Quem se importa com o Museu Nacional?

Quem se importa com o Museu Nacional?

03/09/2018 0 Por Cristian Derosa

Quando a identidade de Portugal esteve ameaçada, D. João transferiu Portugal para cá, enganando Napoleão. Trouxe para cá toda a sua biblioteca. Criou aqui o Palácio São Cristóvão, prédio do museu, em 1818. Desde a Proclamação da República, porém, os próprios brasileiros ameaçam o Brasil de maneira muito mais violenta que mil napoleões seriam capazes. Talvez tenha chegado o momento de salvar o Brasil dos brasileiros.

A tragédia do incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, é símbolo, como disse o professor Olavo de Carvalho em seu blog:  “símbolo e resumo de meio século de história deste país: a progressiva, abrangente e inexorável destruição da alta cultura, da inteligência, e de tudo o que havia de nobre e digno na vida nacional”.

A esquerda culpa o governo Temer pelos cortes de verba na cultura, ou o “golpe”, seja lá o que for isso. Alguns também culparam os bombeiros ou a administração da UFRJ, que estava na direção do museu. A direita culpa o PSOL, partido do reitor da universidade, ou a esquerda, culpada da destruição cultural do país. Todas essas culpas são verdadeiras. Porque a culpa é nossa.

MAFOG3 – RJ – 02/09/2018 – MUSEU / INCENDIO – METRÓPOLE OE – Incendio no Museu Nacional em Sao Cristovao, zona norte do Rio. Foto: MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO

Sobressai uma profunda necessidade de explicar o inexplicável. De fato, não temos meios de explicar a destruição levada a cabo por nós mesmos. A imensidão de possibilidades de culpa denota a nossa dificuldade em compreender o que faltou e o que nos falta. Mas é preciso que tentemos responder com sinceridade: tivesse o governo despejado milhões de reais na recuperação do Museu Nacional, quantos brasileiros aplaudiriam satisfeitos? Todos os sujeitos e membros de grupos culpáveis no caso poderiam se alegrar. Mas na certa se ouviria nas ruas: “que governo é este que investe milhões em velharias e deixa o povo a sofrer nos hospitais e nas favelas, a violência correndo solta etc”, diriam. E agora? Votemos em Bolsonaro, pois ele nos resolve o que toca a ferida diariamente, a violência nossa de cada dia.

A violência é a primeira preocupação do brasileiro hoje. Isso significa um certo senso de proporções bastante humano: ninguém quer morrer. E ninguém quer que o Museu Nacional pegue fogo, evidentemente. Mas a sua morte não foi no incêndio e sim naquilo que o causou. Preferimos pensar que o dinheiro o teria salvo, mas quando colocamos o dinheiro neste patamar, deixamos exposto o motivo do incêndio. Afinal, por que o Museu e não o Planalto? Não é a falta de dinheiro que explica as nossas escolhas e prioridades. Um país sem paz não pode ter cultura. Se há uma violência genérica que paira no ar, como gostam de imaginar os pacifistas, ela é definitivamente respirada pelo brasileiro. Mas ela não existe enquanto ente para ser culpado. Somos nós que escolhemos o alvo da nossa violência e por isso ela não é boa nem má, mas depende do nosso arbítrio, do nosso critério. Escolhemos vitimar o Museu Nacional porque ele não mata a fome, não pacifica nosso bairro, não paga nossas contas, não rende milhões de dólares, não pode ser exportado, não troca as fraldas dos nossos bebês nem as lâmpadas queimadas do nosso banheiro. Sacrificamos o Museu Nacional como uma perda menor, um mal necessário, para a grande maioria dos brasileiros. Afinal, quem está preocupado com isso? Só os que gostam, discutem, leem e respeitam a história do Brasil. E quem são estes?

Talvez agora se queira restaurar imediatamente, com a pressa motivada pela vergonha e o ímpeto culposo de ocultação do crime. Mas me pergunto se não seria mais honesto com nossos netos se deixássemos as ruínas do jeito que ficaram, para que eles conheçam mais sobre seus antepassados. Compreendendo-nos talvez eles entendam algo ainda mais profundo do que todo o acervo perdido.

Quando a identidade de Portugal esteve ameaçada, D. João transferiu Portugal para cá, enganando Napoleão. Trouxe para cá toda a sua biblioteca. Criou aqui o Palácio São Cristóvão, prédio do museu, em 1818. Desde a Proclamação da República, porém, os próprios brasileiros ameaçam o Brasil de maneira muito mais violenta que mil napoleões seriam capazes. Talvez tenha chegado o momento de salvar o Brasil dos brasileiros.

Em meu perfil do Facebook, recomendei que retirassem o que sobrou do acervo do museu e confinassem num museu em Portugal. Que os pais da nossa cultura, da nossa história, guardem nosso acervo para quando estivermos mais crescidos, mais responsáveis, quando atingirmos a idade adulta, se isso acontecer um dia. E que enquanto lá estiver, na pátria mãe de nossos antepassados, que nenhum brasileiro possa sequer tocar. No máximo, olhar de longe e agradecer por terem um dia guardado tamanhos tesouros, mas perdido o merecimento da posse da própria história.