De 2013 a 2018: dos protestos anticorrupção ao levante do mito

De 2013 a 2018: dos protestos anticorrupção ao levante do mito

05/10/2018 0 Por Cristian Derosa

Há seis anos, a sociedade brasileira iniciou um processo de conscientização que trilhou um caminho de foco gradativo desde a pauta mais difusa da “anticorrupção” até o nascimento da candidatura nominal de Bolsonaro, que acabou encarnando todo o corpo de anseios populares acumulados neste processo.

Em 2013, a esquerda quis dar um golpe no próprio sistema que comandava, dar um upgrade no estamento burocrático que se tornou a sua prisão e acelerar o processo revolucionário por meio de uma mobilização popular que justificasse o salto qualitativo em direção a uma constituinte exclusiva visando o tão sonhado “aprofundamento da democracia”. A esquerda queria avançar a revolução gramsciana para um passo mais ousado.

Para isso, o Movimento Passe-Livre organizou um protesto contra o aumento da tarifa de ônibus, já antevendo a repressão da polícia. Isso deu origem a um protesto contra a violência policial e “contra o sistema” que serviria para mobilizar os “movimentos populares” (a extrema-esquerda) para que reivindicassem mais “avanços sociais” ao governo petista. Aquela ocasião foi marcada pela ação de protestos orquestrados internacionalmente, como o movimento Announymous, responsável pela Primavera Árabe e financiado por grandes grupos internacionais. O teatro estava montado, mas o antipetismo, que crescia paralela e silenciosamente, começou a dar as caras.

Para a surpresa de toda a esquerda organizadora do “debate”, diversos outros atores sociais entraram na briga e começaram a seguir o protesto que mudou radicalmente o foco de tudo e de maneira espontânea: de repente, o que desejava ser uma crítica à polícia e ao sistema capitalista, incluindo pautas como legalização das drogas, aborto, etc, foi abarcado por um número tão grande de manifestantes e de pautas tão diversas, todas baseadas na indignação difusa mas anticorrupção e algo antipetista, que a própria esquerda simplesmente perdeu todo o controle da situação. O alvo agora era toda a classe política, todo o sistema, inclusive a parte controlada pela esquerda. O alvo do protesto era a difusa e abstrata corrupção e o governo Dilma.

Jornalistas da mídia e líderes de esquerda tentaram inutilmente reenquadrar os movimentos como sendo uma pauta politicamente correta como uma espécie de “primavera árabe”. O romantismo dos jornalistas chegou ao ponto das lágrimas, tamanha era a confiança de que aquilo era o resultado das décadas de transformação e conscientização política estimuladas pela mídia, artistas e a classe política, às massas disformes e apáticas. Mas era o fim da apatia do brasileiro. “O gigante acordou”, diziam. Mas parecia ainda sonolento.

O que eles não sabiam e não podiam adivinhar era o crescimento rápido, mas silencioso, de certa agitação nas redes sociais, motivada entre outras coisas pela própria circulação da informação livre, o que o estamento midiático sempre cuidou de controlar. As redes representaram a perda de um certo nível de controle sobre a sociedade, por parte o stablishment midiático e político global. Todo o fingimento de adoração à democracia estava ameaçado. Movimentos espontâneos sempre foram raríssimos, apesar de todo o marketing político em torno da mística que envolve a relação povo e poder.

Em meio à crise gerada pelos protestos, a então presidente Dilma Rousseff, junto dos líderes da esquerda nacional, tentou inutilmente aparelhar os movimentos chegando a propor uma constituinte exclusiva para “responder às ruas”. Algumas medidas anti-corrupção foram tomadas, mas todas em caráter de aparência para tranquilizar as massas e a imprensa. O que funcionou apenas por pouco tempo.

Desde 2005, o filósofo Olavo de Carvalho vinha sendo responsável por um esclarecimento político cuja capilaridade foi sendo conduzida pelas redes, por seus vídeos e áudios, além da atividade de alunos e seguidores que o seguiam na missão de esclarecer, tanto em vídeos quanto em textos que se acumulavam e eram compartilhados à exaustão pelo Facebook. A criação do site Mídia Sem Máscara, em 2005 e do seu programa de rádio True Outspeack, foram marcos de um renascimento e conscientização política sobre a situação de hegemonia da esquerda, algo que crescia imperceptivelmente por meio da cultura do politicamente correto que predominou por meio da mídia e entretenimento. Olavo de Carvalho tem um papel tão profundo neste processo que o gradual foco das manifestações se tornou, em pouco tempo, o PT e o Foro de São Paulo, não mais a difusa pauta anticorrupção.

O gradual foco nas reivindicações

Diversos segmentos de uma resistência contra o sistema foram se formando e se organizando em torno das mesmas informações e foco: o PT e o Foro de São Paulo. No ano seguinte, as eleições de 2014 iniciaram uma segunda onda de indignação contra a reeleição de Dilma Rousseff, marcados pela suspeita de fraude eleitoral, diante de uma apuração secreta dos votos que deu nova vitória ao PT.

Movimentos de direita que já haviam sido despertados pelos livros e textos de Olavo de Carvalho, como movimentos em favor da intervenção militar e outros, chamaram alguma atenção da mídia por meio de pequenas iniciativas, numericamente insignificantes. O próprio Olavo de Carvalho, por meio de seu perfil no Facebook, foi reajustando o foco das resistências graças a uma influência poderosa em diversos grupos de discussão e iniciativas de militância nas redes, o que já vinha sendo feito desde os levantes de 2013.

Movimento liberal dissolve protestos e abre “conciliação” para preservar o sistema

Kim Kataguiri, líder do MBL e organizador das marchas pelo Impeachment de Dilma. Com a força política das manifestações, articulou com deputados o impedimento da presidente e virou colunista da Folha de São Paulo. Após alguma relutância, hoje o MBL apoia Bolsonaro.

Em 2015, uma nova crescente onda de protestos começou a avançar e protestos eram marcados mensalmente, sempre um maior do que o anterior. A liderança dos protestos, o Movimento Brasil Livre (MBL), era até então uma iniciativa que buscava apenas dar voz às pautas populares surgidas por meio daquela conscientização que já era marcadamente antiesquerdista, com forte matiz conservadora moral e cultural. Mas considerado pela mídia como um porta-voz dos protestos, o MBL começou a ensaiar funções políticas de negociação em Brasília e foi arrastado para uma política conciliatória com o sistema. Com o apoio de alguns partidos e políticos, protocolou um pedido de Impeachment da presidente Dilma Rousseff, em uma clara conciliação para a manutenção do sistema em troca do sacrifício da presidência da República, mantendo todo o estamento intacto.

Para isso, o MBL dissolveu a onda de protestos que crescia, através da fatídica “marcha para Brasília”, que representou a derrota e frustração dos anseios populares que fizeram crescer todo o levante. O êxito do Impeachment arrefeceu os ânimos e acalmou os protestos, firmando o MBL como um movimento de oposição dentro do sistema. Hoje podemos interpretar as ações do MBL de diversas formas, mas é possível dizer que o movimento tudo isso devido seu caráter ideológico liberal, que pretendeu tirar proveito da situação para firmar-se como força política atuante e abrir caminho dentro do sistema e fazer política à moda do próprio sistema. De um lado, o aproveitamento pode ser visto como malicioso e imoral. Por outro, a boa intenção característica de jovens desinformados sobre a real natureza de sustentação do sistema. Liberais tendem a ver as coisas de maneira tão pragmática que corrompem-se pela própria forma de pensar do inimigo, demonstrando desconhecimento da natureza profunda, cultural e psicológica, dialética, dos planos políticos da esquerda. Isso se deve ao fato de que uma parte importante da ideologia globalista está calçada sobre o próprio liberalismo, base inquestionável dos jovens liberais.

O ano de 2016, já sob o governo Temer, uma espécie de trégua organizadora no poder do Foro de São Paulo, foi marcado pelo crescimento dos movimentos conservadores nas redes sociais e no aprofundamento das iniciativas iniciadas em diversas frentes. O deputado Jair Bolsonaro, que há anos vinha crescendo como promessa à presidência devido seu enfrentamento da esquerda, começava a considerar a possibilidade de sua candidatura.

O mito da representação

bolsonaro-ganha-no-primeiro-turnoFicava cada vez mais clara a crise de representação na política brasileira. Com uma mídia que representava fielmente o multiculturalismo e o politicamente correto, dando de ombros para a sociedade que pretendia apenas transformar, e uma classe política totalmente submissa às agendas internacionais ou regionais do Foro de São Paulo, a sociedade se viu completamente sozinha no processo democrático. Não podendo esperar nada de ninguém, ela mesma quem deveria fazer alguma coisa.

Bolsonaro já representava a direita brasileira de sempre, que, em grande parte, está presente na mentalidade geral do brasileiro. Foi hábil, no entanto, para captar as demandas do movimento conservador que crescia graças ao pensamento de Olavo de Carvalho e com os setores liberais. Com seu foco na questão moral, contra a Ideologia de Gênero, ficou amplamente conhecido na mídia por suas polêmicas contra o estamento multicultural representado pela Rede Globo. Bolsonaro cresceu na mesma medida que cresciam as iniciativas dos movimentos LGBT, mantidos pelo dinheiro internacional, representados pelo establishment midiático da Globo e Grupo Folha, seguidos por grupos menores. A mídia inteira rechaçava Bolsonaro como um político inexpressivo e ao mesmo tempo perigoso. A “extrema-direita”, para os jornalistas e celebridades, que causava temor de retorno à ditadura.

Com as eleições, Bolsonaro começou a arrastar multidões rapidamente e crescer nas intenções de voto. O atentado cometido contra ele aumentou e confirmou toda a reação do sistema para a sua preservação contra a resistência que ele passou a representar cada vez mais na população. O MBL aderiu ao movimento.

Todas as pautas, desde a anticorrupção de 2013, passando pelo antipetismo e culminando com o conservadorismo político quase à moda clássica, cristão, está irreversivelmente representado na pessoa de Bolsonaro. A grande mídia, especialmente a Rede Globo, que sempre se adaptou à conjuntura, começa a admitir essa representação e a existência de uma direita que sempre houve mas nunca teve voz. Essa mídia se dividirá fatalmente entre aqueles que o vão tolerar devido o apreço popular e aqueles que, independente da sociedade, irá rejeitar e combater a todo custo, rotulando toda a sua popularidade a um fenômeno neofascista e populista que ameaça a democracia.