A esquerda prepara um governo das sombras no Brasil

A esquerda prepara um governo das sombras no Brasil

14/08/2018 2 Por Cristian Derosa

O discurso do golpe e a insistência na candidatura ilegal de Lula é um sinal óbvio de que a esquerda deseja montar um governo paralelo, um gabinete presidencial nas sombras presidido pelo preso político ungido Lula da Silva

Se “eleição sem Lula é golpe”, qualquer governo vindo desta eleição é golpista e falso, sem legitimidade perante a esquerda, que terá com isso todas as armas justificadas para a desobediência total de qualquer decisão, seja judicial, política ou moral, sem os inconvenientes como os quais teve de lidar nos últimos 15 anos.

Preso político, candidatura impedida, liderança nas pesquisas, consenso na esquerda, tudo isso somado aos adornos simbólicos associados ao sindicalista lendário. Lula não foi perseguido na ditadura, período chave para a simbologia da esquerda. Mas está sendo agora. Eis a nova chave.

Lula escreve da cadeia um artigo de opinião, que é publicado pelo New York Times: “Eu quero democracia, não impunidade”, diz o título. Nele o ex-presidente e atual presidiário diz estar em curso um “golpe da direita”, representado por Sérgio Moro. Ao escrever da prisão diretamente para um jornal de esquerda dos EUA, Lula também dá recado para a mídia brasileira que colocou a esquerda no poder. Em seu governo das sombras, esta também é ilegítima, por não tê-lo defendido a tempo contra as “forças da direita”. A sua prisão, segundo ele, foi “a última fase de um golpe em ‘camera lenta’ destinado a marginalizar permanentemente as forças progressistas no Brasil”. Ressalta que todas as sondagens confirmam o seu primeiro lugar nas intenções de voto.

Ao acusar “o golpe” de querer criminalizar a esquerda, acusam o inimigo de fazer justamente o que eles mesmos fazem: a situação de perseguidos, ilegais, dá a esquerda a justificativa que mais desejam para partir para uma nova fase revolucionária, ao não reconhecer qualquer governo que se estabeleça pela ilegítima “eleição sem Lula”. Como tudo na esquerda é dialética, ela começa a jogar com a possibilidade da ilegalidade, da situação de exilados e perseguidos, para inspirar os militantes a atos de terror.

Tanto a sua falsa candidatura quanto a alegação de que seria um preso político caminham no mesmo sentido, perante toda a esquerda: o de não aceitar aquele estamento burocrático do qual se serviu por mais de 15 anos. Evidentemente, tudo não passa de criação de discursos que fortaleçam a militância e enobreçam suas justificativas. A união das esquerdas no nome de Lula tem o significado de uma aclamação, uma unção popular que defina o governo paralelo erigido não por Lula, mas pelos milhares de “lulas” entronizados na cerimônia de unção feita horas antes de sua prisão, ponto mais alto da estratégia.

O comício final de Lula, chamado também de missa, pretendeu ser uma cerimônia de coroação do rei do Brasil, à moda dos reis absolutistas com direito a bispos e bênção do clero da corte, sem a qual nenhum governo pode ambicionar legitimidade. Esquerdistas dentro da Igreja Católica sempre disseram com veemência: a Igreja não erra e seus frutos não podem ser maus. O PT é um deles e está predestinado a governar o Brasil.

O motor desse novo governo, assim como o de todas as revoluções, são seus símbolos materializados na história, mas que se tornam presentes em cada ato revolucionário, assim como a personalidade política de Lula, encarnada no corpo moribundo de um Boulos ou um Haddad.

Qualquer candidato eleito será ilegítimo. Mas no caso de Bolsonaro, o capitão terá de lidar com uma militância mil vezes mais fortalecida (ao menos fisicamente valente) devido o incremento simbólico que torna essa eleição a reedição de 1964. A má notícia para a esquerda é que Bolsonaro não é bem o tipo de político que temeria ser chamado de ditador, o que deixaria (e já está deixando) a mídia cansada dos seus métodos de estereotipagem.

A simbologia do golpe

O mais importante símbolo da esquerda brasileira, desde 1964, é o golpe. Este mito fundador das lutas da esquerda funciona como uma “Paixão de Cristo”, que ocorreu na história, mas ao tempo não se restringe. Ao longo de todos os governos após o regime militar, a esquerda repetiu os chavões do golpe, aumentando-o e alertando da sua presença virtual e simbólica. Governos como o do marxista FHC eram qualificados de golpistas e as universidades se comportavam como se vivessem os horrores dos “porões da ditadura”. O intervalo dos governos petistas enfraqueceu a mitologia e precisou refugiar-se em jargões patrióticos ou regionalistas dos sonhos da “pátria grande”. Mas fortaleceu-se pastoralmente, arrebanhou militâncias pagas pelo dinheiro público nos órgãos do governo e nas universidades, no meio artístico. Mas ficou fraco de justificativas. O Impeachment e a prisão de Lula deram à esquerda o fôlego que precisavam e volta a onipresença das palavras de ordem com força concreta: “fora Temer”, “Eleição sem Lula é golpe”.

Basta ver a insistência dos jornalistas da grande mídia no tema 1964. De fato, um marco não apenas histórico, mas concreto e presente a todo instante na cabeça do esquerdista. Isso não é a toa.

Para eles, 64 repete-se a todo momento. Quando o empregado recebe o seu salário injusto, é alienado de seus direitos, recebe uma reprimenda do patrão, não consegue pagar as contas no fim do mês, é discriminado por ser pobre, por ser negro, homossexual… Tudo isso é 64 repetindo-se em uma transubstanciação temporal concreta, simbólica, mas não alegórica. O símbolo é presença real.

Eleição sem Lula é 1964. Como o reflexo individual de uma realidade escatológica, um vislumbre do movimento dos astros, dos motores que movimentam os céus da cosmologia tradicional (ou seriam dos círculos infernais?). É certo que o PT virou uma seita. Mas uma seita do alto clero de uma religião exotérica, praticada por uma grande população de militantes que se encontram até mesmo dentro da Igreja Católica, usurpada como religião oficial do estado confessional petista.

O Estado Católico brasileiro, segundo Luis Mir, em seu livro O Partido de Deus, é o estado petista criado pelo consórcio CNBB-PT, por meio da ainda onipresente Teologia da Libertação, que se atualiza em versões mais discretas, mas profundamente políticas.

Um governo das sombras está sendo montado para ser presidido de qualquer lugar, seja do Instituto Lula ou da prisão, assim como foi mantido durante o regime militar, mesmo que imaginariamente, pelos militantes da luta armada.  Essa repetição eterna tende a ser a tônica da estratégia da esquerda em qualquer lugar do mundo. Resta saber se o governo eleito terá força suficiente para fazer o que os militares do passado não fizeram: criar anticorpos populares contra a retórica revolucionária para que estes movimentos caiam finalmente no descrédito de onde jamais deveriam ter saído.