General Inverno contra o Capitão

General Inverno contra o Capitão

17/08/2018 2 Por Estudos Nacionais

Por Guilherme Hobbs

Uma previsão realista para o futuro político do Brasil

Uma analogia histórica que me parece útil para o nosso momento político: há 200 anos, um carismático e experimentado militar se lançava à conquista de um vasto país abandonado a poderes tirânicos e ao atraso econômico. Na sua retaguarda, uma enorme e heterogênea coalizão o acompanha animada do idealismo de mudar o rumo da História. Depois de uma sequência fulminante de vitórias, quando tudo já parecia ganho em definitivo, a sorte aos poucos vira e, meses mais tarde, aquele militar está na cadeia e seu exército não existe mais . . .

O país a conquistar foi a Rússia e o militar, Napoleão, na guerra de 1812-13. Como o Brasil, a Rússia era (ou ainda é) um país fechado sobre si mesmo, terra de mistérios e quase virgem de maiores empreendimentos civilizacionais. Imbuído da certeza de ter a História — o tal zeitgeist — a seu favor, Napoleão avança triunfante, sem medir os passos, até se ver isolado no meio de um enorme território hostil, cercado de inimigos, com as linhas de abastecimento comprometidas e sofrendo o letal inverno russo. É forçado a recuar, empurrado pelos ataques do que restou do exército inimigo, e na retirada perde todos os seus homens (muitos para o cansaço e a fome), até se perder a si mesmo, já em Paris . . . É derrubado pela facilidade de uma vitória!

O fator climático que o derrotou, impessoal e implacável, entrou para a História como o “General Inverno”.

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Voltando ao Brasil, parece claro que, numa eleição minimamente honesta, Bolsonaro ganhará com uma votação expressiva. A poucos meses, não apareceu um concorrente efetivo e não há mais tempo para aparecer. Empossado o capitão, já sabemos que terá uma base parlamentar razoável e, com a força da popularidade, poderá exercer de fato o poder. Foi fácil invadir a Rússia, fácil chegar até a capital . . . Mas o que vem agora? Todos os seus inimigos continuarão firmes nos postos-chave da imprensa, da justiça, da universidade, da burocracia e — PRINCIPALMENTE — das organizações internacionais. Com bem menos pontos de apoio, a esquerda conseguiu há 40 anos isolar o governo militar, que tinha o próprio Exército brasileiro como base social (no episódio Riocentro, por exemplo, que nada tinha a ver com a presidência, mostrou todo o seu poder de fogo). O que não poderá fazer contra o PSL e seus pequenos e caseiros grupos de apoio “patriotas”?

Tal como na Rússia, a virada de mesa não acontecerá por um confronto direto, às claras. Um embate direto, como estupidamente tentou o Roda Viva, só poderá favorecer Bolsonaro aos olhos do povo. A reação das esquerdas será feita pela estratégia de guerrilhas e ataques pontuais, calculados, visando o desgaste e o isolamento do adversário e não a sua derrota em curto prazo (no caso, “guerrilhas” judiciais, econômicas, midiáticas, universitárias etc). Forçarão o capitão a baixar o tom e a sentar-se para negociar, enquanto diluem a aura de “mito” entre a população, mostrando-o, não como “facista” ou “extremista” (o povo não entende esse palavreado), mas simplesmente como incompetente, incapaz, indeciso ou imprevidente — seja verdade ou não. Nesse momento, farão falta os militantes conservadores que deixaram as bases por estarem eleitos ou empregados nos novos governos e gabinetes de direita. Sozinho no coração do inverso russo, de onde virão reforços? Cercado de inimigos, a quem ele poderá pedir ajuda?

Não sei como tudo pode terminar e é impossível saber. Prevejo esses movimentos com base no presente, mas o que haverá além dependerá do engenho dos homens e da vontade de Deus. No fim, o que ficará dessa experiência não serão os sucessos ou malogros políticos, mas as sementes e obras deixadas pelos espíritos “com raiz em si mesmos”, como diz o Evangelho. Só estes saberão aproveitar as oportunidades extraordinárias que se aproximam.

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Um cenário plausível até 2020 é que, passado o entusiasmo do primeiro ano de governo, o prolongamento da estagnação econômica mais toda a contra-propaganda (à qual Bolsonaro e seus auxiliares já forneceram vasto material) consigam derreter a popularidade do governo para abaixo de 20% (o brasileiro está acostumado desde 2013 a avaliar mal quem está no poder). Nesse momento, os acontecimentos de 2016 pesarão como um precedente: pela primeira vez na República, um governo tido como incompetente fora derrubado pelo Congresso com base numa tecnicidade jurídica. Com a economia indo mal, protestos pedindo novas eleições, diretas ou indiretas, atrairão não só esquerdistas e “militantes” pagos. As críticas de Bolsonaro à urna eletrônica serão usadas contra a legitimidade de seu próprio mandato, e ele será mostrado como um hipócrita que aceitou um cargo ilegítimo. Subitamente, a mídia descobrirá que as eleições são facilmente fraudáveis e que a apuração secreta não tem validade. Como não temos histórico de manifestações a favor de um governo, ainda mais se insatisfatório, a versão que prevalecerá é que o povo quer uma mudança no limite das regras como houve em 2016. Numa direita incipiente, com lideranças de rasa capilaridade e cheia de arrivistas, os erros e traições não serão de surpreender (o próprio Eduardo Bolsonaro aludiu a futuras traições na convenção do PSL) . . .

Nesse cenário de insegurança e polarização, quem for o presidente da Câmara ou do STF — ainda mais se for um “centrista” como os atuais, Rodrigo Maia e Carmen Lúcia — facilmente será projetado como a última salvaguarda do Estado Democrático de Direito — portanto, como uma escolha acima de partidos e ideologias — como foi Charles de Gaulle na crise da Argélia. Como a missão primeira do parlamento é garantir o Estado de Direito (e não manter o presidente), a substituição do chefe do executivo numa manobra à la Dilma impor-se-á como uma necessidade. Não será uma “cuestão” de política, mas de sobrevivência das instituições . . .

O dualismo será deslocado, portanto, de direita x esquerda, PT x Bolsonaro (no qual a esquerda só tem perdido) para estabilidade x caos, Parlamento x Executivo (no qual o centro será apresentado como solução, a esquerda voltará no lastro e a direita será novamente marginalizada).

Quantos no campo conservador estão preparados para um cenário dessa complexidade? No momento atual, a animosidade da direita ecoa a insatisfação do povo e vai, portanto, na direção em que se desenvolve a História. Quando a direita for o poder, a animosidade de militâncias pró-governo soará tão mal como soavam os “protestos” da CUT a favor do governo Dilma. A ilusão de que o poder vem do grito ou da raiva se quebrará dolorosamente para muitos . . . Uma esquerda “centrista” voltará ao controle da situação se conseguir formar um novo consenso entre os que não aguentem mais a tempestade.

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Que fique claro, nesta previsão supus que no governo Bolsonaro NÃO haverá:

1) Escândalos de corrupção fundamentados;
2) Tentativas de golpe por parte do Executivo;
3) Atitudes truculentas ou autoritárias pelo presidente;
4) Interferência militar desastrada.

Portanto, não é um fascista aloprado que poderá passar pela provações que imaginei, mas o democrata moderado e liberal que Bolsonaro vem se mostrando nos últimos tempos.