Da liberdade nas redes sociais ao jornalismo agonizante e ressentido

Da liberdade nas redes sociais ao jornalismo agonizante e ressentido

21/08/2018 1 Por Cristian Derosa

São 42% dos eleitores que se orientam politicamente pelas redes sociais, contra míseros 6,3% que ainda recorrem aos jornais impressos. Será que os jornais ainda servem para alguma coisa?

Tenho a impressão de que existe uma porcentagem desconhecida, mas facilmente verificável, de pessoas que assinam e compram os jornais para servir de forro para a cama do gato ou do cachorro. Parece brincadeira, mas já conheci tantos que já não tenho o direito de considerar um fenômeno raro. Deixaremos de fora das estatísticas enquanto não temos números seguros. Mas que las hay, las hay!

Não é o fim do papel, não é o fim do livro, como previram os apocalípticos profetas do fim do segundo milênio. Mas uma parcela considerável dos jornais está ficando obsoleta e não é por conta da sua matéria-prima. Existem motivos para acreditar que o motivo disso está ligado ao seu conteúdo e à sua postura soberba, claramente ressentida com a realidade.

A verdade é que, obstinados por transformar a realidade, os jornalistas e editores profissionais acabaram se perdendo e se desconectando da sociedade como ela realmente é. Basta ver a postura que assume toda a mídia diante do candidato Jair Bolsonaro e do fato de sua liderança nas intenções de voto.

Este é um resultado de um fato evidente: o jornalismo tradicional tem se mostrado inútil contra o crescimento das redes sociais quando o assunto é engajamento e informação. Da parte das redes, parece óbvio que reúnem todas as condições para a prática daquilo que os jornais só podem prometer. Da parte dos jornais, creio que tentei apontar no meu livro A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (2016), que fala da mudança gradual da função da informação para a transformação, o que foi incrementado com a influência do Terceiro Setor que é mantido por grandes organismos internacionais impulsionadores de agendas de longo prazo.

Os leitores cansaram de insistir em veículos que não estão nem aí para eles. Mas se os jornalistas se tornaram inúteis para a informação, não estão indiferentes à sua própria queda. As estratégias de retorno são muitas, mas todas igualmente inúteis porque teimam em admitir a obviedade do fracasso do projeto do jornalismo engajado e progressista. Preferem calar as redes sociais, tachando-as de fake news, do que correr atrás do prejuízo e começar, enfim, o mea culpa.

Se pensarmos bem, não se trata propriamente de uma estratégia: é um espernear frenético fruto de ressentimento que pensa apenas em calar o adversário. O fato é que as redes ganharam o público que era dos jornais. Não basta enxertar credibilidade à força nos canais tradicionais de seus veículos. Como diria Marshall McLuhan, o meio é a mensagem. O crescimento das redes sociais mostra de que maneira a frase de McLuhan é verdadeira. Só as redes sociais geram engajamento e resposta, criando uma sensação de respeito pela opinião e pluralidade das ideias, coisa que a mídia tem a cada dia se esforçado para limitar. Os sites dos grandes jornais não mantém mais campos para comentários, tamanho é o medo de serem achincalhados.

A Folha de São Paulo, em parceria com o Facebook, começou a campanha contra o fake news através de seus fact-checkers para deslegitimar as redes na tentativa de atrair de novo a credibilidade para seus canais. Enquanto limitam a interação e deletam comentários, ajudam a censurar páginas e calar perfis que ousem influenciar a sociedade mais do que eles, repetem belos slogans moralistas. Nunca se falou tanto em pluralidade, tolerância, diversidade e respeito. Não estão apenas mentindo. Estão sujando o ambiente na esperança de que suas imagens pareçam limpas. Os jornalistas criaram uma nova atividade, o fact-checking, tamanho o descrédito do jornalismo tradicional.

Há épocas de especial relevância para a informação (ou chamamos de transformação?) da grande mídia, embora na maior parte do tempo se possa muito bem viver sem ela. É possível ignorar a militância midiática por longo tempo, afinal, ela serve para quase nada exceto para o deleite de seus próprios membros. Não há público mais fiel à credibilidade dos jornais que os próprios jornalistas, que precisam o tempo todo de reforço psicológico do que chamamos grande mídia para dar crédito ao que escrevem. “Se ficou parecido com O Globo é porque está bom”, pensa consigo o editor da tribuna municipal. Deixamos eles se divertirem, contanto que não projetem suas utopias progressistas sobre o prognóstico do trânsito nos horários de pico ou sobre o resultado de jogos de futebol. Mas em épocas de eleição tudo pode mudar: a orientação política em um país de voto obrigatório e crise permanente é como a previsão do tempo. Os eleitores são obrigados a buscar algum nível de orientação e isso torna a imprensa algo necessária. Mas só nessa época.

São 42% dos eleitores que se orientam politicamente pelas redes sociais, contra míseros 6,3% que ainda recorrem aos jornais impressos, segundo pesquisa do Instituto Paraná. E os jornais impressos são ainda a fonte de renda principal das grandes empresas de mídia, que precisam atender seus anunciantes. Isso significa que essas empresas permanecem engessadas ao modelo impresso e tradicional e embora haja certa diversificação com a internet, ainda é pouco. Do percentual dos que se informam pelas redes, 48% tem entre 16 e 24 anos, ou seja, o público mais jovem e que votará pela primeira vez. Entre os mais velhos, 7% ainda se orienta pelos jornais impressos (ou talvez os assine por hábito, mas quem os consuma sejam seus animais).

Mas se leitores se distanciam de jornais, também jornalistas se fastam de leitores: o tom das matérias da grande mídia é absoluta surpresa e revolta com fatos que seriam totalmente previsíveis, como o crescimento de Jair Bolsonaro nas pesquisas. Quem quer que ande nas ruas por uns minutos e converse com meia dúzia de brasileiros sabe que Bolsonaro encarna as opiniões da maioria deste país. Não deveria surpreender a sua liderança de intenções de voto. Mas a verdade é que os jornalistas só têm saído à rua com tampões nos olhos e ouvidos, com o único intento de confirmar suas próprias convicções.

Dinheiro e conteúdo vindo de fora

Nas últimas décadas, um incremento na renda dessas empresas veio do Terceiro Setor, defensor de agendas baseadas em utopias. As empresas precisaram se adequar às exigências de um setor cheio de dinheiro, vindo das fundações internacionais como Ford, Open Society etc, que desejam ver modificados os costumes dos países nos quais despejam pomposos investimentos.

Por este motivo, Google, Zuckerberg e Dorsey (Twitter) sabem que precisam domesticar a opinião pública que pensam que têm em suas mãos para ceder à pressão de homens como George Soros e as fundações representadas por ele e a elite da esquerda financeira mundial. A censura nas redes sociais é uma pressão clara vinda de cima, dos generais investidores da mídia, verdadeiros anunciantes não de produtos mas de ideias, que comandam a comunicação global, porque desejam comandar a política global.

A classe jornalística operária se vê tristemente como protagonista enquanto nada mais é do que a senzala dos banqueiros de Wall Street ou do The Economist, imaginosos de um maravilhoso mundo novo, cheio de tolerância, que pretendem construir sobre os esqueletos da liberdade das nações e dos indivíduos que não se encaixem em seus formidáveis discursos cheios de slogans e sorrisos.