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Não é preciso ter religião para ser contra o aborto, confirma Data Folha

Entre os que se identificam como “sem religião ou agnósticos”, 41% acha que a mulher deve se presa por cometer o crime de aborto; entre os que se identificam como católicos, 35% acha que a mulher deve ser presa.  Os números indicam que posicionamentos relacionados a questão do aborto são independentes da pessoa ter ou não uma religião, estando baseado no conhecimentos sobre ciência e direitos humanos do nascituro. Entre os que se identificam como ateus, 14% acham que a mulher que comete aborto deve ser presa.

De acordo com a pesquisa:

  • 42% dos brasileiros acha que aborto não deveria ser permitido em caso de estupro;  
  • 41% dos brasileiros que se identificam “sem religião ou agnósticos” são contra a legalização do aborto.

Os dados do Data Folha ajudam a desfazer o mito de que a posição contra a legalização do aborto seria baseada em questões religiosas. A presença de ateus, agnósticos, pessoas sem religião e humanistas em grupos pró-vida tem crescido ao redor do mundo, principalmente nas últimas décadas, diante dos avanços científicos que evidenciam, cada vez mais, que a vida inicia na concepção, enfatizando a humanidade do embrião e do feto no período da gestação e por conta dos diversos fracassos da legalização do aborto na proteção de direitos das mulheres em diversos países do mundo.

Leia também: Quando começa a vida humana? a ciência responde

O posicionamento de ateus ou agnósticos sobre a questão é ilustrado por declarações de muitos agnósticos e ateus famosos, como o filósofo ateu Dom Marquis ou o escritor Robert M. Price, autor do livro “Jesus está morto”. Price declarou: “o aborto é um assassinato qualificado”. A jovem Kelsey Hazzard, ateia e ativista pró-vida, ressalta:

A indústria do aborto quer que você pense que pessoas como eu não existem. Eles gostariam que você acreditasse que o movimento pró-vida é exclusivamente composto de homens brancos e mais velhos.

A doutrinação ideológica é o que mais afeta o debate, já que em muitos países o debate avançou para a situação em que a maior parte dos ativistas “pró-escolha” já admitiram que de fato vida inicia na concepção. Assim, militantes seguem mudando de argumento de tempos em tempos, conforme convém à causa.

Sobre a pesquisa do Data Folha

precisamos-falar-sobre-aborto-livro-pacote-1-exemplarA pesquisa, realizada entre 29 a 30 novembro de 2017, em 192 municípios ouviu 2.765 pessoas utilizou um formato de perguntas curioso e que cabe ser analisado com critério. A pesquisa não pergunta objetivamente se a pessoa é “contra ou a favor da legalização do aborto de forma mais ampla”. Evita-se esse tipo de pergunta nessas pesquisas porque o resultado seria desfavorável aos financiadores da pesquisa, uma vez que uma parcela muito maior se manifestaria contra a legalização do aborto. O foco dessa pesquisa foi na pergunta “A mulher que faz o aborto deveria ir para a prisão?

Nas pesquisas do Data Folha, entre 1994 e 2010, a pergunta era mais completa e focava o problema da legalização ou não do aborto, “com todas as letras”. Obviamente, isso tratava a questão de forma mais completa e permitia que os entrevistados dessem sua opinião sobre a legalização do aborto, que é o tema central do debate. Nessas pesquisas antigas perguntava-se:  “Atualmente no Brasil, o aborto só é permitido em dois casos: gravidez resultante de estupro e para salvar a vida da mulher. Na sua opinião, a Lei a) deve ser ampliada; b) deve continuar como está; ou c) deveria proibir aborto em qualquer caso).”

Com essa pergunta mais completa apenas 10% da população se manifestava favorável a ampliação da lei. Ou seja, 90% contra legalizar o aborto. Isso fazia com que a repercussão dos dados da pesquisa prejudicassem os interesses de seus contratantes.

A alteração no formato de perguntas usado nessas pesquisas recentes é um movimento que vem sendo verificado também pelas pesquisas contratadas pelas Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) ao IBOPE, que parecem na verdade ter indicado “o caminho a seguir”, no campo da pesquisa de opinião sobre o tema. Assim, se por um lado o Data Folha não apresenta quem é o contratante da pesquisa, a CDD deixa isso bem mais claro, como podemos ver na capa do relatório da pesquisa do IBOPE disponível no site da ONG.

pesquisa catolicas pelo direito de decidirPara quem ainda não sabe, a International Planned Parenthood Federation (IPPF) é a federação da maior clínica de abortos do mundo, a Planned Parenthood. A IPPF é responsável pela estratégia global dos negócios da clínica de abortos, investindo em pesquisas, ONGs, campanhas e em ativistas ditos “pró-escolha”.

A logomarca em rosa, é da International Women’s Health Coalition (IWHC). Uma ONG internacional que movimenta bilhões de dólares graças as doações que recebe de diversas fundações internacionais e de clínicas de aborto. A vice-presidente da IWHC atualmente é a conhecida ativista “pró-escolha” Débora Diniz, que é, muito curiosamente, grande parceira do Ministério da Saúde e a personalidade mais frequentemente consultada pela grande mídia para falar sobre o assunto.


Vieses da pergunta usada na pesquisa: a mulher que faz aborto deve ir para prisão?

Quando alguém responde afirmativamente, que a mulher deve ser presa, é correto concluir que o entrevistado é contra a legalização do aborto. Contudo, se o entrevistado responde negativamente, que a mulher não deve ir para a prisão, não é possível afirmar que ele é favorável a legalizar o aborto.

Isso porque existe o mecanismo da impunibilidade, vigente hoje nos casos de estupro e para salvar a vida da mãe, por exemplo. O mecanismo da impunibilidade, ou não punição, mantém o ato como crime, sendo apenas dispensada a pena da prisão para a mulher e médicos envolvidos.

Além da questão da dispensa da punição, ha também o fator emocional que é trazido na pergunta que foca a “punição da mulher“. Certamente que alguns (ou muitos) dos que dizem que a mulher não deve ser punida após o aborto, se forem questionados sobre a ampliação do acesso ao aborto irão se manifestar de forma contrária, já que o tema é bem mais amplo e complexo.

Assim o viés da pergunta é fortemente pró-legalização.  Na análise dos dados da pesquisa deve-se ter sempre em mente esse problema de formato, propositalmente plantado pela pesquisa.


Análises com e sem viés

O que foi visto nos últimos dias, nas manchetes da Folha de São Paulo, Poder360, jconline (grupo UOL), Bol, O Povo e diversos outros grandes veículos é o uso do viés pró-legalização, em absoluto! Em todos esses veículos a manchete é de que “cresceu o apoio à descriminalização do aborto” no Brasil.

Em 2016, 23% achava que a mulher não deveria ir para a prisão; agora na pesquisa de 2017, 36% respondeu dizendo que “a mulher não deveria ir para a prisão”. Como a pergunta da pesquisa não trata a opinião do brasileiro sobre a alteração legal em específico, nem mesmo especificado casos ou critérios para a legalização, é leviano afirmar que cresceu o apoio aos projetos de descriminalização do aborto. Os critérios desses projetos nem mesmo foram apresentados.

– Seria isso um crescimento no apoio da legalização para até 10 semanas de gestação sob alegação de transtorno mental? problemas financeiros? ou seria a legalização até a 24ª semana sem necessidade de qualquer justificativa? ou ainda, até o nono mês de gestação, como defende a ex-candidata à presidência dos EUA, a senhora Hillary Clinton. Estariam incluídos nessa “descriminalização” o direito ao aborto para seleção do sexo do bebê para casais que preferem ter filhos homens, como ocorre em tantos países?


Manchete sem viés

Os dados que destacamos na manchete desse artigo e na introdução não contém os problemas de viés que apontamos nos outros veículos. Por que? Como dito, se o entrevistado se manifesta favorável a punição da mulher, certamente ele é contra a legalização. Mas, se o entrevistado se manifesta contra a punição da mulher, ele pode ou não ser favorável a legalização.

Assim, é correto afirmar inclusive, que NO MÍNIMO 41% dos que se declaram sem religião ou agnósticos são contra legalizar o aborto. Afinal, todos os 41% que são favoráveis que haja punição são contra a legalização. Mas, é possível que alguns dos outros 53% que se manifestaram contrários a punição possam estar considerando a questão da impunibilidade ou podem terem sido afetado pela questão emocional do formato da pesquisa.

Alguns defensores do causa da “descriminalização” do aborto podem argumentar que a descriminalização é diferente de legalização; que a descriminalização retira o caráter penal, convertendo duras penas para punições mais brandas, como multas, sanções administrativas ou serviço comunitário. Isso pode ser válido para o debate sobre a descriminalização dos grafites ou pichações, mas não para o aborto. Em termos práticos, na questão do aborto, a simples impunibilidade exclusiva para gravidez em caso de estupro já passou a ser chamada de “aborto legal”, inclusive pelo Ministério da Saúde e o serviço é oferecido sem necessidade de  B.O. em dezenas de hospitais públicos do Brasil.

Se a pesquisa questiona aos entrevistados se eles são “a favor da legalização do aborto” a esmagadora maioria se posiciona contrário a legalização. Diversas pesquisas demonstraram isso e foi por isso que os institutos resolveram mudar a forma de perguntar.  O instituto Ipsos perguntou dessa forma em 2016 e verificou que 87% do brasileiro era contra a legalização.

O fator emocional ou a perda do foco da pergunta usada na pesquisa do Data Folha pode ter forte influência na resposta, pois foca no sofrimento da mulher, induzindo o entrevistado. É quase como perguntar: “você é a favor de que a mulher tenha sua vida arruinada, seja presa, espancada na cadeia quase diariamente, por vários anos, tudo isso depois de ter passado pelo trauma de um aborto que poderá inclusive lhe trazer um câncer de mama no futuro?”.

Também é razoável inferir, que muitos entrevistados que se identificou como ‘ateu’ se manifestassem contrários a legalização se a pergunta tivesse sido focada na ampliação da lei, apresentando ainda os critérios (ou melhor dizendo requintes de crueldade, como idade a gestacional que pode trazer a necessidade de legalizar aborto inclusive por método de desmembramento (mutilação) de partes do feto já formado ou mesmo elevando o risco do feto ter que ser morto com parte de seu corpo fora do corpo da mãe, como ocorre em muitos países).

Também é correto afirmar que no mínimo 42% é contrário a permissibilidade do aborto em caso de estupro.

Leia também: Aborto em caso de estupro beneficia estupradores e aumenta o trauma


Clima duplo de opinião pública

Por que foi feita manipulação no formato da pergunta da pesquisa e a grande mídia “não entendeu” o risco do viés na hora de fazer a manchete?

Elisabeth Noelle-Neumann demonstrou, no livro A Espiral do Silêncio, como é criado o clima duplo de opinião e qual seu efeito. Resumidamente, busca-se utilizar dos veículos de comunicação de massa para criar uma falsa sensação de que muitas pessoas têm uma determinada opinião. Embora isso seja falso, impacta na consciência de muitas pessoas, que por achar que pensam diferente da maioria da população, acabam preferindo evitar o assunto (e se calam. Daí o termo espiral do silêncio). Nesse processo, muitos podem inclusive mudar de opinião, na esperança de estar “junto da maioria”. Por isso é importante, para a causa abortista, contorcer alguns dados e manchetes, como fez a Folha de São Paulo e outros veículos.


Informações:

Folha.Uol; Americanzagazine; Patheos.com

Pesquisador e tradutor, escreve e coordena pesquisas para o site EstudosNacionais.com e para a Revista Estudos Nacionais. Desenvolve projetos editoriais na editora Estudos Nacionais e Livraria Pius. Organizador e coautor do livro “Precisamos falar sobre aborto: mitos e verdades”.

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