Como atua a “espiral do silêncio” nas prévias das Eleições de 2018

Como atua a “espiral do silêncio” nas prévias das Eleições de 2018

22/08/2018 2 Por Cristian Derosa

Romper a “espiral do silêncio” em um cenário de prévias eleitorais significa, tecnicamente, tirar eleitores do armário

Se a pesquisa de intenções de voto é feita com base no que o eleitor declara, então é preciso motivá-lo a dar a resposta desejada ou permanecerão enrustidos, envergonhados, caso desconfiem que a sua declaração será malvista. Isso significa que o próprio resultado (manipulado ou não) das prévias eleitorais tem imenso poder de persuasão, ainda mais em conjunto com o índice de “rejeição” de um candidato.

No caso de Lula, o fato de estar preso por corrupção é um fator objetivo de grande rejeição, o que só uma popularidade “forjada” poderia reverter. No entanto, não podemos nos apressar a concluir que o eleitor brasileiro “não vota em bandido” e que quem diz isso é conspirador. A campanha defensora de que Lula seria preso político é uma tentativa de afastar a sua imagem à corrupção e à prisão como os demais corruptos presos pela Lava Jato. Em uma linha mais ideológica, o mote “Eleição sem Lula é golpe” apela para a solidariedade política com o PT, “golpeado” pelo Impeachment e a mística esquerdista em torno da palavra golpe. Nesta linha, surgem ícones como Marielle Franco, nome utilizado em instituto financiado por George Soros, que busca dar força à narrativa dos grandes financiadores da esquerda brasileira, o discurso politicamente correto da antiviolência e do pacifismo colorido. Com isso, visa associar Lula à luta internacional pela paz e pela cooperação global.

Da mesma forma, para a parcela mais pobre da população, que não está nas redes sociais, Lula permanece associado a Bolsa Família e a um período de relativa estabilidade econômica. Neste aspecto, não importa muito se a pessoa está presa, é corrupta ou não. “Importante é o resultado”. A associação da imagem de Lula aos pobres pode parecer a alguns uma mera demagogia (e é!), mas não é impossível converter isso em esperança, palavra muito usada pelo PT.

A suspeita atuação de institutos de pesquisa como o Datafolha e outros, em manter Lula na lista de possíveis intenções de voto, já demonstra o poder que a militância pela candidatura do atual hóspede da PF pode ter nesses órgãos. Independente de os números obtidos serem verdadeiros, falsos ou meramente exagerados, a mera publicização deles busca interferir na motivação individual para a declaração de intenção de voto, literalmente abrir a porta do armário dos envergonhados se existirem.

A campanha de Lula começou quando ele foi preso, ocasião em que se buscou fazer dele um mito e aproveitar tudo o se pudesse dizer dele para colocar seu nome e seu rosto em toda a parte. Iniciou-se uma campanha de marketing de grandes proporções, baseada na ilusão de que há no Brasil um forte movimento em favor de sua candidatura.

A teoria da espiral do silêncio trouxe valiosas observações sobre a formação da opinião individual e, com isso, da opinião pública: incrementou na composição dos fatores formadores da opinião, a percepção (individual ou coletiva) do clima geral de opinião, elemento que pode determinar ao menos a declaração das pessoas devido o medo do isolamento social. Em uma sociedade normal, poucos indivíduos têm força pessoal para contrariar uma ideia que se apresente como geral ou majoritária, enfrentando o medo do isolamento. Menos ainda em uma sociedade democrática, onde o peso dado à opinião é o de elemento chave na estrutura política, e tanto mídia quanto governo pedem, exigem, que o cidadão opine o tempo todo por meio de sondagens consecutivas.

No Brasil, as sondagens de intenções de voto podem ser feitas até mesmo um dia antes das eleições, o que em alguns países é proibido até 10 dias antes da votação. Isso porque é bem conhecido o poder persuasivo das sondagens. A “aposta no vencedor” não é apenas um efeito comum das sondagens, mas uma técnica comumente utilizada.

Elisabeth Noelle-Neumann pesquisou essa influência eleitoral entre as prévias e a apuração de votos nas eleições alemãs de 1976. Sua pesquisa deu origem a um dos maiores clássicos do estudo da opinião pública, o livro A espiral do silêncio: opinião pública, nosso tecido social, publicado pela primeira vez no Brasil em 2017, pela ed. Estudos Nacionais. Na ocasião, as pesquisas que apontavam determinada igualdade entre os dois partidos alemães, produziram uma virada no último minuto. Isso porque as pessoas se sentiram confortáveis para dar a própria opinião. Uma eleição apertada nas intenções de voto pode romper o efeito da espiral do silêncio.

Clima de opinião x opinião da mídia

A autora percebeu a existência de um outro fator importante: o clima duplo de opinião. Trata-se do confronto entre a percepção da opinião majoritária do público e o clima de opinião refletido nos meios de comunicação. Já no tempo de Noelle-Neumann, os jornais eram majoritariamente de esquerda. O Partido Social-Democrata era beneficiado pelas coberturas midiáticas, de maneira que o público tinha a clara percepção da preferência da classe midiática.

No Brasil, já está clara a rejeição midiática a Jair Bolsonaro, o segundo colocado se considerarmos Lula. Ao mesmo tempo, embora a mídia em geral não mencione o candidato petista por estar preso e legalmente inelegível, repete toda a agenda da esquerda em confrontos com Bolsonaro, quando trata de assuntos como desarmamento, direitos humanos, homofobia, racismo etc. Talvez a única pauta que a mídia realmente evite com todas as forças seja a questão do aborto.

A imagem e os eleitores de Bolsonaro

Longe de representar um fenômeno interno das redes sociais ou o “retrocesso” que a esquerda denuncia, o crescimento dos apoiadores de Bolsonaro se deve a um fato muito objetivo: aumentou a preocupação do brasileiro com a questão da segurança. E isso ocorreu por meio das redes sociais porque foi através da internet que, pela primeira vez, os dados de homicídios começaram a ser divulgados por influenciadores, o que confrontados com a realidade cotidiana de insegurança, produziu um verdadeiro tsunami de indignação. Junto com isso, os sucessivos escândalos de corrupção das últimas décadas incrementaram essa revolta e desolação com a classe política, o que Bolsonaro busca se opor. Em segundo lugar, é importante salientar que a opinião majoritária do brasileiro, em relação à segurança, vai muito na linha das posturas de Bolsonaro sobre pena de morte, posse de armas, invasões de terras etc. E mais importante: isso acontece inclusive em pessoas que o rejeitam como candidato, tanto por uma desconfiança em relação ao seu conhecimento sobre economia quanto por conta da proposital associação a extremismos por parte da mídia.

O crescimento do seu nome parece algo assustador para a “opinião pública” da mídia. Mas a rejeição por parte de jornalistas está comprometendo a própria credibilidade da mídia, ao invés de prejudicar a candidatura do capitão. Os seus eleitores dificilmente mudam de opinião devido algum fator novo, o que torna difícil a militância dos concorrentes. A espiral do silêncio, no caso de Bolsonaro, age na associação à ideia do outsider, com base em um discurso anti-establishment, semelhante ao que elegeu Donald Trump e tem feito crescer políticos conservadores em todo o mundo. Eles aproveitam uma onda de cansaço popular de uma elite que diz representar o monopólio da boa vontade enquanto força a submissão de países e segmentos religiosos em nome de utopias bem financiadas e cooperadas globalmente.

A imagem do candidato é construída com base nele mesmo e em suas propostas. E é com ela que o eleitor gostará ou não de estar associado e, mais do que isso, de parecer associar-se. Mesmo que na hora do voto ele opte por determinado candidato, o eleitor pode muito bem ficar a eleição inteira ocultando isso de todos se em seu próprio meio social ele não identificar possibilidade de acolhida das suas ideias. A aparência das ideias é, neste caso, mais importante do que a validade ou não delas.

Pouco podem fazer os concorrentes de Bolsonaro contra a imagem, construída ou real, de um candidato que não está envolvido em nenhum escândalo de corrupção em um país tão assombrado por escândalos. O máximo que tentam é confrontar a ideia de seu desengajamento político com o simples fato de ter passado décadas no legislativo, o que só termina por dá-lo oportunidade de falar de seus méritos no impedimento do avanço das pautas do establishment representado pelos próprios candidatos da esquerda.

Em qualquer entrevista ou debate no qual os candidatos de esquerda permaneçam aferrados às suas convicções e utopias, sem pensar no que o público simples compreende e deseja, Bolsonaro sairá fortalecido. Especialmente em um contexto eleitoral em que uma parcela considerável do público se informa pelas redes sociais, reduto de Bolsonaro e, de acordo com diversas pesquisas, o meio informativo no qual uma imensa maioria da população utiliza, principalmente os mais jovens, que votam pela primeira vez.

Bolsonaro representa uma onda irreversível na política internacional, que cresce na mesma medida que seus rivais se mostram aquilo que são. Dito de outro modo, a única alternativa para conter a maré conservadora é fantasiar-se de conservador, mais ou menos como a Rússia tem feito. Mas o globalismo ocidental já depositou dinheiro demais nisso e carrega convicções pesadas demais nas próprias utopias para que possa, a essa altura, desistir ou fingir ser o que não é.