Silêncio em espiral: o efeito do desconhecimento geral sobre a natureza da opinião pública

“Espiral do Silêncio” se tornou, no Brasil, uma expressão geralmente mal entendida e imprecisa, usada como adjetivo para fenômenos dos mais variáveis e contraditórios, ao sabor de discussões pouco aprofundadas e pautadas pelo desconhecimento do seu significado original. Este é o efeito de dois principais fenômenos: a dificuldade do brasileiro em ler outros idiomas e a ausência de uma edição brasileira da obra original. Este último, felizmente, está sendo remediado.

Para compreender o que, de fato, significa a tese da espiral do silêncio, primeiramente é necessário saber que se trata de um fenômeno, em princípio, natural, que se intensifica com a formação da sociedade de massas e se fortalece quanto mais a integração social, e o consequente medo do isolamento, passam a influenciar na formação das opiniões individuais.

Quase 40 anos depois da sua publicação original, Die Schweigespirale (A espiral do silêncio), escrito pela cientista política Elisabeth Noelle-Neumann, ainda espanta pelo realismo e atualidade da sua análise. Como toda grande descoberta, a tese de Neumann surgiu a partir da surpresa. Um sobressalto diante das discrepâncias entre as pesquisas de intenção de voto, nas eleições, e os votos reais, uma mudança repentina no clima de opinião que tomou o país de assalto às vésperas das eleições alemãs de 1976. Para descobrir o que estaria por trás dessa guinada no último minuto, a autora começou a procurar outros fatores que poderiam influenciar na mudança de opinião dos indivíduos. A sua hipótese, chamada então de espiral do silêncio, era a de que, além do tema das opiniões, as pessoas mantinham sua atenção voltada também ao “clima de opinião” do entorno social. Mas teria, esse clima de opinião, um tamanho poder persuasivo ao ponto de determinar as opiniões finais e, por fim, o voto de um indivíduo? E por que este entorno era assim tão importante? A resposta de Neumann foi confirmada pelo conjunto dos seus estudos: o temor do isolamento social.

Neumann percebeu a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o conceito de opinião pública, empreendendo uma verdadeira jornada pela história do uso da expressão e suas variações de significado, passando por intelectuais que viam a opinião pública como uma força positiva, negativa, irrelevante ou importantíssima. Com isso, visava se aproximar da natureza verdadeira da opinião pública, como apêndice social, força motriz de pressão e reforço, constrangimento e medo, atuante para a determinação de comportamentos e opiniões. Um estudo como este só podia se tornar um clássico do estudo da opinião pública.

O uso desse conhecimento para a manipulação

O uso corrente da expressão “espiral do silêncio”, como sinônimo de manipulação, embora uma imprecisão grosseira, não deixa de conter algum fundamento, mas de forma indireta. Trata-se do seu desenvolvimento mais avançado, pressupondo obviamente a sua compreensão profunda e consequente uso estrutural e generalizado, algo que, em situações normais, seria difícil de se estabelecer. Acontece que, dado o desconhecimento geral desses fatores, somados à pouca tradição do estudo do tema, no caso do Brasil, sobre a natureza da opinião pública e os fatores formadores das opiniões e comportamentos, o estabelecimento de sistemas de manipulação baseados no controle da opinião pública ficam enormemente facilitados.

O Brasil tem pouca tradição de bons estudos na área da opinião pública, exceto algumas valiosas traduções de manuais de propaganda e relações públicas que enfatizam a natureza mais funcional da transmissão de opiniões e do modo como circulam as ideias entre as pessoas na sociedade de massa. Esses só encontraremos em sebos. O que vem sendo lançado, em profusão, são os manuais de transformação social, que mais valem como cartilhas que ensinam a fazer propaganda de ideias através da mobilização social, cultural etc. A verdade é que o Brasil se tornou um “país alvo” para aplicação de itens essenciais das agendas internacionais e isso explica a ausência de bibliografia aprofundada sobre a natureza real da opinião pública, restando apenas manuais elogiosos baseados na crença “funcional” do cidadão esclarecido e emancipado, politicamente “vacinado” contra as manipulações. Há um escasso interesse em difundir, no Brasil, o conhecimento da natureza mais profunda dos fenômenos sociais que não sejam baseado na figura do “cidadão esclarecido”, típico da ideologia democrática.

Por isso, o lançamento, no Brasil, de A espiral do silêncio, vem romper um silêncio de quase 40 anos, sob o qual se construiu um clima propício ao uso de toda sorte de técnicas de propaganda e manipulação, usando o medo do isolamento como combustível ao politicamente correto, além de um aparato midiático voltado à intimidação e constrangimento de qualquer resistência às forças atuantes. Felizmente, além do lançamento da obra, muitas outras mudanças tem ocorrido graças às redes sociais e a internet, por onde ainda podem circular informações essenciais para a verdadeira orientação política necessária a qualquer sociedade que almeje algum conhecimento sobre si mesma.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Universidades brasileiras funcionam como incubadoras da Ideologia de Gênero

Nas próximas semanas, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) sediará uma palestra da pesquisadora britânica Zowie Davy, no auditório do Centro de Ciências da Saúde (CCS). O evento marca o início de uma parceria com a universidade no projeto chamado “Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender (LGBT) Sex-Work Migration and Health Implications”,  junto com o movimento Epicenes: Núcleo de estudos em gênero da UFSC, coordenado pelo professor Rodrigo Moretti.

Eventos como esse acontecem em todas as universidades do Brasil, desde a década de 1990, quando o movimento LGBT, financiado internacionalmente e apoiado pelas conferências da International Lesbianand Gay Association (ILGA). O ILGA abriga em sua estrutura, desde a década de 1980, o grupo em defesa dos direitos à pedofilia, o NAMBLA (North-American Boy-Lovers Association). Há décadas que as universidade do mundo todo fornecem um ambiente propício e amistoso para o desenvolvimento das agendas que têm como objetivo a diluição e finalmente destruição de conceitos jurídicos que possibilitam o entendimento da própria noção de liberdade e democracia, o que não pode prescindir da moldura enganosa da defesa de direitos. Entidades internacionais como a Open Society, de George Soros, investem milhões todos os anos para esta “nobre” causa.

Nas últimas semanas, as redes sociais viram imagens chocantes de uma aula de sexo oral sendo ministrada em uma sala da Universidade de Maringá (PR), diante de atenta plateia. Quem se escandaliza com aquelas imagens certamente não conhece do que é feito o meio universitário brasileiro, há décadas refém de uma miscelânea de delírios ideológicos que remete a comportamentos aparentemente insanos. De fato, a doença mental parece ter se apossado das consciências (se é que ainda existem) de estudantes e professores que mais parecem zumbis de algum filme de horror futurista. Mas quem está por trás dessa estrutura de poder e influência que domina as mentes e almas dos jovens no Brasil e no mundo? A verdade é que uma estratégia de longo prazo dificilmente se deixa perceber tão facilmente.

Na capital catarinense, o projeto Epicenes, que funciona na UFSC, é responsável por realizar, desde 2015, o evento Semana de Combate às Fobias de Gênero na Saúde, realizado em parcerias com grupos de ativistas da UFSC e o Centro de Ciências da Saúde, entre eles o Grupo Acontece (arte e política LGBT), espécie de QG de atividades culturais para a promoção do movimento LGBT. Todas essas iniciativas estão vinculadas ao ativismo gay e o seu afiliado, o ativismo pedófilo. E estes são apenas uma parcela muito pequena de movimentos dessa natureza abrigados na UFSC, assim como em muitas universidades brasileiras. Obviamente, o Brasil apenas repete comportamentos já bem crescidinhos no exterior. Universidades norte-americanas já oferecem bolsas para quem estudar o movimento LGBT e questões de gênero.

Breve histórico dos movimentos

De acordo com pesquisa de Alves Calixto:

Na década de 90, foram criadas ONGs voltadas para a causa LGBT com financiamentos de organismos internacionais, criação de parcerias do movimento com partidos políticos e o poder público. Em 1995 foi realizada a primeira parada do Orgulho LGBT no Brasil a partir da 17ª Conferência Internacional da International Lesbianand Gay Association (ILGA), no Rio de Janeiro. No mesmo ano, foi criada a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT, com 31 grupos fundadores. Atualmente, a ABGLT é uma rede nacional de 308 organizações afiliadas. Fortaleceu-se também a presença na mídia, a participação em movimentos de direitos humanos, a articulação com redes internacional de promoção de direitos humanos e proposituras perante parlamentares em nível federal, estadual e municipal. (SIMÕES E FACHINNI, 2009).

Datam da mesma década, o aparecimento da chamada “teoria queer“, já existente nos EUA desde a década de 1980, iniciada pela teórica feminista Judith Buttler. O significado de queer bem serve para que se compreenda o objetivo dos movimentos dentro da revolução linguística com a qual pretendem desconstruir e, assim, desestruturar a sociedade. Ainda com base nas citações de Alves Calixto:

Queer pode ser traduzido por estranho, talvez ridículo, excêntrico, raro, extraordinário (…). A ideia dos teóricos foi a de positivar esta conhecida forma pejorativa de insultar os homossexuais. Segundo Butler, apontada como uma das precursoras de teoria queer, o termo tem operado uma prática linguística com o propósito de degradar os sujeitos aos quais se refere. “Queer adquire todo o seu poder precisamente através da invocação reiterada que o relaciona com acusações, patologias e insultos” […] Por isso, a proposta é dar um novo significado ao termo, passando a entender queer como uma prática de vida que se coloca contra as normas socialmente aceitas (COLLING, 2011, p. 3).

O ataque ao que se entende como “normas socialmente aceitas” confunde-se facilmente com um golpe não aos valores, mas às realidades das quais eles falam. A revolução linguística vem resolver o problema de Marx, para quem os valores capitalistas estariam lastreados pela moral familiar, religiosa e, consequentemente, pelas verdades admitidas sobre a biologia. A diferença é que Marx acreditava que o socialismo poderia destruir a família naturalmente, o que não ocorreu. A alternativa agora é destruir primeiro a família, já que esta se recusou a morrer nos países em que o socialismo se impôs. É a alternativa cultural do marxismo ortodoxo.

Por que é necessária a destruição da família e perversão das crianças?

Segundo a noção já consagrada pelo que podemos chamar de Ideologia de Gênero (ou teoria da identidade de gênero) mais em voga, “a sexualidade não é compreendida como uma questão pessoal, algo ‘dado pela
natureza’, mas é social, política, histórica aprendida no decorrer da vida de todos os sujeitos sociais”. Esta noção questiona o poder da biologia (ou de fatores externos) na construção da identidade humana. Essa identidade poderia ser puramente “inventada”, com base não numa realidade, mas em desejos retirados da própria cultura. Se a normatividade familiar, referida por eles, é artificial (e má) por ser baseada em uma construção social, muito pior seria a teoria queer, que necessita de um aparato de construção social muito mais agressivo para contrariar a biologia. Mas o argumento de construção social é apenas uma fachada. As “normas socialmente aceitas” não são vistas como más por causa da sua suposta artificialidade, mas por representarem, segundo Marx e Engels, o lastro inicial de toda forma de exploração: a família.

Assim, o pai explora a esposa e, juntos, exploram os filhos. O motor de toda a exploração é sexo, como domínio físico do corpo, segundo as ideias feministas que foram sintetizadas nas teorias de Freud. É por este motivo que feministas como Shulamith Firestone defendem clara e expressamente a liberação sexual das crianças. A destruição não é a única condição para a nova sociedade da liberdade total. O anticoncepcional, a educação estatal para todos, assim como as escolas mistas, tiveram como inspiração as ideias de Firestone, que tinha como objetivo a liberação da mulher para que ela pudesse ser livre da dominação e exploração imposta pela instituição familiar.

Nenhum militante LGBT dirá jamais que deseja destruir a família, mas certamente defenderá que a família tenha o seu conceito ampliado e diversificado, modificado desde a sua base, até que as pessoas não sejam mais capazes de distinguir entre uma família e uma manifestação de pedófilos que grita em frente à Igreja, acusando padres de pedófilos, ao mesmo tempo em que pede a descriminalização da pedofilia. A contradição é a sua arma mais eficiente, pois desarma o inimigo, como disse Butler.

Assim, os ideólogos do gênero transformam a sexualidade em arma política, capaz de destruir seus opositores por dentro e já em tenra idade, privando-os da identidade humana. Sabe-se que a autêntica identidade e personalidade humana só pode se manifestar no masculino ou feminino, isto é, por meio da identificação entre biológico e social, como insiste o filósofo espanhol Julián Marías. A constante deturpação e desidentificação entre as duas realidades (biológica e social), quando fomentada na infância, produz, já sabidamente, resultados catastróficos, não apenas sexuais ou comportamentais, como temos visto, mas cognitivos.

Federico Iadicicco, coordenador do Departamento Vida e Família do partido Fratelli d’Italia, afirma, em entrevista, que uma das razões por trás deste tipo de propaganda, o que Bento XVI chamou de “revolução antropológica”, contra a família e impulsionada por ambientes de poderosa influência financeira, está o poder de influência nas escolhas políticas de algumas das principais potências do mundo.

Definitivamente e de forma inequívoca, o financiamento substancial que grandes multinacionais e ONGs mundiais dão periodicamente a associações LGBT: Apple, Coca-Cola, a Open Society de George Soros, a Fundação MacArthur, a Fundação Ford, a Fundação Goldman, a Fundação Rockefeller, a Kodak, a American Airlines, a Pepsi, a Nike, a Motorola, só para citar alguns. Também é suspeita a atenção especial dos organismos supranacionais à promoção da ideologia de gênero nas escolhas legislativas nacionais. Basta considerar que a Organização Mundial da Saúde arruma tempo para ditar aos países as diretrizes de educação sexual para crianças em vez de lidar com os problemas reais da saúde no mundo.

Os resultados dessa ideologia já podem ser vistos em toda parte. Relatórios médicos e psiquiátricos já apontam a ideologia de gênero e a teoria queer como potenciais causadores de toda sorte de distúrbios e culpados de um crescente número de suicídios entre adolescentes e até crianças. A modificação dos corpos e das mentes destrói toda a capacidade de exercício do livre arbítrio humano, tornando-o um mero escravo de causas que ele não conhece.

Este é certamente um edifício dos horrores, donde se pode compreender a bizarra motivação de verdadeiros monstros que se utilizam da fragilidade de crianças e adolescentes, em sua inocência, para transformá-los em ativistas zumbis. Os verdadeiros inimigos da humanidade, da família e de Deus, não são os militantes que lotam movimentos universitários, mas os teóricos e financiadores que transformam adolescentes em idiotas úteis a causas que apenas os destruirá por dentro e por fora.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

União Europeia e o multiculturalismo na construção do poder global

Em 1922, Richard Coudenhove Kalergi criou o movimento “Pan-Europeu”, uma das origens da versão europeia da Nova Ordem Mundial. Ele foi o iniciador das ideias de “integração da Europa”, embrião da União Europeia e do que hoje chamamos de multiculturalismo. Após a publicação de seu Manifesto Pan-Europeu, e graças aos seus contatos pelo mundo da diplomacia, Kalergi teve ajuda dos maiores intelectuais e banqueiros do mundo. Entre seus objetivos estava a unificação das raças do mundo em uma única etnia, o que possibilitaria o controle mundial a partir de uma única autoridade.

Hoje muitas de suas ideias aparecem sob disfarces retóricos como o ambientalismo, o feminismo e demais ideologias. O controle populacional sempre esteve entre os muitos objetivos da elite global. Mas se trata de um controle seletivo, pois implica em um projeto de seleção artificial. “Uma população crescente significa maior pressão ambiental. A solução poderia estar nos direitos das mulheres”, diz Jessica Prois, em artigo para o site do Laboratório de Demografia e Estudos Populacionais da Universidade de Juiz de Fora (RJ). O disfarce feminista utiliza, hoje, de uma retórica ambiental. Mas mesmo o feminismo faz parte de outra subretórica muito anterior: o plano de integrar povos tão diversos e de crenças, costumes, tão díspares que só uma autoridade central poderia arbitrar seus inevitáveis conflitos.

A crença de fundo está no evolucionismo ou darwinismo social, baseado na ideia de uma involução ou degradação da raça humana por meio da miscigenação, algo contra o qual os movimentos nacionalistas europeus da metade do século tentaram se contrapor. De fato, o movimento de Kalergi silenciou-se após o advento dos violentos regimes fascistas e nazistas. Resistência um tanto quanto desastrada aos movimentos pan-europeus, o nazismo acabou por servir aos planos globais ao criar um arquétipo nacionalista negativo e possibilitar a criminalização ou ao menos a demonização pública de qualquer resistência ao multiculturalismo. Tendo testemunhado a destruição causada pelos rampantes nacionalismos da Alemanha e da Itália, os vitoriosos aliados começaram a buscar uma solução de longa data para impedir que tal desastre ocorresse novamente.

A ideologia do multiculturalismo, no entanto, é imposta a todos os países conjuntamente com as ideologias legitimadoras de determinados povos, tendo-os como vítimas de catástrofes históricas, clamando a necessidade de uma reparação social que acaba por povos contra povos, gerando um permanente conflito. Essa relação conflituosa se torna o paradigma da diversidade e só um governo ou autoridade central pode, do alto de seu arbítrio político, controlar os estímulos positivos e negativos que controlariam a dinâmica eterna entre paz e guerra.

A ideologia do pacifismo nada mais é do que o controle de onde e quando será a guerra. De quem contra quem será o conflito, quando necessário ou inevitável. O controle e o monopólio da violência e das armas é um passo importante, na visão dos centralistas globais, para o avanço da utopia administrativa, da gestão total e da governança. O upgrade da política está no conceito de governança, que pode ser resumido como sendo a arte de governar governos, o que só pode ser feito em uma perspectiva centralista e global.

A utopia da criação de uma única raça, criada politicamente por meio do controle de natalidade seletivo e de programas de política migratórias, só será possível com o suporte de uma ideologia integradora que torne o multiculturalismo um valor absoluto, onde não há espaço para o contraditório ou a diversidade. Paradoxalmente, o multiculturalismo é a ideologia da uniformização global, generalização dos conflitos e das arbitragens centrais.

No entanto, não é preciso acreditar em um tipo de inferioridade racial, já que o aparato global construído por essa nova ordem, já incapacita aos poucos os indivíduos para o julgamento do que é liberdade ou escravidão. Escravizam-se voluntariamente acreditando lutarem por liberdade.

O funcionamento do sistema global

O pacifismo (controle da guerra) só pode ser possível após o controle dos elementos que causam ou atenuam conflitos, como o controle dos recursos e territórios (ambientalismo) e a reprodução humana (feminismo, ideologia de gênero). Para isso, é necessário construir um sistema de fundamentação e justificativas, que não pode vir a funcionar sem o suporte de toda uma classe científica crente nas mesmas utopias. Do mesmo modo, o suporte de uma burocracia que filtre os acessos e controle as ações só pode existir tendo à mando uma elite política submetida a um sistema de credibilidade científica e intelectual. A classe intelectual, por fim, é gerada e alimentada por todo o sistema de favorecimentos baseados em crenças que podem ser absolutamente irracionais, já que toda a população obedecerá aos sentimentos de benevolência como critério de normalidade e sanidade, enquanto os maiores absurdos vão se tornando regras e ditames morais. Os intelectuais serão cada vez mais relativistas e imorais e, por este motivo, defenderão com unhas e dentes as utopias mais irracionais, desde que sirvam para o deleite de suas realizações psíquicas e emocionais, o que se torna critério máximo de felicidade.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Fake News: a nova arma da guerra de informação

Na trincheira da guerra informativa, a credibilidade conquistada pode ser definitiva. Mas em um período de descrença total, a forma mais rápida de ganhar credibilidade é descredibilizando o oponente.

Para Donald Trump, o primeiro a colocar o termo no jargão global, fake news diz respeito à CNN e companhia, representante do establishment midiático coordenado internacionalmente que, de posse de um grande número de jornais, tentou transformar Trump em uma espécie de ultrapassado (mas raivoso) líder do mal, inimigo global número um. Já para a grande mídia brasileira, fake news refere-se a um sério problema a ser resolvido, um “aquecimento global” sedento por novas vítimas inocentes, entre as quais figuram personagens pré-fabricados feitos sob medida para representar minorias discriminadas que são simultaneamente festejadas em novelas do horário nobre. A imprensa brasileira, como sempre, apenas engrossa e repete o chavão da mídia internacional.

A bola da vez é a notícia falsa, a doença da internet, o zika vírus que infectou a comunicação. Como combater essa doença, conter a epidemia?, todos perguntam. O problema é que a causa da doença está presente na própria mídia a partir da sua mudança de função da informação para a transformação. Diante dos efeitos dessa transformação, a reação é uma transformação oposta, um esforço no sentido contrário para compensar os estragos daqueles que se sentem traídos pelos jornais e prejudicados de alguma forma. Blogs e posts nas redes sociais tentam lançar luz sobre aquilo que a mídia finge ignorar. Em seguida, jornalistas fazem o mesmo, reagindo contra a tentativa de furar o seu monopólio de dizer a verdade.

Nos EUA, o Facebook já desenvolveu ferramenta específica para identificar notícias falsas. As redações dos grandes jornais já estão mobilizadas para mais um “grande desafio”. De tempos em tempos, é preciso acionar o motor do agenda-setting, um dispositivo muito simples que mobiliza as redações para a ação coordenada de pautas, nas quais o problema-assunto se torna o maior desafio e preocupação nacionais. Com isso, os jornais dão um upgrade em sua credibilidade, pois promovem uma necessidade urgente por informação. Não há melhor propaganda de credibilidade do que ser o canal de conhecimento de um problema, fornecer informações que pareçam essenciais sobre ele. É fácil oferecer novidades quando se é a fonte principal delas.

O fim do “livre fluxo”

Os congressos internacionais de mídia já manifestaram, como mostrei no livro A Transformação Social, a sua ressalva ao conceito de “livre fluxo de informação”. Diziam os cientistas sociais que o problema não era o conceito em si, mas a expressão utilizada. Parece-lhes um tanto ingênua. Ora, para resolver essa ingenuidade expressiva, por que não valer-se de palavras mais convincentes? A “democratização dos meios” se tornou não um valor estático (como a necessidade de informar), mas uma crescente e dinâmica proposta transformadora que seria preenchida com os valores regionais (tanto geográfica quanto culturalmente) ou políticos.

Trata-se da operação mágica na qual transforma-se o problema em solução. Justamente a mazela contra a qual o “livre fluxo de informação” buscava ser um antídoto, isto é, a possibilidade de um povo ou sociedade se tornar refém dos interesses regionais e políticos em detrimento da informação objetiva, agora passa a ser a solução para os problemas democráticos. A verdade sempre foi um remédio para a dúvida do estado de relativismo. Agora querem nos convencer que a dúvida ou o relativismo são a solução para a opressão que a verdade pode gerar. O jornalista das redações acredita, apenas metodologicamente, na existência da verdade. No fundo, ele apenas trabalha com ela como hipótese que, só vale se for posta lado a lado da mentira.

Os jornais impressos contam com a credibilidade de 59% da população, uma porcentagem festejada pela grande mídia que, no entanto, mostra-se bastante tímida e significa flagrante perda. Essa queda tem sido causada, entre outras coisas, devido o incremento da internet (blogs e redes sociais) no acesso à informação pelo público. Como a internet também não fornece meios claros ou seguros de assegurar credibilidade, a situação é de caos informativo. Esse caos produz um sentimento de descrença generalizada.

Durante muito tempo a mídia ficou refém do poder da publicidade, que sustentava as suas páginas. Com a entrada em cena da internet, o bolo publicitário foi tão dividido que começou a sobrar pouco para os jornais impressos que já estavam ancorados por grandes empresas de mídia. Sobravam-lhes algumas saídas: o financiamento público ou o terceiro setor. As Ongs, financiadas e mantidas internacionalmente ou por governos, sempre representam interesses maiores do que a sua fachada. Quando não está submetida a governos, portanto, a imprensa obedece e segue os ditames de entidades internacionais. É inevitável que o objetivo de informar sofreria uma mudança drástica em direção à transformação social.

A queda da credibilidade da imprensa não é um problema, mas uma solução, já que ela virou o lugar preferencial das notícias falsas. Falsas nos fatos ou no contexto, ela sempre enseja os interesses de organismos maiores do que ela. Da descrença na verdade até a denúncia das fake news, tudo converge.

Fake News se tornou a opção preferencial pela denúncia da mentira após a desistência completa da verdade. De fato, a uma sociedade que não tem os meios de saber em quem confiar só é possível convencer da mentira.

Quem é fake?

A grande mídia, com seu aparato transformador de longo prazo, quer possuir os meios de acusação e apontamento daqueles que divulgam o que ela não quer divulgar. O jornalista Walter Lippman já dizia em 1922, que a mídia precisa receber as informações pré-organizadas e que a ela não pode ser deixada a função de organizá-las, dada a sua condição de imediatismo que a impede de contextualizar eficientemente as informações veiculadas. Caberia então à ciência política, gerar meios de preparar as informações para que os jornais as recebam.

Portanto, a resposta para o que a mídia chama de fake news dificilmente será encontrada na própria atividade jornalística mas no seu background de entidades, instituições e ONGs que hoje fazem parte do seu sistema de referências.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

‘Teologia feminista’ já faz parte da estrutura da Igreja no Brasil

Aborto, ordenação de mulheres, “desconstrução da moral cristã tradicional”, ampliação dos direitos sexuais e reprodutivos e ideologia de gênero. Estes são os objetivos da ‘Teologia Feminista’ (TF), que já se infiltrou na estrutura da Igreja Católica através de mulheres ativistas da Teologia da Libertação (TL). Essa infiltração dentro da Igreja tem sido cada vez mais evidente por meio da aproximação de ONGs como as Católicas Pelo Direito de Decidir, financiadas pelas fundações internacionais Ford e McArthur.

Apesar de escandalosa, essa infiltração parece gozar de pouca atenção ou conhecimento do clero católico que, ou desconhece ou faz pouco caso. A verdade é que a Teologia da Libertação, ideologia praticamente hegemônica nos seminários católicos ainda hoje no Brasil, não parece contar com instrumentos para combater esse problema.

Em 2015, quando a Ideologia de Gênero estava sendo amplamente rejeitada pela maioria da população brasileira, o clero progressista da Igreja, envolvido com o marxismo da Teologia da Libertação, ajudou, por meio da CNBB, a expurgar o monstro que avançava (e ainda avança) sobre as nossas escolas. Mas isso aconteceu porque a vertente cultural da revolução marxista não contava ainda com a adesão da Teologia da Libertação, baseada nas abordagens mais ortodoxas e econômicas, classicamente ligada aos pobres. É exatamente isso que a Teologia Feminista pretende mudar.

Segundo Dom Estêvão Bittencourt, “a Teologia Feminista, cultivada na Europa e nos Estados Unidos, chega a reivindicar a extinção das diferenças de trato para mulheres e homens na sociedade, tecendo teorias sobre o andrógino primitivo para justificar suas teses”.

Ecumenista por natureza, há 25 anos mantém o curso de extensão de Teologia Feminista em universidades luteranas. Na Igreja Católica, essa abordagem aparentemente inovadora tem sido recebida com entusiasmo em eventos itinerantes sediados em conventos e mosteiros pelo país, contando com a presença de ONGs feministas como as Católicas pelo direito de decidir. O que devia ser escandaloso para a maioria dos católicos, parece , no entanto, ocorrer debaixo dos olhos de todos.

Por meio de congressos regionais, há alguns anos a ONG Católicas Pelo Direito de Decidir (CDD) faz-se presente na estrutura da Igreja Católica e já conta com grupos de trabalho plenamente estabelecidos. É o caso da Estef – Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana, das Faculdades Est e do Cebi, em Porto Alegre, que tem sediado o Encontro Estadual de Teologia Feminista desde 2015.

O encontro do ano passado (2016), teve como tema: Teologia Feminista Superando violências. Os objetivos do encontro promovido pelos institutos de teologia do Rio Grande do Sul foi “partilhar reflexões e práticas para a superação de violências de gênero (…) proporcionar a convivência e conhecimento das pessoas que atuam na superação da violência de gênero e de fomentar criação de redes de diálogo em Teologia Feminista”.

Mas a infiltração da ONG ‘Católicas’ (CDD) na Igreja Católica é bastante discreta. Seus eventos ocorrem por meio de leigos e clérigos progressistas ligados a organizações de feição esquerdista e apoiadoras de políticas de gênero dentro da Igreja, ideias abertamente rejeitadas pela Igreja Católica. Daí a sua discrição.

 

Nascida no seio da Teologia da Libertação

A Teologia Feminista, no Brasil, nasceu dentro dos debates da Teologia da Libertação, entre lideranças femininas que não encontravam respostas da TL para suas reivindicações. Algumas alas da Teologia da Libertação rejeitam expressamente a mentalidade abortista, como é o caso de algumas regionais da CNBB, que manifestaram-se contra as CDD.

Internacionalmente, pode-se datar o início da Teologia Feminista a partir do trabalho de Elisabeth Cady Staton, protestante e militante do movimento sufragista. Por volta dos anos de 1895-1898, Staton publica, em colaboração com um grupo de mulheres protestantes que realizavam estudos bíblicos, a Bíblia da Mulher (Woman´s Bible). Estabeleceram-se aí a relação militância e religião como parte constitutiva da Teologia Feminista.

Em 1911, na Grã Bretanha, um grupo chamado Aliança Joana D’arc, reivindica a igualdade entre mulheres e homens e criticava a visão única e hegemônica de um Deus somente masculino. A  crítica desse movimento direcionava-se à visão androcêntrica de Deus e expressava-se na frase: “Orai a Deus, e Ela os ouvirá.”

Na América Latina, a Teologia Feminista começou a tomar corpo nos anos de 1960 e 1970. Ivone Gebara, Elza Tamez, Maria Pilar Aquino entre outras, foram algumas referências para a região.

A vertente atual baseia-se principalmente na reivindicação do aborto, o que fazem por meio da tentativa de demonstrar que a Igreja nem sempre condenou a prática e que, portanto, não se trata de uma condenação baseada em uma moral objetiva, mas dependente da época. A principal publicação neste sentido é do livro Uma história não contada: a história das ideias sobre o aborto na Igreja Católica. O livro é uma tentativa de comprovar o relativismo moral no cristianismo.

A TF como é hoje pode ser considerada um produto direto da atuação das Católicas Pelo Direito de Decidir. De sua declaração de princípios, destacamos três:

a) Desconstruir, nas bases da tradição cristã, uma cultura que oprime as pessoas nos âmbitos da sexualidade e da reprodução;

b) Construção de um discurso “ético-teológico feminista pelo direito de decidir”;

c) Promoção de diálogo com a sociedade sobre a religião e a vida das mulheres.

O clero católico, mesmo alertado do perigo desta ONG abortista de financiamento internacional, parece estar fazendo vista grossa a esta escandalosa invasão que causará, em breve, a aceitação do aborto por parte dos fieis leigos e até mesmo do clero.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Como funciona a falácia da postura equilibrada

Existe um tipo recorrente de analfabetismo, um pouco mais sutil que o funcional, que põe verdade e mentira em uma posição relativa dentro de frases isoladas. Podemos chamar de “analfabetismo moral” (?). Existiriam, assim, “verdades” presentes dentro de um contexto de argumentação falaciosa e criminosa, como nos de abortistas, nazistas, comunistas, etc, todas aquelas cujo fim último é mal em si ou fruto de um desconhecimento profundo dos conceitos envolvidos. É preciso dizer de antemão que nessas argumentações não há propriamente verdades, mas fatos reais usados para fins que não condizem com a verdade.
 
Ou seja: Quando uma feminista diz uma verdade, é mentira.
 
Relatar um fato real não é exatamente “verdade”, mas apenas um relato. Para caracterizá-lo como verdade, no sentido pleno, seria preciso saber a intenção dele, ou o fim último, como diria Santo Tomás. Se uma feminista diz “é preciso proteger a mulher contra a violência”, porque pretende, com isso, justificar o aborto em casos de estupro, o que ela disse não foi uma verdade e sim uma mentira. Considerar isso verdade é o que motiva a abertura ao diálogo com termos totalmente falaciosos ao invés de denunciá-los prontamente.
 
O erro de classificarmos pequenos juízos isolados e fora de contexto como verdades, é o que faz com que pensemos ser possível “juntarmos” as verdades presentes em cada lado de um debate para formularmos, com isso, uma posição equilibrada. Ora, opta-se pelo equilíbrio por identificá-lo com o bem e, portanto, com a verdade. Mas o equilíbrio entre mentira e verdade privilegiará sempre a mentira, já que o arbítrio do conflito (o equilíbrio) já se baseia em falsear o critério de veracidade.
 
Qualquer arbítrio entre mentira e verdade pretenderia ser superior aos dois lados envolvidos e, portanto, superior à verdade. Então se trata de uma mentira.
 
A verdade depende do fim. E é esse erro que passa na cabeça de quem defende uma neutralidade pessoal em debates, uma prudência em tomar posição, que só se justificaria em questões complexas quando nos faltaria conhecimento e não quando se trata de questões morais muito claras, como o exemplo do aborto.
 
Cristãos de todos os tipos (embora principalmente católicos) andam entrando nessa postura supostamente equilibrada que propõe, nas entrelinhas, calar a verdade e dar poder à mentira. Basta que um debatedor lance um relato de um fato para paralisar o outro lado e fazê-lo se sentir errado e culpado.
OBS.: Obviamente, estamos falando do conceito de verdade plena, aquele que se identifica com o bem e a beleza, não no sentido moderno e estrito, baseado no conteúdo de afirmações e no critério da correspondência com fatos ou versões de fatos. Este último sentido é o que deu origem a afirmações tais como “não há verdade, mas somente afirmações verdadeiras”. Isso diminui e restringe o conceito de verdade àquele praticado pelos pré-socráticos ou, no máximo, àquele que mais tarde foi chamado de nominalismo, isto é, a ideia de que os conceitos foram criados a partir dos seus fenômenos e não o contrário. Para a filosofia clássica (na qual me baseio aqui), os fenômenos e espécies dos entes devem o que são aos princípios universais equivalentes. Por exemplo, afirmação verdadeira deve sua veracidade ao princípio universal da Verdade.
Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Como funciona a espiral do silêncio nas redes sociais

A Teoria da Espiral do Silêncio foi desenvolvida na Alemanha, por Elisabeth Noelle-Neumann, em uma análise prolongada dos resultados das pesquisas eleitorais. Os pesquisadores observaram, após vários testes que incluíram uma diversidade de métodos, que uma das principais causas para as pessoas darem suas opiniões publicamente, ou ficarem caladas sobre elas, é o nível de medo do isolamento social. Esse medo ficou comprovado em sucessivos testes de campo. Se uma opinião é vista como majoritária, os opinadores dela terão mais coragem em se manifestar. Por outro lado, os contrários a ela terão uma tendência a ficarem calados. O resultado é um clima de opinião determinado pela propaganda de que uma ou outra opinião é majoritária. Um dos fatores mais importantes, portanto, é a atenção dada pelas pessoas ao comportamento opinativo do entorno social. A teoria foi formulada na década de 1970.

Antes do advento da Internet, portanto, as pessoas se informavam por canais mais simples como ouvir conversas no ônibus, em grupos de amigos ou acompanhar o noticiário opinativo. Parecia não haver lugar seguro para o isolado socialmente, aquele que possui uma opinião não compartilhada pela maioria (ou suposta maioria). Por isso, muitas pessoas mesmo intrigadas com determinadas questões públicas, precisavam de um longo período de silêncio até compreender a opinião do entorno e escolher se exporiam sua opinião ou não. O fator determinante era o medo do isolamento. Com a Internet, isso mudou substancialmente.

Segundo Neumann, no cálculo do risco de isolamento social, o indivíduo opta por empregar algum esforço na observação do entorno opinativo para reduzir o risco de confronto quando for externar sua opinião.

O computador pessoal se tornou rapidamente uma extensão da mente humana. Foi possível pesquisar solitariamente informações sobre assuntos, de modo que a pessoa possa manter-se em silêncio até ter informações suficientes para uma opinião mais segura. Inclusive informações sobre as opiniões correntes e mais aceitas. Os filtros de busca, como o Google, tornaram mais facilitada a procura por companheiros de mesma opinião, o que reduziu a sensação de isolamento e, com isso, o seu medo natural do ostracismo. O meio virtual como um simulacro do meio social contribui para o alívio da solidão humana e isso influi consideravelmente na criação de afetos e solidariedades grupais importantes para o reforço de personalidades, muitas vezes fortes e conflitantes com a maioria, o que sem a rede ocasionava isolamentos sociais dolorosos ou, o que é mais comum, o silêncio sobre as próprias opiniões e o fingimento de uma adequação social.

A espiral nas redes sociais

No Facebook, o feed de cada pessoa constitui o clima de opinião a que a pessoa tem acesso e serve, portanto, de critério de análise do que se pode ou não dizer, sempre por meio do cálculo do risco de isolamento, mensuradas com certa eficiência pelas curtidas, compartilhamentos ou comentários. A possibilidade de bloquear quem pensa diferente pode significar uma resposta ao velho medo do isolamento, o que é dado com um isolamento voluntário (ou seria a satisfação inerente à sensação de estar isolando o outro?). Por outro lado, o bloqueio pode ser uma ferramenta eficiente para se sair do mecanismo da espiral do silêncio. Ou pensar que se está saindo ao criar (randomizar) o próprio entorno social. Assim, gera-se um ambiente propício à externalização das próprias ideias de modo que eles até mesmo as reforçam.

O ambiente social, seja nas redes ou na realidade física, é um importante fator para determinar o que é dito ou não. A geração de um ambiente confortável à circulação de determinadas ideias pode representar também uma prisão ou um entorno igualmente hostil a ideias diferentes, o que impediria a entrada de ideias novas de outras pessoas ou mesmo da própria pessoa dona do perfil “configurado” para aceitar suas ideias. Portanto, o bloqueio ou o que se chama “limpeza” do feed, pode representar uma faca de dois gumes. Nem todas as pessoas possuem força interior, hoje, para retirarem-se de seus ambientes sociais toda vez que o ambiente se torna hostil às suas ideias. Em algum momento, as pessoas desistem de desfazer amizades e bloquear inimigos e passam a concordar com o entorno. Isso pode ser muito bem compreendido quando entendemos a mudança do caráter social no último século.

O reforço psicológico do grupo de apoio das próprias opiniões pode, por isso, favorecer uma radicalização ou até mesmo uma estagnação de indiferença e, por fim, o isolamento voluntário. É a isso que se referem, em geral, as reportagens comuns sobre o “ódio nas redes”. O problema é que, apesar de possíveis problemas, as redes sociais forneceram, nos últimos anos, um importante incremento à informação. Mesmo considerando verdadeiras as acusações da grande mídia, de que as redes sociais se tornaram o lugar do ódio.

Nos últimos anos, no Brasil, o Facebook foi amplamente usado para a mobilização que culminou no Impeachment de Dilma Roussef, em 2015. Além disso, a Internet tem sido palco de numerosas análises e divulgação de fatos e informações sistematicamente sonegados da população, o que evidentemente causa preocupação àqueles engenheiros sociais (ou seus repetidores úteis) que creem no perigo destruidor das massas e que, sem o auxílio da elite de iluminados que mantenha a massa domesticada, o caos e a final destruição serão os únicos destinos da civilização.

O upgrade da espiral do silêncio

Em uma matéria recente da Revista Veja, uma suposta novidade produzida pelas redes parece estar assustando analistas de mídia. São os “haters” (odiadores), que parecem estar povoando as redes e disseminando preconceitos raciais, sexuais e produzindo uma cultura de “bullying virtual”. O que esses analistas não percebem (ou fingem não perceber) é que essa nova classe de pessoas sempre existiu, mas era constrangida por um clima de opinião que as ameaçava de isolamento. A espiral do silêncio não é algo dependente da mídia, mas que acontece no meio social de qualquer forma. A criação da palavra “haters”, assim como a própria matéria da Veja, representa, na verdade, a tentativa de upgrade da Espiral do Silêncio, ameaçando com o isolamento e a humilhação pública aqueles que ousem dizer aquilo que pensam.

Muito pior que qualquer difamação racial ou sexual, o que a Veja faz, ecoando as ideias dos meios universitários do Brasil e deste preocupado mundo, é nada mais que instituir a perseguição à livre opinião, o que no caso representa a perseguição da revelação da verdade. Opinião é uma palavra bastante dúbia nos dias de hoje. Ela tanto pode ser digna de um Prêmio Nobel da Paz como pode tornar alguém o alvo preferencial de acusações de ódio e de todo tipo de preconceito.

O que chamam de preconceito racial, social, sexual e bullying, assim como denunciam ataques sofridos por celebridades (como se celebridades fossem midiaticamente indefesas), é na verdade a opinião sincera, temida desde que se começou a estudar meios de controlar as massas. Intelectuais como Gustav LeBon, Walter Lippmann, H. G. Wells, entre outros, acreditavam que a massa era incontrolável e tinha o potencial de dizimar a democracia e toda forma de liberdade por meio da sua espontaneidade caótica. Eles baseavam-se em teorias contratualistas como a de Thomas Hobbes e Rousseau, para quem a sociedade civilizada se originava de um contrato social, sem o qual o caos imperaria. Assim, a espontaneidade para esses intelectuais e seus seguidores, sempre será um mal que deve ser contido mediante o que Karl Mannheim chamou de “técnicas sociais”.

Leszeck Kolakowski, no célebre livro O espírito revolucionário – Marxismo: utopia e anti-utopia, afirma vir desses intelectuais aquilo que ele chama de intolerância da indiferença. Uma tal suposta”ditadura da verdade”, que o autor considera um “círculo quadrado”, pode ser imposta por dois motivos:

1) afirmando que a falsidade e o erro não podem ser tolerados porque a sociedade estaria perfeitamente convencida da verdade;ou

2) acreditando que verdade e justiça não possuem objeto e que seria preferível impor um único ponto de vista a todos do que deixar que os seres humanos briguem por futilidades.

Esta última hipótese, comum entre os estudiosos das teorias funcionalistas das ciências humanas, gira em torno da crença de que todo o estudo da realidade tem, em última análise, uma função social. Essa função era vista como formadora, normativa e organizadora da sociedade. Qualquer organização é melhor que o caos, para eles.

A explicação precisa preexistir aos fatos

O poder da mídia está menos na difusão de fatos do que na interpretação deles. Explicar o que está acontecendo é, para os intelectuais por trás da mídia, muito mais importante do que apenas apresentar os fatos. O momento dos fatos é o momento em que a forma da mente das pessoas precisa estar adequada para recebê-los. Para isso, a mídia precisa oferecer constantes análises e explicações da realidade. Quando as redes sociais resultam em um movimento de repúdio às ideias difundidas por essa elite seguidora daquelas ideias, tudo fica incompreensível e a mídia precisa oferecer uma nova explicação. A desestruturação do sistema social é a explicação mais utilizada, pois ela leva a pensar em soluções de reintegração, o que na forma da mente das pessoas significa imposição de uma ordem qualquer para resolver o problema do caos.

Espiral sempre existirá

Vivemos o império da empatia. As amizades, o círculo social, ganharam um valor acima de todos os valores culturais que imperavam nos séculos anteriores, o que deu à socialização um valor quase absoluto. Portanto, embora a espiral do silêncio possa ser atenuada em determinadas épocas, ela pode também ser reforçada por uma mudança naquilo que a sociedade considera mais importante de acordo com verdadeiras ou supostas ameaças sociais. O isolamento social já foi a marca característica de santos e heróis em épocas nas quais era fácil compreender que a verdadeira salvação está no abandono de si mesmo, o que implica diretamente no abandono do entorno social e de todo o respeito humano. O heroísmo dos indivíduos do passado, mesmo os cidadãos comuns que abriam empresas e chefiavam suas famílias, vai ficando cada vez menos compreendido em um mundo para o qual a direção da vida deve ser dada pelo movimento social. Mesmo a luta interna dos indivíduos contra o entorno, algo universal no ser humano, pode ser feita através de uma conduta imitativa, na qual o apreço social inerente à aparência de independência motive reações e modos de vida inteiros aparentemente livres.

O mundo da tolerância abstrata é o mesmo que não tolera opiniões diversas do ideal de tolerância calibrado pelos meios de comunicação e repercutido nos meios sociais. Opiniões independentes quase sempre sofrem a pressão das acusações de rompimento com o ideal de “empatia” permitido. Por isso, mesmo nas redes sociais o crime mais comum entre as acusações é o da arrogância, normalmente confundido com opinião independente. É claro que em um mundo neuroticamente socializado, dizer coisas que não são reconhecidas imediatamente dentro do padrão de opiniões circulantes, identifica-se com o rompimento da lógica socializadora e, portanto, solidária e tolerante. Essa aparente disfunção dos valores sociais vigentes só pode ser interpretada como um excessivo centro em si mesmo, um individualismo exacerbado, quando na verdade é apenas uma verdade não reconhecida pela linguagem dos cânones midiáticos.

A espiral do silêncio está presente nitidamente inclusive em ambientes religiosos, nos quais a conduta padrão é a dos santos e mártires, mas nos quais ainda assim impera o medo e a ameaça constante do isolamento social. Essa situação permitiu uma nova interpretação dos próprios mandamentos cristãos, como o Primeiro Mandamento (amar a Deus sobre todas as coisas), que facilmente era entendido noutras épocas, mas que hoje se encontra totalmente submetido ao amor ao próximo, algo cada vez mais ambíguo quando a interpretação corrente facilmente confunde o próximo com todo o entorno social e as ideias que circulam graciosamente pelo ambiente advindas da mídia de massa.

O homem precisa do reforço do próximo e esta afirmação evidencia a sua imperfeição e limitação. O limite do homem certamente está na sociedade que o envolve, assim como o que o transcende só pode estar obviamente fora do ambiente físico e social, ainda que seja nele que a sua transcendência se manifeste.

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Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Onde está o autêntico tradicionalismo cultural?

Nossa degradação tem nome, sobrenome e endereço. É a ignorância. Ignorância sobre quem somos e quem devíamos ser. Porque a resposta a isso está na cultura. Mais profundamente, essa ignorância se tornou indiferença. Indiferença cultural é o que promovem aqueles que, por acreditarem-se donos dos rumos da humanidade, optam por esterilizar o ambiente para que ninguém mais saiba quem somos e para onde vamos. No Brasil, o problema pode ser visto de longe, não só na música como no modo de entender, seja entre os que se dizem esquerdistas seja entre os que se dizem conservadores, tradicionalistas.

A respeito da música muitos remeteriam ao Estado Novo, ou ao início do século XX e à campanha política que buscava uma nova identidade nacional negando ao brasileiro a sua verdadeira identidade portuguesa, mais fatalista, triste e dramática, para travesti-la da neurose carnavalesca, essa mentira de estética histriônica e simultaneamente depressiva (ou deprimente). Poderíamos também conceder aos modernistas de 22 o troféu da transformação em nome do abstratismo elitista. De fato, a partir daí o povo brasileiro já teria sido apartado de uma vez da cultura, tornando-a incompreensível aos olhos e ouvidos populares. Mas poderíamos inclusive nos concentrarmos nos primeiros gemidos da modernidade, quando a velha e conservadora exigência do uso dos tons celestiais pelos platônicos e neoplatônicos dos cruéis cristãos ia sendo aos poucos substituída pela também exigente matematização vivaldiana, filha do deslumbre da técnica. Essas exigências tonais são os antepassados dos estilos musicais, ritos que mais tarde serviram de runas iniciáticas da cultura pop. Mas a decadência musical que vivemos hoje é bem menos chique, bem menos erudita ou sofisticada. Ao menos aparentemente. Falemos de nossa mais recente precipitação. O que poderia soar aos sofisticados modernistas como um abismo vertiginoso, vista daqui de baixo nos parece uma tranquila planície. Afinal, eles nunca imaginariam. Assim, nós também não imaginamos a distância que estamos mesmo dos modernistas.

Depois de todo o percurso musical que a técnica ditou a partir da modernidade, os velhos tons celestiais conhecidos dos chineses antigos e clérigos medievais tornaram-se peças de museu. Mas isso nunca significará que a música tenha perdido o seu caráter espiritual. Aquilo que apenas não é percebido não deixa de ser eficiente. E embora tenhamos a tendência a achar que a cultura pop apenas destrói nossa espiritualidade, não podemos esquecer que algo sobrou de ordem mesmo que por meio de uma moldura caótica. O artista busca sempre uma linguagem que possa dizer ao homem do seu tempo. Por isso a tendência a fugir do tradicional, o que nos levou muitas vezes ao antitradicional, nem sempre significou o desejo de destruição que pareceu. Sempre será necessário, no entanto, um passo adiante para um virar de cabeça, que ao franzir das testas tradicionais compreendia de modo diverso a verdade universal que sempre esteve presente. Digo tudo isso pra lembrar que não podemos nos fechar ao que imaginariamente nos remete ao tradicional, o culturalmente tradicional, a caricatura que é produto da cultura e não da tradição, para ser mais específico. Afinal, quem nos garante que a arte tradicional não esteja sendo para nós apenas um passa tempo nostálgico que em nada toca os problemas reais do nosso tempo? O produto da tradição é sempre invisível e pode ser acessado em qualquer época, seja qual for a sua linguagem. A isso deveríamos chamar um autêntico tradicionalismo.

O advento do cinema pareceu nos mostrar perfeitamente como refletir o universal por meio de uma linguagem nova. Afinal, se as verdades universais se caracterizam por não dependerem do contexto ou da interpretação de uma época ou modo de ver, qualquer linguagem pode dar conta de abarcá-las. O problema não reside, portanto, na adaptação a novas linguagens, formas ou modos de ver, mas na distância que estamos da experiência humana real e, por isso, universal.

A série de TV americana Once Upon A Time criou um contexto diferente para abordar as verdades dos contos de fada. Personagens como Branca de Neve, Príncipe encantado, os sete anões e muitos outros, são surpreendidos por uma maldição lançada pela Rainha Má exilando-os fora do mundo dos contos de fada, ou seja, no nosso mundo. Desprovidos da memória de quem são, eles vivem vidas comuns em nosso mundo, mas repetem comportamentos dos personagens dos contos de fadas. Muitas verdades universais presentes nessas histórias infantis se tornam mais claras quando transpostas para o nosso mundo. A relação entre fantasia e realidade é bastante complexa e engana-se quem identifica o reino da fantasia como o da pura ficção, mentira ou da falsidade. O reino da fantasia é o ideal, o mundo dos princípios platônico ou, no cristianismo, o Paraíso. Assim, os personagens da série vivem no mundo pensando serem do mundo, mas aos poucos vão sendo informados de que não pertencem àquele mundo e sim ao mundo onde os heróis sempre têm finais felizes. A salvação prometida aos justos começa, aos poucos, a provocar a inveja da Rainha Má, responsável pela maldição que os fazia pensar que o seu reino não existia (uma queda do Paraíso). Adaptado a um mundo onde as mulheres detém cada vez maior liderança, o contexto traz tanto o demônio representado por uma mulher (a Rainha Má) como o Salvador, representado pela personagem Emma Swan, filha da Branca de Neve com o Príncipe Encantado, que foi exilada desde o nascimento neste mundo e portanto é a única capaz de quebrar a maldição que os mantinha na ignorância de quem eram e do mundo de onde vieram. O cisne (Swan) representa a beleza e a pureza imaculada. Mas o cisne também representa a dualidade pois pode ser branco ou negro, representando as trevas. As trevas são o grande vilão da série, combustível da magia usada pelos maus e pela Rainha Má, sempre como uma tentação. As trevas surgem associadas à inveja e ao ressentimento, como o do ódio da Rainha Má à inocência de Branca de Neve. Em dado momento, Rumplestistiskin, o bruxo lendário, mentor e algoz da Rainha, alerta sua majestade: “As trevas não são como um banquete que você se serve à vontade. Quando se trata dela, você é o banquete”. O Senhor das Trevas, como é conhecido no mundo da fantasia, se chama Sr. Gold em nosso mundo, fazendo referência ao poder econômico como meio de ação do mal e das tentações. “A magia sempre tem um preço”, diz Rumple sempre que sela um pacto. Ao longo dos episódios, porém, por estarem fora do seu mundo, os personagens se tornam mais complexos, mais humanos. Os bons ficam mais expostos a tentações, assim como os maus sentem-se muitas vezes inclinados a bons sentimentos, o que aumenta a revolta diante da fatalidade do destino dos que foram predestinados pela história a serem vilões. A revolta contra Deus e Sua verdade é apresentada como característica humana quase inevitável e em momento algum os personagens tomam decisões fáceis. Muitas decisões aparentemente boas podem carregar maldades profundas e desejos inconfessados. Mesmo a Branca de Neve pode ter o seu coração obscurecido por decisões que a aproxima daquelas tomadas por vilões. Este é o mundo que conhecemos visto pelo ângulo dos princípios universais, representados pelo mundo dos contos de fada. A série nos ensina que essas histórias tradicionais não têm nada de fantasia. Ao contrário, são de um realismo tão profundo que faz o realismo filosófico e materialista parecer história da carochinha.

No entanto, a maior parte do cinema feito hoje busca unir o realismo clássico a um ultra-realismo que mais serve para maquiar ou ocultar a profunda irrealidade que retrata. A ficção científica é prova disso. Apresenta relações humanas em grande realismo, situações cotidianas verossímeis, mas num universo absurdo e surreal. Mas dentro dessa neurose de verossimilhança, encontramos muitas vezes dramas humanos reais e discussões contemporâneas, se analisarmos as tramas simbolicamente. As histórias de super-heróis que povoam hoje o cinema procuram trazer dramas modernos ou pós-modernos de maneira simbólica, mas muitas vezes também preenchidos com conteúdos ideológicos atuantes na política cultural. Os filmes dos X-Men, por exemplo, que até os anos 1990, representava na ideia dos mutantes o drama da adolescência na sua dificuldade de aceitação social tensionada com sensações de superioridade e inferioridade, hoje declara assumidamente o caráter da agenda da Ideologia de Gênero, em que a liberdade da identidade humana busca na subjetividade do gênero (ou mutação genética) o vértice delimitador do poder humano sobre si mesmo ou a submissão ao padrão social. Os mutantes do cinema hoje representam o universo LGBT, quer percebamos ou não. Ainda assim, encerrar a trama neste aspecto pode ser o mesmo que falsificá-lo para transformar a cultura em campo de batalha política. É preciso ir além em busca da interpretação mais universal possível. A evidente divisão entre os mutantes que pretendem ajudar a humanidade e os que pretendem destruí-la parece ser também um claro desenho do aspecto político entre “direita e esquerda” como é visto hoje, isto é, entre as correntes liberal e social-democrata, na visão da esquerda norte-americana e na europeia. Afinal, a separação entre um discurso retórico de poder e controle (modernidade, liberalismo) e o dialético, da compreensão das complexidades (pós-modernidade, social-democracia), acaba ditando a quase totalidade dos conflitos do ocidente desde o século XIX e não é difícil interpretar assim o modo como é exposta a luta entre bem e mal neste mundo dominado pelo mal.

Ora, nem toda relação entre bem e mal precisa vir representada pela dicotomia herói contra vilão no mundo da fantasia. Super-homem e Batman, ambos heróis, representam essa dualidade muito claramente, embora em nossos dias possam coexistir uma variedade maior de interpretações. O Super-homem surgiu em 1932, como uma resposta à depressão pós-crise de 1929, quando pareceu necessário um forte símbolo que unisse a sociedade americana ao espírito do capitalismo, no qual o homem tudo pode. Não por acaso ele possui as cores da bandeira americana. Batman, por outro lado, representa um universo bem mais sombrio, embora não fosse tão evidente no princípio. Inicialmente como crônicas de investigação e combate ao crime, Batman pode ser considerado o símbolo do controle social. Motivado pela convicção de que a sociedade é imperfeita e doente, Batman simboliza o saneamento violento e forçado que impediria que a sociedade se autodestrua. Fica evidente a crença no contrato social de Hobbes, sem o qual o homem devoraria a si mesmo e a sociedade iria abaixo. Batman é o estado, a representação do contrato. Não por acaso, sua identidade secreta é o milionário e filantropo Bruce Wayne, referência às elites das grandes fundações internacionais. Também não é por acaso que absolutamente todos os inimigos de Batman são loucos e psicopatas, reforçando a visão da sociedade como essencialmente doente. A grande tensão entre este herói e seus inimigos aparece frequentemente na forma da insinuação de que o próprio Batman padece de problemas mentais. Provavelmente muito piores do que seus inimigos.

Outra referência importante no universo de Batman é o Asilo Arkham, onde é internada a maioria dos seus inimigos. Arkham Asylum é uma criação do escritor norte-americano H. P. Lovecraft, que embora tenha escrito somente contos de horror psicológico, criou uma vasta mitologia em torno de personagens e locais que se repetiam em suas histórias. Seus personagens costumeiramente terminavam internados no Arkham. A loucura é o ambiente comum dos contos de Lovecraft. Sua influência no cinema de horror do século XX é incontestável e a principal marca dos seus contos é a mistura entre sonho e realidade, na qual os personagens frequentemente eram guiados até os despenhadeiros da loucura por seus próprios medos. Os contos de Lovecraft podem ser usados como genealogia dos vilões de Batman e até mesmo do próprio Batman. Gotham City (um antigo apelido de Nova York) representa a sociedade americana, ocidental e, de modo mais abrangente, a sociedade humana refém do medo da violência, das aglomerações urbanas e de si mesma. A solução só pode ser o governo invisível, noturno, da repressão sistemática e oculta, que espreita os homens como um morcego, que além de cego como a justiça, alimenta-se do sangue (vida) humano. Batman é o símbolo da crença na sociedade má, a desesperança total no gênero humano.

De modo geral, a ideia dos super-heróis carrega um aspecto revolucionário intrínseco, embora possa conter em suas histórias dramas humanos e noções morais profundas sobre as tensões que envolvem a liberdade humana. Mascarados que fazem justiça fora do mundo das leis podem indicar tanto a subversão de um sistema que não concordamos, indicando a pura rebeldia anárquica, quanto pode servir para mostrar os perigos da identificação entre lei e justiça. Essas duas visões estão quase sempre presentes em todos os filmes e histórias de heróis.

Os super-heróis, portanto, parecem muito mais complexos e humanos se compararmos com a descrição literal dos heróis dos contos de fada. Mas a complexidade se iguala quando entendemos a profundidade que o realismo das histórias infantis pode trazer tratando-se dos dramas morais que são lá compactados. Ambos possuem uma grande capacidade de compactar significados, desde que sejam lidos ou assistidos de maneira atenta. Sabemos que com a evolução técnica do cinema, muitos conteúdos importantes ficam de lado e dá-se mais importância ao prazer figurativo e estético. Se nossa capacidade de perceber o conteúdo moral ou social compactado nas histórias está se perdendo, isso significa que as histórias recentes possuem um perigo muito maior para a juventude do que teriam os benefícios das histórias tradicionais.

Mas não podemos dizer que houve exatamente uma perda de sensibilidade para a percepção do conteúdo mais profundo das histórias recentes. O que aconteceu foi uma seletiva perda de percepção. Enquanto algumas coisas ficam despercebidas, outras, muito mais profundas, são apreendidas de modo subliminar por se tratarem de pressupostos ou crenças necessárias à formação de opiniões, quase sempre de cunho político ou filosófico. O conteúdo compactado do qual falamos, presente nas histórias do Batman, do Super-Homem etc, são normalmente percebidos de um modo pré-linguístico e, portanto, comportamental. O ambiente cultural e político atual se baseia na identificação democrática que dá ênfase à diversidade de opiniões. Isso pressupõe a existência de uma inevitável identificação grupal entre as pessoas. Grupal quer dizer, neste caso, cultural. Das categorias profissionais até os subgrupos periféricos e étnicos, há um universo de subjetividades passíveis de seleção e segmentação de conteúdo. Esse mosaico de possibilidades é rapidamente percebido pelo jovem sedento de identificação e atenção. As histórias atuais, por trazerem um componente estético bastante sedutor, oferecem-se como produtos aos desejos de um público que aprendeu a desejar do mesmo modo que forma opiniões. Desejar é o mesmo que opinar, participar, deliberar na sociedade. Pertencer a um grupo, não ético mas estético, acaba sendo sinônimo de democracia e, portanto, de crescimento pessoal. Adquirir maturidade, o que sempre foi um objetivo compartilhado por grande parte dos jovens a partir de determinada idade, passa a ter como símbolo, identificar-se com uma intersubjetividade, isto é, uma subjetividade compartilhada com um grupo de referência que lhe concederá o alvará da vida como ela deve ser.

 

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Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

Como somos transformados pelos meios de comunicação?

O que tentei fazer com meu livro, A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda, foi fornecer um argumento bibliográfico para uma coisa que todos percebem já há muito tempo: o desejo manifestado pela mídia para a revolução de costumes e a engenharia social com a colaboração do meio acadêmico. Tornar essa verdadeira conspiração às claras creio que seja a melhor maneira de dar algum trabalho aos doutores acadêmicos que ganham a vida a repetir chavões auto referentes. Por outro lado, tenho consciência de que meu livro será recebido com silêncio (se é que será lido) no meio acadêmico, que prefere manter-se dentro da bolha ideológica que se confinou há décadas, de dentro do qual dedica-se a produzir jovens militantes em série como um verdadeiro exército distribuído em todas as profissões, mas principalmente nas redações jornalísticas.

Fruto de uma pesquisa de quatro anos, incluindo o mestrado em jornalismo, o livro busca ser um tijolinho no muro de livros recomendado por Olavo de Carvalho para barrar o avanço esquerdista no meio acadêmico e na mídia. Sozinho não fará nada, mas junto de outros livros e da ação de críticas aprofundadas no meio cultural e acadêmico, pode representar uma arma útil aos que combatem a proposital e criminosa decadência da inteligência no meio universitário. Do mesmo modo, parece emergir aos poucos uma classe de leitores inteligentes no Brasil, profundamente interessados na verdade e avessos a academicismos. Procuram compreender a realidade existente além daquela pintada pelas notícias.

A pesquisa que fiz como mestrado em 2013, sobre o discurso ambientalista, foi o resultado do tempo que trabalhei na Fundação do Meio Ambiente e, depois, no próprio jornal Diário Catarinense. A pesquisa representa apenas um capítulo do livro, na qual busquei demonstrar que o conteúdo jornalístico ambiental falsifica dados e utiliza artifícios retóricos para privilegiar as soluções pré determinadas por grupos ideológicos de pressão. A compreensão das técnicas utilizadas pode ser útil para outros tipos de pautas ideológicas, como a que temos visto hoje na Ideologia de Gênero, que a pretexto de combater o preconceito, destrói a linguagem para tornar o mundo um hospício onde as pessoas não possam mais dizer aquilo que estão vendo.

No quarto capítulo, intitulado O discurso ambientalista nos jornais, demonstrei os resultados obtidos na pesquisa de mestrado, que apontam a proeminência da função pedagógica e política sobre a informativa. O discurso ecossocial, que apontava a correspondência entre mudanças sociais e mudanças climáticas, ganhou força ao longo do período analisado, sugerindo uma escalada persuasiva à medida que a verossimilhança das informações construia uma impressão de credibilidade. Esse processo resume o método e o desenvolvimento de todo tipo de campanha midiática disfarçada de informação.

O discurso ambientalista serve como exemplo de outros diversos tipos de militâncias que ocorrem no meio midiático, utilizando a mesma estrutura persuasiva apontada por diversas teorias psicológicas na comunicação. Uma dessas teorias é a do Agendamento (Agenda-setting) da qual me utilizei no livro para exemplificar o modo como um fluxo de informações controlado pode orientar e até direcionar interpretações dos fatos. Ao longo da história do século XX, isso foi tão recorrente que parece-nos impossível, ou ao menos muito difícil, observar historicamente as mudanças sociais sem levar em conta a atenção que a mídia deu a temas específicos. Essa atenção, por sua vez, só existiu devido agendas levadas a cabo por agentes históricos como fundações internacionais e grupos intelectuais que buscaram orientar os rumos da sociedade em direção às suas utopias transformadoras, assunto abordado na maior parte do livro.

Como humilde tentativa de combater a mentira e a falsidade a que a mídia se vendeu ao longo das últimas décadas, o livro A transformação social poderá ser usado como bibliografia para trabalhos acadêmicos que queiram abrir fendas de veracidade no meio de tanto discurso de propaganda.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

O mau gosto vem da degradação de comportamentos

A decadência cultural e artística é fruto de uma queda moral e comportamental. Enquanto uma ajuda a outra a perecer no fosso do niilismo estético travestido de sociologia, é dever de quem observa aprofundar a crítica com o fim de oferecer um remédio a tudo isso. Mas o remédio não é doce.

Experimente fazer uma crítica pública ao mau gosto ou falta de técnica artística de algum renomado artista ou grupo de sua cidade. É quase certo que será hostilizado, embora com algum embaraço e constrangimento, movidos pela imensa surpresa e ineditismo da sua manifestação. Provavelmente, a mídia de sua cidade, tal como em todo o Brasil, desaprendeu a fazer crítica e por esse motivo, os artistas esqueceram-se de que sua arte não está livre de críticas. Entre os motivos disso está o fato de que os artistas também desaprenderam a fazer arte e, em algum momento da história, começaram a apresentar coisas de tão baixa qualidade, primando apenas por um refinamento superficial na apresentação ou no visual, que as pessoas não percebiam a ausência de sensibilidade artística ou mesmo de bom gosto.

Isso se reflete em artistas e no público por reflexão de comportamentos. Afinal, a cultura mesmo erudita é hoje degradada mais e mais pelo assédio do popular. Mesmo em segmentos acadêmicos, nos quais substitui-se a beleza pelo social, pelo elogio da pseudo-expressividade marginal.

O senso artístico foi desaparecendo aos poucos, imperceptivelmente, substituído por aparências e imitações de sensibilidade. Uma certa cultura do relaxamento e da indisciplina, causada especialmente pela mesma atmosfera cultural de degradação sutil, tornou os artistas incapazes e inaptos ao entendimento profundo do seu ofício.

Não podendo reproduzir com profundidade a obra artística, contentaram-se com a aparência de profundidade, isto é, tornaram-se atentos mais a comportamentos artísticos, o que normalmente acaba se reduzindo à técnica. Mas como o foco é no comportamento e na imitação, até mesmo a técnica fica em segundo plano. Não tarda, portanto, para que tecnicamente não se possa mais reproduzir as grandes obras ou reconhecer o seu valor. Sobra a imitação tosca e sofrivelmente insuficiente. Os conceitos de beleza são relativizados precisamente devido a incapacidade de aproximar-se dos melhores exemplos.

A prática artística se torna, não mais uma devoção como o era para o artista clássico e amante da beleza, mas um estilo de vida que precisa ser repetido e reforçado como adereço à personalidade. Pouco a pouco, essa afirmação constante, que no seu íntimo é a justificativa para a perda da sensibilidade, vai sedimentando um comportamento excessivamente tolerante com novidades artísticas e teóricas. Acadêmicos aderem a modismos de acordo com a atribuição indireta da credibilidade do meio social acadêmico. Passa-se a fazer sociologia no lugar de arte.

Compreendemos, então, por que motivo o crítico é hostilizado. Ao criticar uma determinada linha artística, seja na música, na pintura, escultura ou arquitetura, critica um modo de vida específico e, com isso, atinge pessoas em um ponto sensível sobre o qual elas não possuem expressão para falar.

Mas é necessária a crítica exatamente por isso. O choque consigo mesmo é imprescindível para gerar um aprofundamento da noção artística, mesmo que seja por meio da indignação e do chilique. Percebendo a própria sensibilidade emocional devido o ataque direto às suas deficiências não professadas, devia aproveitar e observar o íntimo doloroso da tensão humana entre o expressivo e o inexpressivo. Quem sabe o susto o ensine a expressar-se.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.