Entrevistas com Bolsonaro e as técnicas baseadas na espiral do silêncio

Entrevistas com Bolsonaro e as técnicas baseadas na espiral do silêncio

29/08/2018 5 Por Cristian Derosa

Bolsonaro não se intimida com táticas psicológicas de isolamento social e este comportamento bastante raro faz dele um tipo de pessoa imune ao efeito espiral do silêncio e capaz de revertê-lo para o outro lado

Indicações sutis de apoio ou de rejeição são armas poderosíssimas quando o assunto é eleições. Elas servem para gerar uma sensação de isolamento social de um lado e, de outro, dar confiança para a parcela que vê seu candidato ser ovacionado. Isso muda o panorama dos debates. Enquanto a rejeição vai minando a vontade de discutir, no grupo oposto há uma certeza maior de que se vai poder contar com apoiadores. É por este motivo, como já dissemos em outro artigo, que a grande maioria da mídia insiste em manter Lula nas pesquisas de intenção de voto. Para dar força à sua militância. No caso de Bolsonaro, porém, há uma outra estratégia que parece ter sido escolhida como a principal.

A mídia brasileira está claramente contrária à candidatura de Jair Bolsonaro. Nem mesmo a esquerda extrema acusa jornais de privilegiarem o candidato, tamanha a clareza nesta questão. A estratégia dos jornalistas e entrevistadores tem sido a de jogar verde em um pseudo-clima de opinião por meio de expressões, gestos, reações e escolha de perguntas. De posse disso, ela crê ser capaz de constranger uma parte do eleitorado e dar força à outra parte.

Criada há mais de 40 anos, a Teoria da Espiral do Silêncio nasceu da confrontação entre declarações de intenção de voto e a contagem final daqueles votos. A autora da pesquisa, Elisabeth Noelle-Neumann, percebeu que os debates públicos ocorriam em um terreno confortável para um dos lados, no qual um tinha mais disposição para falar do que o outro, que ficava constrangido por uma impressão de isolamento. Essa impressão, por sua vez, pode vir de uma situação real ou simulada, criada por meio de manipulação ou simplesmente teatro, o que é o caso em questão.

Isso porque há uma natural percepção humana do clima de opinião, que é baseada nas experiências de convívio social. De acordo com a teoria, a vontade de entrar em um debata diminui diante da percepção de que terá apoio minoritário e menor ainda é a disposição para declarar-se favorável ao candidato ou à opinião vista como minoritária. Esta é a teoria espiral do silêncio, que vai gerando um redemoinho de silêncios sobre a real opinião das pessoas. Mas mais do que o número de apoiadores, o indivíduo pode ser levado a silenciar-se pela impressão de que será agredido ou ao menos discriminado.

Como funciona a espiral do silêncio nas entrevistas de Bolsonaro?

Infelizmente para essa grande mídia, não parece ser fácil falsificar os números de intenção de voto, já que o candidato está sendo ovacionado por todo o país e não há como esconder. Então a técnica se dirige a outro expediente, o do constrangimento moral fingido, que atua na percepção de aceitação ou rejeição mais sutil, por meio de gestos e reações. É uma atitude sem dúvida desesperada de quem já não pode contar com nenhuma outra arma.

O leitor já deve ter percebido as reações de assombro e até pânico de alguns jornalistas diante de respostas ou declarações de Bolsonaro. Em sua grande maioria, trata-se de um fingimento premeditado. As “mitagens” que geram risos do lado dos seus apoiadores (e fortalecem Bolsonaro entre os seus), têm um efeito muito diverso no eleitor indeciso. Ou pelo menos essa é a intenção: passar a ideia de que o candidato disse algo fora dos padrões permitidos ou infringiu alguma norma de conduta social importante. Para quem tem maior dificuldade de compreender o que ele diz e já não o tem com muita simpatia, um mero olhar de estranhamento do entrevistador já pode ser um indício de problema. A primeira técnica, portanto, está na reação, no olhar ou gestos de ironia ou espanto. Quem está assistindo acredita na sinceridade da reação e responde imediatamente por imitação. Se isso não ocorrer, o constrangimento dará conta: ser associado ao apoio dele pode, por tabela, gerar as mesmas reações do restante da sociedade, calcula o eleitor. Isso quer dizer que a agressividade com que os jornalistas o tratam, longe de agir em seu favor como resulta em seus apoiadores mais convictos, tem a função de ameaçar imaginariamente os eleitores com as mesmas reações, o que em última análise visa constrangê-los ao silêncio nas intenções de voto. É o medo do isolamento social referido por Noelle-Neumann.

Outra técnica é a escolha das perguntas, que tem o objetivo de simular relevância que não existe. Essa relevância falsa, por exemplo no caso dos supostos riscos de Paulo Guedes o abandonar, transmite ao telespectador que isso deve ser levado em conta. Mas a pergunta em si é tão absurda que o entrevistador sabe de antemão que Bolsonaro não responderá com assertivas, o que já gera hesitação no telespectador. Mas uma coisa é gerar uma impressão falsa de relevância pública sobre um tema, outra coisa é perguntar assuntos dando a entender que a maioria da população já está orientada da mesma maneira que o jornalista, como no caso da “discriminação de gênero” etc.

Clima duplo de opinião e Bolsonaro

A percepção da opinião da mídia foi chamada por Noelle-Neumann de “clima duplo de opinião”. A sua influência atua no medo de ser associado a estereótipos negativos da mídia, o que podem ser (e normalmente são) usados na sociedade por pessoas que acompanham mais os jornais. Essas pessoas foram caracterizadas por Paul Lazarsfeld como “líder de opinião”, um tipo social menos comum que orienta e define as opiniões da maioria. Quase sempre é alguém que fala mais porque lê mais, é mais politizado ou simplesmente tem um desejo de encarnar a opinião pública. O líder de opinião pode ser considerado um fator agente no efeito da espiral do silêncio.

O prestígio social da opinião dos jornalistas da mídia, porém, anda caindo vertiginosamente entre o público em geral na mesma medida que cresce o apoio a Jair Bolsonaro. Trata-se de um líder de opinião, que quando agredido ou confrontado, descredibiliza o outro lado. Alguns analistas têm caracterizado este comportamento como um fanatismo em torno da personalidade do candidato, o que carece de uma análise mais contextual sobre a perda da credibilidade da mídia e a gravíssima e já histórica falta de representatividade popular na política.

Evidentemente, com candidatos predominantemente de esquerda, a mídia, também de esquerda, prefere falar vagamente em uma “crise de representatividade”, mais ou menos como quem finge preocupação enquanto oculta a sua própria indiferença com as opiniões da maioria da população brasileira. Se a representação política está falida, quem vai falar sobre isso senão a própria mídia cuja credibilidade popular (e representatividade) já a faz ser digna de zombaria nas ruas?