes já estavam condicionados pelas outras notícias e pela quebra do noticiário em pequenos boletins alarmistas. Welles usou essa técnica em seu programa, simulando que se tratava de uma série de boletins urgentes no meio de uma programação musical. A técnica de seriação das novelas, transplantada para o noticiário, funcionava perfeitamente.

Adorno e o Projeto do Rádio chegaram à conclusão de que a repetição do formato era a chave para a popularidade. O sucesso era determinado pela escolha e o formato da programação. Se um contexto familiar fosse mantido, qualquer conteúdo poderia se tornar aceitável. E nós, que padecemos com o funk e o sertanejo universitário, podemos atestar esse diagnóstico. A maior descoberta do projeto foi “Little Annnie” o apelido dado ao sistema de análise programas de Stanton-Lazersfelz. Os métodos anteriores de pesquisa de audiência eram bastante ineficazes e se limitavam a perguntar ao fim de um programa se a audiência estava satisfeita ou não e pedir uma opinião sobre o conteúdo. Isso não levava em conta a percepção atomizada do sujeito moderno, e exigia a análise racional de uma experiência irracional. O Projeto desenvolveu então um aparelho em que a pessoa podia registrar a intensidade do seu gosto e desgosto a cada momento de um programa. Ao comparar os gráficos, os pesquisadores puderam avaliar quais situações ou personagens provocavam um estado momentâneo de prazer. Essa descoberta transformou toda a indústria do entretenimento; os resultados das análises de programação e a audiência têm uma correlação que se aproxima de 85%. É por isso que hoje temos uma sensação de dejá vu em qualquer programa de TV. São os mesmos personagens e situações que se repetem indefinidamente, e somente o cenário se altera, pouco importando se é a Idade Média ou o espaço sideral. E a grande verdade é que o conteúdo estúpido e erótico da indústria do entretenimento não é uma necessidade natural, mas algo que foi planejado.

Esses esforços de manipulação da população geraram a pseudociência da pesquisa de opinião pública. Atualmente, tudo na mídia é direcionado por pesquisas de opinião, mesmo quando os jornalistas e senhores da mídia juram desejar estimular a liberdade de opinião e pensamento. A idéia da opinião pública como corte julgadora de tudo e todos é ademais absurda e irracional, pois nega a idéia da mente racional individual. A verdade é fruto do pensamento correto, e não do fato que 50,1% das pessoas concordam ou não com determinada asserção.

As técnicas de manipulação das pesquisas de opinião são inteiramente baseadas na psicanálise e se tornaram padrão em todo o mundo. Tudo gira ao redor do projeto de estudo da personalidade autoritária desenvolvido por Max Horkheimer, diretor do Instituto de Pesquisa Social pelos idos de 1942. Segundo Horkheimer, o objetivo era entender o preconceito com o objetivo de erradicá-lo. Nova traços de personalidade foram mensurados, incluindo o grau de convencionalismo, de agressão autoritária a pessoas que violam valores convencionais, de projetividade sobre os perigos do mundo e de preocupação com a sexualidade. A partir dessas mensurações foram construídas várias escalas: a escala E de etnocentrismo, a escala PEC de conservadorismo político e econômico, a escala A-S de antissemitismo e a escala F de fascismo. Surge um novo tipo ideal weberiano: a personalidade autoritária. Um observador mais benigno diria que a pesquisa provou que a população americana era conservadora, mas os mestres da Escola de Frankfurt viram nos resultados a prova de um fascismo irredutível e perigoso, oriundo da própria civilização cristã. A pesquisa foi popularizada por Hanna Arendt no seu famoso livro As Origens do Totalitarismo: todo mundo é um fascista em potencial.

Esse método de interpretação de pesquisas de opinião e personalidade é dominante até hoje nas ciências sociais e também em todos os grandes institutos de pesquisa, que surgiram motivados exatamente por essas novas descobertas e projetos.  É ele também que perpassa todo o marketing das campanhas políticas, e por isso o maior medo de um político moderno é o “extremismo”, ou o fascismo na linguagem frankfurtiana. E não para por aí: todo o desenvolvimento da propaganda e da televisão nas décadas de 50 e 60 foi iniciado por pessoas treinadas nas técnicas frankfurtianas de alienação em massa, incluindo os diretores das grandes redes de televisão. Essa popularidade da Escola de Frankfurt advém do fato incrível de que as teorias da escola foram oficialmente aceitas pelo governo americano durante a Segunda Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que este dizia combater a ameaça comunista. A OSS, o embrião da CIA, era basicamente composto de frankfurtianos, dentre eles: Carl Schorske, Franz Neumann, Herbert Marcuse, Paul Baran, Otto Kirchheimer, Leo Lowenthal, Sophie Marcuse, Siegfried Kracauer, Norman Brown, Barrington Moore Jr, Gregory Bateson e Arthur Schlesinger. Um dos primeiros projetos da OSS, liderado por Marcurse, foi o uso de técnicas de lavagem cerebral para desnazificação da Alemanha do pós-guerra. Horkheimer, que recebeu dupla nacionalidade, sendo naquele momento o único indivíduo que era ao mesmo tempo alemão e americano, foi enviado à Alemanha para reformar todo o sistema universitário, tendo como fruto toda uma geração de pensadores antiocidentais como Hans-Georg Gadamer e Jurgen Habermas. Nos Eua, a influência intelectual da Escola de Frankfurt se fez sentir no fato de que a sociologia se tornou o curso universitário mais procurado durante a década de 60 e nas revoltas estudantis que marcaram a época.

Um outro braço das operações frankfurtianas chegou até às experiências da CIA com drogas psicodélicas.  O LSD se tornou a droga de uso da própria agência e dos antigos membros do Instituto de Pesquisa Social. Foi Gregory Bateson, por exemplo, que levou o poeta Allen Ginsberg a participar de um experimento da Marinha com o LSD em Palo Alto, California. Esses alucinógenos tornam a vítima completamente antissocial e autocentrada, preocupada somente com objetos, que ganham uma aura monstruosa e ilusiva. As drogas produzem instantaneamente o estado de espírito desejado e propagado pela Escola de Frankfurt. Os famosos protestos de 1968 foram simplesmente frutos de décadas de atividade frankfurtiana e muitas drogas, não espantando que ao fim Herbert Marcuse tivesse emergido como o grande líder da revolta dos loucos. O visual de cabelos longos, a comida macrobiótica, a libertação sexual: tudo já tinha sido testado em comunidades ocultistas relacionadas com a Escola de Frankfurt, como a comuna de Ascona antes de 1920. O documento fundador da contracultura da década de 60 foi o Eros e Civilização de Marcuse, publicado em 1955 e financiado pela Fundação Rockfeller. Para Marcuse, o homem ocidental é unidimensional, e a única salvação é a libertação absoluta do erotismo em uma rebelião contra a racionalidade tecnológica. Foi ele que criou, na nova edição de 1966, o famoso slogan “faça amor, não faça guerra”. O objetivo era propagar a perversidade polimórfica e o pansexualismo como ideal civilizacional. Wilhem Reich, um membro mais marginal e louco da Escola de Frankfurt, chegou a dizer que o Nazismo fora causado pela monogamia. A educação primária foi dominada por um seguidor de Reich, A.S Neill, um ateísta militante e membro da Sociedade Teosófica, cujas teorias pregavam a rebelião aberta dos alunos contra os professores. Seu livro Summerhill atingiu a marca de 2 milhões de unidades vendidas em 1970 e se tornou leitura obrigatória de mais de 600 cursos universitários, influência que permanece até hoje. A libertação sexual da Escola de Frankfurt sempre foi um instrumento de controle político que visava transformar as pessoas em categorias objetivas através da despersonalização sexual. A partir daí, não somos mais indivíduos, mas negros, mulheres ou homossexuais. Tudo o que hoje chamamos de ideologia de gênero tem sua raiz em Marcuse, Fromm, Reich e outros agregados da Escola de Frankfurt.

Essa popularização da vida como um ritual pessimista e erótico é base do horror da vida moderna. Os herdeiros de Frankfurt dominam completamente as universidades e treinam os alunos em seus rituais de purgação politicamente corretos. A intolerância universitária é uma implementação da tolerância libertadora de Marcuse: toda a tolerância com a esquerda, nenhuma com a direita. Toda a arte foi erotizada e brutalizada até o ponto em que é impossível assistir um concerto de Mozart sem indicações de um contexto erótico. Crianças de 5 anos assistem em casa a filmes de terror com imagens que petrificariam os mais entusiasmados frequentadores do Coliseu romano. Fica claro que sem a destruição dessa verdadeira abominação da desolação, não será possível qualquer ressurgência da civilização ocidental em sua tradição judaico-cristã.

Fontes

Minnicino, Michael. The Franfkurt School and Political Correctness. Disponível em: https://www.schillerinstitute.org/fid_91-96/921_frankfurt.html

Silêncio em espiral: o efeito do desconhecimento geral sobre a natureza da opinião pública

“Espiral do Silêncio” se tornou, no Brasil, uma expressão geralmente mal entendida e imprecisa, usada como adjetivo para fenômenos dos mais variáveis e contraditórios, ao sabor de discussões pouco aprofundadas e pautadas pelo desconhecimento do seu significado original. Este é o efeito de dois principais fenômenos: a dificuldade do brasileiro em ler outros idiomas e a ausência de uma edição brasileira da obra original. Este último, felizmente, está sendo remediado.

Para compreender o que, de fato, significa a tese da espiral do silêncio, primeiramente é necessário saber que se trata de um fenômeno, em princípio, natural, que se intensifica com a formação da sociedade de massas e se fortalece quanto mais a integração social, e o consequente medo do isolamento, passam a influenciar na formação das opiniões individuais.

Quase 40 anos depois da sua publicação original, Die Schweigespirale (A espiral do silêncio), escrito pela cientista política Elisabeth Noelle-Neumann, ainda espanta pelo realismo e atualidade da sua análise. Como toda grande descoberta, a tese de Neumann surgiu a partir da surpresa. Um sobressalto diante das discrepâncias entre as pesquisas de intenção de voto, nas eleições, e os votos reais, uma mudança repentina no clima de opinião que tomou o país de assalto às vésperas das eleições alemãs de 1976. Para descobrir o que estaria por trás dessa guinada no último minuto, a autora começou a procurar outros fatores que poderiam influenciar na mudança de opinião dos indivíduos. A sua hipótese, chamada então de espiral do silêncio, era a de que, além do tema das opiniões, as pessoas mantinham sua atenção voltada também ao “clima de opinião” do entorno social. Mas teria, esse clima de opinião, um tamanho poder persuasivo ao ponto de determinar as opiniões finais e, por fim, o voto de um indivíduo? E por que este entorno era assim tão importante? A resposta de Neumann foi confirmada pelo conjunto dos seus estudos: o temor do isolamento social.

Neumann percebeu a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o conceito de opinião pública, empreendendo uma verdadeira jornada pela história do uso da expressão e suas variações de significado, passando por intelectuais que viam a opinião pública como uma força positiva, negativa, irrelevante ou importantíssima. Com isso, visava se aproximar da natureza verdadeira da opinião pública, como apêndice social, força motriz de pressão e reforço, constrangimento e medo, atuante para a determinação de comportamentos e opiniões. Um estudo como este só podia se tornar um clássico do estudo da opinião pública.

O uso desse conhecimento para a manipulação

O uso corrente da expressão “espiral do silêncio”, como sinônimo de manipulação, embora uma imprecisão grosseira, não deixa de conter algum fundamento, mas de forma indireta. Trata-se do seu desenvolvimento mais avançado, pressupondo obviamente a sua compreensão profunda e consequente uso estrutural e generalizado, algo que, em situações normais, seria difícil de se estabelecer. Acontece que, dado o desconhecimento geral desses fatores, somados à pouca tradição do estudo do tema, no caso do Brasil, sobre a natureza da opinião pública e os fatores formadores das opiniões e comportamentos, o estabelecimento de sistemas de manipulação baseados no controle da opinião pública ficam enormemente facilitados.

O Brasil tem pouca tradição de bons estudos na área da opinião pública, exceto algumas valiosas traduções de manuais de propaganda e relações públicas que enfatizam a natureza mais funcional da transmissão de opiniões e do modo como circulam as ideias entre as pessoas na sociedade de massa. Esses só encontraremos em sebos. O que vem sendo lançado, em profusão, são os manuais de transformação social, que mais valem como cartilhas que ensinam a fazer propaganda de ideias através da mobilização social, cultural etc. A verdade é que o Brasil se tornou um “país alvo” para aplicação de itens essenciais das agendas internacionais e isso explica a ausência de bibliografia aprofundada sobre a natureza real da opinião pública, restando apenas manuais elogiosos baseados na crença “funcional” do cidadão esclarecido e emancipado, politicamente “vacinado” contra as manipulações. Há um escasso interesse em difundir, no Brasil, o conhecimento da natureza mais profunda dos fenômenos sociais que não sejam baseado na figura do “cidadão esclarecido”, típico da ideologia democrática.

Por isso, o lançamento, no Brasil, de A espiral do silêncio, vem romper um silêncio de quase 40 anos, sob o qual se construiu um clima propício ao uso de toda sorte de técnicas de propaganda e manipulação, usando o medo do isolamento como combustível ao politicamente correto, além de um aparato midiático voltado à intimidação e constrangimento de qualquer resistência às forças atuantes. Felizmente, além do lançamento da obra, muitas outras mudanças tem ocorrido graças às redes sociais e a internet, por onde ainda podem circular informações essenciais para a verdadeira orientação política necessária a qualquer sociedade que almeje algum conhecimento sobre si mesma.

 

Universidades brasileiras funcionam como incubadoras da Ideologia de Gênero

Nas próximas semanas, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) sediará uma palestra da pesquisadora britânica Zowie Davy, no auditório do Centro de Ciências da Saúde (CCS). O evento marca o início de uma parceria com a universidade no projeto chamado “Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender (LGBT) Sex-Work Migration and Health Implications”,  junto com o movimento Epicenes: Núcleo de estudos em gênero da UFSC, coordenado pelo professor Rodrigo Moretti.

Eventos como esse acontecem em todas as universidades do Brasil, desde a década de 1990, quando o movimento LGBT, financiado internacionalmente e apoiado pelas conferências da International Lesbianand Gay Association (ILGA). O ILGA abriga em sua estrutura, desde a década de 1980, o grupo em defesa dos direitos à pedofilia, o NAMBLA (North-American Boy-Lovers Association). Há décadas que as universidade do mundo todo fornecem um ambiente propício e amistoso para o desenvolvimento das agendas que têm como objetivo a diluição e finalmente destruição de conceitos jurídicos que possibilitam o entendimento da própria noção de liberdade e democracia, o que não pode prescindir da moldura enganosa da defesa de direitos. Entidades internacionais como a Open Society, de George Soros, investem milhões todos os anos para esta “nobre” causa.

Nas últimas semanas, as redes sociais viram imagens chocantes de uma aula de sexo oral sendo ministrada em uma sala da Universidade de Maringá (PR), diante de atenta plateia. Quem se escandaliza com aquelas imagens certamente não conhece do que é feito o meio universitário brasileiro, há décadas refém de uma miscelânea de delírios ideológicos que remete a comportamentos aparentemente insanos. De fato, a doença mental parece ter se apossado das consciências (se é que ainda existem) de estudantes e professores que mais parecem zumbis de algum filme de horror futurista. Mas quem está por trás dessa estrutura de poder e influência que domina as mentes e almas dos jovens no Brasil e no mundo? A verdade é que uma estratégia de longo prazo dificilmente se deixa perceber tão facilmente.

Na capital catarinense, o projeto Epicenes, que funciona na UFSC, é responsável por realizar, desde 2015, o evento Semana de Combate às Fobias de Gênero na Saúde, realizado em parcerias com grupos de ativistas da UFSC e o Centro de Ciências da Saúde, entre eles o Grupo Acontece (arte e política LGBT), espécie de QG de atividades culturais para a promoção do movimento LGBT. Todas essas iniciativas estão vinculadas ao ativismo gay e o seu afiliado, o ativismo pedófilo. E estes são apenas uma parcela muito pequena de movimentos dessa natureza abrigados na UFSC, assim como em muitas universidades brasileiras. Obviamente, o Brasil apenas repete comportamentos já bem crescidinhos no exterior. Universidades norte-americanas já oferecem bolsas para quem estudar o movimento LGBT e questões de gênero.

Breve histórico dos movimentos

De acordo com pesquisa de Alves Calixto:

Na década de 90, foram criadas ONGs voltadas para a causa LGBT com financiamentos de organismos internacionais, criação de parcerias do movimento com partidos políticos e o poder público. Em 1995 foi realizada a primeira parada do Orgulho LGBT no Brasil a partir da 17ª Conferência Internacional da International Lesbianand Gay Association (ILGA), no Rio de Janeiro. No mesmo ano, foi criada a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT, com 31 grupos fundadores. Atualmente, a ABGLT é uma rede nacional de 308 organizações afiliadas. Fortaleceu-se também a presença na mídia, a participação em movimentos de direitos humanos, a articulação com redes internacional de promoção de direitos humanos e proposituras perante parlamentares em nível federal, estadual e municipal. (SIMÕES E FACHINNI, 2009).

Datam da mesma década, o aparecimento da chamada “teoria queer“, já existente nos EUA desde a década de 1980, iniciada pela teórica feminista Judith Buttler. O significado de queer bem serve para que se compreenda o objetivo dos movimentos dentro da revolução linguística com a qual pretendem desconstruir e, assim, desestruturar a sociedade. Ainda com base nas citações de Alves Calixto:

Queer pode ser traduzido por estranho, talvez ridículo, excêntrico, raro, extraordinário (…). A ideia dos teóricos foi a de positivar esta conhecida forma pejorativa de insultar os homossexuais. Segundo Butler, apontada como uma das precursoras de teoria queer, o termo tem operado uma prática linguística com o propósito de degradar os sujeitos aos quais se refere. “Queer adquire todo o seu poder precisamente através da invocação reiterada que o relaciona com acusações, patologias e insultos” […] Por isso, a proposta é dar um novo significado ao termo, passando a entender queer como uma prática de vida que se coloca contra as normas socialmente aceitas (COLLING, 2011, p. 3).

O ataque ao que se entende como “normas socialmente aceitas” confunde-se facilmente com um golpe não aos valores, mas às realidades das quais eles falam. A revolução linguística vem resolver o problema de Marx, para quem os valores capitalistas estariam lastreados pela moral familiar, religiosa e, consequentemente, pelas verdades admitidas sobre a biologia. A diferença é que Marx acreditava que o socialismo poderia destruir a família naturalmente, o que não ocorreu. A alternativa agora é destruir primeiro a família, já que esta se recusou a morrer nos países em que o socialismo se impôs. É a alternativa cultural do marxismo ortodoxo.

Por que é necessária a destruição da família e perversão das crianças?

Segundo a noção já consagrada pelo que podemos chamar de Ideologia de Gênero (ou teoria da identidade de gênero) mais em voga, “a sexualidade não é compreendida como uma questão pessoal, algo ‘dado pela
natureza’, mas é social, política, histórica aprendida no decorrer da vida de todos os sujeitos sociais”. Esta noção questiona o poder da biologia (ou de fatores externos) na construção da identidade humana. Essa identidade poderia ser puramente “inventada”, com base não numa realidade, mas em desejos retirados da própria cultura. Se a normatividade familiar, referida por eles, é artificial (e má) por ser baseada em uma construção social, muito pior seria a teoria queer, que necessita de um aparato de construção social muito mais agressivo para contrariar a biologia. Mas o argumento de construção social é apenas uma fachada. As “normas socialmente aceitas” não são vistas como más por causa da sua suposta artificialidade, mas por representarem, segundo Marx e Engels, o lastro inicial de toda forma de exploração: a família.

Assim, o pai explora a esposa e, juntos, exploram os filhos. O motor de toda a exploração é sexo, como domínio físico do corpo, segundo as ideias feministas que foram sintetizadas nas teorias de Freud. É por este motivo que feministas como Shulamith Firestone defendem clara e expressamente a liberação sexual das crianças. A destruição não é a única condição para a nova sociedade da liberdade total. O anticoncepcional, a educação estatal para todos, assim como as escolas mistas, tiveram como inspiração as ideias de Firestone, que tinha como objetivo a liberação da mulher para que ela pudesse ser livre da dominação e exploração imposta pela instituição familiar.

Nenhum militante LGBT dirá jamais que deseja destruir a família, mas certamente defenderá que a família tenha o seu conceito ampliado e diversificado, modificado desde a sua base, até que as pessoas não sejam mais capazes de distinguir entre uma família e uma manifestação de pedófilos que grita em frente à Igreja, acusando padres de pedófilos, ao mesmo tempo em que pede a descriminalização da pedofilia. A contradição é a sua arma mais eficiente, pois desarma o inimigo, como disse Butler.

Assim, os ideólogos do gênero transformam a sexualidade em arma política, capaz de destruir seus opositores por dentro e já em tenra idade, privando-os da identidade humana. Sabe-se que a autêntica identidade e personalidade humana só pode se manifestar no masculino ou feminino, isto é, por meio da identificação entre biológico e social, como insiste o filósofo espanhol Julián Marías. A constante deturpação e desidentificação entre as duas realidades (biológica e social), quando fomentada na infância, produz, já sabidamente, resultados catastróficos, não apenas sexuais ou comportamentais, como temos visto, mas cognitivos.

Federico Iadicicco, coordenador do Departamento Vida e Família do partido Fratelli d’Italia, afirma, em entrevista, que uma das razões por trás deste tipo de propaganda, o que Bento XVI chamou de “revolução antropológica”, contra a família e impulsionada por ambientes de poderosa influência financeira, está o poder de influência nas escolhas políticas de algumas das principais potências do mundo.

Definitivamente e de forma inequívoca, o financiamento substancial que grandes multinacionais e ONGs mundiais dão periodicamente a associações LGBT: Apple, Coca-Cola, a Open Society de George Soros, a Fundação MacArthur, a Fundação Ford, a Fundação Goldman, a Fundação Rockefeller, a Kodak, a American Airlines, a Pepsi, a Nike, a Motorola, só para citar alguns. Também é suspeita a atenção especial dos organismos supranacionais à promoção da ideologia de gênero nas escolhas legislativas nacionais. Basta considerar que a Organização Mundial da Saúde arruma tempo para ditar aos países as diretrizes de educação sexual para crianças em vez de lidar com os problemas reais da saúde no mundo.

Os resultados dessa ideologia já podem ser vistos em toda parte. Relatórios médicos e psiquiátricos já apontam a ideologia de gênero e a teoria queer como potenciais causadores de toda sorte de distúrbios e culpados de um crescente número de suicídios entre adolescentes e até crianças. A modificação dos corpos e das mentes destrói toda a capacidade de exercício do livre arbítrio humano, tornando-o um mero escravo de causas que ele não conhece.

Este é certamente um edifício dos horrores, donde se pode compreender a bizarra motivação de verdadeiros monstros que se utilizam da fragilidade de crianças e adolescentes, em sua inocência, para transformá-los em ativistas zumbis. Os verdadeiros inimigos da humanidade, da família e de Deus, não são os militantes que lotam movimentos universitários, mas os teóricos e financiadores que transformam adolescentes em idiotas úteis a causas que apenas os destruirá por dentro e por fora.

União Europeia e o multiculturalismo na construção do poder global

Em 1922, Richard Coudenhove Kalergi criou o movimento “Pan-Europeu”, uma das origens da versão europeia da Nova Ordem Mundial. Ele foi o iniciador das ideias de “integração da Europa”, embrião da União Europeia e do que hoje chamamos de multiculturalismo. Após a publicação de seu Manifesto Pan-Europeu, e graças aos seus contatos pelo mundo da diplomacia, Kalergi teve ajuda dos maiores intelectuais e banqueiros do mundo. Entre seus objetivos estava a unificação das raças do mundo em uma única etnia, o que possibilitaria o controle mundial a partir de uma única autoridade.

Hoje muitas de suas ideias aparecem sob disfarces retóricos como o ambientalismo, o feminismo e demais ideologias. O controle populacional sempre esteve entre os muitos objetivos da elite global. Mas se trata de um controle seletivo, pois implica em um projeto de seleção artificial. “Uma população crescente significa maior pressão ambiental. A solução poderia estar nos direitos das mulheres”, diz Jessica Prois, em artigo para o site do Laboratório de Demografia e Estudos Populacionais da Universidade de Juiz de Fora (RJ). O disfarce feminista utiliza, hoje, de uma retórica ambiental. Mas mesmo o feminismo faz parte de outra subretórica muito anterior: o plano de integrar povos tão diversos e de crenças, costumes, tão díspares que só uma autoridade central poderia arbitrar seus inevitáveis conflitos.

A crença de fundo está no evolucionismo ou darwinismo social, baseado na ideia de uma involução ou degradação da raça humana por meio da miscigenação, algo contra o qual os movimentos nacionalistas europeus da metade do século tentaram se contrapor. De fato, o movimento de Kalergi silenciou-se após o advento dos violentos regimes fascistas e nazistas. Resistência um tanto quanto desastrada aos movimentos pan-europeus, o nazismo acabou por servir aos planos globais ao criar um arquétipo nacionalista negativo e possibilitar a criminalização ou ao menos a demonização pública de qualquer resistência ao multiculturalismo. Tendo testemunhado a destruição causada pelos rampantes nacionalismos da Alemanha e da Itália, os vitoriosos aliados começaram a buscar uma solução de longa data para impedir que tal desastre ocorresse novamente.

A ideologia do multiculturalismo, no entanto, é imposta a todos os países conjuntamente com as ideologias legitimadoras de determinados povos, tendo-os como vítimas de catástrofes históricas, clamando a necessidade de uma reparação social que acaba por povos contra povos, gerando um permanente conflito. Essa relação conflituosa se torna o paradigma da diversidade e só um governo ou autoridade central pode, do alto de seu arbítrio político, controlar os estímulos positivos e negativos que controlariam a dinâmica eterna entre paz e guerra.

A ideologia do pacifismo nada mais é do que o controle de onde e quando será a guerra. De quem contra quem será o conflito, quando necessário ou inevitável. O controle e o monopólio da violência e das armas é um passo importante, na visão dos centralistas globais, para o avanço da utopia administrativa, da gestão total e da governança. O upgrade da política está no conceito de governança, que pode ser resumido como sendo a arte de governar governos, o que só pode ser feito em uma perspectiva centralista e global.

A utopia da criação de uma única raça, criada politicamente por meio do controle de natalidade seletivo e de programas de política migratórias, só será possível com o suporte de uma ideologia integradora que torne o multiculturalismo um valor absoluto, onde não há espaço para o contraditório ou a diversidade. Paradoxalmente, o multiculturalismo é a ideologia da uniformização global, generalização dos conflitos e das arbitragens centrais.

No entanto, não é preciso acreditar em um tipo de inferioridade racial, já que o aparato global construído por essa nova ordem, já incapacita aos poucos os indivíduos para o julgamento do que é liberdade ou escravidão. Escravizam-se voluntariamente acreditando lutarem por liberdade.

O funcionamento do sistema global

O pacifismo (controle da guerra) só pode ser possível após o controle dos elementos que causam ou atenuam conflitos, como o controle dos recursos e territórios (ambientalismo) e a reprodução humana (feminismo, ideologia de gênero). Para isso, é necessário construir um sistema de fundamentação e justificativas, que não pode vir a funcionar sem o suporte de toda uma classe científica crente nas mesmas utopias. Do mesmo modo, o suporte de uma burocracia que filtre os acessos e controle as ações só pode existir tendo à mando uma elite política submetida a um sistema de credibilidade científica e intelectual. A classe intelectual, por fim, é gerada e alimentada por todo o sistema de favorecimentos baseados em crenças que podem ser absolutamente irracionais, já que toda a população obedecerá aos sentimentos de benevolência como critério de normalidade e sanidade, enquanto os maiores absurdos vão se tornando regras e ditames morais. Os intelectuais serão cada vez mais relativistas e imorais e, por este motivo, defenderão com unhas e dentes as utopias mais irracionais, desde que sirvam para o deleite de suas realizações psíquicas e emocionais, o que se torna critério máximo de felicidade.