A “doença antipetista” e a espiral do silêncio da esquerda

A “doença antipetista” e a espiral do silêncio da esquerda

09/04/2018 0 Por Cristian Derosa

Diante da “pressa para a prisão de Lula”, como disseram alguns, os petistas não compreendem a raiva, o ódio, a obstinação da “direita” contra a pessoa de Lula e o partido. Acusam um fenômeno patológico: a doença antipetista. De fato, parece inexplicável (e até doentio) que a pessoa de Lula seja tão odiada por “setores poderosos” (o povo brasileiro inteiro) somente por causa de um apartamento e ou um sítio que era dele, mas que não era. É que essa é uma doença brasileira: o horror moralista a certos desvios de conduta enquanto aceita uma vida inteiramente contraditória. A verdade é que Lula fez coisas muito piores do que isso e muita gente sabe. Mas as acusações, a condenação e prisão tiveram sua motivação naquilo que foi possível no momento, o caso do triplex e do sítio de Atibaia. Isso é o que muita gente esquece de propósito.

A verdade é que o brasileiro fica horrorizado com a corrupção quando indica o lucro individual, mas não parece se importar quando ela serve a uma ideologia que matou 100 milhões de pessoas, ao longo do século XX, e é cúmplice de 70 mil homicídios anuais.

Todo mundo conhece a história de Al Capone, mafioso que controlava o crime organizado, culpado de uma infinidade de mortes, sequestros e todo tipo de crime, mas foi preso por sonegação de impostos devido uma denúncia do seu próprio contador. Esta é precisamente a situação de Lula. Se fosse hoje e no Brasil, o caso de Al Capone levantaria uma onda de indignação moral contra o que? A sonegação de impostos. E teríamos que lidar com a tensão subterrânea em nossa consciência, por termos feito vista grossa a crimes horríveis enquanto puníamos os menores. Essa situação gera uma dissonância cognitiva que é capaz de converter um indivíduo em um mentiroso contumaz para ocultar a contradição que pesa em sua consciência.

Verdadeiros crimes: de Lula e dos brasileiros

Vigora uma verdadeira espiral do silêncio sobre o que verdadeiramente representa o PT. Virou coisa de teórico da conspiração falar em ideologia comunista, em globalismo e idéias totalitárias. Gente como o historiador Marco Antônio Villa, formador de opinião com o qual a maioria da classe média brasileira se identifica, prefere sempre focar no banditismo, divorciando-o da ideologia e fazendo-a parecer até aceitável.

Vamos ao fato:

Lula criou, junto de Fidel Castro, a maior organização internacional de influência política, arregimentando partidos e organizações terroristas em um único intuito de controlar os governos de toda a América Latina, plano que chegou a funcionar durante o primeiro mandato petista. A criação do Foro de São Paulo, em 1990, fez do Brasil e de outros países do continente, joguetes nas mãos de forças internacionais. Pela Constituição Federal, não é permitido a um partido político estar submetido a uma entidade exterior, menos ainda a uma entidade quase secreta, sobre a qual toda a imprensa fez um silêncio obsequioso de mais de 20 anos, para permitir que o organismo crescesse a tal ponto que fosse impossível conter a sua ação e influência. Mas para o brasileiro médio, indignado contra os “super-salários”, isso é teoria conspiratória, desconversa ou apenas “a parte boa” de um idealismo bem intencionado. Muitos dizem até que Lula não têm ideologia e que é “só ladrão”. Isso não difere muito da opinião da filosofa petista Marilena Chauí, para quem o Mensalão foi uma “corrupção do bem”.

Mas para fazer valer o poder do Foro de São Paulo sobre o Brasil, foi preciso subornar centenas de deputados para que votassem a favor dos projetos de interesse regional (internacional). Esse uso do dinheiro público não serviu para enriquecer nenhum petista, mas para fazer valer os seus projetos, coisa que a maioria dos antipetistas nem sabe do que se trata e só grita de dor pelos seus sintomas. O crime do PT, para eles, foi enriquecer esses deputados. Portanto, é o brasileiro, e não o PT, quem reduz a política à roubalheira. O PT sabe que o importante é influência e ideias, por isso prefere dar dinheiro para comprar consciências. Lula disse claramente em seu discurso: “eles pode me prender, mas não vão prender as ideias”.

A compra de consciências não é um crime hediondo para a maior parte dos brasileiros, mas sim a sua venda. É evidente que as duas são criminosas. Mas a diferença entre o corrupto e o corruptor parece grande demais para ser abarcada pelo moralismo superficial de um povo que, em sua maioria, está mais preocupado com a aposentadoria e na tão sonhada garantia da estabilidade financeira do que em ter a dignidade da liberdade de consciência para, no fim da vida, poder dizer que foi digno da própria pobreza material. Não: pobreza material, para este brasileiro, é culpa do governo, que nos deve benesses sociais ao ponto de não precisarmos nem limpar o próprio traseiro.

A verdade é que esse brasileiro de direita médio adoraria uma carga tributária alta, desde que os “serviços funcionassem”. Ele quer mesmo um paizão-estado, bunda-mole, e uma mãe gerentona (a Dilma) que mande no pai em favor dos filhinhos coitadinhos. Queremos ser mimados. O coitadismo e a exigência de moralismo assistencialista está no nosso sangue. Por isso não conseguimos, nem de longe, vislumbrar os verdadeiros crimes do PT, que financia com dinheiro (roubado do povo, eis só o crime que veem!) para nos fazer escravos de camarilhas ideológicas e tiranetes latino-americanos que recebem ordens da elite financeira da esquerda mundial.

 

Uma espiral do silêncio e a Igreja Católica

O PT diz falar em nome dos pobres. Por isso, ninguém quer parecer falar contra o pobre, contra os direitos sociais, contra a democracia. Enquanto não estiver em nosso horizonte de consciência a malícia esquerdista do uso de expressões artificiais e jargões para conquistar os corações arrependidos e culpados da classe média, estaremos sempre repetindo, com medo e condescendência, todas as propostas petistas e esquerdistas com a única ressalva de que não sejam eles a fazer as “mudanças necessárias”. O discurso temeroso de parecer “direitista”, de parecer cruel (e tudo o que a esquerda associa à direita), nos fará eternamente escravos da linguagem da esquerda, aquela mesma usada por bispos católicos, muito moderados, para despistar seu esquerdismo na forma de uma espécie de “pensamento complexo” neutro, que paire acima de todas as coisas.

É assim que a própria Igreja Católica no Brasil, historicamente envolvida no avanço da esquerda neste país, propõe agora salvar esse esquerdismo da aniquilação. Porque a direita brasileira, com sua costumeira matiz militarista e jurídica, quer apenas punir os delitos, os antinacionailsmos, teimando em “desver” o que viu e atribuir à esquerda a sua própria estupidez. Essa direita pode até chegar ao poder. Mas o perderá em pouco tempo, porque o seu modo de lidar com discursos é a prisão, a bala, o grito, o brado retumbante. Essa direita será sepultada antes de ter alguma visibilidade no horizonte de consciência da massa, aquela que tem fome e sede de justiça e continuará ignorada, tanto pela esquerda quanto pela direita. E principalmente pela Igreja Católica do Brasil, que prefere sempre deitar-se eternamente no colo da ideologia dos mais poderosos, especialmente quando usam o nome dos pobres para se fazer de bonzinho.