Do incêndio à facada

Do incêndio à facada

09/09/2018 4 Por Estudos Nacionais

Victor Bruno

A semana que se encerrou no último dia 7 de setembro deveria pôr termo a uma série de ilusões que os engenheiros do saber do Brasil querem, por feitiçaria, manter como verdades a respeito deste país. A primeira é que somos um país com cultura. E a segunda é que somos um país civilizado.

Apesar de sermos um país que desde os tempos de Machado de Assis ainda está na busca da nossa identidade cultural, a intelligentsia, os engenheiros do saber e da opinião brasileira lamentam o incêndio do Museu Nacional como um símbolo da perda da nossa história. Não cabe aqui perguntar onde estavam aqueles que agora encharcam as cinzas de lágrimas. Ninguém tem obrigação de ficar lembrando perpetuamente de museus como um muçulmano lembra de Allah enquanto faz o dhikr. O que cabe aqui é questionar uma cretinice que estava latente e, no dia 2 de setembro, se tornou evidente: qual a importância da cultura para o Brasil? Neste momento de emoção, no qual a sombra negra do esquecimento e da violência abespinham a memória e a inteligência nacional, o fim fosforescente de um museu se torna digno de nota.

Unanimemente, as culturas se formam de baixo para cima; nascem do trabalho do pescador, do pastor, do agricultor, da rendeira, até florescer nos trabalhos dos poetas, dos filósofos e dos artistas. Não há como ela ser imposta pelos cálculos e planejamentos dos estadistas e dos grupos de pressão. Fazer isso é inverter a ordem do processo: a cultura forma o miolo interno (esotérico) do social; civilizações, estruturas normatizantes e normatizadas (exotéricas), formam-se em estados secundários da formação social.

Culturas se transformam, florescem ou morrem. A do Brasil vem com as pernas quebradas desde há 40 anos, no mais otimista dos casos. Na revisão póstuma do tempo em que era policresto, descobriu-se que nenhum presidente brasileiro visitava o Museu Nacional desde Juscelino Kubitschek. Isso nos indica que a existência e a manutenção de uma cultura, do cultivo do intelecto (e manter o intelecto é manter o espírito) não nos é uma prioridade. Excetuando-se certos escritores e certas obras culturais em algumas artes, “cultura” no Brasil é item sobressalente.

Então está implicado que não temos civilização. Pois não temos mesmo. Ao arrebentarmos as nossas bases culturais, demos cabo justamente do lugar donde irradia a fonte estruturadora da civilização. É uma questão de lógica: se a cultura é o centro do círculo social, e se o centro se rompe, não há como ter a circunferência que o delimita.

É precisamente assim que se explica o já bem-conhecido número de mais de 60.000 assassinatos que o nosso país ostenta — e é assim também que se explica a indiferença por parte dos nossos sacerdotes do saber para esse dado. Porque num lugar em que não há o cultivo do espírito, que é o efeito próprio do cultivo da cultura, as coisas deixam de ser parte de uma realidade total e vital; viram coisas compartimentalizadas, sem essência, cujo significado se prega after the fact. Nesse caso, há mortes e mortes; há facadas e facadas.

Como estamos num estado pré-civilizacional, em que as idéias estão desencontradas e têm cacofonia de sentidos, é comum que se façam associações descabidas entre as palavras e as coisas. Por exemplo, a quebra da inteligência nacional nos deixou com a impressão de que podemos manter e fomentar o nosso legado cultural. Qualquer um que diga o contrário, que procure manobrar a palavra cultura de volta para a sua verdadeira natureza, é um inimigo em potencial da soberania do partido que teima em controlar o Brasil, da cultura brasileira, da sensibilidade artística e de quaisquer outras coisas que não possuímos, mas gostamos de acreditar que temos.

E é assim que chegamos à facada do último dia 6. A mão de Adélio Bispo de Oliveira segurando uma faca cuidadosamente enrolada numa camisa para que não ficasse a marca das suas digitais no seu cabo é a precisa imagem da nossa falta de civilização; do esforço para que se mantenha o estado confuso de coisas, de projeções imaginativas, de Segundas Realidades, de contradições entre a ordem da natureza e a ordem política. Claro: Adélio não precisa saber disso tudo — isso muito provavelmente está para além da sua esfera de consciência. Mas atrás da faca que penetrou o abdômen de Jair Bolsonaro não estava só a mão do criminoso: estavam milhares de pessoas, de grupos, de idéias que querem o Brasil continue precisamente como está. Porque Bolsonaro é o avatar perfeito de um país que ainda está numa zona de confusão tremenda. Bolsonaro foi o primeiro político entendeu que a realidade política brasileira não é uma de “defesa da democracia”, de “mais educação, saúde e escola”, ou de quaisquer outras cantilenas enfadonhas que se repetem time and again a cada quatro anos. Sua indiferença ao incêndio do Museu Nacional não deslinda sua ignorância, mas a sua sacada perfeita de que não temos condições de preservar a nossa cultura porque já a perdemos. (Claro, tudo isso ainda está, na cabeça dele, por ser articulado em termos intelectuais. Mas creio que seja uma posição análoga à de Cristian Derosa, em texto publicado neste mesmo site.)

Bolsonaro entendeu que a realidade brasileira é pré-cultural: é uma realidade de ação, de posicionamento de consciência. É precisamente esse estalo de consciência que o transforma num homem tão perigoso e ao mesmo tempo tão visado. E é precisamente por isso — por não abraçar ilusões e abraçar as suas circunstâncias — que, ao se transformar num homem ele assume, aos olhos dos nossos sumos sacerdotes, em menos homem. E aí sua facada, como qualquer um que queira deitar os olhos nos tweets da militância de esquerda pode ver, se transforma em algo passível de relativismo.

E aí estamos: o país que lamenta o museu chamuscado é o mesmo país que relativiza uma facada na frente de milhares de pessoas. É isso uma civilização?