Bela como a virtude é a verdade

c-south-portalO filósofo alemão Richard Egenter já alertava, em 1950, que de todos os erros e heresias que se abateram sobre o cristianismo, um dos mais perigosos é o mau gosto. Em seu livro O mau gosto e a piedade cristã, o autor deixa claro que o mau gosto polui a expressão e a contemplação artística e com isso esteriliza a alma para a identificação da Beleza, que forma junto com a Verdade e a Bondade, as três colunas do edifício da fé em nossa condição humana. Com este edifício manco, sem uma perna, suas outras colunas de sustentação desaparecem e sobram somente palavras, letras e uma doutrina invisível e insensível.

Mas ao contrário do que parece, tal como alerta Egenter, não estamos falando em estabelecer padrões fixos baseados na tradição da arte sacra de maneira imutável, pois embora isso seja necessário em nosso tempo (e por isso tão combatido pelas excrescências artísticas da modernidade), isso significaria também um tipo de esterilização ou cerceamento da criação artística. Acontece que criação artística genuína não há mais entre nós desde que a modernidade soterrou a arte para debaixo do critério da originalidade, da surpresa, da crítica, da revolução estética.

Algumas pessoas reclamam de missas heréticas, barulhentas, em igrejas cada vez mais feias e disformes, de uma arquitetura futurística ou utilitária, em padrões que muitas vezes, mais do que não refletir a fé católica, chegam a invertê-la em sentidos verdadeiramente satânicos. Mas damos mais importância às palavras proferidas nas homilias, erros doutrinais, imprecisões que levam a interpretações ideológicas típicas do nosso tempo sem percebermos que a causa disso está no primeiro problema: o mau gosto estético historicamente consagrado gradativamente rouba da inteligência a possibilidade da iluminação pelo Espírito Santo. Ou, no mínimo, essa luz virá sob formas incompreensíveis e, portanto, não permanentes, pois dependentes do sensível extemporâneo.

Deus tudo pode, é verdade. E de fato tudo faz, tudo providencia, a despeito do esforço humano para a própria decadência por meio dos seus costumeiros consentimentos à lógica do diabo. É por isso que Deus atua mesmo assim. Mas essa atuação vai se tornando a cada dia mais incompreensível para nós e o amadurecimento da fé vai se tornando mais e mais difícil.

Diria a tradição protestante que, se Deus disser que dois mais dois são cinco, então essa será a verdade. Ou seja, não é possível a nós acessar a verdade pela razão, mas somente por meio da Palavra de Deus. Mas a tradição católica em seu magistério oferece séculos de comprovação de que muito da verdade pode ser alcançada por meio da inteligência humana concedida pela Graça e iluminada pelo Espírito; porque a letra é morta, porque a Palavra é viva. Faltando-nos a coluna da Beleza sensível, perde-se a sensibilidade para o esforço da aproximação de Deus por meio do completo edifício da fé, coisa que noutros tempos resultaram em imensas catedrais, obras magníficas da arte sacra, cantos verdadeiramente angélicos, etc.

Michael S. Rose, em seu livro Ugly as Sin (Feias como o pecado), fala da decadência estética das catedrais e aponta algo imprescindível para entendermos a importância da beleza das catedrais: centenas e milhares de obras da literatura, poesia e a arte universal, foram inspiradas pelo ambiente criado nas catedrais, que por sua vez inspiravam-se em um anseio permanente de retratar as igrejas como portas da Jerusalém Celeste, verdadeiros portais do Paraíso.

Diz Egenter:

“O mau gosto dominou quase totalmente a vida cristã dos últimos cem anos e é culpado, pelo menos em parte, do afastamento religioso das massas. Há muita coisa que desculpa a insegurança temporária para com a essência da verdadeira arte e a ausência passageira de grandeza humana numa hora histórica em que o homem colectivo se dispôs a superpovoar a terra. Mas não subsistirão pecados de omissão naqueles que tinham olhos para ver e não viram?”

Ao longo do século XX, muita sensibilidade se perdeu a pretexto de enaltecer uma específica, uma típica sensibilidade temporal e mundana. Chamá-la de mundana, porém, não diz muito. Do mundanismo poderiam brotar frutos, mas não deste mundanismo, que é a esterilidade como uma fumaça de Satanás. É o mau gosto aquela fumaça denunciada por Paulo VI.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta