5 Fake News publicadas por um checador de fatos

5 Fake News publicadas por um checador de fatos

18/05/2018 0 Por Marlon

Quem vai checar os checadores quando eles praticam fake news?

Embora o Facebook tenha anunciado recentemente, aos seus usuários, sobre a parceria de checagem de notícias entre Facebook e checadores de fatos no Brasil, a parceria entre a rede de checadores e credenciamento dos checadores Agência Pública, Aos Fatos e Lupa junto à Poynter já estava estabelecida há mais tempo, conforme destacou a reportagem de capa na edição de março da Revista Estudos Nacionais. Essas agências já checaram, portanto, muitas noticias e fatos ocorridos no Brasil, classificando alguns como fake news. Ocorre, porém, que quando o próprio site decide informar a sociedade, comete deslizes graves que também podem ser considerados fake news. O fato é que ninguém parece digno de classificá-los dessa forma, por enquanto, pois apresentam-se como um verdadeiro ministério da verdade.

Atualização de 21/05/2018: a Agência Pública é cadastrada como Fact-checking junto a IFCN da Poynter (rede internacional de fact-checking), contudo, segundo o Facebook e a Pública, ela não está oficialmente trabalhando na classificação de postagens da rede social. A checagem de fatos ocorre, mas restrita ao site da Agência Pública, não afetando diretamente, no momento, relevância, propagação ou penalizando postagens e páginas no Facebook.

É o caso da Agência Pública, da qual analisamos os dados apresentados em alguns de seus artigos, especificamente sobre a tema “aborto”.

“250 mil internações para tratamento de complicações pós abortamento por ano”

Concluímos que o dado apresentado acima contém fake-news: números incorretos

O artigo de informação, que trata especificamente de abortos clandestinos, traz esse número sem qualquer ressalva ou explicação. O objetivo do artigo foi demonstrar a insegurança dos abortos ilegais, no Brasil, usando para isso os dados de todo tipo de internações hospitalares por curetagem. Ocorre que, como todos sabem, nem toda internação para curetagem decorre de abortos ilegais, mas compreende uma grande gama de situações e ocorrências, como aborto espontâneo, acidental e até pós-partos (retirada de placenta). Importante saber que os hospitais não informam o motivo da curetagem, deixando os dados imprecisos.

Segundo o DATASUS, desde 2004 o número total de curetagens tem sido inferior a 250 mil. Contudo, mesmo se tivessem usado o número de curetagens feitas em 2012, que foi de 208.051, isso ainda pode ser chamado de fake news. Para falarmos apenas sobre abortos provocados clandestinamente, que seria o objetivo da matéria, seria preciso subtrair os “abortos legais” e curetagens por outros motivos, que representam um número substancial.

Em 2012, foram 1.625 “abortos legais” e segundo estimativas, algo entre 144 a 181 mil abortos espontâneos (PNDS 2006; PNDS 2012; Lucena 2007 ou Carneiro 2009 – alguns desses estudos são de pesquisadores com orientação pró-aborto – fonte insuspeita). Estudos menores e mais antigos já defenderam percentuais menores para o aborto espontâneo. Mesmo se usássemos tais pesquisas, teríamos que considerar algo entre 90 a 67 mil abortos espontâneos (Fonseca et. al. 1996; Costa e Vessey 1993; Singh e Wulf 1994). Com isso, o número de internações em consequência de abortos ilegais mais provável, ficaria na ordem de 24 a 59 mil. Ou, usando parâmetros mais questionáveis, 119 mil. Seria impossível que esse número chegasse aos 250 mil informados pela matéria da Agência Pública.

A informação da Agência Pública não só está incorreta, como pode estar superestimada em mais de 10 vezes.

“em 2015, houve 1.664 relatos de mulheres que morreram após buscarem socorro em hospitais por complicações relacionadas ao aborto”

Atualização 18/05 – 19h30:

A afirmação acima foi feita pela Agência Pública em um artigo que se propôs a demonstrar informações incorretas em um projeto de lei. A cifra de óbitos maternos utilizada, de 1.664 óbitos, é na verdade, praticamente o número total de óbitos maternos no ano de 2015 por todas as causas de morte materna. Segundo o Datasus, em 2015 ocorreram 1.738 óbitos maternos por conta de todo o tipo de complicação em gestações e até 42 dias após o parto. As complicações que mais produziram óbitos foram pressão alta na gestação, eclampsia, hemorragia pós-parto, embolia, anormalidade na contração uterina, e outras. O site da Pública informa que obteve tal informação de matéria do site O Estado de São Paulo. Ocorre porém, que diante da matéria do Estado de São Paulo, o Deputado Diego Garcia fez um questionamento ao Ministério da Saúde e o próprio ministério esclareceu a questão, formalizando o fato de que a informação da matéria do Estado de São Paulo estava incorreta. Ocorreram 55 óbitos em 2014, incluindo os óbitos por abortos espontâneos (curiosamente o Ministério da Saúde incluiu os óbitos maternos por aborto espontâneo no relatório).

A mortalidade materna ocorrida em 2015, segundo o Datasus, foi de 53 óbitos. Vale destacar que a OMS classifica o Brasil como Tipo A, em qualidade de estatísticas vitais, onde avaliam a qualidade desse sistema do SUS e do registramento civil de óbitos e nascimentos. O Ministério da Saúde possui comitês de óbitos maternos que investigam todos os óbitos maternos no Brasil, conferindo grande credibilidade dados dados. (leia mais em Falácia dos números).

Portanto, ao fazer uma checagem de fatos, a Agência Pública usou dados incorretos.

É digno de nota que no item que a Agência Pública apresentou essa informação incorreta o veículo buscava refutar apontamentos de diversos estudos citados no PL 1.465/2013, que indicam maior incidência de partos prematuros em gestações subsequentes ao aborto, esterilidade, perfuração uterina e outras complicações inerentes aos processos de aborto, mesmo feitos em situação de legalidade. A análise do fato se restringiu a dizer que a Deputada não apresentou o estudo e a obter a opinião de um médico brasileiro, que confirmou que tais efeitos colaterais ocorrem, porém considerou-os como raros. Com isso, a Agência Pública classificou o fato como “Exagerado”, destacando que a Deputada “não está errada”. A análise da Pública, neste item, termina com essa informação incorreta sobre mortes maternas no Brasil.

“31% das mulheres grávidas no Brasil fazem aborto”.

O dado apresentado no artigo contém fake-news: números enganosos

Em artigo de informação, e não de checagem de fatos, a Agência Pública conversou com o ex-cônsul-geral dos EUA, Patrick Duddy. Na matéria, o ex-cônsul teria dito que “31% das mulheres grávidas no Brasil fazem aborto”.

No mesmo artigo, A Agência Pública citou o PNA 2016, destacando que metade das mulheres que abortam precisam ser internadas. Contudo, o próprio PNA 2016, de autoria da ativista Débora Diniz, apresenta número muito menor, quase a metade do percentual citado na matéria da Pública, que extrapola números citados pelos próprios ativistas pró-aborto. No PNA 2016, da Anis Bioética, foi estimado que, no máximo 16% das gestações terminariam em aborto.

Ainda assim, o PNA 2016 foi falacioso ao não separar abortos espontâneos dos provocados. Como sugerem outros pesquisadores, isso pode ter gerado uma super-estimativa. Conforme levantamos no livro Precisamos Falar sobre Aborto (Estudos Nacionais, 2018), o número mais provável de gestações que terminam em aborto clandestinos, no Brasil, é de cerca de 3 a 5 % das gravidezes. Ou seja, são relevantes os estudos que contrariam os números usados na matéria, divergência científica que deveria ter sido ressaltada pelo veículo.

Mas, afinal, de onde o ex-cônsul tirou esses 31%? 

Trata-se da metodologia AGI (Alan Guttmacher Institute), criada pela entidade que apoia movimentos pró-legalização, e cujas estimativas de percentuais altíssimos sobre o abortos contém graves erros metodológicos. Nesse método de estimativas, os autores usaram dados e referências das décadas de 1970 e 80, o que contribuiu para os equívocos e superestimativas. O tema foi analisado em detalhes em artigo de nosso site, meses atrás.

Uruguai: “O número de interrupções de gravidez passou de 33 mil por ano para 4 mil”

O dado apresentado no artigo de informação, contém fake-news: números enganosos.

O ‘artigo de informação’ (não de checagem de fatos), publicado na APública, intitulado “Um milhão de mulheres“, quer sustentar a ideia de que a legalização do aborto, no Uruguai, fez reduzir a incidência desses procedimentos no país. Mas para isso, usa a controversa estimativa de 33 mil ao ano, elaborada por ativistas em números completamente superestimados. Esses dados diferem bastante dos números oficiais de abortos a partir da legalização no Uruguai, divulgados pelo governo demonstram que desde o primeiro ano de legalização a incidência de aborto legal cresceu 35%. A estimativa dos ativistas, de 33 mil abortos ao ano, pode ser comparada com a superestimativa da metodologia AGI, do Instituto Guttmacher, que é recorrente fonte de informações da Agência Pública.

No Brasil, o método do AGI estima 1 milhão de abortos clandestinos, enquanto o relatório da Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), de 2016, estima 500 mil. Estudos não financiados pela indústria do aborto estimam algo na ordem de 100 mil abortos ao ano.

A técnica de superestimativas de abortos clandestinos antes de ocorrer a legalização remonta da década de 1970 e foi confessada pelo ex-ativista pró-aborto Bernard Nathanson, no livro Aborting America, onde informou que anos após a legalização, os ativistas mentiam sobre números de abortos clandestinos estimados. Nathanson afirma que a técnica atual é a mesma. No Distrito Federal do México, como destacou a pesquisa acadêmica de Dr. Elard Koch et. al (2012), estudos de pesquisadores pró-aborto apontavam que ocorriam clandestinamente em torno de 180 mil abortos ao ano. No primeiro ano da legalização, o número de abortos foi de 10 mil. Imaginar que isso tenha sido uma mudança de comportamento é surreal. Tratava-se de uma superestimativa, simplesmente usada como arma na militância.

 

“67,4% das mulheres grávidas em decorrência de estupro em 2011 não tiveram acesso ao serviço de aborto legal.”

O dado, em artigo de informação, contém conclusão imprecisa com intenção falaciosa.

A conclusão do enunciado é impossível de ser provada e por isso é apresentada de maneira falaciosa. O erro aqui é bastante óbvio: a estimativa de 67% inclui provavelmente as mulheres que não abortaram porque não desejavam abortar. Caso contrário, como essa afirmação poderia ser comprovada?

O máximo que a matéria conseguiu fazer foi produzir uma “sensação de confirmação” ao juntar algumas declarações de militantes do aborto simplesmente afirmando que muitas mulheres que ‘não tiveram acesso’ teriam realizado abortos clandestinos, se o tivessem. Com isso, leva o leitor a concluir que o dado apresentado é perfeitamente coerente e comprovado.

Não foi feita qualquer menção ao fato de que uma parcela significativa das mulheres grávidas em decorrência de estupro não abortaram simplesmente porque não desejavam abortar, o que foi incluído no número das que “não tiveram acesso”. 

Em diversos países onde o aborto é legalizado, o percentual de abortos decorrentes de estupro é pequeno: na Austrália 1%; no Uruguai, 0,01% em 2016; em Portugal, 0,4% em 2016, confirmando que há um percentual significativo de estupros que resultam em gestação e não são abortadas, mesmo nos países com aborto legal sob qualquer motivo. Sobram relatos e informações e questionamentos de vítimas de estupro que engravidaram e não sentem-se bem ao ver grupos pró-aborto usarem de suas histórias como artifício na luta pelas alterações legais e expansão do acesso ao aborto. Portanto, o fato de que “67,4% das mulheres não tiveram acesso ao aborto legal” não é capaz de sustentar a firmação de que haja um problema generalizado de falta de acesso ao aborto. A própria Agência Pública, em outros casos, sabe aplicar seu selo “Impossível provar” quando faz análises de fake news. Este selo certamente se aplica ao seu próprio conteúdo neste caso.


Considerações finais

Existem muitas outras declarações sobre o tema que estão presentes no conteúdo diário do site da Agência Pública, merecendo acurado serviço de checagem de suas matérias. São tantos os exemplos que seria tarefa impossível apontar e explicar todas as falhas, visto que não temos uma estrutura corporativa de checagem dos checadores de fatos, financiada por grandes fundações. Por vezes são informações incorretas, imprecisas, outras vezes afirmações dúbias que induzem leitores ao erro. Em se tratando da questão do aborto, pesquisei o suficiente sobre o tema para questionar e apresentar fatos e estudos sólidos para contrapor. Mas diante de tantas informações incorretas neste assunto, surge a pergunta: qual o grau de inverdades publicadas por esses veículos, auto-intitulados Checadores de Notícias (Fact-Checking) quando tratam de outros temas?  Seria necessário o precioso tempo de especialistas de cada assunto, ou de ávidos pesquisadores, para que isso fosse evidenciado em nome da maior transparência jornalística.
Seria necessária uma estrutura de checagem para os checadores? Afinal, sem isso não estaríamos diante da realização da ficção de George Orwell, no livro 1984, quando imaginou a existência de um “ministério da verdade”? Não há dúvidas de que vivemos a era da pós-verdade, que é outro nome para guerra da informação.