Onda conservadora: vida abstrata, fracasso concreto

Onda conservadora: vida abstrata, fracasso concreto

13/06/2018 0 Por Cristian Derosa

A origem social da direita youtuber, da direita que aparece e quer aparecer é exatamente a mesma da esquerda universitária: gente criada em apartamento que se culpa pela bolha em que foi educada, pela distância da realidade imposta por seus pais. Quer a todo custo conectar-se ao mundo externo que aprendeu a ver pela janela. Mas não consegue porque o seu funcionamento é abstrato, horizonte de consciência formado na altura dos andares superiores, da segurança do condomínio.

Essa cultura de apartamento não significa, porém, realidade literal, pois se manifesta em qualquer pessoa, sendo apenas mais invencível nos que a viveram fisicamente. A vida de condomínio literal é apenas lastro de uma cosmovisão abstrata que aprendeu a navegar nos mundos teóricos. Um burguesismo cognitivo, criatura ultramoderna que empreende a “luta contra o mundo moderno”, paradoxalmente típico produto moderno. O tradicionalismo dessa onda, produto da pós-modernidade, alimenta-se da revolta juvenil, do abstrato cimentado pelo urbanismo que é fácil presa de controles mentais. Com isso, cria-se um muro epistêmico que reforça a existência ideal de um tipo de guerra entre estereótipos. Estereótipos que se tornam arquétipos, tipos ideais com poder de salvação mediante fórmulas de evocação mágica.

Fruto das estruturas secundárias e sucedâneas da racionalidade humana, essa juventude é filha única de pais separados. “Mãe piranha e pai covarde”, dizem os humoristas do Gatão Palhaço, são a origem da esquerda. E também da direita que oferece, como resistência ao mundo moderno do seu condomínio, a gravata borboleta, o suspensório e o cachimbo em riste.

O arquétipo dessa nova direita, isto é, o princípio ideal caracterizado e individualizado, no sentido junguiano, não compreenderá nunca uma análise mais realista. Buscará imediatamente o elemento opositivo como o tigre em que possa cavalgar, seja para fugir da dor de estar no grupo errado ou pelo prazer de encarnar uma massa eleita.

A partir do que diz Olavo de Carvalho sobre as diferenças morais entre esquerda e direita, a esquerda possui a lástima de estar inteiramente errada ideologicamente, tendo apenas o valioso benefício de poder eventualmente gerar indivíduos bem intencionados ou bons, engajados, porém, em ideais ruins. Já a direita, que encarna ideias moralmente superiores, produziria mais indivíduos de moral duvidosa, justamente pela noção de superioridade vista como ideal e abstrata.

Para o conservador, o esquerdista é um depravado e vive de imoralidades. Essa imagem estereotipada é a única possível em quem só consegue ver a virtude como um conjunto de ideias ou uma doutrina a ser obedecida. Embora o conservador veja-se como moralmente melhor, não percebe que esta imagem de si reforça, no esquerdista, a imagem de hipócrita e falastrão, o que não raro é confirmado pelo desleixo moral típico de quem se crê a última bolacha do pacote. Ao contrário do que prevê o direitista, a virtude é a descrição da realidade. Quem é contra uma descrição vive de ilusões normativas, sejam elas quais forem.

Um fracasso anunciado de longe

Não pode haver outro destino para a direita surgida a partir do mesmo problema que deseja suplantar. Não se trata, portanto, de substituir um problema por outro, mas de apenas mudar a cor do mesmíssimo problema estrutural. As redes sociais, o Youtube e toda plataforma que sirva de palco para essa direita apenas servirá de espetáculo observável aos estrategistas e engenheiros sociais a lhes indicar a melhor forma de agir, o problema psicológico a responder. E qual é esse “problema”? O desejo por uma autoridade, por uma firmeza e padrões fixos. Isso a esquerda sabe que pode oferecer. Nunca, em tempo algum na história, a segurança, instabilidade, confiança e esperança no ser humano foram bases morais do conservadorismo. Como visão estritamente cristã, o fracasso da humanidade já está implícito no pecado original. Mas no Brasil, onde jamais as ideias conservadoras (ou cristãs) circularam com facilidade, todo reacionarismo ou direitismo pode ser facilmente canalizado para uma utopia a ser aproveitada por revolucionários. E o será.

Para o movimento revolucionário, nenhum nacionalismo, tradicionalismo, monarquia, militarismo ou cristianismo incomoda em si mesmo. Trata-se de maquiagem potencial às suas ideias. Se Stalin foi nacionalista e Mussollini católico, só a doce ilusão de quem só consegue acessar a realidade por meio de sucedâneos expressivos e chavões poderia fazer crer que o cristianismo ou o nacionalismo podem conter a chamada “onda vermelha”. Só quem crê mesmo na propaganda pode cair na pegadinha de que “nossa bandeira jamais será vermelha”. O vermelho revolucionário só encarna uma bandeira ou foice e martelo quando estes símbolos são culturalmente possíveis. Sem essa possibilidade, servirá o verde e amarelo ou mesmo a imagem do Crucificado.

Tão logo alcançado o fracasso, restará aos condôminos da direita o expediente do ressentimento de que a mais nova revolução não encarna seus valores, não é verdadeiramente cristã ou nacional, assim como os comunistas a repetir que Stalin não foi realmente marxista.