Bolsonaro, Trump, Brexit e as origens dos erros das análises de conjuntura atuais

Bolsonaro, Trump, Brexit e as origens dos erros das análises de conjuntura atuais

11/09/2018 0 Por Cristian Derosa

A imagem de Bolsonaro sendo carregado pela multidão e certa polarização por parte de seus apoiadores parece gerar um clima de medo entre analistas que gostam de se ver como equilibrados. De posse deste suposto equilíbrio, que pode ser apenas um disfarce para uma indiferença, o analista pretende negociar certa credibilidade com o leitor. Mas o medo vem de uma imagem consagrada em nosso imaginário político, que é ditado por aqueles de quem realmente deveríamos temer.

Certas categorias de análise histórica já foram tão utilizadas que se converteram em chavões fáceis, que por isso mesmo são aplicáveis a tudo. Considerar a popularidade de Bolsonaro como populismo ou até fanatismo, como alguns dizem, é exatamente abusar de categorias a partir de simples associações superficiais, sem aprofundar nem um milímetro na natureza do fenômeno, dos seus agentes e contextos históricos, e principalmente do seu personagem. O analista de plantão vê a multidão e pensa “toda unanimidade é burra” e esta frase de efeito produz nele uma sensação de estar entendendo toda uma sociedade enquanto paira acima dela como entidade onisciente.

A verdade é que o medo da massa vem da elite liberal que teme ser expropriada pela massa revolucionária, que nunca existiu na realidade, exceto na cabeça de Karl Marx. Até os marxistas desistiram da massa, mas o liberal globalista continua a temer e desejar controlar. Por isso investe tudo em movimentos revolucionários, esperando ser devorado por último.

Historiadores do século XX popularizaram determinadas chaves de compreensão sobre os fenômenos de massa, associando-o aos autoritarismos e uma certa “ditadura da maioria”. Mas qual o erro de se aplicá-la ao retorno de um conservadorismo no mundo, como no caso de Trump, Brexit e, no Brasil, Bolsonaro? A verdade é que o início do século XX foi marcado pelo medo que as elites tinham da massa, devido sua maleabilidade, imprevisibilidade e possível autoritarismo. A destruição da alta cultura, prevista pelos marxistas da Teoria Crítica, viria a destruir toda a possibilidade de liberdade através da ideologia burguesa impressa no modo de produção, isto é, no capitalismo. Dito de outro modo, o medo da massa era justificado devido duas crenças básicas:

1) a profecia macabra de Marx, de que o proletariado (aquele que cria a prole) se multiplicaria numericamente e então faria a revolução, expropriando a burguesia e dividindo sua propriedade entre si (o comunismo); e

2) o Iluminismo pregava uma sociedade esclarecida, conduzida pela razão e, portanto, pelos mais racionais. A teoria democrática pregava que todo cidadão deve ter domínio sobre sua racionalidade para que possa discernir, deliberar e decidir os rumos da própria vida e da sociedade em conjunto, através de sua opinião individual, que vai formar a “opinião pública”. Por isso as eleições livres, assembleias populares, associações etc. A percepção de que isso era uma ilusão deu origem a outras medidas.

Contra a primeira consequência, o controle populacional foi a primeira e mais conhecida resposta dos que se viam no dever de tutelar o destino da espécie humana. Intelectuais como H. G. Wells escreveram sobre a sociedade do futuro e como domesticar, dar sentido às massas para que não se revoltem e sejam úteis à manutenção da ordem. Desta época são a maioria das teorias funcionalistas, baseadas em teorias positivistas e cientificistas, para o controle das paixões humanas e a ordenação da sociedade. Foi nesta época que surgiu, por exemplo, a Liga para a Reforma Sexual, baseados em estudos como os de Freud sobre a sexualidade, mas com o intuito de separar o sexo da procriação, dando assim, maior liberdade racional ao homem e racionalizando sua vida totalmente. A massa era vista como avessa à racionalidade e preferia costumes e tradições ao invés da ciência e do esclarecimento, algo que prejudicava a sua ascensão e emancipação racional.

Mas outros intelectuais, de linha marxista, perceberam que a exploração das paixões, ao invés da sua contenção, poderia ser mais útil para controlar as massas, dada a sua natureza, diziam, animalesca e rude. Não foi exatamente uma desistência da aposta na racionalidade dos iluministas, mas a adoção de um critério mais seleto para aquela utopia. Afinal, os iluminados e detentores da boa razão podem ser poucos, desde que o poder sobre o destino do mundo estejam em suas mãos para o bem de todo o resto. Ao invés da Reforma Sexual, propunham a Revolução Sexual. Ao invés de propor um poder pela repressão sexual e ordenação dos prazeres, optou-se pela utilização deles como moeda, uma moeda de alta inflação e distribuída largamente, para tornar as massas mesmas sedentas e desejosas de que o poder se mantenha nas mãos daqueles que os libertaram e libertam. Entram em cena os direitos sexuais.

Esta é a massa criticada por Ortega y Gasset, alienada por seus prazeres e crentes no direito político total, na superioridade do julgamento popular. A modernidade urbana trouxe facilmente a ideia do autoritarismo democrático, algo fácil de observar em diversas fases do século XX. Essa realidade não deixa de existir e trata-se de um fantasma da modernidade e da pós-modernidade. Mas o controle massivo não é um fantasma e sim um corpo muito vivo, hegemônico na política, economia e nas mentes de analistas políticos.

As velhas utopias liberais de controle estão no poder financeiro do mundo. Elas apenas aceitaram investir seu dinheiro na disseminação da crença da multiplicação milagrosa dos direitos e liberdades. Mas ao investirem nisso, acabaram deixando abrir-se um espaço que não contavam, que não imaginavam: a massa pode ser levada por intelectuais iluminados que eles não escolheram. Basta que eles abram espaços demais, como é o caso da internet. Talvez os globalistas tenham pensado que as pessoas iriam usar a internet para se alienarem ainda mais do mundo, mas o que aconteceu foi justamente o contrário.

Então, como um movimento de massas através das liberdades criadas pelos próprios instrumentos de controle, líderes e intelectuais que se rebelam contra a concentração de poder dos iluminados começam a surgir por toda a parte. Porque o livre fluxo de informação expôs uma estrutura que eles não queriam que fosse exposta.

É aí que está o erro de quem vê Bolsonaro sendo carregado pela multidão ou Trump sendo eleito, os ingleses querendo sair da União Europeia, e classifica como populismo, no sentido de uma enganação popular, uma exploração dos anseios populares. Eles preferiam que o povo estivesse fazendo sexo e comendo, assistindo a programas de auditório e se informando por seus âncoras engajados, pois assim permaneceriam na ignorância sobre a natureza real do poder. O que está acontecendo não é exatamente um esclarecimento geral. As pessoas não estão mais esclarecidas porque votam em Bolsonaro ou querem que seu país não obedeça a blocos ideológicos. Elas simplesmente estão fazendo essas opções porque as opções foram postas no seu caminho e as está matando. A grande massa não está com Bolsonaro porque ele é favorável a Israel ou porque se identifica com o conservadorismo, mas principalmente porque ele está propondo fazer as pessoas pararem de serem assassinadas.

Portanto, nem a ilustração emancipatória dos liberais iluminados é possível e nem o seu controle totalitário global é desejável. Mas analistas dos fenômenos globais preferem sentar-se na cadeira dessa elite e falar por ela, repetindo seus chavões e utopias como se fossem os anseios mais puros e naturais da sociedade aberta, do mundo globalizado, do século XXI ou da aldeia global.