Os Intelectuais e a Sociedade

Uol

Há alguns dias o presidente Jair Bolsonaro postou, em sua conta do Facebook, a mensagem abaixo atacando Fernando Haddad:

– Haddad, o fantoche do presidiário corrupto, escreve que está na moda um anti-intelectualismo no Brasil. A verdade é…

Posted by Jair Messias Bolsonaro on Saturday, January 5, 2019

A queixa de Haddad reduz-se, então, à moda “anti-intelectualismo”, que parece, segundo ele, estar crescendo no Brasil. Qual é o sentido da palavra intelectual usada aqui? O intelectualismo, como sugerido por Haddad, é uma autoridade moral superior? Quem são os intelectuais que têm o selo da autoridade de guiar o rebanho?

Características dos intelectuais e a questão da proporção do conhecimento

Thomas Sowell escreveu um livro inteiro a respeito de intelectuais (Os Intelectuais e a Sociedade); mas lá ele teve o cuidado de isolar o tipo de intelectual a que se referia: somente o que trabalha com ideias que se exaurem em si mesmas. Estes intelectuais, em outros termos, não têm o encargo de aplicá-las concretamente – tal tarefa é reservada aos burocratas, políticos, juízes etc. O produto final do trabalho de um intelectual (no sentido aqui adotado) são apenas ideias abstratas e nada mais.

Sowell enumera as implicações práticas de tal definição:

“O trabalho do intrelectual não é pessoalmente levar a cabo essas idéias específicas, como um médico que aplica a ciência médica a seres humanos de carne e osso ou como engenheiro que está calçando botas em um canteiro de obras onde um prédio ou uma ponte estão sendo construídos[…] O produto final de Jonas Salk era uma vacina, já o produto final de Bill Gates era um sistema operacional de computador. Apesar do poder intelectual, insights e talentos envolvidos nessas e em outras conquistas, esses indivíduos não são intelectuais. O trabalho de um intelectual começa e termina com ideias, por mais influentes que sejam essas ideias em coisas concretas – nas mãos de outros. Adam Smith nunca dirigiu um negócio e Karl Marx nunca administrou um Gulag. Eles eram intelectuais. Ideias, como tais, não são apenas a chave para a função do intelectual, mas também são os critérios das suas realizações e a fonte de muitas perigosas seduções (grifo e tradução nossos).”1

Como o intelectual (sempre no sentido que aqui adotamos) faz parte de um circulo restrito de pessoas, a tendência é que suas ideias validam-se apenas dentro do grupo integrado por outros intelectuais. Há, pois, uma concentração de conhecimento num grupo onde os pares são intelectuais e o intercâmbio de ideias não sai fora desta zona de autovalidação.

Ideias de intelectuais muitas vezes operam com o que se chama de engenharia social. Impõe-se que, para adequar o conhecimento abstrato à realidade vivida por milhares de pessoas de carne e osso, todo o aparato burocrata que retira fundamento das ideias de intelectuais deve trabalhar necessariamente através de coerção sobre aquelas pessoas.

Diferente do conhecimento mundano, que é disperso entre um número infinito de pessoas comuns do cotidiano, como pequenas frações de conhecimento e ideias que se ajustam nas transações dinâmicas e voluntárias entre os indivíduos, o conhecimento do grupo dos intelectuais só pode ser aplicado concretamente se for de cima para baixo.

Com efeito, só é possível levar a cabo as ideias dos intelectuais se elas forem tomadas por decisões substitutas (surrogate decisions). Se o conhecimento detido pela população em geral é fragmentado e aplicado às específicas interações que cada indivíduo tem com o seu semelhante, o conhecimento dos intelectuais ocupa quantitativamente um espectro bem menor, porque só existe dentro daquela bolha, e não é maturado por meio de tentativa e erro diante de situações específicas da vida corriqueira, mas, do contrátio, tem de ser necessariamente imposto via um burocrata que irá tomar para si – sendo uma terceira parte – a tarefa de decidir alguma coisa que antes era regulada por trocas voluntárias entre duas partes.

Tem-se, então, dois mundos paralelos. Um é o universo composto de um conhecimento fragmentado, que é testato e aperfeiçoado diariamente por milhões de pessoas de carne e osso e que engloba quase todo o campo do conhecimento, ainda que se alegue, com desdém, ser tal tipo de conhecimento tosco ou mundano. O outro mundo, mais restrito e que ocupa uma ínfima fração de todo o conhecimento existente, é o partilhado entre intelectuais e tem a característica da concentração (em oposição à dispersão acima sublinhada).

“Quando tanto o conhecimento especial quanto o conhecimento mundano estão englobados dentro do conceito de conhecimento, é duvidoso que a pessoa mais conhecedora da terra tenha um por cento do conhecimento total da terra, ou mesmo um por cento do conhecimento prático em uma dada sociedade.

 Há muitas implicações sérias disso que podem, entre outras coisas, ajudar a explicar por que tantos intelectuais importantes tantas vezes apoiaram noções que se mostraram desastrosas. Não é simplesmente com políticas particulares em tempos específicos que os intelectuais muitas vezes advogam decisões erradas e perigosas. Toda a abordagem do intelectual para a formulação de políticas sua ideologia frequentemente reflete um equívoco crucial sobre o conhecimento e a concentração ou dispersão deste conhecimento.

 Muitos intelectuais e seus seguidores iludem-se com o fato de que as elites altamente instruídas – da qual fazem parte – têm muito mais conhecimento per capita – no sentido de conhecimento especial – do que a população em geral. A partir disso é um pequeno passo para considerar as elites educadas como guias superiores a respeito do que deveria e não deveria ser feito em uma sociedade. Muitas vezes estes intelectuais negligenciam o fato crucial de que a população em geral pode ter um conhecimento total maior – no sentido mundano – do que as elites, mesmo que esse conhecimento esteja espalhado em fragmentos individualmente pouco perceptíveis entre um vasto número de pessoas (grifo e tradução nossos).2

Vê-se facilmente que intelectuais se mostram, de forma reiterada, com a visão do ungido – como pastores com atribuição moral de guiar a sociedade. Isso é apenas decorrência natural de seu orgulho próprio; olhando para o conhecimento concentrado que possuem e sentindo-se especiais se comparados com pessoas a quem é atribuído um conhecimento meramente mundano e disperso, intelectuais enxergam-se não só como detentores de um conhecimento superior, mas também como verdadeiros agentes canonizados por uma ordem quase transcendente, que lhes é conferida para transformarem a sociedade partindo de cima.

Quando a bolha dos intelectuais é furada

Nos últimos anos, após a proliferação das mídias sociais, tem-se um fenômeno peculiar: a quebra da hegemonia dos intelectuais e, como consequência, o ressentimento desta elite que não admite concorrência fora de seu grupo.

A saída da Inglaterra da União Européia, as eleições de Donald Trump e Jair Bolsonaro, o crescimento da “direita populista” ao redor do mundo são bons exemplos de insatisfação de uma parcela que é, na verdade, a maioria da população.

Quando intelectuais se colocam num pedestal acima das pessoas que possuem um conhecimento mundano, disperso e mais perto da realidade pessoal de cada um, e a partir do momento em que tais pessoas começam a questionar a eficácia do conhecimento genérico e impositivo dos intelectuais, há uma ruptura na bolha elitista e a quebra da subserviência dócil que até então reinava nesta relação desproporcional.

A não aceitação (ou até o desprezo) das ideias das elites causa, geralmente, uma grande histeria no mundo acadêmico e na grande mídia, lugares onde há nítida prevalência da visão do ungido que rege a vida dos intelectuais. Não havendo mais uma hegemonia segura, capaz de garantir a estabilidade da visão dominante, a guerra cultural entre um vasto número de pessoas e uma parcela restrita de uma elite orgulhosa se instala.

Não há previsão acerca do término dessa guerra, inaugurada recentemente no Brasil e em curso há um pouco mais de tempo nos Estados Unidos. Tampouco é possível vislumbrar qualquer vencedor ainda. Todavia, a certeza é que a visão prevalente, que dominava incólume o debate e a opinião pública, hoje sofre grandes perdas com a democratização das informações pela internet (principalmente nas redes sociais), que permite o acesso e o confronto de ideias sem o filtro da grande mídia e com a congregação de pessoas que se sentem excluídas da bolha.

  1. (Thomas Sowell, Intelectuals and Society, revised and enlarged edition, 2011, p. 23).
  2. (Thomas Sowell, Intelectuals and Society…, p. 54).

 
 

1 thought on “Os Intelectuais e a Sociedade

  1. O que preocupa os intelectuais não é a perda de hegemonia, que é uma coisa nunca tiveram, basta olhar para a história. O que preocupa os intelectuais é a barbárie e a burrice a consequência dessas duas coisas para as pessoas em geral. Lembremos que o precursor dos intelectuais, Sócrates, foi condenado à morte e que o júri era comporto por cidadãos de Atenas. Lembremos de Hipacia de Alexandria, morta em um verdadeiro linchamento levado a cabo por pessoas médias e cristãs. Não podemos esquecer também de Boécio, de Giordano Bruno, Miguel de Servet, Walter Benjamin, Edith Stein, sem contar os inúmeros que foram mortos e não se sabe. Até aqui, citei apenas os que morreram. Mas há uma lista muito mais extensas dos intelectuais que se calaram Abelardo, Maquiavel, Galileu, Descartes, Kant, os pensadores da Escola de Frankfurt etc.

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