Não há nenhuma justificativa médica para abortamento em qualquer estágio. Eis o porquê.

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Quando eu conto às pessoas que não há justificativa médica para um abortamento em qualquer idade gestacional, as pessoas frequentemente trazem a questão das gestações ectópicas. Elas não sabem como responder a isso e por esse motivo podem dizer que são “pró-vida com exceções”. Essa é a brecha que os militantes pró-aborto precisam para empurrar a pauta do aborto, sem restrições e sem desculpas.

Se estamos para abolir o mal do aborto, faríamos um favor a nós mesmos (e aos bebês!!) ao compreender melhor o que é – e o que não é – uma gravidez ectópica e como ela se relaciona com o aborto.

Uma gravidez ectópica é uma gestação em localização anormal. É também denominada gravidez extrauterina, o que significa uma implantação fora do útero. Na maioria das vezes (95-97%), elas se encontram nas trompas de Falópio (tubas uterinas). Ainda assim, gestações ectópicas são raras.

Nas gestações ectópicas tubárias, a mãe apresenta sintomas de dor pélvica, sangramento em aspecto de borra de café, náusea, e níveis anormais de gonadotrofina coriônica humana (hCG)1. No momento em que a ectopia é localizada, na maioria das vezes antes de 7 semanas gestacionais (pela data da última menstruação), o bebê já está morto. Não há nada nas trompas para assegurar essa vida.

Utilizando a ultrassonografia, podemos detectar uma área anormal entre um ovário e o útero, onde a gravidez tubária é localizada. Ela contém vilosidades coriônicas (as células primitivas que formariam a placenta), sangue materno, células endometriais e debris, e um bebê microscópico sem vida. O que nós vemos é uma pequena área (1 a 3 cm) heterogênea na pelve, não um bebê vivo com batimento cardíaco.

O risco de uma gestação tubária é que a tuba uterina não tem muita elasticidade, é altamente vascularizada e não é adequada para comportar uma gestação. Se ela se romper, a mãe terá hemorragia interna que, sem tratamento imediato, provavelmente irá causar óbito materno. Então, nós intervimos para remover a ectopia da mãe, com frequência cirurgicamente. Isso não é um abortamento.

Para os casos ainda mais raros quando a gravidez tubária é encontrada ainda com vida – eu vi duas em 15 anos de carreira em ultrassonografia e os bebês estavam entre 7 a 8 semanas cada –, o tratamento mais ético seria a conduta expectante. Se a mãe estiver estável, ela pode ir para casa com orientações rigorosas sobre o que esperar e o que fazer se/quando as coisas começarem a piorar. Ou podemos admitir a mãe no hospital, se ela estiver instável. Aqui, ultrassons e coleta de sangue periódicos devem ser realizados para monitorar os níveis de hCG (encontrados em amostra simples de sangue) além de monitoramento dos sinais vitais maternos. Uma vez que o bebê vem a óbito, uma cirurgia para remover a tuba é moralmente o mais aceitável.

Alguns médicos também prescrevem um medicamento chamado metrotrexato para atacar e degenerar a ectopia. Apesar de o bebê não estar vivo, outras células podem estar, e seu crescimento tal qual precisa das vilosidades coriônicas e do âmnio. Isso não é tão efetivo quando a cirurgia, mas é menos invasivo e alguns médicos decidem administrá-lo inicialmente como uma primeira tentativa para ver se o medicamento irá dissolver a região afetada. Isso pode ser feito somente se a gravidez ectópica for muito pequena e a mãe estiver estável.

Se fluido livre for visto no interior da pelve, com confirmação de uma ectópica, uma cirurgia de emergência está indicada pois a mãe já começou a sangrar internamente e a tuba sofreu rotura. Se a tuba estiver rota2, o bebê morreu. Novamente, não há abortamento quando da remoção de um bebê já morto.

Para os casos ainda mais raros de gestação ectópica onde o bebê se localiza na cavidade abdominal, esses bebês possuem um prognóstico de sobrevida muito melhor. Esses são os casos que ouvimos ocasionalmente de outros países onde ultrassom e outras tecnologias médicas não estão facilmente disponíveis ou usadas. O que o bebê precisa para se fixar e assim sobreviver é tecido endometrial. Se a mãe possui endometriose3 – localização anormal de tecido endometrial fora do útero – então há potencial para que uma gravidez extrauterina se implante ali e cresça até o termo. Gestações ectópicas abdominais compõem menos de 1% de todas as ectópicas.

Atualmente, todas essas situações são condições médicas reais as quais necessitam ser monitoradas e tratadas dentro de um hospital. Elas não podem ser tratadas em uma clínica de abortos. Por quê?

  • Instalações para aborto não são centros cirúrgicos reais. Elas são projetadas para dilatar e raspar o interior do útero somente através do orifício vaginal e cérvice. Não há incisões abdominais. Sem cirurgia nas trompas. Essas instalações não são projetadas para esses procedimentos porque elas de fato não fazem parte do mercado de atendimento médico verdadeiro. Esse não é o seu objetivo. Embora elas possam distribuir pílulas para uma gestação intrauterina (tópica), elas não podem dispensar pílulas para uma gestação extrauterina. Pílulas abortivas para contração uterina não são as mesmas pílulas que tratam uma condição ectópica.
  • Situações de gravidez ectópica são verdadeiras emergências médicas que requerem pronto atendimento. Nenhuma gestante faz agendamento para sua suspeita ou gravidez ectópica já diagnosticada. Ela precisa ir para a sala de emergência, não marcar uma consulta para a próxima quarta-feira às 13:00. Abortamentos acontecem somente com agendamento, não dando entrada. Então, da próxima vez que você estiver do lado de fora de uma clínica de aborto e uma mãe lhe disser que ela está ali devido a uma ectópica, ela está mentindo. Diga que ela está mentindo e continue, convencendo-a a mudar de ideia e deixar aquele lugar perverso.

Não há justificativa para um abortamento. Nenhuma razão social, nenhum motivo pessoal, e nenhuma indicação médica. Gestações ectópicas devem ser compreendidas e não utilizadas de modo algum para justificar o assassinato de bebês.

Sarah Cleveland
RDMS (AB, obstetra e ginecologista), Ohio, USA.


Notas do tradutor:

1hCG: hormônio glicoproteico sintetizado desde o início da formação da placenta e liberado na circulação uteroplacentária, seus níveis na corrente sanguínea tornam-se detectáveis 10 dias após a ovulação. Dosagens séricas superiores 1000 mUI/mL indicam gravidez; níveis entre 1500 e 6500 mUI/mL permitem a visualização do saco gestacional na ultrassonografia transvaginal. Na suspeita de gestação ectópica, a presença de ultrassonografia transvaginal sem saco gestacional tópico junto a uma dosagem de β-hCG sérica superior a 2000 mUI/mL sugere gravidez ectópica. A partir do diagnóstico da ectopia, o monitoramento dos níveis séricos de hCG servem como preditor da vitalidade do concepto. Quando adotada conduta expectante, espera-se que os títulos de hCG apresentem queda progressiva, indicando degeneração da ectopia.

2Tuba rota: trompa que sofreu ruptura (rotura). No caso de gravidez ectópica, isso se deve à incapacidade das tubas uterinas em comportar o concepto em crescimento.

³Endometriose: doença característica do período reprodutivo da vida da mulher. Consiste na presença de tecido do endométrio (glândulas e estroma) em localização ectópica (fora da cavidade endometrial e da musculatura uterina), normalmente em vísceras pélvicas e no peritônio.

Traduzido por: Maria Clara Formolo de Souza, acadêmica de medicina.


1 thought on “Não há nenhuma justificativa médica para abortamento em qualquer estágio. Eis o porquê.

  1. Não sou favorável ao aborto, mas, convenhamos, escusar-se em motivos de consciência para não prescrever metrotrexato em uma gravidez tubária precocemente diagnosticada, estando o embrião ainda vivo, antes da rotura da trompa, mas esperar por esta, quando a gestante necessariamente terá que ser submetida a intervenção cirúrgica com perda da trompa, é covarde e hipócrita.

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