Ter filhos é mais arriscado que abortar? Mitos e verdades

Ter filhos é mais arriscado que abortar? Mitos e verdades

17/09/2018 0 Por Marlon

Artigo da Dra. Priscila Coleman mostra o que está por trás do argumento de que ter filhos poderia trazer maiores riscos para a mulher do que abortar, nos EUA. Este argumento é recorrente dentro de parte da militância pró-legalização do aborto mas baseia-se em dados distorcidos para favorecer interesses.

Em prol da agenda do aborto, militantes e pesquisadores maximizam os riscos inerentes aos partos e manipulam os riscos relacionados ao aborto, visando criar uma narrativa que induza a opinião pública a pensarem que abortar seria uma medida de mitigação de riscos, mesmo em gestações normais.

Repare que não se está tratando dos casos de grave risco para saúde da mulher (ameaça iminente), que são extremamente raros. Tratam-se de gestações normais, com ou sem condição sinais de alerta como pré-eclâmpsia, pressão alta, diabete gestacional e outros.


Mortalidade materna por aborto versus mortalidade materna no parto [1].

Artigo da Dra. Priscilla K. Coleman, Ph.D.

Tradução: Marlon Derosa.

Título original: Abortion-Related Deaths Compared to Childbirth-Related Deaths
WECARE – World Expert Consortium for Abortion Research and Education

 

A Planned Parenthood tem divulgado que o aborto seria mais seguro do que seguir em frente e ter um parto, baseando-se na taxa de mortalidade citada de 1 óbito para cada 100.000 nascimentos, ou 13 casos por ano. No site da Planned Parenthood (www.plannedparenthood.org), são dadas as seguintes informações:

Em casos extremamente raros, complicações muito sérias podem ser fatais. O risco de morte para parturientes é 11 vezes maior do que o risco de morte por aborto, durante as 20 primeiras semanas de gestação. Após 20 semanas, o risco de morte para partos ou abortos é praticamente o mesmo“.

Nenhuma citação adicional é feita e tal afirmação não é cientificamente defensável sendo grosseiramente imprecisa, por uma série de razões expostas a seguir:

  1. O National Center for Health Statistics (NCHS) fornece informações sobre mortalidade materna e o Center for Desease Control (CDC) provê estatísticas relativas a mortalidade por aborto. O uso desses dois diferentes padrões, sistemas e métodos de coleta de dados tornam as comparações inapropriadas. A coleta de dados sobre aborto pelo sistema do CDC é particularmente propensa a não considerar um grande percentual dos óbitos maternos. Os detalhes sobre a falta de confiabilidade dessas estatísticas são apresentados abaixo:
    1. O manual CID 9 (Classificação Internacional de Doenças – série 9) define que a mortes maternas é aquela que ocorre durante a gravidez ou em até 42 dias após o término da gestação [que pode ser aborto ou parto] [2]. Assim, a mortalidade associada à gestação que ocorre após essa janela temporal fica de fora das estatísticas.
    2. A regra 12 do manual CID 9 exige que mortes ocasionadas por procedimento médico ou cirúrgico devem ser informadas como complicações do procedimento (ex. infecção) e não relacionadas com o procedimento médico (ex. aborto induzido).
    3. Grande parte das mulheres deixam as clínicas de aborto em algumas horas após o procedimento e procuram emergências de hospitais quando passam por complicações. Os dados informados por clínicas de aborto ao departamento de saúde e ao CDC têm subnotificado as complicações de abortos e mortalidade[3].
    4. O fornecimento de dados sobre abortos não é exigido pela lei federal e apenas 27 estados fornecem complicações relacionadas ao aborto[[4]].
  2. A taxa de mortalidade por aborto normalmente não levam em consideração os abortos após o primeiro trimestre, o que representa 12 a 13% dos abortos [[5][ [[6]] . Com base nos dados dos EUA, entre os anos de 1988 e 1997, Bartlett e colaboradores relataram que o risco relativo de morte foi de 14,7 a cada 100.000 nascimentos em 13 a 15 semanas de gestação; de 29,5 a cada 100.000 nascimentos quando em gestações de 16 a 20 semanas; e 76,6 a cada 100.000 nascimentos quando feito após 21 semanas[[7]]. 
  3. Pelo menos 50% das mulheres que tiveram um aborto negam a experiência e, portanto, os registros médicos de muitas mulheres que abortaram são susceptíveis a conter histórico imprecisos [[8]] [9]. 
  4. Dar à luz traz efeito protetor imediato e de longo prazo para a saúde da mulher contra causas morte não-obstétricas, como câncer de mama e também causas não-naturais, incluindo suicídio [[10]] [[11]] [[12]] [[13]] [[14]].
    1. Quando óbitos por causas obstétricas diretas são removidas, a taxa de mortalidade entre mulheres durante a gravidez e até 90 dias após o parto são significativamente menores que as taxas de mulheres que não ficaram grávidas [[15]].
    2. Gestantes são 19 vezes menos propensas a cometer suicídio quando comparadas com não grávidas em idade fértil [[16]][17]. O comportamento inibitório ao suicídio em gestantes pode ter relação com elevados níveis de serotonina durante a gravidez, produzidos pelo feto [[18]].
  5. Quando a morte é violenta, um nascimento recente pode não ser registrado e um recente aborto é ainda menos provável de ser mencionado. As mortes por suicídio raramente são relacionadas ao aborto no atestado de óbitos, e provavelmente nunca serão relacionadas no relatório de mortalidade do estado. Em geral, mortalidade por suicídio não é identificada como tal no atestado de óbito.  Entendendo que a conexão entre o aborto e o suicídio, portanto, faz-se necessário especial atenção a literatura científica de publicações de qualidade, revisada por pares.
    1. Pesquisas da área médicas e de psicologia (descritas em outro documento) demonstraram que o aborto é um forte fator de risco para ideação suicida e suicídio. Tanto a depressão quanto o abuso de substâncias e o aborto são fatores de suicídio amplamente estabelecidos etiologicamente[[19]]. Portanto, o aborto é tanto direta quanto indiretamente associado com comportamentos suicidas.
    2. Em um artigo publicado em 2009[[20]], o Risco Atribuível Populacional (RAP ou PAR) calculado indica o aborto como causa de Depressão Maior. Usando esse fator (PAR) em conjunto com dados do U.S. Census Bureau e do U.S. Surgeon Gerneral’s Office, o número anual de óbitos por suicídio relacionados diretamente ao aborto pôde ser calculado.
      1. O PAR para Depressão Maior relacionado ao aborto foi igual a 4,3%. O PAR é um indicador do número de casos em que um determinado transtorno pode ser evitado se o risco é eliminado. De acordo com o U.S. Census Bureau, existem então 62.117.211 (62,1 milhões) de mulheres em idade reprodutiva vivendo nos Estados Unidos [[21]] e a taxa de prevalência anual para Depressão Maior em mulheres com idades entre 18 e 54 anos reportada pelo U.S. Surgeon General é igual a 6,5% [[22]]. Baseado nessa taxa, 4.037.618 mulheres (6,5% de 62.117.211) têm a experiência da Depressão Maior anualmente nos EUA. O PAR para Depressão Maior resultante do aborto é de 4,3%, o que significa que 173.617 mulheres em idade reprodutiva (4,3% de 4.037.618) têm depressão maior a cada ano, em decorrência de terem feito um ou mais abortos legais.
      2. A estimativa do percentual de indivíduos que cometem suicídio por conta de depressão maior varia entre 1 a 15%. Aplicando o valor mais conservador de 1%, o número de suicídios por ano atribuído ao aborto é igual a 1.736. No entanto, dadas as diferentes taxas de suicídio entre homens e mulheres, a estimativa do número de mortes por suicídio deve refletir o fato de que mulheres são menos propensas do que homens a cometer suicídio. O relação entre os suicídios entre homens e mulheres (gender ratio) é de 4 para 1[[23]]. Se considerarmos 25% destes 1% de casos de depressão maior que resultam em suicídio, dado o gender ratio, temos algo entre 434 mortes por suicídio (25% do montante de 173.617 suicídios) a cada ano nos EUA, o que está diretamente atribuível ao aborto. Portanto, existem aproximadamente 8.109 mulheres que se suicidam anualmente nos EUA, de acordo com o National Institutes of Mental Health [[24]]. Portanto, temos uma taxa de suicídios relacionados ao aborto acima de 5%.

[1] Artigo original disponível em Abortion-Related Deaths Compared to Childbirth-Related Deaths Disponível em <http://www.wecareexperts.org/sites/default/files/articles/Abortion-Related%20Deaths%20Compared%20to%20Childbirth-Related%20Deaths.pdf>

[2] Trad. [comentário]: Hoje usamos o CID 10, mas esse conceito conceito continua sendo o mesmo.

[3] Trad. [comentário]: O estudo foi feito nos EUA, que sofre com subnotificações de abortos e de detalhes sobre seus abortos há décadas.Atualmente pelo menos seis estados não fornecem números de abortos (Califórnia, Flórida, Maryland, New Hampshire, Vermont e Wyoming). Não foi possível, até o momento, mensurar o percentual de subnotificação total de abortos nos EUA. No Canadá, país que possui imbróglios semelhantes nas estatísticas de abortos legais, o estado de Ontário, em 2005, não informou dados detalhados sobre cada os abortos em 43% dos casos. Até mesmo informações como a idade gestacional não vem sendo fornecidas. Estimou-se que as estatísticas gerais de abortos legais no Canadá vinha sendo fornecida pelo menos 19% a menor do que a realidade mais provável (Derosa, 2018 [Org.] – Capítulo 2, página 65, Ed. Estudos Nacionais).

[4] Saul, R. (1998). Abortion reporting in the United States. Family. Planning. Perspectives, 30, 244- 247.

[5] Jones, R.K., Zolna, M.R., Henshaw, S. K. & Finer L.B. (2008). Abortion in the United States: Incidence and Access to Services, 2005. Perspectives on Sexual and Reproductive Health 40, 6- 16.

[6] Gamble, S.B., Strauss, L.T. Parker, W. Y., Cook, D. A. Zane, S. B., & Hamdan, S. (2008). Abortion Surveillance – United States, 2005. MMWR Surveillance Summaries 57 (SS-13). Atlanta, Ga: Centers for Disease Control and Prevention, Department of Health and Human Services

[7] Bartlett, L. A. et al. (2004). Risk Factors for Legal Induced Abortion-Related Mortality in the United States. Obstetrics & Gynecology, 103 (4), 729–37.

[8] Smith, L.B., Adler, N. E., & Tschann, J. M. (1999). Underreporting sensitive behaviors: The case of young women’s willingness to report abortion. Health Psychology, 18(1), 37 -43.

[9] Trad. [comentário]: A ocultação da experiência do aborto por parte de tantas mulheres pode ter provocado um menor cômputo de casos de complicações de saúde nas mulheres que tiveram abortos.

[10] Appleby L (1991) Suicide after pregnancy and the first postnatal year. British Medical Journal, 302: 137–140

[11] Carroll, P. S. (2007). The breast cancer epidemic: Modeling and forecasts based on abortion and other risk factors. Journal of American Physicians and Surgeons, 12, 72-78

[12] Daling, J. R., Malone, K.E., Voigt, L., White, E. & Weiss, N. S. (1994). Risk of breast cancer among young women: Relationship to induced abortion. Journal of the National Cancer Institute, 86, 1584-1592.

[13] Marzuk, P. M., et al. (1997). Lower risk of suicide during pregnancy. American Journal of Psychiatry, 154, 122-123.

[14] Thorp, J Hartmann, K., & Shadigan, E (2003). Long-Term Physical and Psychological Health Consequences of Induced Abortion: Review of the Evidence. Obstetrical and Gynecological Survey, 58, 67-79.

[15] Khlat, M., Ronsmans, C. (2000). Deaths attributable to childrearing in Matlab, Bangladesh: Indirect causes of maternal mortality questioned. American Journal of Epidemiology, 151, 300- 06.

[16] Appleby L (1991) Suicide after pregnancy and the first postnatal year. British Medical Journal, 302: 137–140.

[17] O estudo de Appleby (1991) também verificou que mulheres que se tornaram mães apresentam seis veze menos propensão a cometer suicídio.

[18] Marzuk, P. M., et al. (1997). Lower risk of suicide during pregnancy. American Journal of Psychiatry, 154, 122-123.

[19] Brent, D.A., Perper, J.A., Moritz, G., Allman, C., Friend, A., Roth, C., Schweers, J., Balach, L., & Baugher, M. (1993). Psychiatric risk factors for adolescent suicide: a case-control study. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 32 (3), 521-529.

[20] . Coleman, PK, Coyle, CT, Shuping M, & Rue V (2009). Induced Abortion and Anxiety, Mood, and Substance Abuse Disorders: Isolating the Effects of Abortion in the National Comorbidity Survey. Journal of Psychiatric Research, 43, 770–776.

[21] http://www.census.gov/popest/national/asrh

[22] http://www.surgeongeneral.gov/library/mentalhealth/toc.html

[23] http://www.who.int/mental_health/prevention/suicide_rates/en/index.html

[24] http://www.nimh.nih.gov/health/publications/suicide-in-the-us-statistics-and-prevention/index.shtml