Meios de transformação social (parte 1): o Dr. Pool e a Cybercultura

Ithiel_de_Sola_Pool,_1983Uma reflexão operatória inscrita nos bastidores da Guerra Fria: o equilíbrio do poder, a segurança coletiva, o governo mundial. A pressão é tão forte que Ithiel de Sola Pool, professor do MIT, não hesita em empenhar-se, a pedido do Pentágono, na formulação de um modelo que alimenta estratégias contra-insurrecionais na Ásia e América Latina1. (Armand Mattelart)

Trata-se do modelo Agile-Coin (Coin é uma contração da palavra counterinsurgency), de autoria de Ihiel de Sola Pool, um cientista político e pesquisador de ciências sociais de Nova York que foi presidente da Universidade de Chicago em 1929. Trotksista na adolescência, Pool desiludiu-se com a política revolucionária por acreditar que os líderes comunistas eram muitas vezes manipulados por símbolos e imagens idealistas e acabavam estabelecendo regimes que restringiam a liberdade das pessoas, o que ninguém podia concordar.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Pool se juntou a dois de seus professores, Harold Lasswell e Nathan Leites, em Washington DC, em um grande projeto de pesquisa sobre a propaganda nazista e comunista. Pool já gozava de boa reputação devido o seu trabalho sobre os símbolos da retórica democrática, pesquisa fundamentada na análise de discursos políticos de líderes nas democracias e em estados totalitários. Sua experiência pessoal em estudos de psicanálise reforçou seu interesse pela psicologia profunda, cujos princípios subjacentes a seu trabalho em psicologia política, como em Newsmen’s Fantasies, Audiences, and Newswriting (1959). Estes trabalhos forneceram importantes bases para o seu mais influente ensaio: A dissuasão como um processo de influência (1969), considerado um argumento profético nas políticas de controle de armas nos EUA. Pool fez importantes previsões a respeito da convergência entre tecnologia e comunicação de massa, incluindo o que se chamaria depois de sociedade da informação global.

Interessava-se por análises quantitativas de comunicação e ajudou a desenvolver modelos matemáticos e computacionais para estudar o comportamento político. Em um de seus ensaios, O Czar e o computador (1965), propôs a primeira simulação por computador para tomadas de decisão e percepção que servisse de modelo para análises de crises internacionais. Vemos como a grande jogada desta nova geração de intelectuais foi possibilitar uma mudança na linguagem das pesquisas, ao substituir expressões como manipulação da opinião por “gestão de crises”, consenso etc. Essa mudança de tom trouxe muitos novos pesquisadores a aprofundarem análises que traziam belas justificativas sempre de aparências bem intencionadas ou científicas, o que muitas vezes iludia os próprios pesquisadores envolvidos e distraindo-os do fluxo institucional que os unia aos seus financiadores e predecessores bem menos sutis. Este cinismo institucionalizado encontra seu ápice no meio acadêmico dos nossos dias.

O Dr. Pool foi membro do CFR (Council Foreign Relations), aconselhou os EUA durante a Guerra Fria e foi agraciado com o prêmio Woodrow Wilson de melhor livro de ciência política, publicado em 1963, com o título Candidatos, questões e estratégias (Candidates, Issues and Strategies). Já no fim da vida, em 1983, escreveu Technologies of freedom, um estudo sobre o impacto da tecnologia emergente para a transformação da vida social e política. Pouco antes de morrer, Pool liderava uma luta em favor da liberdade acadêmica contra os esforços governamentais que pretendiam impor limites a pesquisas envolvendo seres humanos em áreas social e médica2.

Pool foi um dos primeiros a chamar a atenção para o impacto das tecnologias nos sentimentos das massas e dissertou, entre outras coisas, sobre a questão do “livre fluxo de comunicação” entre as nações. Este assunto é caro aos engenheiros da comunicação de hoje, pois tem relação com o atual debate sobre as políticas nacionais e globais e a validade ou não dos modelos baseados neste paradigma que é visto pela elite globalista como “não tão livre” por supostamente basear-se em uma lógica de mercado*.

O pioneirismo de Pool não está somente na percepção de um fenômeno real que crescia com o uso incontrolável dos meios de comunicação, mas em sua façanha de representar um ponto de união entre os funcionalistas-sistêmicos e típicos engenheiros sociais da metade do século XX, com a percepção de um potencial uso político para o que hoje chamamos de “convergência”. Henry Jenkins, no livro Cultura da convergência, atribui a Pool esse conceito como sendo “um poder de transformação dentro das indústrias midiáticas”3.

Jenkins, dessa forma, seleciona em seu livro um trecho do clássico de Pool:

Um processo chamado convergência de modos está tornando imprecisas as fronteiras entre os meios de comunicação, mesmo entre as comunicações ponto a ponto, tais como o correio, o telefone e o telégrafo, e as comunicações de massa, como a imprensa, o radio e a televisão. Um único meio físico – sejam fios, cabos ou ondas – pode transportar os serviços que no passado eram oferecidos separadamente. De modo inverso, um serviço que no passado era oferecido por um único meio – seja a radiodifusão, a imprensa ou a telefonia – agora pode ser oferecido de várias formas físicas diferentes. Assim, a relação um a um que existia entre um meio de comunicação e seu uso está corroendo4.

Jenkins dá um caráter universal ao processo percebido por Pool na década de 1980, algo que agora pode ser observado com muito maior clareza. Esse caráter universal relaciona-se à criação de universos de pensamentos, atitudes, produtos, etc, formados a partir de determinados objetos capazes de mobilizar várias pessoas ou públicos a um mesmo propósito desenvolvendo a compreensão ou acrescentando ideias a estes objetos ou signos.

Não há oposição real, portanto, entre os enfoques funcionalistas, sistêmicos com aquilo que muitos consideram meros devaneios esquerdistas ou o niilismo dos estruturalistas e sócio-construtivistas linguísticos. Embora estes últimos insistam em uma ênfase nas descrições e nos juízos atemporais, quer dizer, radiografias detalhadas e desinteressadas da realidade estática, eles parecem conhecer como ninguém os caminhos tortuosos dos métodos de engenharia oriundos dos “engessados” modelos matemáticos, para os seus fins tão aparentemente “emancipadores” e libertários.

Cientistas como Pool tiveram ainda uma outra contribuição importante para a efetividade das técnicas sociais como hoje as conhecemos. Diferente das visões monopolistas das grandes corporações de mídia americanas, que passaram a primeira metade do século XX a negociar com agencias estatais como a FCC (Federal Communications Comission) por regulações a seu favor, Pool era um inimigo mortal dos controles estatais. Não era só pelas pesquisas com seres humanos em centros médicos universitários que ele advogava uma tal independência (neste caso tão questionável). Noutras áreas, como a das empresas de comunicação, Pool foi defensor de políticas descentralizadoras que estimulassem o que acreditava ser um processo inevitável de liberdades. Em Technology of Freedom, o autor do manual de comunicação internacional mais lido e premiado dos EUA depositava suas crenças em uma integração salvadora do homem com os meios de comunicação, o que a cada dia parecia mais integrado aos meios tecnológicos. Pool parece ter sido um pesquisador bastante atento ao momento histórico.

Esse processo de descentralização econômica que ocorreu aparentemente na contramão dos desejos monopolistas das empresas de mídia durante o final do século passado, contribuiu para o desenvolvimento tecnológico e econômico das comunicações, da TV e posteriormente da Internet. De um lado, isso ocorria devido um clima geral de desejo por independências comerciais em uma época de estagnação criativa e também devido à necessidade de demonstrar uma maior agilidade e vigor econômico em comparação com o gigante pesado que era a União Soviética5. Em decorrência disso, o mundo viu uma espetacular renovação econômica devido principalmente à explosão do consumo no final da década de 1970 e início dos anos 80, algo que o mundo nunca vira antes. A maior mudança daquele período, no entanto, se deu menos na economia do que no imaginário. De alguma forma, Pool anteviu muitas das transformações relacionadas à comunicação de massa.

Mas o objetivo pretendido pelos defensores da economia descentralizada não parece ter tido êxito. Os meios de comunicação permaneceram nas mesmas mãos justamente porque, na contramão da descentralização econômica, a política experimentava uma formidável centralização. As Nações Unidas acumularam um poder inigualável graças às realizações políticas conseguidas com a ajuda dos estudos nas áreas da comunicação social global e relações internacionais, como aqueles realizados por Lippmann, Le Bon e, entre outros, o Dr. Pool.

Há muitos fatores que concorreram para essa centralização, muitos deles serão tratados no capítulo seguinte. Mas é importante percebermos o quanto nem mesmo os cientistas ligados às perspectivas mais técnicas ficaram imunes às utopias revolucionárias que se ligavam tão perfeitamente ao deslumbre diante do avanço tecnológico que as comunicações vivenciaram durante o século passado. Se no século XIX os desejos controladores dos intelectuais calçaram-se em grande parte na impressão caótica produzida pelo crescimento dos centros urbanos e o aparecimento de uma opinião pública influente, o século seguinte pôde incrementar aqueles desejos através de instrumentos técnicos que geraram um estimulante clima de reflexão. Estas reflexões oscilaram evidentemente entre o otimismo incorrigível dos deslumbrados com os avanços tecnológicos e os pessimistas crentes no colapso fatal a que uma derradeira revolução tecnológica entregue às mãos das massas podia nos levar. Tal como os primeiros matematizadores do Iluminismo, esses matemáticos da comunicação, tecnicistas autênticos, enveredam facilmente a um universo de misticismos e delírios proféticos que, não obstante, puderam ser bem aproveitados e até renderam fabulosos avanços nas técnicas para manipulação da mente humana sempre financiada por grandes instituições.

Parece necessário compreendermos o progresso dos estudos da comunicação de massa como um desenvolvimento paralelo de diversas tendências, inicialmente até opositoras, mas que aos poucos acumularam um repertório científico e técnico formando o todo do conhecimento hoje disponível ao uso dos engenheiros sociais.

1Armand e Michele Mattelart. História das teorias da comunicação.

2American National Biography, Oxford University Press.

Link: http://web.mit.edu/m-i-t/profiles/profile_ithiel.html

3Henry Jenkins. Cultura da convergência (2006)

4Ithiel de Sola Pool. Technology of freedom (1986), p.112; Citado do livro Cultura da convergência, de Henry Jenkins (2006), p.35.

5Tim Wu. Impérios da comunicação, p.199

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
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